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domingo, 23 de julho de 2017

Coisa de Igreja

Allan: Sebbe, preciso entrevistar você...
Sebbe (1): hahahah sério?

Allan: Agora, por aqui. Estou escrevendo um livro não comerceial para os novos integrantes do Y e queria te fazer umas perguntas que vão nortear um dos capítulos. Pode ser?

Sebbe: Pode sim, mas eu nao vou ficar online agora porque vou já encontrar com a Júlia. Se quiser mandar as perguntas, eu posso ir respondendo.

Allan: Nem eu vou ficar aqui todo tempo. Vamos conversando e se respondendo quando der.

Sebbe: Na hora 👍🏻

Allan: Você leu aquela conversa que tive com o Mayko e divulguei no bloguy?  

Sebbe: Li agora

Allan: Lá, tem essa parte aqui: "Cheio de nego mandando coisa pra gente como se fosse participar de ONG ou coisa de igreja." O Mayko considera isso algo ruim. Como se desvirtuasse o propósito do projeto. Sei que você é um cara da igreja, queria saber de você se o sentimento de igreja lhe animou a querer ser do projeto?

Sebbe: Allan, na verdade não. Eu nunca senti a necessidade de fazer o bem pro outro pra que Deus veja que eu estou sendo bom. De uma certa forma, eu concordo com o Mayko no ponto que as pessoas religiosas enxergam o Y como uma oportunidade de extensão da sua caridade, mas não como uma extensão do próprio "eu-estudante de saúde" ou do "eu-profissional". Meu avô me dizia "seja bom pros outros, não pelo fato de mostrar que você é bom, e sim por estar fazendo a coisa certa". O catolicismo sempre me mostrou a importância da caridade e do amor ao próximo, ao mesmo tempo que uma passagem me diz que "a tua mão não precisa saber quanto de esmola sua outra mão dá". Eu sempre me encantei pela figura do palhaço, desde que o palhaço era apenas o ponto cômico do circo. O Y me mostrou mais uma faceta encantadora do palhaço. Eu tentei o Y mais pela imensa vontade de fugir da redoma da saúde tecnicista da odontologia, através do palhaço, do que realmente por fazer uma coisa boa. O fazer o bem sempre foi uma consequência, e nunca meu foco principal. Talvez isso explique o porque de eu nunca sentir minha fé abalada por uma visita ruim. Eu nunca saí com a sensação de "nossa, não fiz o bem pra ninguém hoje, desculpa Deus". Acho que Deus enxerga minha vontade de fazer o bem tanto quanto o bem que eu faço.  Ser religioso, dentro do Y, amplia até o debate dentro do próprio grupo, de como as visitas causam reações diferentes em todos nós, e acho que é bastante interessante ver isso dentro do grupo.
Allan: Mas você descreveu mais ou menos um sentimento da sua igreja. Não importa se conseguiu o bem (a visita bem feita), mas a intenção, pois o seu Deus enxerga a intenção, a vontade invisível. E mesmo a fuga do tecnicismo com a devoção à arte tem analogia imensa com o exercício cristão de não ceder ao mundo de Leviatã, mas buscar o Reino do Amor, da Justiça e da Verdade. Há uma transposição do sentimento da igreja aqui, não acha? 
Sebbe: Sempre vai haver. A espiritualidade transcende o ser. O problema está na intenção com a qual se faz. Se Deus consegue enxergar o invisível, ele sabe das vontades internas de cada um na hora de fazer uma visita como doutor-palhaço em um hospital, entregar uma sopa a um morador de rua no centro da cidade, ajudar uma família mais humilde... Eu não procurei a palhaçoterapia para poder ser bom aos olhos de Deus. Eu procurei a oportunidade de conhecer a palhaçoterapia e, através dela, fazer saúde. O bem que eu faço eu enxergo como consequência da minha visita, e não como finalidade. De uma certa forma, a igreja não foi um ponto que me motivou a fazer palhaçoterapia, mas eu fico feliz por poder, no final das contas, conseguir enxergar Deus no que eu faço. 
Allan: Se não é o bem, qual é a finalidade da visita? 

