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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Aula 6 - aproximações filosóficas



Vamos combinar que a aulinha sobre aproximações filosóficas não apenas ficou a maior, como também ficou a mais complexa. Eu acho. Até porque você precisa ter certa afinidade com os temas e autores filosóficos para se interessar a assistir até o final. 

Vou tentar facilitar aqui. Vamos dividir cada explicação em 3 etapas.

1. Por que eu escolhi o filósofo ou momento de pensamento em questão?
2. O que ele traz para a reflexão do Y?
3. Qual a deixa para ir para o próximo filósofo?

Vamos começar:

1. Platão

Por quê?

É o pai da filosofia ocidental. Dizem que foi Sócrates. Mas, foi Platão que "lançou" Sócrates no gosto do público. 

O que ele traz?

Não encontrei boas coisas dele para o Y. Ele não gostava de comédia. O lance dele era preparar a alma para reencontrar o mundo do inteligível puro e esses negócios de arte, pior ainda, comédia só iludiam as pessoas. 

Deixa

O discípulo dissidente dele era Aristóteles. Também outro fundador do nosso pensamento ocidental. Será se ele teria alguma coisa a acrescentar?

2.  Aristóteles

Por quê?

Se Platão não era nosso amigo quem sabe seu amigo que virou ideologicamente inimigo pudesse ser nossa amigo? 


O que ele traz?

Aristóteles encarna a reflexão filosófica. Torna ela palpável. Tenta fazer com que o mundo do sensível não seja um obstáculo para o filósofo, mas sim, seu ponto de partido primeiro e fiel. A comédia para ele era um meio plausível de tornar o ridículo inteligível. Ela nos dava como que a tipologia da feiúra, do grotesco, do tosco.

Deixa

Finda a antiguidade clássica em que se transforma a reflexão do riso?


3. Idade Média

Por quê?

É um período de 1500 anos que não podemos ignorar. Não foi, de forma alguma, a Idade das Trevas. Muita coisa boa se pensou aí. Muito do que nós somos tem raízes nesse período. As cortes e seus bobos. Os teatros de rua e os carnavais. 


O que ela traz?

A disputa entre a laetitia temporalis (alegria secular, profana, fugaz) e o gaudium espirituale (a verdadeira felicidade, plena, do contato com Deus). Estas duas categorias vão ser muito fecundas para se entender o fenômeno do doutor palhaço. 


Deixa

Isso não me mostra claramente o que a Idade Média teve de bom para este tema. O que mostraria?


4. Francisco de Assis

Por quê?

Sua exceção em meio à Idade Média traz a figura do bobo de Deus, que reconcilia a visão do sagrado (tida com séria a todo custo) ao feminino, ao infantil e, portanto, à alegria. Ele é o grande amigo de Clara, uma das primeiras ordens que traz a mulher para dentro da vida monástica. Ele é um monge que não se isola, mas se mistura com o povo, no seu exercício de mendicância. E, finalmente, ele foi o criador do presépio, a forma que temos de adorar ao Deus-menino. 

O que ele traz?

Bobo, alegria, mistura-se com o povo, Deus-menino...


Deixa

Eu falei em carnaval. Houve um pensador que explorou esse aspecto particular da Idade Média.


5. Mikhail Bakhtin

Por quê?

Todas as pessoas entendidas do assunto disseram que se falasse em palhaço e Idade Média e não falasse de Bakhtin não tinha falado nada. 


O que ele traz?

Estuda a categoria de carnavalização que em certa medida ele quis dar força demais para ela, quando, dizem os críticos, não cabia. Mas, cabia perfeitamente para o Y. Vou fazer um quote da minha dissertação, tá?

O Carnaval, dessa forma, é um espaço público de convivência em que a vida é retirada de seus trilhos habituais e como que virada ao avesso. As leis, as proibições e as limitações que imperam fora desse espaço-tempo dão lugar a novas formas de relação afastadas da hierarquização tradicional. As "mésalliances" podem ser entendidas como alianças espúrias que, em outras circunstâncias, seriam inconciliáveis: o sublime e o grotesco, o grandioso e o medíocre, o sábio e o tolo, etc. A invasão de uma ordem pela outra, do alto e do baixo, colore o tema da profanação.

