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sábado, 14 de abril de 2018

O neurologista

Convidaram-me para um congresso onde os palestrantes vieram falar sobre humanização, e alguns sobre a palhaçoterapia nesse contexto. Estamos em Cuiabá. Um destes palestrantes foi o fundador do projeto daqui: José Guilherme Schwam Júnior. Eu gosto de conhecer essas pessoas. Fico querendo ver as virtudes que levam alguém a conseguir um tal feito: fundar um projeto contra-hegemônico numa faculdade dura. 

O jovem Schwam disse-nos que era um feito da turma dele. Eram pessoas disponíveis para o novo. Contudo, há uma aura no rapaz que denuncia uma liderança bem-vinda. 

Fala fácil, pensamento rápido, presença de palco na vida. As poucas horas em que o vi existindo, vi-o apontado para o outro, resgatando saudades da cidade que entregou seu diploma de médico. Ia dizendo lugar por lugar, como que reconhecendo o território que um dia lhe acolheu, mas também revelando a intensidade com que viveu as amizades.  

Um dos maiores temores enfrentado por estudantes da saúde, particularmente na medicina, que se dedicam à palhaçoterapia é o de esta ação prejudicar seus estudos. De tal forma, que quando eles encontram alguém que muito se dedicou ao projeto e hoje é um representante dessas especialidades difíceis, como neurocirurgia ou neurologia, ficam gratamente felizes. 

Schwam é neurologista. Abriu este congresso com uma aula brilhante que começava apresentando o cérebro como órgão dos seus amores para então ir revelando como o palhaço que ele foi ajudou a incrementar seus conhecimentos médicos. Trouxe uma revisão de artigos, numa abordagem bem acadêmica, para fazer os caçadores de evidência se abrirem para esta práxis do riso. Encaixou piadas certas em momentos oportunos de forma equilibrada no discurso. A mensagem chegou ao público.

Esbelto, aprumado, penteado, cuidadosamente imberbe, fala bem pontuada, chegamos a pensar que é uma falsa modéstia sua advertência de nervosismo ao começo da palestra. Vamos assumindo que ele mais parece uma montanha com altura que impõe respeito, tamanha a intimidade com os circuitos complicados do cérebro. Até que entra nas mais belas histórias que viveu junto aos pacientes visitados pelos palhaços, avermelha os olhos, segura o choro. Não é uma montanha. É um menino. É a criança de que fala Nietzsche, com a qual deveria se parecer o homem do futuro, sucessor do camelo (carregador de fardos) e do leão (rugidor, esbofeteador e revolucionário). Um lado do cérebro alimenta-se de arte, o outro, de ciência, e estas duas são asas. Pesam para quem não as sabe usar. Do contrário, voam. 

Schwam voou hoje e nos fez voar.   

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Sobre ego

Quanto vale arrancar um sorriso?
E quanto vale enxugar uma lágrima?

Pense de novo, mas agora num hospital:
Quanto vale arrancar um sorriso de uma criança acamada?
E quanto vale enxugar as lágrimas de uma criança com dor?

Quem consegue responder? Quem se atreve a escolher?
Pera... por quê ta todo mundo olhando pra mim? Ei, parem de me encarar! EI QUEM COLOCOU ESSE JALECO EM MIM? NÃO! EU NÃO QUERO ESCOLHER! EU NÃO SEI ESCOLHER! EU NÃO TO PRONTO PRA ESCOLHER! MEU DEUS EU NÃO TO PRONTO PRA ESCOLHER!
MEU DEUS, EU NÃO TO PRONTO PRA SER MÉDICO!!!

Arf... arf... arf...

--------------------------------------------------------------

Eu tava lá, era Sexta-Feira de tarde e era uma das minhas visitas mais divertidas em muito tempo. Todos riam de nossas piadas, de nossos pequenos números e todos pareciam nos aplaudir com seus sorrisos largos e nos incentivar a continuar a rir, cantar e... (por quê evitar essa palavra?)... estrelar. Éramos estrelas e aquele quarto de hospital era o nosso público, e todos nos aplaudiam de pé. Era bom.

Mas... todos mesmo?