Sebbe: O que eu quis dizer é que a finalidade é deixar o paciente em um ambiente mais acolhedor, é dar suporte emocional ao acompanhante no processo de internação, é melhorar o ambiente e a rotina dos profissionais do hospital... tudo isso pra eles! É um bem? Sim. É finalidade? Sim. Mas pra eles (pacientes, acompanhantes e profissionais) não pra mim. O ponto é que as pessoas, muitas vezes, atrelam o fato de que as visitas servem pra que os outros possam nos enxergar como pessoas boas, como se as visitas fossem para promover uma imagem boa para a sociedade e para Deus. E esse fato é o que muitas vezes faz com que pensem que o fato de eu ser religioso é o que me motiva a atuar como palhaço. Até mesmo os elogios que eu recebo me causam certa estranhamento, até um pouco de incômodo, pois eles vêm através dessa mentalidade. Eu faço porque eu amo. 
Allan: De novo você está descrevendo o sublime da sua religião. O catolicismo coloca o bem do outro como grande bem. Toda a doutrina de fé é fundada na vida de um homem que transferiu a noção de sacrifício para si próprio em favor dos outros, e não mais sacrificar outros para agradar a Deus. E você ainda coloca uma condição para que isso aconteça: "que eu não seja glorificado, mas o próximo e ele apenas". Essa é a condição mais católica que se pode imaginar. 
Sebbe: Então... talvez o meu inconsciente me guie pra isso. Jamais pensei que fosse tanto assim, sabe? Pra mim sempre foi pelo palhaço em si. Não imaginava que, lá no fundo, a religião fosse tão determinante. 

Allan: O palhaço "em si" pra você parece não se desvencilhar da religião. O seu "em si" é um "para o outro". Isso é típico do "em si" cristão. A questão é se isso compromete o "em si" do palhaço? 
Sebbe: Nessa perspectiva, eu entendo que não comprometa. Acaba que se conota mais uma forma de cuidado, ainda que inconsciente. Na real, o palhaço no hospital tem um propósito maior do que a ideia simplória de proporcionar o riso. Acho que aí rola uma soma de intenções positivas: o cuidado artístico, o médico e o religioso. Eu não me imaginava inserido conscientemente nesse último. Essa conversa toda me abriu os olhos pra entender que tem mais Deus em mim, e no que eu faço, do que eu pensava. 
Allan: Excelente! Nosso capítulo fecha aqui. 😉

A criança em segundo plano

Allan: Amanda, aqui é Allan. Você leu aquele diálogo entre mim e o Mayko?

Amanda (1): Li agora, Allan! Interessante, na verdade, parece um pouco com aquela nossa conversa também que tivemos naquela atividade em sua casa. Mostra o lado complexo de alguém que é Y, mas que muitas vezes não precisa ser realmente definido. Complexo assim, né? Eu acho. Porque o Y, por mais que tenha um objetivo, cada um tem um olhar diferente depois de entrar. Cada um caminha em um aprendizado lá dentro, por isso determinar é difícil. Eu, por exemplo, vejo muita coisa diferente do Mayko, apesar de o fim dele ser o mesmo que o meu, nosso objetivo ser o mesmo. Mas, eu achei massa também a mudança que essa conversa mostrou. Se você conversar com o Mayko daquela nossa outra conversa de alguns anos atrás provavelmente ele não defenderia as mesmas coisas, eu talvez não leria da mesma forma, ou até o Allan não seria igual. Isso prova que o nosso próprio feeling, entre você e você mesmo, pode se tornar diferente dentro do projeto ao longo do tempo. Imagina entre você e tanta gente que compõe o Y. Por sinal, essas pessoas diferentes acho que é uma das coisas que mais dá cor ao Y. Torço muito pra que continuem tendo olhares diferentes como no meu tempo, era um crescimento e tanto.

Allan: Pois é. Eu te pedi pra ler, porque senti que aquela conversa que tive com o Mayko traía aquele momento que tivemos com você. Traiu? De outro modo, a criança para você era segundo plano?