Não é isso que acontece na enfermaria com um bobo usando um jaleco de palhaço?


Deixa

Por falar em carnaval, festa, pessoas misturadas...


6. J. J. Rousseau

Por quê?

Não é que eu descobri uma carta que Rousseau trocou com D'Alembert comparando a festa com a democracia, contra o teatro que estava mais para despotismo?

O que ele traz?

Ora, os doutores-palhaços provocam festa por onde passam. Os muros que separam as pessoas se desmoronam, um ar de liberdade sobe a saia das meninas, provoca o atrito dos furibundos, o sorriso peralta dos moleques. Segundo Rousseau isso seria um clima ótimo para uma democracia. 


Deixa

Vishi! Meteu a palhaçaria na política, falou em destronar reis, provocar encontros politicamente fecundos, não vai poder escapar do Boal. 


7. Augusto Boal

Por quê?

Um dos maiores teatrólogos que o Brasil teve. Versava exatamente sobre teatro e política. Entrou no mérito do coringa/curinga que é um palhaço gerador de liberdade no palco. 

O que ele traz?

A noção de que o teatro pode ser um instrumento de transformação da realidade para melhor, através do questionamento do naturalizado, da permissão de viver novas possibilidades em uma cena dada, tudo isso tendo o curinga (um tipo de palhaço) como ponte. 


Deixa

Muito bem, mas eu estou, talvez, perdendo o foco. Não era para se falar sobre o espírito do doutor palhaço. Quem poderia falar de riso e espírito em uma só tacada?


8. Henri Bergson

Por quê?

Uma das filosofias que mais influenciou o mundo entreguerras na França. Tida como neo-espiritualista. De outro modo, ninguém hoje fala em riso sem citar a obra de Bergson: "O Riso, ensaio sobre a significação do cômico". 


O que ele traz?

Aparentemente ele traz algo contra nós. Porque ele fala que o mundo do espírito é um mundo de liberdade, criação, impulso vital. O da matéria é um de rigidez, contração, perda de energia. O riso seria o movimento da matéria que tenta imitar o espírito, o que sai algo tosco, merecedor de riso como punição de quem vê aquilo. 

Porém, a despeito de Bergson, encontrei, na filosofia de Bergson, um argumento a favor do riso. O ator cômico - Bergson não tinha como saber disso porque não era piadista - precisa estar aberto a criatividade o tempo inteiro para antecipar a plateia e criar (!) o riso. No fundo, o ator cômico, particularmente o palhaço que vive fora do roteiro tem que estar repleto de impulso vital para se sair bem. 

Bergson me dá a deixa que eu precisava para pensar este assunto: a graça, que é a comunicação da característica do espírito à matéria, diz o filósofo, se degenera em múltiplas decadências até o grotesco, que é uma forma rígida, de esgares. Ora, uma consciência infeliz enxergaria nisso um contra-ponto. Eu enxerguei outra questão: a graça (gaudium espirituale) e o grotesco (laetitia temporalis) são parentes. 




 

 

sábado, 23 de dezembro de 2017

Aula 5 - Caderno e Mandamentos de palhaços



Feito palhaço é preciso saber quando a singularidade surge no ambiente, no parceiro, na platéia, e não deixar escapar. 

Somos acostumados a uma ciência de padrões. Na medicina, é preciso encaixar a fala desta ou daquela pessoa (duas trajetórias astrais completamente diferentes) em alguma síndrome que as torne visível, e iguais. Os padrões aniquilam a singularidade. Deixam a vida mais redonda, menos arestosa, e menos real. 

O capítulo 5 traz singularidades. A primeira é o caderno do integrante Beto que foi partejado enquanto doía a redescoberta de seu palhaço. A segunda foi um punhado de mandamentos, conselhos, dicas, carinhos para as gerações que perpetuassem o Y. 

