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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Era, não foi.

Era chegada a hora. Era? Não sei!  Qual a hora certa mesmo?! Eu juro, estava com tudo pronto, tudo arquitetado na minha cabeça! O nome, as roupas, o jeito, as falas e tudo que um palhaço tem direito. Eu havia pensado com bastante calma... pronto, era isso! Era, não foi. E a culpa não foi das estrelas, foi minha mesmo, pensei muito, senti pouco. Ouvi falar que o palhaço precisava acreditar no que queria passar, aquilo me inquietou a mente. Fui então buscar ajuda de um grande mestre, não obtive resposta. Talvez, a resposta tinha que vir aqui de dentro, afinal a “bomba” estava em minhas mãos, prestes a explodir. Perguntei a um amigo Toddynho sabor Caju e ele disse que eu precisava sentir que era de verdade, que era real, por mais absurdo/abstrato que fosse. Ok, a  Xiva  seria uma super-heroína, com direito a capa e acessórios, queria ter todos os super poderes, não tinha nenhum, perfeito, mas  a  Xiva foi ficando pesada, não se sentia super-heroína, precisava desesperadamente sentir pra ser, ser pra sentir, alguém me ajuda?!
No dia do visytão,  já não tinha mais nada, só a mim mesma. Foi aí que encontrei uma grande palhaça, que me fez rir e sentir com facilidade. Ela tinha uma “malamágyca” cheia de coisas perfeitas para palhaços com medo, sem freio, tempero, recheio ou em desespero (no meu caso era tudo junto mesmo). Insistia em olhar para um vestido vermelho “meio” vinho que estava bem evidente, era novo, mas tinha cara de antigo, meu fascínio por coisas antigas apitou e....

- Não paro de olhar pra esse vestido, posso usar?
- Claro que pode!
-E essas meias? Essa leg também? Gostei desse chapéu!

Não lembro o que a palhaça sabida respondeu, mas foi algo positivo. Algumas coisas a mais, outras a menos, a senhora xyvva estava chegando! Ouvi que estava parecida com uma mãe, de fato, boa parte da minha essência é essa, ufa.  
Foi dada a largada, olhava para cima, respirava fundo e pensava: “calma, lembra da fila, pular junto, ocupar espaço, estímulos, tríade, sim pro jogo, pensa, não pensa, separa da realidade ou não?!” Então, vejo uma menininha que pouco conseguia dizer seu nome, mas seu corpo todo falava por ela, imediatamente, ela se inclinou um pouco para nos ver. Que olhos expressivos e lindos ela tinha, impossível não lembrar os olhos de uma certa Maria que encanta meus dias. Aii, esqueci tudo (como se eu lembrasse de alguma coisa)! “pera, é...vai você consegue! Pula, salta, joga o cabelo, corre, fala alguma coisa!”, só consegui dizer o quanto ela era linda, mostrei  o porco sabido que andava comigo e ela sorriu. O jogo não parou por ali, continuou por um bom tempo. Vi um pequeno menininho que adorava soltar bolha, esbarrei na menina sapeca que tinha espelho mágico, encontrei uma princesa que adorava a branca de neve. Entrei em um quarto cheio de crianças grandes, trilhando o caminho de sua adolescência, no auge da juventude (xyvva é velha..), que medo! Disseram ter visto a Xyvva  no 190, “muito bem, obrigada, mas acho que você confundiu o canal”, no fim a Xyvva  tirou foto e ganhou abraço!! Fui correndo pra outro espaço, quer dizer, a Xyvva. Ou era eu? Não sei. Cantamos Dora, Frozen e quando nos demos conta já era hora de ir. "Diz a lenda que quando o sol se põe o palhaço vira vento!" disse o Dr. Noya/pixilinga enquanto a Dra. Mysqui concordava,  "e mais, ele tem que andar de jumento comendo cimento, nããão!" Xyvva completou. Tínhamos que correr bem rápido antes que o sol dormisse, questão de vida ou vento! “Filha, você tem que tomar banho” disse uma mãe, aquilo soou tão familiar. “As princesas mais belas do reino encantado, tomam banho todos os dias sabia?!” Disse a Xyvva, já agachada olhando o belo semblante daquela menina, ela sorriu e correu, queria tomar banho. O sol estava indo embora e  junto com ele, todos os palhaços,  Xyvva sabia que precisava ir também e foi.  E tudo já não era mais o que eu pensava que seria, foi outra coisa. Não era, foi.