Amanda: Não, pra mim não era segundo plano, pelo contrário, era o motivo da gente estar ali, era a motivação, apesar de não se resumir à criança. Claro que com a experiência com a criança, com doutor palhaço (que só se formava depois de algumas ou muitas visitas) ganhávamos muito além disso, ganhávamos tudo que o Mayko citou, um novo olhar do ser médico, principalmente. Acho que tentar ser um doutor palhaço provoca crescimento. E priorizar o doutor palhaço, o fato de "rir cuidando" engloba a criança, não tem como não ser. Justamente, acho que era um dos pontos daquela nossa conversa anterior: Criança x Crescimento pessoal. Esse tema encasquetou não só naquela conversa, foi inclusive problematização de seleção. Y não é caridade, projeto de igreja, isso também me incomodava na seleção. Mas, meu olhar acendia para aqueles que diziam gostar de cuidar e divertir, mesmo parecendo clichê, porque o Y é muito pra ser absorvido realmente pra quem tá de fora. Não achava que aquele que dizia que queria se conhecer melhor no Y seria melhor candidato, mas claro, há muitos outros fatores. A questão é que existem os dois: a criança e o crescimento pessoal. No caso aqui entra não só crescimento como Amanda, mas como Doutora Sem Nome também. A forma de ver e colocar em planos é que divergia. E, pensando bem, acho extremamente saudável para o projeto essa divergência, porque permitia ele se engrandecer em tantos fatores distintos e ser tão multi, pluri. Uma coisa que me aflige também, vou aproveitar que tu veio falar comigo, é o Y ser visto como o lugar daqueles que não se encontram com a faculdade, os "desajustados”. Isso não era a ideia dele inicial. Acontece que ele é realmente aconchego nos momentos difíceis, eu mesma precisei dele, e ele foi refúgio para muitos que não se encontravam, mas isso não pode ser tão, tão (não sei que palavra usar), por isso acho que a criança é primeiro plano entende. O Y muitas vezes é visto como um lugar "de certo tipo de pessoa”. Não me importa o que pensem, mas me importo que mude essa forma de enxergar, porque o Y é lugar de humanização acima de tudo, e qualquer pessoa pode ter essa possibilidade. Não sei se deu para entender?

Allan: Deu pra entender, sim. O nome da sua palhaça era Dra. Sem Nome?

Amanda: Na verdade não consegui criar um nome, aí ficou a brincadeira de Dra. Sem Nome.

Allan: Foi importante pra você viver a busca do seu palhaço no plano de alegrar a criança?

Amanda: Com certeza! Só que incialmente me atrapalhou, porque, na minha cabeça, eu deveria ser tão alegre e me encontrar tanto quanto aqueles que entraram junto comigo. Eu tinha que ter um nome, uma roupa incrível, experiências sensacionais nas primeiras visitas. Isso me afastou do projeto no começo, pois achava que não tinha lugar pra mim, e que eu não era uma doutora palhaça, porque às vezes eu era até mais engraçada e espontânea sendo Amanda do que doutora palhaço. E pra mim isso tava errado. Mas, foram essas conversas entre diferentes cabeças que me ajudaram nisso. Naquela nossa primeira conversa, vi que tinha gente que pensava como eu, e era ótimo palhaço. Nunca vou me esquecer de uma conversa que tive com o Gui sobre isso, ele me dizendo que a Doutora Sem Nome não precisava se esforçar pra ser legal, que a Amanda não tinha que provar nada para ninguém porque ela já era legal, que o nariz não era pra ser peso, era pra ser uma porta aberta pra se ser o que sempre quis e se divertir. E você depois me disse que meu lugar no Y era único, porque justamente ele precisava de gente como eu também. E, escutando tudo isso, vi que não tinha que ser tão complexo, sabe? Eu não tinha que ter nome e ser como os outros, não tinha que ter experiências fora do normal, toda uma técnica. O pequeno já era muito. E a minha busca pelo palhaço passou a não ser busca pelo nome, por um jeito, passou a ser busca por vivências, por divertir me divertindo e cuidando. Eu ia pro hospital pra alegrar a criança e o que eu recebia em troca era o que me fazia me encontrar. E depois de ir me encontrando é que pude tentar levar mais pro lado de ser mais doutora palhaça. Porque tudo tem uma forma melhor de ser feita, mas não igual. E podia ser sem peso agora, mas sempre tendo a criança no plano principal. Isso que me ajudou.