Por que colocar estes dois processos? O que têm de especial?

Alguns de vocês já conseguem responder. Aos que não conseguirem, eis meus motivos:

- São eles que se revelam, tanto mais na dor, ainda mais no cuidado para com as gerações que abraçarem a causa, que dirá na saudade. Dor, causa e saudade. A dor, que é o aperto presente do que acabou de passar. A causa, que é o aperto presente do que deve perdurar. A saudade, que é o aperto presente do que dura. O quarto elemento que, de cima, integra tudo no mesmo peito: Y. 


Aula 4 - No meio do caminho... um Y



Falamos muito dentro do Y acerca do significado místico do três, e como ele casou perfeitamente conosco. 

À época do Orkut criamos até um tópico de discussão para alimentarmos tudo o que se mostrava como três: as trindades, as tríades, as trilogias de toda ordem. 

Contudo, momento revelador, se o três é o símbolo da estabilidade fundamental, pois é de três pontos que se define qualquer plano, o quatro é a perfeição que o transcende. O quatro é o ponto que desloca o observador do plano do três para olhar além. 

Não havia pensado nisso à época da dissertação, mas, de novo, a mística se faz presente nos caminhos do Y. O quarto capítulo é aquele em que me desloco do plano em que estávamos para olhá-los de cima. 

Um dos símbolos da maçonaria é o olho que tudo vê. Este olho está no topo de uma pirâmide. O vértice que aponta a transcendência em relação ao plano da terra, sem, todavia, se desconectar dela. 

Logo ao início do capítulo, é preciso que eu lhe conduza por uma imagem: a do caminho do Y. Aqui temos pelo menos quatro significados nele incrustado: 


  1. é o caminho que cada indivíduo percorre entre a salinha de figurinização e a enfermaria; 
  2. é o caminho que cada indivíduo percorre entre a laicidade e o profissionalismo;
  3. é o caminho que cada indivíduo percorre entre a infância e a velhice;
  4. é o caminho que o espírito percorre entre a simplicidade de um eu ingênuo e a unidade de um eu pleno. 


É verdade! Essa leitura não é só possível como é desejável. Veja, por exemplo, que quando falo sobre as amarras que as pessoas disseram existir em suas vidas, saímos das história individuais e chegamos até a teoria do poder onipresente defendido por Foucault. Quando falamos sobre a criança, tem-se aquela que somos, a que buscamos fazer sorrir, as que Korczak decidiu acalmar em uma câmara de gás nazista, voltando, então, para a enfermaria onde o projeto atua, com a descrição de crianças que despertam o divino em nós.

Logo no começo há a fala de Am, outro exemplo, que queria apenas confessar o amor pela família, mas trouxe reflexões sobre amor, liberdade, tradição, aceitação, serenidade. 

Mas, não nos percamos na viagem. Feito a história de Sendak, "Onde vivem os monstros", com a qual dialogamos também, por mais que tenhamos percorrido mares para além de nossa ilha, vendo o quão vasto era o mundo, sempre era imperioso voltar para o nosso lugar onde deveria estar esperando um leite quentinho no colo da mãe. O sempre e terno retorno para a salinha onde retirávamos as máscaras era um treino ininterrupto para o dia em que não mais precisaríamos tirá-la, por ela não mais existir. 

- O que você levou do Y?
- Levei ele comigo. E você?
- Não levei nada, decidi ficar. 

Não levar nada, decidir ficar. Quando não mais se leva, quando se fica, é que se está onde se deveria estar. Analise isso nas quatro perspectivas, e seja feliz. 




sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Aula 3 - Caminho teórico-metodológico ou a confusão de saber





Depois de longo e tenebroso inverno, em que me afastei da tentativa de explicar este mestrado, devolvo-me para a empreitada com outro motivo mais meu que do projeto Y: terminar um ciclo. 

O capítulo 3 quer falar sobre alguma teoria que referende as atitudes que, necessariamente, tive de tomar para deixar conhecido o Y. E fala também sobre os passos que tomei para registrar os saberes.