Dra. Xyvva (“x” de xixi, “y” de..é..hum..Y!, “v” de vai, “v” de volta pra “a” de araraquara)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Eu, eu mesma e Felícia

Chegou o tão esperado sábado. Tão corrido aliás. Cheguei de uma reunião, engoli o  almoço, entrei na roupa, voei no carro, busquei o Sebbe e encontrei e me encontrei no Sabin. Encontrei nos dois sentidos: 1º porque não sabia nem onde era e 2º porque encontrei alguém muito especial lá, dentre muitas pessoinhas especiais.  
Saí do carro, respirei fundo e vesti a saia – do são joão de 1900 e me esqueci – com uma sensação de que ou eu estava abafando ou alguém ia chamar o Esquadrão da Moda pra mim com urgência. Entrei no hospital e fui percorrendo aquele labirinto quase sem saída. Minha sorte é que fui guiada até chegar naquele cantinho, lá longe, no fundo do hospital, com cheirinho de pancake.
Parecia que todos ali estavam se arrumando para uma festa: “Ei, cadê o lápis?” “Tá muito exagerado?” “Meu cabelo tá legal?” “Ai, tua roupa tá linda!” “Me dá um cantinho do espelho?” “Estou ansiosa (o).” “Isso daqui combina contigo, testa!”. Todos prontos e reunidos para dar início ao novo: colocamos o nariz e de repente não éramos mais nós. Confesso que ainda o coloquei antes, mas depois caiu a ficha da desconsideração que tive naquele segundo com minha clown e depois, no momento certo, deixei ela vir a mim. Nariz posto, no devido tempo e, enfim, era a Felícia ali. Calada a princípio, mas era ela. Pés aos 130º graus, cabelos assanhados, rosa presa ao jaleco, fita nos calcanhares, tranças para cima, bolhas de sabão num bolso e termômetro no outro.
Chegamos no primeiro corredor e uma mãezinha de resguardo sozinha estava sentada no banco. Ela parecia com dor e cansada, mas ria na nossa presença, quase se desculpando por não poder trocar muitas figurinhas com a gente naquele momento. Felícia compadeceu daquela dor, pois estava de resguardo também e já estava com outro encomendado naquela barriga de tanto comer chocolate e coxinha.
Dobramos o corredor e mais gente. Um senhorzinho  namorador tinha duas alianças no dedo: uma da noiva e outra da esposa. A noiva estava lá, sem aliança mesmo porque tinha cansado da situação, porque enfim, né... cabra safado! Felícia indignou-se, reclamou por tamanha safadeza, foi andando e parou em frente à porta de uma sala. Os outros amigos dela ficaram lá brincando, mas eu a peguei parada uns 10 segundos observando uma garotinha de cabelo toim toim, de fralda, uma blusinha de algodão, pezinhos descalçados e a mão segurando a da mãe, que estava com uns exames e uma mochilinha rosa. As duas não pareciam muito bem e a Felícia queria ter feito algo, mas a porta se fechou.
 Voltou a andar e se deparou com seus amigos futricando uns aparelhos de fazer desejos e o Caju desesperado tentando se soltar de um dos seguranças. Sofreu, puxei ele até que  ele  se livrou, ufa! E desejos? Bem... não foram realizados nenhum, nem o do abraço. Sem problemas pois fomos compensados com um pedido de foto para os 876587 sobrinhos de uma tiazinha que nos barrou no corredor. Naely, Noemi, Nathanael... e por ai vai. Na outra sala, mais fotos! Porém, o que a encantou mais na sala foi o Oliver Canudo (senti uma certa empatia já que sou uma Toddynho,  mas era Canuto o sobrenome dele na verdade...erraram a etiqueta!), sentadinho na cadeira de rodas . Um príncipe todo! Felícia conversou com ele achando o máximo, mesmo quase não o ouvindo contar a parte da história das havaianas lilás – iguais às que a Felícia tinha em casa-. Ela teve que ir, mesmo querendo ficar um tempão com ele lá. Beijou-lhe a testa e saiu.