Allan: Fantástico! Fiquei pensando agora na metáfora do caminho. Eu falei com o Mayko sobre começar no Y motivado pelo palhaço e encontrar a criança no meio ou no fim. Você me fala de um caminho que começa pela criança (até mesmo mostrando a insegurança da sua criança) e encontra o palhaço no meio ou no fim. Mais uma coisa, você revelou pra gente sua profunda pertença a sua família. Ao contrário de muitos processos de adolescer, você não quis romper com a casa dos pais. Você acha que isso te fez mais imatura do que as pessoas ao redor? (Pergunta difícil e íntima, eu sei)

Amanda: Não acho que esse meu sentimento de pertença e não-atrito com a família tenha me feito mais imatura. Talvez possa ser imatura em algum aspecto por outros motivos da vida e não esse. Acho que essa relação da família além de ter relação com seu próprio jeito, tem a ver com as experiências em que você foi exposto ao longo da vida. E minhas experiências claro que tem pontos positivos e negativos. E minha família tem problemas como todas as famílias, mas não me deram motivos para romper com a casa dos pais, pelo contrário, eles sempre me possibilitaram o contato com o mundo de forma a aprender fora de casa. Nunca fiquei só na família, e me encontrei muitas vezes no erro, mas sempre sabendo que tinha para onde retornar, um lugar que iria me acolher embora me colocasse pra voar. E é meu sentimento de gratidão por ter uma família assim que me dá esse sentimento de pertença e prioridade na minha vida. As diferenças me fazem crescer, mas a essência, que é o amor, é que me faz permanecer (e eu não sei como descrever isso porque é abstrato como sempre deixei claro). Acho que amadurecer não tá ligado a uma experiência propriamente específica, né? Cada um amadurece nas suas próprias dificuldades, só que o que é dificuldade pra você pode não ser pra mim e vice-versa. A nossa forma de lidar com as emoções, com certas situações, é diversa também. Acredito que a forma de lidar não necessariamente diz quem tem mais maturidade ou não, reflete muito mais a personalidade da pessoa.

Allan: Adorei suas colocações. Eu estou redigindo um livro para ser lido pelos iniciantes do Y. Aquela conversa com o Mayko foi o 1o capítulo. Essa conversa aqui será o segundo, se você permitir. Acho que sua fala é imprescindível para ser lida por todos os novos, para termos a pluralidade das vozes. Você topa?

Amanda: Sim, claro!

Allan: Pois me fala a última coisa. Qual o conselho que você daria para uma pessoa recém-ingressa viver o Y da melhor forma possível?

Amanda: Todo mundo é diferente, você não tem que ser mais engraçado, ser um palhaço pronto ou ter a roupa mais bonita para poder ser Y. Ser Y é poder se divertir sendo o que você sempre quis ser e fazendo bem com seu cuidado. É colorir o dia, é ser doutor palhaço, palhaço que nem sempre faz rir, porque o remédio nem sempre é esse. Mas, estar lá para dar o seu melhor. E pra ser único, não precisa ser definido, não precisa saber dizer quem se quer ser. Pra ser único, basta se permitir viver os encontros que são cada visita, não tenha pressa.


domingo, 2 de julho de 2017

Diálogo domingueiro sobre ser palhaço, do Y, querer ser doutor, e outras bagatelas

Allan (1): Falei recentemente com a Júlia Sargento (2), pedi dicas de como dar oficina. Ela me falou algo intrigante: "tem que, primeiro de tudo, ver a motivação das pessoas para entrar no palhaço. Porque visitar crianças hospitalizadas para dar alguma alegria e bálsamo pra elas, várias atividades podem fazer isso. Mas, será que o palhaço é o caminho DESSA PESSOA SINGULAR que está querendo fazer isso?"                        