Nos despedimos do quarto, ofegantes e risonhos e, só então, pela primeira vez, eu vi uma menina com dor. Ela tinha os olhos úmidos e não me respondia. Quero dizer... ela não me ignorava. Ela falava comigo quando eu perguntava. Mas ela não me respondia. Você entende? Eu tava lá! Ela também tava! Mas... não...

Se bem que... eu tinha respondido ela?

Pensei bem... eu olhei pra ela quando entrei no quarto. Eu provavelmente olhei para seus olhos úmidos. Mas eu também olhei pra olhos ansiosos e sorrisos expectantes. Resolvi, naquele momento, ver só um deles. E os aplausos de todos que eu enxergava amaciaram gentilmente meu ego. E era tão bom! Era tão gostoso! Era tão mais fácil! Meu deus, melhor visita!...

...mas agora eu tava dando tchau e eu acabei vendo ela. Mas do que olhar, eu a vi! Droga! Eu a vi! E agora, justamente agora, eu precisava ir embora! Percebi que, no mesmo quarto que eu escolhi arrancar sorrisos e gargalhadas eu também escolhi negligenciar aquelas lágrimas. Ignorar aquela dor...

- Me desculpa, ta?
Minha alma gritava. Minha boca mal sussurrou. Ela assentiu. De que adianta?

Eu queria não ter visto ela. Teria sido tão mais fácil. Por quê ela tinha que estar lá? Por quê ela tinha que sentir dor justo naquela hora? Por que ela tinha que me fazer escolher? Por que eu tive que me despedir? Por que eu só não sai, sem dizer nada...? Droga!

Mas eu realmente me sentia culpado? Se sim, por que eu ainda me sentia tão bem? Por que eu ainda tava tão agitado e empolgado?

Eu não sei.

Mas não me ataquem, por favor! Eu não tava pronto! Eu não TO pronto!!! Eu não quero ter que escolher!! EU NÃO SEI ESCOLHER!!!

Tirem esse jaleco pesado de cima de mim!!

Arf... arf... arf...

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Nossa nova dynastya

Anualmente temos a sucessão dos cargos de liderança. Acredito que o caminho natural de um futuro líder nosso é o de (1) persistir no projeto (2) de forma ativa (3) com voz cada vez mais presente. Não tinha ideia quanto tempo levava para se conseguir isso - há alguma cartilha que diga? Imaginava que seria necessário talvez mais de um ano. Mas, a nossa mais nova dinastia mostrou que trezentos e sessenta e cinco dias é mais do que suficiente para gerar sangue nobry nas veyas. 

Vejam só, a nossa nova rainha é uma garota de um ano atrás que, quando os novatos mais artistas e viajantes ficavam contando suas experiências místicas e psicológicas dentro dos jogos de palhaços que íamos convidando a participarem, ela dizia que sentia muito, mas não sentia a mesma coisa que aquele povo. 

Sempre fico receoso com as pessoas que não falam tanto sobre suas experiências internas. Tolice minha. Gostaria de ver nascer neles o que sou: um cara extremamente tagarela sobre meus processos viscerais. Mas, vim sendo essa coruja que fica na sombra do projeto, olhos arregalados bisbilhotando-os. Eis que vejo a moça não-viajante crescer. Talvez vivenciando um primeiro semestre que nem foi tão importante para ela, mas abraçando um segundo semestre em que sua voz espalhava força gradativamente. 

Quase agora, quis ela re-experienciar a oficina de iniciação para os novatos. A mesma de há um ano. Então, ressignificou todo aquele processo e viu o quanto tudo fazia mais sentido. Não esteve presente como uma facilitadora. Com uma bonita humildade, esteve junto com todos os outros, feito todos os outros. Então, lembrei-me da fala de uma ex-líder nossa, a Gaby, que tive o prazer de entrevistar:


A gente percebia que os melhores integrantes (2006-2008?) eram aqueles que mais amavam estar ali, os que mais se dedicavam, e muitas vezes não eram os que eram engraçados, os que faziam as melhores piadas, e tudo. E nem sempre esses mais engraçados eram o que as crianças mais gostavam. Era estar ali, com o desejo de querer ajudar, era o seu... o amar estar ali. Era assim que a coisa fluía durante as visitas, e não só nas visitas, pois o nosso projeto ia além da visita em si. 