 Um amontoado no corredor estava feito mais na frente: era o Tetéu queixando a pequenininha e ela o negando até o fim. O irmão mais velho dela estava agarrado na mãe, não queria saber da pobre Felícia, até o momento em que perguntou baixinho pra mãe: “Eles vão dar meu presente?”. Ela até quis dar bolhas de sabão, mas não saíram bonitinhas. Sua amiguinha, mais esperta, teve uma ideia melhor! “Prepara: 1, 2, 3... ABRAÇO J”. No meio do sufoco ainda vi um sorrisinho despontando da boca, que já valeu. Fomos para o elevador . Plim! Chegamos no primeiro andar. “Vamos, mais um pra esse andar!”. Felícia na porta do elevador, sem reação, quase com medo de ir para aquele  funil – lá em baixo vários palhaços, no 1º andar só 3-. Quase num empurrão, caiu de vez no 1º andar. Na primeira sala  estava a Alice nos braços da mãe, não focava nem um segundo no olhar de Felícia. Seus pais riam das tentativas frustradas em arrancar-lhe um sorriso, mas eis que percebeu que ela estava cansadinha demais para sorrir. Felícia pulou para o outro lado da sala, onde o Henrique estava. Ele não estava com a carinha mais alegre, mas olhou para a Felícia. Demorou para ter uma conexão com ele, mas deu certo. O termômetro não serviu, a piada não fez nem cócegas nos ouvidos mas eis que a bolhinha de sabão arrancou uns sorrisos tímidos. Soltaria fogos das mais variadas cores se eu os tivesse ali, eu usaria aquela bolhinha até o fim ou até pelo menos ele se animar para tomar o suquinho. Felícia deu uns cheiros nos pés dele, ele gostou até.Porém tive que ir.
Um salão no meio do corredor estava a Vitória, a Fátima e um pequenininho da voz rouca – quase o coloco no bolso de tanta fofura. Ele abriu um livro de contos da Disney e apontou pro adesivo do Patati, dizendo que a Felícia parecia com ele. Logicamente que ela se defendeu apontando para a Alice no País das Maravilhas  - meu conto favorito-  e isso gerou a discussão de quem era quem no livro. Depois de designados os personagens de cada, sobrou até pra enfermeira ser o hipopótamo do Madagascar... tadinha. Já volto para essa sala, fui em outra.
Uma bonequinha estava na primeira maca da esquerda assim que entrei: a Emilly. Uma vozinha tão linda, quase que não saia dos pulmões, mas que era doce o suficiente para me prender ali. Olhos tão grandes pintados de sombra azul e as bochechas de rosa. Seu corpinho não vale a pena aqui descrever, mas estava sofrido demais. Deitou a cabecinha na mesa por cima do braço e ficou a conversar com a Felícia. Logo mais estavam amigas, até sua mãe entrou no papo. Ela pediu que pegasse seu caderno de desenho e os mostrou, cada um mais lindo que o outro! Eu até desenhei uma bonequinha parecida com ela segurando a cachorrinha (a dela que havia falecido há um tempo), pra que fosse pintado depois. Seu pai não estava lá, pois era circense e trabalhava em Recife, mas a mãe falou que ele era o autor dos desenhos perfeitos (e eu aposto que do sorriso delas também). Dei um “alô” para as outras crianças