Mayko (3): MOR-TO                        

Allan: Fiquei pensando quantos não ficam deslocados no Y porque não era o caminho dela [dessa pessoa singular].
                        
Mayko: Faz muito sentido.  
                      
Allan: Vou dividir contigo o e-mail. Chega já.                        

Mayko: Mas, mano, foda isso. Eu sou muito bolado com quem quer entrar no Y porque acha que é projeto social, caridade, alegrar as crianças. A gente nunca se propôs a ser só isso, mesmo assim várias pessoas acham que é isso que a gente é. Sempre sinto muito isso lendo os materiais da seleção. Cheio de nego mandando coisa pra gente como se fosse participar de ONG ou coisa de igreja.    

Allan: Sim. Pelas palavras da Júlia, e nesse momento fico pensando mais sobre isso, o palhaço de fato deveria vir primeiro. E não a caridade, a igreja, a ONG. Não que não seja importante a caridade, a igreja, a ONG, mas é que se não, não tem palhaço. Daí algumas pessoas saírem logo. Vêem que não era o que sonhavam.                        

Mayko: Eu achei que tu ia discordar de mim, tô feliz!                        

Allan: Tem gente, como aquela nossa amiga querida, que não sai, mas também não fica. São pessoas que captam a grandiosidade da coisa mas sentem no fundo que não é o caminho delas. Mas, se amam o fim, são muito trôpegas no meio. Pra pessoa se encontrar mesmo no Y tem que sentir sede de ser palhaço. A criança pode até ficar em segundo plano, mas é um plano. O final dessa história é o encontro da sede do palhaço com a fome do sorriso da criança sofrida. 
                       
Mayko: Da minha ótica falta a variável doutor na tua equação. Mas concordo com tudo, fora isso.
                        
Allan: Eu me tornei imortalmente Y, porque o palhaço sempre foi importante pra mim. E a criança, idem. A síntese tava meio feita, ainda imatura, mas encaminhada. 
                       
Mayko: Mas é muito difícil não perder o palhaço no caminho, ó, Allan. A faculdade meio que engole muito. Esse semestre [o último antes dos estágios finais] eu visitei 4 vezes, só, eu acho. 
                       
Allan: Na minha ainda pobre visão, acredito que o sentimento de querer amenizar o sofrimento é o que nos dirige para o doutor. Antes de exercer a profissão de fato, esse desejo tem que ser centuplicado. 
                       
Mayko: Hum... eu discordo. Acho que incluir o doutor na equação como variável, e não como resultado, é importante.   
                     
Allan: Cara, é que acho que não se pode incluir uma variável que é uma incógnita em uma equação que queremos que resulte em algo. O que diabos é ser doutor? Fui descobrir isso ao final do meu primeiro ano de formado, e ainda de forma tosca. 
                       
Mayko: Sobre por que diabos a variável doutor tem que entrar na equação:


  1. Pra que a relação que você tenha com a criança não seja de mero palhaço que veio te fazer sorrir. Mas pra que seja, também, de cuidado. E acho que o doutor acrescenta isso de forma mais óbvia. Muda a relação.
  2. Pra mudar a relação do palhaço com você mesmo. Percebi em um dos meninos do Y, esses dias, que uma crise comum ao Y é a de identidade. O palhaço não é a pessoa. A pessoa não é o médico. E no fim são três pessoas diferentes tentando existir juntas. Unificar as três imagens é parte do processo, pra mim. Eu sou Mayko, Caju e doutor. E sou os três ao mesmo tempo, sempre, mesmo quando sou mais um do que o outro. Destruir as barreiras que eu construí entre essas três imagens foi importante pra consolidar os benefícios do Y pra mim.
  3. Pra desmistificar, que é o óbvio.                        
- Sobre ser essa variável uma incógnita:
  1. Não acho que é tão incógnita, pra muita gente. 
  2. A gente experimenta o "ser doutor" de várias formas bizarras, na universidade. Aulas práticas, argüições, perguntas de familiares. Por que a visita não pode ser uma forma de experimentar o "ser doutor" sob uma ótica diferente? Sem tanta pressão, sem tanto stress... com sorriso, pra variar? Fazer sorrir não é cuidado? Conversar não é cuidado? Ouvir não é cuidado? Por que seriam privilégios só do palhaço? É bom que a gente experimente o Y como doutores, também. Ainda que a gente não saiba o que é isso. Porque é pra isso que o Y existe, não é? Pra formar doutores mais humanos. Não dá pra achar que isso um dia vai vir como resultado de equação. Doutor é construção, não um fenômeno que vai acontecer, eventualmente. O Y também é uma forma de experimentar ser doutor. E de construir essa ideia. Construir o ideal de doutor que eu quero ser. Por isso acho que não dá pra excluir. Não faz sentido ser só palhaço pra mim. É Doutor Caju. Sempre foi Doutor Caju. Mesmo quando eu queria desistir da medicina. Mesmo agora que eu cada vez mais percebo que não sei ser médico. Tô triste que esse papo tá só entre nós dois. Renderia tanto!                        

Allan: Acho que é os dois: Construção e Acontecimento. Não creio que esse diálogo vá dar em algum lugar, porque defendemos duas faces da verdade. O interessante da sua proposta é o que qualquer sistema de ensino médico preconiza: formar o ideal do médico para quando houver o choque da realidade ver se surge uma síntese mais sã. O problema também é da minha história. Sou extremamente ingrato com a universidade, por tudo que ela destruiu em mim. Ainda não elaborei direito a noite que ela representou. Por isso tendo a dizer: o doutor que temos em mente na faculdade é uma incógnita (querendo dizer: é um nada). Vou copiar isso aqui, trabalhar e transformar numa postagem.  
                      
Mayko: A faculdade não foi doce pra mim, também (risos). Melhorou faz pouco tempo, e continua ruim. Mas, não acho que não é desse ponto que a gente tem que partir, apesar de historicamente o Y ser um ninho de desajustados. Eu gosto de experimentar ser médico, mesmo sendo ignorante. Por isso que gosto de ir pro estágio. Por isso que gosto de aula prática. Por isso que gosto de ir pro hospital. Sabe porque eu defendo muito isso? Porque a visão de que o médico vai acontecer quando a gente se formar parte do ponto que antes da faculdade a gente tinha uma vocação. A faculdade destruiu essa vocação. E aí vamos nos reencontrar com ela quando nos formarmos. Sendo que o ideal é a vocação não morrer na faculdade. Tu nunca achou que tinha vocação pra médico. Talvez estivesse aí o erro. 
                        
Allan: Parece então que sua vontade de ser doutor é infinitamente mais suficiente para dar força a algum conceito do que foi a minha. Olhando para trás fico me perguntando o que foi aquilo. Lembro-me das pessoas que amei e amigos, e quase nada da medicina. Eu fiz dessa estrofe da música "Carrossel do Destino" a síntese da minha faculdade ao final de tudo:  


   Deixo os versos que escrevi 
As cantigas que cantei
5 ou 6 coisas que eu sei
E 1 milhão que eu esqueci

Deixo este mundo daqui
Selva com lei de cassino
Pra renascer num menino
      Num país além do mar!      
                  
Mayko: Morto, que bonito, mah! Me contempla, um pouco (risos). Mas, eu voltei a ver vontade de ser médico em mim. Inclusive já te disse que tu foi importante nisso. Desde de lá do quinto semestre. E agora de novo. Mas, a faculdade ainda é estranha e ruim, mesmo. Não deixar a vocação morrer é importante justamente por isso. 
                       
Allan: Eu tinha uma vontade de ser o que a faculdade não me mostrou. Na minha cabeça tinha o Ser, e na faculdade, veio o Não-Ser.      
                  