Precisamos entender que capturar uma essência de algo tão móvel e ígneo como é este projeto é uma tarefa impossível. A essência se esvai feito água do mar nas mãos de um menino. Mas, alguma fotografia haveria de tirar, ou melhor, algum quadro haveríamos de pintar, juntos, buscando não arrancar orelhas para caber no belo.

Para compor o cenário, fui em busca de um ou dois representantes de cada geração, aquelas que se sucedem quando vêm as seleções. Pessoas que ainda estavam presentes predominaram no encontro grupal. Outras que considerei centrais de épocas idas fui entrevistá-las a parte, a fim de não perder suas falas. 

O encontro em grupo iniciou-se com um aquecimento: que eles desenhassem o que viesse em mente sobre o mote "o caminho que percorri até o Y". Alguns entenderam "o caminho que é o Y", e respeitei essa confusão rica em significado. Os desenhos finalizam a dissertação. Alguma análise deles teço ao quarto capítulo, e talvez mais adiante. 

Reunir as pessoas para que falem do que vivem possui o mérito da instigação que um exerce sobre o outro, porém faz as vezes de calar o mais tímido. Há falas que surgem filhas do encontro, mas outras que são sufocadas pela luz da presença alheia. É um risco. 

As entrevistas individuais quase pareceram um café a dois. Fui revivendo a presença amiga, e lembrando junto com a pessoa o que ela viveu, o que testemunhei. Descobri algumas sombras que poderiam ter dado todo um novo trabalho. Mas tudo o que É não se torna ainda mais nítido com o seu contraste? Sim. Falei um pouco disso. 

Por fim, tomei a liberdade de passar para o papel minhas memórias. Ainda que mais ou menos distante, acompanhei o grupo por dez anos. As falas que caíam em minha rede interpretativa saíam trabalhadas com o esforço do meu distanciamento de pesquisa e coloridas com meu pertencimento. 

Boa parte do capítulo, como havia falado, tenta explicar porque cada atitude dessa é possível dentro de uma pesquisa que se quer científica. No vídeo que gravei, e que segue logo mais, deixei claro que o único paradigma possível que me permitiria construir algum saber sobre o Y, com tantos encontros de sujeitos igualmente dignos, seria aquele que me permitisse ser, apesar de pesquisador, ainda amigo, ainda amante. 

Um último critério que você deve buscar enxergar por todo o texto é a escolha pelo belo. Poderia ser pintura, trabalho com argila, dobraduras, mas a academia pede letras. Então, pelo menos que tenha um estilo doce, que busque o belo ao falar de todos eles. O belo foi necessário almejar em cada momento de manifestação do divino que eles me trouxeram. Lembrem da definição clássica da arte: é o inteligível feito belo. Tentei. 

O capítulo 4 mostrará o quadro que conseguimos pintar.

 

sábado, 1 de julho de 2017

Aula 2 - Conhecendo territórios



(2 min de leitura)

O capítulo dois fala de territórios. Mas, quando você entrar nele é preciso saber que eu rasgo o conceito de território para que as pessoas que andam sobre ele possam aparecer. Quer dizer, então, que o capítulo dois fala de pegadas.

Dizem que, após a dissipação da nuvem atômica da bomba de Hiroshima, restaram as sombras dos mortos presas ao chão. O capítulo dois fala da sombra das pessoas nos territórios. Mas, elas não estão mortas. A arte e o espírito denunciam isso. A ciência seria a morte do espírito? Acho que não. A morte vem com a separação. Até mesmo os religiosos acreditam nisso: a morte aconteceu quando corpo e alma já não estão mais unidos. Tanto ciência sem espírito é morte (ela fica obtusa), quanto espírito sem ciência (ele fica incognoscível).