do quarto, ganhei até uma pastilha com o miolo de coração de um danadinho que depois saiu correndo atrás da gente e foi dizer que estava com frango no meio dos dentes. É, ele além de querer me morder, era comedorzinho de frango com farofa. Já me despedindo fui na varanda cumprimentar um casal e um rapazinho. Felícia tirou o boné do careca, deu uma lambida na mão, ajeitou os fiapos grisalhos e colocou o boné para trás – por questão de estilo e bom gosto-. A senhorinha só ria da situação e ainda lá fora disse “Ow, deixe meu carequinha!”. Ai, o amor é lindo. Só o amor. Brincadeirinha. O rapazinho não falava, mas se mostrou mais eufórico e feliz com a nossa presença. Dei um “oi” quase sem saber como pronunciar, tentando me fazer entender. Espero que ele tenha nos sentido um pouco.
Felícia foi se despedindo e, como boa e higiênica palhaça é, foi colocar álcool em gel nas mãos mas “Eiiii, isso é sabonete!”. Começaram a rir. A mocinha da outra maca se levantou e foi me ensinar  a usar a torneira misteriosa. Quase uma mágica para fazer descer água, e a cada jato era uma alegria só. Mãos  limpas e dando “tchau”.
 De volta para o salão do corredor, ajudei a Vitória a fazer um desenho. Fiz três borboletas:  a Felícia, a Vitória e a Fátima. No final ela entregou para Fátima, que estava só de visita. Fui saindo e ganhei um abraço daqueeeeeles gostosos delas duas. O pequeno da voz rouca se despediu com um beijo na minha mão (Felícia pedia 10 beijos  toda vez que passava por ele). Vomitei arco-íris. Ele se engasgou e tossiu muito – meu coração trancou na hora-, o alívio veio com ele vomitando um pouquinho e se acalmando. Todo mundo vomitado e feliz mas tive que ir embora. Opa, o danado do frango no dente quase veio correndo com a gente também. Por mim eu saia correndo com ele, mas já estava na hora da Felícia se recolher então tive obedecê-la. Descemos pelo elevador. Um tiozinho escutava o jogo no fone de ouvido. Coloquei o fone também. Tirei uma com a cara dele e ele, que não era besta, tirou uma com a minha também. Nem lembro direito o que era, mas ele pediu desculpas no final, e a Felícia só desejou um bom jogo. Foi engraçado. 
Felícia saiu pelo corredor, soltando beijos e saltitando até chegar no cantinho com cheiro de pancake. Estava com mais cheiro de alegria. Estava com tanta pressa para ir para outro canto que desfiz a Felícia, joguei suas roupas no saco e saí. Cansada, descabelada, pés aos 100º graus, de calça jeans, saco numa mão e a bolsa na outra. Pelos corredores eu só percebia os olhares me reconhecendo, sorrindo e dizendo “Manda lembranças para a Felícia, pois ela deixou um pedaço dela nascendo aqui”. O resto do dia? Foi bom demais! Eu me senti uma criança contando o primeiro dia na escola para todo mundo. De fato, tenho muito o que aprender com a Felícia. A cada dia eu procuro ter uma relação harmoniosa de mim comigo mesma. Porém dizem que a perfeição é trina, não é mesmo? Então, vamos viver as 3 em uma só: Eu, Eu mesma e Felícia.  Foi encantador conhecer a Felícia e ver o quanto ela exala a Letícia adormecida, tanto é que nos confundi várias vezes no texto.  A parte augusta da Letícia sendo mais branca na Felícia e a parte branca da Letícia sendo augusta na Felícia.  E tudo que é estímulo vai sendo saboreado, vivido e sentido. A cada momento.