Mayko: E quando digo vocação é mais "vontade". Porque vocação sugere "capacidade de ser aquilo". E falar sobre ser capaz é pesado (risos). 

Allan: O pior é que, ao meu redor, as pessoas pareciam bem mais encontradas que eu. Fora raros habitantes que encontrei vagando na minha ilha. Minha primeira namorada na faculdade era quase igual a mim. Estava ilhado por pessoas que conseguiam nadar na correnteza. Eu me entregava aos vórtices. Experimentava a água salgada enchendo os pulmões. Salgava os olhos, e chorei uma vez - uma vez.  
                      
Mayko: Risos. Meus dois melhores amigos - praticamente únicos - na sala nova desde que eu voltei do Ciência Sem Fronteiras (CsF) são dois gênios muito bem resolvidos. E que, inclusive, tem, de vez em quando, discurso de que seu desempenho nas provas reflete o profissional que você vai ser. Imagina como é difícil ficar com eles dois 😅.
              
Allan: Reflete de fato. Menos em termos de excelência do que de caminhos. As provas da faculdade são o salvo-conduto para aquela medicina que eles definem, para aquele tipo de médico que eles definem. Se a medicina é uma construção histórica das respostas que nós humanos demos de dar para o sofrimento humano, a experiência de ser médico é simplesmente infinita. Veja o espectro da luz, vemos as cores que os olhos podem ver e ponto.             
           
Mayko: Eu não acho que reflete tanto. Mas sei lá, né? Ainda assim é ruim ouvir isso dos seus amigos. Até porque às vezes eles mal estudam e ainda assim tiram nota maior que eu (risos). Mas, essa conversa desandou, falar de nota não é interessante.
                        
Allan: Então a postagem acaba aqui, senão fica muito grande.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Dez anos



É um tanto obrigação para mim falar sobre o que foi nossa noite de dez anos. Não porque tenham me obrigado, mas é que necessito. 

Não vê? Já se foram dez anos. Recentemente descobri que é o mesmo intervalo de tempo que me separa da última geração. Minha coluna dói na cervical e na lombar. Acordo todos os dias feito boneco de cera, e o sol vai me amolecendo. Meu joelho está com a cartilagem fissurada porque o espírito não aceita que tenhamos envelhecido, e insiste em nos fazer dançar ao máximo. É daqui que olho para este tempo passando e vejo a magreza que eu não achava que tinha e os amigos que eu não fazia ideia que eram tantos. 

O projeto Y é um pedaço muito pequeno do mundo. Em uma matemática leviana, podemos contar cerca de nove gerações idas, cada qual com cerca de dez a quinze integrantes, fazendo, então, algo em torno de cem peregrinos. Foi isso que ele sempre foi para todos: uma ponte. 

Nunca vou me esquecer da cena da minha infância em que brincava de bicicleta com meu primo em cima da ponte que levava para... não sei onde. Não sei para onde a ponte levava porque sempre brincávamos na ponte. Em certo momentos parávamos e íamos mijar no lago sob ela. Não havia tempo de voltar para casa. Perderíamos brincadeira. Perderíamos por quê? Não fazíamos ideia o que nos esperava adiante. Eram as meninas que namoraríamos, os estudos que se aprofundariam, a faculdade, as doenças de nossas mães, o casamento, os filhos. E, todavia, a ponte continuava ali, em nós.

Por ela, passou gente que eu mal fazia ideia do quanto eu amaria. Recentemente fiz um trabalho sobre o projeto Y, e as entrevistas foram reencontros. Outra coisa é que saímos de nós. Os que estiveram na frente daquela noite decidiram homenagear estes outros que encontramos. Encontramos outros palhaços mundo a fora que comungavam do que sentíamos.  Sabe qual o sentido de comunhão, né? É um bolo que se reparte e não se acaba, porque não é divisão, é partilha. 