O capítulo dois fala de mim, também. Há uma tristeza nessa história. A faculdade era uma tristeza para mim, um território inóspito. Falo disso lá. Há uma alegria nessa história que é o surgimento do Y. Engraçado agora lembrar que o primeiro texto que escrevi sobre este projeto falava das sombras dos clowns emergindo na faculdade. Colando essa imagem neste texto, me vem a mente que as sombras de Hiroshima aprisionadas na terra pelo uso demoníaco da ciência se desprendem no outro lado do mundo com máscaras de palhaço para consolar os que sobraram na vida feridos. Estranha conexão de uma mente crepuscular. São seis horas da manhã. Venho pensando em como falar sobre o capítulo dois desde as três e meia da madrugada. O galo canta à minha esquerda, pássaros pipilam à direita, o bebê acorda lá em cima, meu amor dorme. Vê, acabei de descrever um território! O capítulo dois faz isso.

Levanto três teses principais neste capítulo:

  1. A verdade que tanto cavamos é, quando muito, uma biografia. 
  2. O ator-palhaço traz as pessoas de fora de si para dentro do corpo, no aconchego da caracterização. Isso tem um significado simbólico enorme. 
  3. O espírito e a arte são resistentes. O pensamento positivo não logrou calá-los na matéria. Dela, eles falam insistentes. 

Do capítulo dois, então, sobram estas três teses, que são as três cinzas sombras que devem ficar nos seus olhos depois de queimadas aquelas páginas.




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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Aula 1 - Introdução de "O espírito do doutor palhaço"



(5 min de leitura)

Por aqui vou chamar você que está lendo de você, ok? Queria que fosse uma conversa de pé de orelha. O espírito vai ser esse, se vou conseguir deixar tão íntimo, tenho lá minhas dúvidas. É que o assunto é denso. E ninguém toma um cafezinho jogando conversa fora com esses assuntos. Mas, tentemos. 

Uma professora de clown disse que era uma pesquisa ousada, típica da pós-modernidade, esta que eu estava empreendendo. Eu disse para todos, à turma do mestrado, desde o início, que queria pesquisar sobre o que há de espiritualidade na palhaçoterapia. As pessoas se admiraram, porque acharam estranho e difícil demais tentar desenvolver algo assim. Todavia, nunca visualizei outra abordagem. 

Nos dez anos que acompanhei o projeto, vendo-o crescer, geração após geração, lá estavam pessoas se revelando, se desafiando, colocando máscaras, deixando outras caírem. Fomos construindo ritos de acolhimento e de despedida, de desabafo e de captação de brilho nos olhos. Presenciávamos a sala lotada nas palestras sobre o projeto, quando à seleção de novos integrantes. As lágrimas ao conseguir entrar e por ter que sair. Sem contar nas outras tantas que diziam "foi meu porto seguro", "me deu um sentido na faculdade", "não imagino fazer algo igual na vida". 

De que ordem são estas falas? Da verdade? Sim, há uma verdade em cada fala, mas não é universal. Existe singularidade em cada vivência. Do dever? Era uma obrigação as visitas de palhaço ao hospital, mas engajadas em um sentido para além da retidão e do crime, e cheias de gratuidade. Do político? Nada tem a ver com a administração dos bens públicos, da polis ou da luta pela justiça social, a não ser em uma política muito própria dos afetos. E, então, o que? O que estamos falando quando dizemos "sentido", "amor", "singularidade"? Não creio estar sendo leviano se disser que são expressões da ordem do espírito. 

Um erro que talvez eu tenha deixado escapar no vídeo, mas que logo depois corrigi, é que para pensar a ordem do espírito não devemos pensar em sentidos que escapam como que despregados do resto da realidade material. São assuntos que coroam nossa vida. Imaginei agora aquelas aves do Pequeno Príncipe que o levaram para além de seu planeta, mas igualmente a flor que ele amava tanto e que o feria na mesma medida. As aves, a flor, um pequeno príncipe, sim, é de espírito que estamos falando. É o que dá humanidade ao corpo, é o que se apaga nele à morte. 

Sabia que se o objetivo era flagrar estes assunto nas falas das pessoas, era o espírito que eu deveria deflagrar em nossas interações de pesquisa. Tentar se mover sobre a face dessas águas, como Deus o fazia ao princípio de tudo. 