                                             Prazer em te conhecer e em ti viver, Felícia!

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Experimentando o novo

A tensão começou semanas antes. Pela manhã, free hugs na Praça do Ferreira, que era pra entrar no clima. Encontramos um palhaço. É um sinal!

-

Vestido emprestado, meia adquirida, crocs do projeto, maquiagem dada pitaco, cabelo feito por alguém. E aí, tô pronta. Mas falta o nariz.
“Quando vocês estiverem prontos, podem colocar!” Isso é coisa que se diga? Ou é no 1 2 3 já, ou não é nunca. Muitos pensamentos passando muito rápido: conversas no fim de capacitações, angústias pelo whatsapp, a vez (péssima) que eu tentei colocar o nariz. Então, já. Nem pesou tanto quanto eu pensava.
Engraçado como uma bola vermelha muda muita coisa além da aparência. Mexe com o andar, com a fala, mas, principalmente, com o jeito de enxergar e de sentir. Engraçado ver crianças no leito e não fazer questão de saber o qual o motivo de elas estarem lá. Engraçado achar que eu nunca diria a um policial chamado Wa-shing-ton que a gente ia casar, ou impedir um menino de entrar no hospital porque ele era feio. Mas o sentimento da visita não é o de graça, esse é o pós. O sentimento da visita é o novo. Tudo novo. E a melhor parte foi me deixar experimentar.
Fiquei sem reação algumas vezes. Minha Ana Flávia quis sair e falar: “Pois é, gente, é isso aí, vou ali no outro quarto, bjk”, mas o nariz me fez ignorar. Não sei como, mas fez, e em pouco tempo eu já tinha virado autoridade máxima do hospital, e ai de quem mexesse comigo.

Meu palhaço é meio torto, meio desajeitado, mas me passou a segurança (ou falta dela) que eu precisava pra fazer aquela tarde bem melhor do que eu tinha imaginado.
- E o teu nome?
- Não posso dizer, porque eu misquici!
- Então vou te chamar de Misqui. Vai, Misqui.
E, pro momento, foi o bastante. 

Ana perdida ou Ana e não-Ana

Ela sai da visita alegre, triste. Não, ela sai alegre. Triste. Não sabe. O que aconteceu? Gerou risos? Sim. Não. Mais sim do que não. Mas, não tanto em si. 

Estava sem maquiagem, sem roupa, quase não tinha um nome seu palhaço. Os outros brincavam tanto que ela se achava pouca. Não é que estava nua, estava sem aquela roupa que poderia chamar de sua. Nem que estava sem tinta no rosto, é que mais parecia estar suja. 

As crianças, os pais, os profissionais, todos lhe achavam linda, linda, a mais linda dos feios! E assim, dela debochavam. 

(Assim, podiam passar adiante o eterno debochado que a doença e a internação faziam deles - Ana mal percebia que estava permitindo que eles partilhassem as dores pelo deboche).

Ela queria ter dito mil piadas, feito dez mil travessuras, cem mil cambalhotas. Em vez disso, risadas, risadas e mais risadas de toda a nulidade de si. Sem roupa, sem maquiagem, quase sem nome.

(Os pacientes: sem roupa, sem maquiagem, quase sem nome. Ana mal percebia que era igual a eles).

Havia vivido tão intensamente o curso de formação de palhaço que queria desesperadamente ser um ao final. Tinha a esperança... Enquanto esperava ser, nunca era, e seu olho ficava onde seu corpo não estava.

(Ana não percebeu que havia permitido àquela pacientezinha, também de nome Ana, ter o olho de volta ao presente que estava ali, na estranheza de Ana - Ana sem roupa, Ana sem maquiagem, Ana quase sem Ana. Os olhos da menina viviam fora da órbita, em casa ou no tempo em que ainda não havia adoecido. Ao ver Ana, a menina esqueceu, por uma hora, de casa e de que estava doente. Riu dela como se risse de si). 

Ana me encontrou e contou tudo o que não aconteceu, o que podia ter acontecido. E, enquanto ela me contava, eu enxergava em cada nulidade a presença de tudo o que havia ocorrido:

- Era uma vez uma palhacinha sem roupa, sem maquiagem e quase sem nome que permitiu à menina Ana rir por uma hora e esquecer da dor de estar ali.

A dor de Ana de estar ali, não estando.
O sorriso de Ana de não estar.

(Ana, não-Ana. Ama Ana. Ana, ama!)


domingo, 10 de agosto de 2014

O primeiro de muitos!