Gaby não se achava uma palhaça engraçada, nossa adorável Dra. Marmota. Bem, a vi crescer no palhaço. Eu a achava. Acredito que Ana Flávia tenha a mesma percepção de si: sem graça. Na verdade, ri muito de suas atitudes na nossa recente oficina. De qualquer forma, ela está perfeitamente encontrada nesta fala da Gaby - abstração feita da graça (se ela quiser que polemize isso) - no que tange o estar aquy, presente, ativa, falante, vibrante. O que ela veio se tornando até se tornar nossa lyder. 

O que vi nesta oficina foi de uma grandeza ímpar: descer ao nível dos iniciantes para enxergar as alturas do que já percorreu; voltar ao passado para divisar o futuro que lhe espera e que vinha nebuloso. É assim que uma plebéya se torna raynha. 



Allan Denizard (Dr. Acerola)


sábado, 18 de abril de 2015

Reflexões sobre nossa hystória

Allan Denizard diz:
ei
Allan Denizard diz:
ei
Allan Denizard diz:
ei
Allan Denizard diz:
ei
KaiLa diz:
uoi
KaiLa diz:
parece tu msm na foto
Allan Denizard diz:
aaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh
Allan Denizard diz:
a primeira pessoa que concorda com a minha realidade (foto do Volverine)
Allan Denizard diz:
!!!
Allan Denizard diz:
valeu!
KaiLa diz:
hahahaha
Allan Denizard diz:
escrevi um artigo sobre o INVENTÁRIO
Allan Denizard diz:
lê lá
Allan Denizard diz:
http://projetoy.blogspot.com.br/2009/04/os-doutores-da-alegria-estiveram-em.html
KaiLa diz:
sabia q ia dar nisso...
KaiLa diz:
e tu escreveu p eles?
Allan Denizard diz:
não sei se eles vão gostar do que eu escrevi
Allan Denizard diz:
lê lá!
KaiLa diz:
n, n tou falando do artigo ser p eles
KaiLa diz:
e sim uma msg no blog deles esclarecendo as ultimas duvidas..
Allan Denizard diz:
não
Allan Denizard diz:
lê lá!
Allan Denizard diz:
tu tá lendo?
KaiLa diz:
tu te acalma aí, q tou lendo
KaiLa diz:
tá qbrando o clima
KaiLa diz:
aullan
KaiLa diz:
tu mandou isso p eles?
Allan Denizard diz:
não
KaiLa diz:
eu gostei
KaiLa diz:
prncipalmente pelo final
Allan Denizard diz:
mas eu deixei o blog pra eles visitarem
KaiLa diz:
tu acha q n há amor no q eles fzm?
Allan Denizard diz:
não
Allan Denizard diz:
acho que eles não se tocam do amor que há no que eles fazem
Allan Denizard diz:
de que a essência da arte deles é amor
KaiLa diz:
sei não..
KaiLa diz:
assim, o q me pareceu foi mai ou menos aquilo q a gnt discutiu no email do y
KaiLa diz:
e q tu tb falou nesse artigo
Allan Denizard diz:
hum...
KaiLa diz:
pela necessidade de se qrer ser levado a sério
KaiLa diz:
acaba q eles procuram dar mais ênfase na "ciência", no trabalho árduo e tal
KaiLa diz:
do q naquilo q provavelmente os move
Allan Denizard diz:
perfeito Kakys
Allan Denizard diz:
concordo
KaiLa diz:
n acreditam q eles façam esse tipo de trabalho só p ganhar dinheiro p viver
Allan Denizard diz:
e o trabalho deles fica infinitamente menor pensando assim
Allan Denizard diz:
por mais sorrisos de qualidade que eles arranquem
KaiLa diz:
é...
KaiLa diz:
mas tu vê q eles dxam escapar q n é só isso, n eh só técnica
KaiLa diz:
qdo dzm no espetaculo e voltam a repetir na discussão
KaiLa diz:
q n se pode perder a ternura
Allan Denizard diz:
sim sim sim
Allan Denizard diz:
de certa forma
Allan Denizard diz:
ainda não encontraram a identidade deles
KaiLa diz:
acho q na arte, assim cm na medicina, hj é possível se trabalhar só cm p ganhar dinheiro sim e obter sucesso
KaiLa diz:
mas, em certo ramos, da arte e da medicina, n basta só técnica
KaiLa diz:
né n?
KaiLa diz:
 de certa forma
 ainda não encontraram a identidade deles