O pesquisador não é Deus. Não faz surgir as verdades da pesquisa ex nihilo. Assemelha-se mais ao demiurgo platônico: uma espécie de divindade que manipula os elementos já existentes dando forma aos mundos. Ser uma divindade é afastar-se dos mortais. É o meu movimento quando busco objetivar o olhar, escalando referências bibliográficas para encontrar quaisquer peles que consigam enfaixar as ideias. 

Um detalhe importante que falarei no próximo momento é que esteve longe de eu poder ter sido um demiurgo completo. Antes, um leviano que se esforçou por um movimento apoteótico. Eu vinha misturado com todos estes rapazes e moças na esteira do tempo, na areia dos anos. Tive que desapegar, desvencilhar, desvanecer-me como membro até onde dava para conseguir olhar com mais calma, mais serenidade, mais leveza seus movimentos. Ao final, você deverá perceber que essa atitude só me trouxe mais insônia, inquietação, agitação. E é o que Nitezsche aprovaria, pois disse só poder acreditar em um "deus que dança". 

Essa pesquisa, pois, acabou sendo uma dança com eles. 



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sábado, 17 de junho de 2017

Curso sobre o Y



(2 min de leitura)


Olá, 

Meu nome é Allan Denizard e irei iniciar um curso falando sobre o que consegui apreender a respeito do Espírito deste projeto que deram para chamar de Y. 



Fiz um mestrado sobre isso e o defendi junto ao programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Ceará. Minha orientadora era a arte-educadora Ângela Linhares, sem a qual meus insights teriam sido mais pobres e sombrios. 

Para que esta dissertação circule, decidi abrir um curso falando dela. Estou ministrando, a princípio, este curso para os ypsilonianos, mas como devem ter percebido, nada é secreto, hermético, sibilino. Todos os textos que irei escrever explicando a dissertação estarão publicados aqui, e todos os vídeos no Youtube do projeto. 

Estou pedindo aos meus querydos e querydas que participem de forma bem amena: 1. assistir aos vídeos, 2. ler os textos, 3. comentar. Eles estarão comentando junto ao google classroom, em uma turma que abri especialmente para eles, mas se você caiu por aqui e decidiu seguir também esta aventura, terei prazer em ler o que você comentou no bloguy e no Youtube. 

Em resumo, o curso serão 

  • 8 semanas
  • 1 texto e 1 vídeo explicativos por semana
  • 1 comentário seu por semana com direito a feedback dos pares
  • Só isso!


Não pretendo que leia a dissertação. Não agora. Talvez algum dia, você senta, respira três vezes, imagina que alguém que muito amou outro alguém decidiu pesquisar sobre um projeto que muito amou e ama, junto com pessoas que amam outras pessoas e que, de alguma forma, deram corpo a este projeto com a capacidade delas de amar.

Do jeito que lançam comentários de efeitos em filme e livros, vou mostrar um que saiu da timeline do corretor de ortografia a que submeti o texto:



Por favor, não é esnobismo. É apenas um estímulo para que pelo menos abra, algum dia, essa dissertação e a folheie. 

Se esse dia for hoje, eis:




quarta-feira, 11 de março de 2015

Palhaço, Sorriso e Instante como Terapia [de existir]




Referências da Palestra dada originalmente ao dia 09 de março de 2015 como parte do Curso "O cuidado à Criança: uma abordagem interdisciplinar humanizada".

Primeiro momento: Sobre o palhaço, a finitude, a fragilidade e a deformidade humana essencial. Sobre a contigência da nossa existência primordial à lei que nos ordena. Sobre uma visão não-fantástica do homem: o menino vadio, passível de se perder, fraco e tolo.