          Deu certo, sim! Foi mágico, foi sublime, foi a realização de um sonho, foi melhor do que todos os meus pensamentos positivos juntos! Mas lógico, antes de todo o final feliz, tem o medo. Dizia a mim mesmo que o medo não poderia me derrubar, e me ensinaram que a gente deve brincar com o medo, assim como o rapaz brinca com um cigarro de mentira entre os dedos. O medo, pra mim, é um eterno sinal de alerta.

         Sim, isso porque eu sou daqueles que é movido pela emoção, e temo muito pela sistematização da vida. Sempre que subo num palco, pra fazer qualquer apresentação, por mais que já seja um tanto quanto acostumado, sempre escuto os outros falando num certo frio na barriga, o qual eu também sinto. E quero sentir sempre, pois esse frio na barriga representa medo, e no dia que eu perdê-lo, vou perceber que deixei a coisa sistemática, e me decepcionarei comigo mesmo. 

         Mas não havia palco, nem platéia definida. Não havia um protagonista, um diretor, um roteirista, figurinista, paisagista, baixista, cotista, nada! Haviam palhaços, e pessoas, e corredores, e portas, e janelas, e só. Não é preciso de muito, nem de coisas específicas pra que a mágica aconteça. E as borboletas que roíam-me por dentro, de início me tiraram a voz. PENSEI NO MEU PALHAÇO, MAS NUNCA PENSEI NA VOZ DELE, COMO PODE?

         Calei-me diante de tudo. Marmota caminhava pelo hospital com seu andar típico: o que não faz sentido nenhum, mas que mais parece que ele está todo assado. Não conseguia falar. Tinha medo. E mais uma vez, brinquei com o medo, E FALEI. Era um simples “Olá”, cumprimentando quem estivesse no corredor, levantando a perna direita que cambaleava enquanto o Marmota andava. E assim surgiram onomatopeias, palavras com sentido, frases... OS BENDITOS JOGOS SURGIRAM!

         Fui a marmota que o Marmota sempre me mostrou ser, com todas as palavras, e gestos, e danças, e olhares e tudo o que ele sempre quis fazer. Marmota brincou com tudo e com todos, e foi feliz alí. Na verdade, ele me fez feliz! Pelos olhos dele eu via crianças sorrindo, saindo da monotonia e da monocromática daqueles quartos. As cores saíam dos seus olhos e chegavam aos meus, mostrando como é esse sentimento aconchegante de ser importante pra alguém.

         Mas na verdade a felicidade maior, pelo o que o Marmota me contou, não vinha das crianças, por mais que elas fossem as que mais sorrissem. Mas vinham dos seus familiares. Mamães e papais que não podem fazer muito por seus filhos doentes, a não ser entregar-los em suas orações e ficar próximos para tentar ser um acalento pra dor. O palhaço parece ser o remédio para a dor da criança e para todas as dores que as mamães e papais tomaram delas pra si, implorando a um Deus que lhes tirassem aquele sofrimento todo.


         Marmota fez seu carnaval. Mas infelizmente, seu desfile tinha um limite para poder findar-se. E findou, com a boa e velha ligação do patrão. Do Chefe. E ele entendeu bem isso, de que toda brincadeira precisa de um fim, pra que uma outra comece. Marmota nasceu, enfim. E por mais que ainda não saiba andar direito, a vida é um eterno aprendizado. Mas me desculpem: ele nunca vai andar direito. 


Sobre a primeira vez, maracas e um Caju que finalmente apareceu.

Se a jogo começa ainda na fila,  o meu jogo começou vários dias antes da primeira visita. Esconde-esconde com o Caju.
    Por dias a fio vim o procurando dentro de mim, desde que o perdi. E a sensação de distância dele me provocava um medo enorme. Um insegurança sem tamanho. O que eu faria se não o encontrasse até o tão esperado Dia?
    Juntos, eu e Caju, esperamos muito pelo Grande Dia. Estávamos eufóricos para enfim visitar. Para nos banharmos um do outro. Para finalmente respirar através da Máscara das Máscaras. Sem máscaras nenhumas.