KaiLa diz:
hahahha
KaiLa diz:
a gnt sim, né
KaiLa diz:
mas parece q é por aí msm
KaiLa diz:
hj eu me sinto bm mais tranquila qto a isso, sabia?
Allan Denizard diz:
acho que nossos achismos são melhores achados
Allan Denizard diz:
você não se sentia?
KaiLa diz:
as 2 coisas podem e devem coexistir sem detrimento da outra
KaiLa diz:
nao..
KaiLa diz:
mas assim..
KaiLa diz:
tvz seja importante passar por varias fases
KaiLa diz:
por exemplo, bm no inciozim do y
Allan Denizard diz:
o Pacheco dizia que deve muito ao estilo tradicional de dar aula.
Allan Denizard diz:
Foi dando mil aulas tradicionais que ele se apercebeu do quanto elas eram inúteis
Allan Denizard diz:
fala
KaiLa diz:
kkkkkkkkkkkkk
KaiLa diz:
pois eh... naqla éopa, foi importante o "amor", digamos assim
KaiLa diz:
foi a paixão q fz com q fizessemos td o q fizemos... de ter coragem de montar m projeto assim, de ficar indo atrás de orientação, de ter perdido horas e horas de folga planejando cm seria, etc e tal
Allan Denizard diz:
foi!
KaiLa diz:
aí veio o macedo dzndo q era melhor ter um preparo mais tecnico, objetivar mais a preparação da equipe, focando mais na formação de um palhaço mais "profissional" q seria principal ferramenta do grupo..
KaiLa diz:
enfim, isso foi super importante tb.
Allan Denizard diz:
foi tb
KaiLa diz:
e aí,a  gnt estudou mais o palhaço do q eu estudei genética
Allan Denizard diz:
hauhauahauhuha
KaiLa diz:
e foi bom. acho demorou mais p gnt chegar na fase de se achar sem graça
KaiLa diz:
e com isso ter um monte de visita acumulada em q a gnt pode ver
KaiLa diz:
q a realidade obviamente n era tão romântica qto tvz a gnt pensasse ser
KaiLa diz:
no início, eu pelo menos tinha uma visão mais romantica, acreditava mais no poder transformador da "palhaçoterapia"
KaiLa diz:
depois agnt vê q é importante, mas tb não ééé coisa de super herói salvando o mundo
KaiLa diz:
aí a gnt passa a qrer fazer trabalho p provar q tm alguma serventia o q a gnt faz
KaiLa diz:
e até onde isso vai
Allan Denizard diz:
mas será se precisa provar?
KaiLa diz:
mas vê... se no incio, a gnt n tivesse essa visao mais romantica, se a gnt n acreditasse q eramos pesoas com y na testa levando amor aos hospitais
Allan Denizard diz:
YYY
KaiLa diz:
será q a gnt teria feito td o q fz?
Allan Denizard diz:
acho que a nossa história provou pra gente mesmo que assim devia ter sido para ser hoje o que somos
KaiLa diz:
poiseh!!
KaiLa diz:
aí a gnt entrou nota fase, de fzr trabalho, fzr ciencia e
KaiLa diz:
e recusar convites
KaiLa diz:
pq a gnt era palhaço de HOSPITAL, coisa profissional, bm estudada e td
KaiLa diz:
n dava p ir ficar alegrando velhim em asilo
KaiLa diz:
criancinha em orfanato
KaiLa diz:
dxa isso pros voluntarios da igreja
Allan Denizard diz:
humrum
KaiLa diz:
aí a gnt se fechou... e passou a focar mais no papel do palhaço no hospital, na terapia...
KaiLa diz:
e daí sairam trabalhos em congressos, publicação em revista
KaiLa diz:
bolsa de extensão...
Allan Denizard diz:
bem-vinda bolsa
KaiLa diz:
a gnt objetivou a coisa. transformou em numeros, dados, resultado
KaiLa diz:
resultados
KaiLa diz:
enfim... importantíssimo tb
KaiLa diz:
a gnt vê pela seleção de novos integrantes
KaiLa diz:
ñ é mais a msm multidão
KaiLa diz:
mas tm mais "qualidade", a maioria dos candidatos sabe onde tá se metendo
KaiLa diz:
n vm mais só o povo atrás de folia. e aqles "mais sérios", mais cientistas tb se interessam
Allan Denizard diz:
foi boa as aspas
KaiLa diz:
poiseh... posso estar errada ou isso só estar se passando pela minha cabeça, mas parece q agora se tenta achar o equilibrio disso no y
Allan Denizard diz:
equilíbrio entre o q e o q?
KaiLa diz:
 "Hay que pegar la veia, perder la ternura jamás!".