Para essa reflexão me vali da Música de Chico Buarque "Sem Fantasia" e a análise da mitologia grega de Ilíada e Odisséia, frisando a figura de Ulisses, o símbolo do grande Herói, mas cuja travessia de volta para seu reinado é marcado pelas humilhações que vai sofrendo e as ilusões a que vai sendo submetido até o ponto de atingir a lucidez de querer ser quem realmente é: o rei de Ítaca, possuidor do leito de Penélope. Embora Ulisses seja o símbolo do grande herói, minha tese aponta que foi no momento em que se reconheceu como simples mortal que se aproximou da simpatia dos deuses. Essa tese não foi aprofundada a contento e explicitamente porque dei mais vazão aos recursos cômicos que empreendi com a platéia, mas ei-la aqui exposta. Sobre essa tese, não é originalmente minha, mas um diálogo com reflexões de Luc Ferry que a expõe em vários momentos de sua obra, particularmente em "Aprender a Viver 2: a sabedoria dos mitos gregos".

Segundo momento: Sobre o sorriso, que é um sub-riso, portanto, sobre o riso, o quanto ele nos define (o único animal que ri, dizia Aristóteles), o quanto ele nos expõe (Hobbes), o quanto ele nos humilha (Platão), o quanto nos afasta da verdade pura (ainda Platão), o quanto ele nos diferencia de Deus e dos outros animais (ideia Medieval), MAS TAMBÉM o quanto ele nos devolve à humanidade, nos tira o peso da perfeição, nos ajuda a palpar as próprias feridas e fragilidades com leveza, fazendo-nos participar de uma alegria compartilhada quando nos entregamos ao ofício de palhaço, ao sublime de um amor que não nos quer forte para se preencher, mas nos quer como nós somos para nos amar por amar, sem porquês.

Para essa reflexão me vali largamente das análise de Verena Alberti em "O riso e o risível na História do Pensamento ocidental". Mas também de Ariano Suassuna em "Iniciação à Estética".

Terceiro momento: Sobre o instante como outra forma de pensar o tempo, um tempo dilatado, um tempo que dura, um tempo de delicadeza, um tempo de emoções, um tempo não-escatológico, não-apocalíptico, não portador de flecha de sentido, mas buscador da riqueza de sentidos presentes, buscador de gozos mais do que de chegar ao gozo, de intensidades mais do que de produtividade, de qualidade mais do que de quantidade.


Esqueci de fechar um círculo de reflexão aqui. Voltando a mitologia da Odisséia, quando Ulisses reencontra Penélope, depois de ter derrotado "os pretendentes" com a ajuda da deusa Atenas e do seu filho Telêmaco, quando enfim está no leito com sua rainha, Zeus faz com que o instante se estenda para que o casal viva intensamente o gozo daquele reencontro.

Para essa reflexão do instante me vali das análises sobre as Epistemologias do Sul de Boaventura de Sousa Santos, particularmente o que pode ser encontrado a respeito das monoculturas e ecologias do tempo no "Manual de Uso do Fórum Social Mundial". Também, uma referência ligeira à algo do pensamento Chinês presente na fala de François Jullien no CD Le Bonheur - Visions Occidentale Et Chinoise.


Querendo finalizar com poesia e algo do que vivi, fiz uma leitura dramática de "Velhas árvores" de Olavo Bilac, poema que marcou um momento de crise meu. A finitude e o ridículo do palhaço, o sorriso (mas também a lágrima) que tive (e quis despertar) e a importância do instante se aglutinam nesse poema - entenderão porque quando compartilhar o vídeo da declamação.


No momento anexo de perguntas me vali das reflexões de Edgar Morin e seu Pensamento Complexo ("Ciência com Consciência" e "Introdução ao Pensamento complexo"), da autoridade de Nise da Silveira e sua paixão por Espinosa em seu "Cartas à Spinosa", bem como das referências superficiais à "Ética segundo o método dos geômetras" de Spinoza, enriquecidos pelos comentários que venho ouvindo do filósofo Luc Ferry (Descartes - Spinoza - Leibniz l'Oeuvre Philosophique) e do desenvolvimento e atualização da teoria de Spinoza para nossos contextos contemporâneos de sentimento e razão feitos pelo filósofo André Comte-Sponville, em várias de suas obras.



Allan Denizard (Dr. Acerola)