   Mas o Caju sumiu.

    Às vezes mostrava só um pouquinho de si, ou dava um grito pra que eu soubesse onde ele se escondia, mas, por mais que eu achasse que sabia onde ele estava, sempre acabava sozinho. Mesmo quando o achava por algum curto tempo, perdia-o de novo. E esse "esconde-esconde" foi ficando mais e mais cansativo. O medo do Caju não aparecer foi ficando mais e mais forte. E, na véspera e na manhã do Grande Dia, a certeza de que eu visitaria sozinho, sem ele, já me afligia muito.

    "Vamos nos encontrar em um bazar? A gente pode ver algumas roupas e tal..." disse uma veterana, na noite anterior ao Dia-Tão-Esperado (e que agora ele queria tanto adiar)

Bem, não tinha muito a perder. Até porquê nem sequer as roupas do Caju  eu havia achado. E, talvez, uma manhã com uma palhaça de longa data me inspirasse. Ou pelo menos me tirasse da tensão. "Vamos".

   Acordei cedo. Bem mais cedo do que o planejado. Me arrumei mais cedo do que o planejado. Comi mais cedo do que o planejado. Sai de casa bem mais tarde do que o planejado.

    No bazar, pouco mudara. Roupas, pessoas, uma palhaça de longa data com boas ideias, mas nada do Caju. Em lugar nenhum. Até que... "OLHA ESSE SHORT". Uma coceirinha na barriga dizia um tímido "talvez" e, olhando pro short vermelho de listras coloridas (que era curto demais pra ele [FANTÁSTICO!]) ele não conseguia parar de sorrir. "Talvez..."

   O tempo passou, andaram muiiiito em busca de mais coisas pros outros palhaços. Uma longa espera, uma caminhada longa, um transito longuíssimo. O cansaço foi tomando conta, a fome foi tirando ainda mais a paciência e a tranquilidade. "Puxa vida, vai dar mesmo pra alegrar alguém desse jeito?"

   Almoçamos, enfim (ALELÚIA). Até que fiquei um pouco menos impaciente. Ainda muito cansado. Ainda muito inseguro. Um Caju ainda perdido. 

No fusca rosa, começamos a viagem de ida pro Hospital, onde tudo deveria acontecer. Onde talvez não acontecesse. "É...ta ficando perto. Quase na hora". Cada quarteirão por onde passávamos me colocava mais perto dos meus medos. Do meu não achado.

   Coloquei Kids pra tocar no fusquinha. "Se isso não vai fazer o Caju aparecer, pelo menos deve me animar".
Não, não funcionou.

   Até que..."AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!!!! TIVE UMA IDEIA! VAMOS TOMAR SORVETE!" disse a palhaça mais velha.

Já eram 13:50 mas a ideia pareceu tão absurdamente fantástica que ninguém se preocupou muito com o atraso evidente que isso resultaria.

E, não mais que de repente, entre uma palhetada e outra, um cereal flocado com bastante chocolate dentro do sorvete e uma calda de chocolate caindo e sujando o short, um sorriso travesso começou a se mostrar. Ao sair da sorveteria, lavando o rosto, os cabelos já pareciam mais desajeitados e as sobrancelhas mais curvas. "Caju?". Uma vontade doida de dançar e pular tomando o corpo. Atravessar a rua correndo até o fusquinha só de diversão. O sorriso travesso dizendo "QUASE NA HORA! TA CHEGANDO!".

Chegaram, por fim... Senta. Respira. BÓ SE ARRUMAR, NEGADA!!

Peguei numa calça, peguei numa blusa...nada. Peguei no short vermelho com listras coloridas... "É...É ELE!!". A coceirinha na barriga gritou "CERTEZA QUE É!" e, quando o vesti, as coisas já ficaram diferentes. Vesti uma meia da cor do short e uma blusa toda amarrotada de tãããão velinha. Um friozinho na barriga...