Como dizia, este projeto é um pedaço pequeno. Vivemos dizendo que a ideia é conquistar o mundo que nos acolhe, mas todos nós, no fundo, sabemos que isso é balela. O bonito daquela festa não foi ver o quanto conseguimos nos proliferar, mas o quanto conseguimos nos unir, verdadeiramente. Reconhecer nos outros o que nós fomos, somos, seremos, queremos. Parar um pouco para mijar ali, que não havia tempo de voltar para casa. Não dava mais para voltar para casa. Não a mesma casa. Não o mesmo eu. 

Allan Denizard (Dr. Acerola)

sábado, 23 de maio de 2009

FuxYrYco


A pedidos da TICI, eis aqui seu afilhado!



domingo, 10 de maio de 2009

O que é o Y?


Calygrafya...

sábado, 18 de outubro de 2008

O que é o Y?

Eu sei que eles são lumynosos. Não sei o que houve. Ou ele me cegou, ou ele estava contra o sol. Aí só deu pra aparecer na foto assim.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O que é o Y?



Aconteceu na sala de Quimioterapia, com a Dra. Quinam, Dr. Manjericão e a paciente Maria, de 16 anos.


O casal de palhaços adentra a sala lotada e Dr. Manjericão esquece o primeiro mandamento do cavalheirismo: damas primeiro. Dra. Quinam tem forte acesso de mágoa que a leva a um grande desabafo em meio aos pacientes. Entre choros e lamentos a paciente Maria pergunta:


- Por que você não se mata?


A artista por trás da máscara pensou por um segundo e resolveu encarar o tema da morte na frente das crianças. Enbarcou naidéa de Maria concordando que essa seria a única solução para TAMANHA tragédia. Após decidir com os presentes a melhor forma de suicídio, subiu em um banco pronta para se jogar no abismo. Neste momento, Dr. Manjericão começou a tocar seu violão e cantar: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina que vem e que passa, num doce balanço a caminho do mar..."


Manjericão tentava fazer sua parceira mudar de opinião enquanto Quinam, na sua idéia fixa de suicídio, pronunciava seu testamento. Devagarinho, um coro de vozes foi aparecendo e a "Garota de Ipanema" tomou conta da sala. Enfermeiras pararam seus afazeres para ajudar com suas vozes. Dra. Quinan, claro, desistiu do suicídio para se reconciliar com Manjericão.


E a bossa foi esta: em cima da cadeira ou a beira do abismo, em qualquer limite que se trace entre realidade e fantasia, vale a pena arriscar um espaço para falar das coisas da vida.


(trecho editado do relatório de atividades da artista Marina Quinam, integrante dos Doutores da Alegria)

sábado, 22 de setembro de 2007

O que é o Y?


Há uma aerodynâmyca bem ynteressante nessa conformação. Vocês não acham?

domingo, 26 de agosto de 2007

O que é o Y?

Porque precisamos passar a olhar a vida sob outras perspectyvas!

sexta-feira, 16 de março de 2007

O que é o Y?


TREYS FLORES PARA O Y

Difícil não falar: que lindas!
Poderia tal beleza ser menor?
Imagine-as isoladas.
Poderia tal beleza ser maior?
Imagine-as em um ambiente tão belo quanto.
O Y é como o conjunto dessas flores
E cada um de nós somos uma delas.
Diferentes.
Importantes.
A beleza só se completa
com a união das flores.
Mas isso não basta.
Assim como um jardim
É ofuscado pela casa mal cuidada,
O Y não é tão belo
se não zelarmos pelo lugar onde costruimos nosso sonho.
Lutamos pelo o que nos impede de pelo menos tentar prolongar tal beleza
Então não vale a pena?
Olhe para elas...
Por Mya

quinta-feira, 15 de março de 2007

O que é o Y?



O Y foi o símbolo mais perfeito para o nosso projeto. Ele é cheio de significado - como todo símbolo ¬¬. Mas é muito significado mesmo. Parece uma coisa boba - como nosso projeto. Mas é tagarela no seu silêncio - como um bom clown. E começaremos a postar aqui as muitas nuanças que ele pode ter. Aí está nossa primeira contribuição.