 "Eu to me sentindo tão...haha! Que irado!"

Não tinha uma palavra boa para aquilo. Lembrou da primeira vez que se maquiou. Aquela sensação doida de euforia e medo e tensão e "let's do it" e "caraca eu to ficando doido" me inundou mais e mais e o Caju finalmente tinha saído do esconderijo. Ele finalmente tava aparecendo pra mim.

"É verdade, a maquiagem!"

A sensação sem nome crescendo e crescendo. Pulos e umas dancinhas sem jeito entre cada "me empresta o lápis?" ou "quem ta com o pancake?". A euforia tomando forma e o sorriso traquina sem sair da boca.

Cada olhada no espelho era motivo de profunda euforia. Motivo de um sorriso largo e fácil. Os dedos coçavam.

Maquiagem pronta. Só falta o meu... "MEU DEUS CADE MEU BONÉ?". Ufa, tava na bolsa.

Alguém balançou as maracas, do outro lado da mesa.
"Trouxeram minhas maracas!!!!" :D

E a euforia se transformou em música (?) quando o tremor das mãos virou chocalho dos instrumentos.
Uma sensação de pertença enorme e de...algo ainda não nomeável.

Fez-se Caju. Ou Caju o fez.
É difícil explicar. Mas a sensação de achar algo que você procurou por tanto tempo é sempre muito boa. Especialmente porquê o perdera a pouco tempo e sabia que precisava demais dele.

Acho que Caju me fez.

Só sei que a visita foi ótima. Eu e Caju brincamos, rimos, fomos bastante xingados e até nos descobrimos menos brancos do que pensávamos. E a marca de cada um daqueles sorrisos vai ficar conosco por um bom tempo. A marca de cada um daqueles que mudaram o nosso dia. Que fizeram com que, eu e Caju, nos conectássemos ainda mais um ao outro e ao mundo ao nosso redor.

Também nos encontramos nos nossos amigos. nas descobertas deles. Nos jogos que eles nos propuseram. Nos seus medos e inseguranças. Nos erros e no "meu deus tu ta tão linda!". Especialmente no de duas palhacinhas que passaram o dia com a gente. Uma super ultra Top Model internacional que deixava as mães boquiabertas e uma tal de Bauru que veio de lonjão pra cá cuidar de galinhas e tambores/bancos/qualquer-coisa e que, por mais que tivesse experiência, experimentava tudo tão intensamente e pela primeira vez quanto nós. Nos encontramos neles porque também éramos erros, medos, inseguranças e tudo o mais. 

Eu e Caju chegamos em casa cheios de histórias pra contar. Ainda vestia algumas das roupas dele e ele ainda vestia alguma das minhas. Alguns traços de maquiagem ainda no rosto. O boné ainda na cabeça. O corpo ainda se movimentando demais. A coceirinha na barriga virando fervilhão e aquela sensação engraçada e sem nome ainda pulsando forte. Os pés cansados ainda tinham vontade de dançar e pular. 

"Ta bom, Mayko, já pode deixar de ser palhaço", disse o irmão mais velho, durante a narrativa da extensa saga daquela tarde.
Podia mesmo?
Particularmente, acho que não.
Descobri que por mais que a gente se perca um do outro, o Caju ainda ta aqui em algum lugar. E eu vou sê-lo e ele me será enquanto, juntos, formos. Em cada palhetada de sorvete, em cada calda derramada no short, em cada passeio pelo centro num fusquinha cor-de-rosa, em cada sorriso que recebermos, em cada short colorido achado no meio do mar de roupas e em cada Kairós que se manifestar nele. Em mim. Em nós.

Sou Caju. 
Ele me é.
Somos.
Dancemos.



Deitado, antes de dormir, o som das nossas maracas ainda ecoavam, mais e mais, na nossa cabeça.
"To ficando doido... 
...Que sensação deliciosa!"


"Hear the shuffle of my dancing feet"