KaiLa diz:
hueihiuheiuheie
Allan Denizard diz:
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Allan Denizard diz:
Gostaria de deixar claro que eu estou copiando essa conversa para disponibilizar na nossa lista de discussão

(A conversa continua, mas o Yahoogrupos truncou ela por exceder a capacidade de armazenamento de um e-mail isolado). 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Palhaço, Sorriso e Instante como Terapia [de existir]




Referências da Palestra dada originalmente ao dia 09 de março de 2015 como parte do Curso "O cuidado à Criança: uma abordagem interdisciplinar humanizada".

Primeiro momento: Sobre o palhaço, a finitude, a fragilidade e a deformidade humana essencial. Sobre a contigência da nossa existência primordial à lei que nos ordena. Sobre uma visão não-fantástica do homem: o menino vadio, passível de se perder, fraco e tolo.

Para essa reflexão me vali da Música de Chico Buarque "Sem Fantasia" e a análise da mitologia grega de Ilíada e Odisséia, frisando a figura de Ulisses, o símbolo do grande Herói, mas cuja travessia de volta para seu reinado é marcado pelas humilhações que vai sofrendo e as ilusões a que vai sendo submetido até o ponto de atingir a lucidez de querer ser quem realmente é: o rei de Ítaca, possuidor do leito de Penélope. Embora Ulisses seja o símbolo do grande herói, minha tese aponta que foi no momento em que se reconheceu como simples mortal que se aproximou da simpatia dos deuses. Essa tese não foi aprofundada a contento e explicitamente porque dei mais vazão aos recursos cômicos que empreendi com a platéia, mas ei-la aqui exposta. Sobre essa tese, não é originalmente minha, mas um diálogo com reflexões de Luc Ferry que a expõe em vários momentos de sua obra, particularmente em "Aprender a Viver 2: a sabedoria dos mitos gregos".

Segundo momento: Sobre o sorriso, que é um sub-riso, portanto, sobre o riso, o quanto ele nos define (o único animal que ri, dizia Aristóteles), o quanto ele nos expõe (Hobbes), o quanto ele nos humilha (Platão), o quanto nos afasta da verdade pura (ainda Platão), o quanto ele nos diferencia de Deus e dos outros animais (ideia Medieval), MAS TAMBÉM o quanto ele nos devolve à humanidade, nos tira o peso da perfeição, nos ajuda a palpar as próprias feridas e fragilidades com leveza, fazendo-nos participar de uma alegria compartilhada quando nos entregamos ao ofício de palhaço, ao sublime de um amor que não nos quer forte para se preencher, mas nos quer como nós somos para nos amar por amar, sem porquês.

Para essa reflexão me vali largamente das análise de Verena Alberti em "O riso e o risível na História do Pensamento ocidental". Mas também de Ariano Suassuna em "Iniciação à Estética".

Terceiro momento: Sobre o instante como outra forma de pensar o tempo, um tempo dilatado, um tempo que dura, um tempo de delicadeza, um tempo de emoções, um tempo não-escatológico, não-apocalíptico, não portador de flecha de sentido, mas buscador da riqueza de sentidos presentes, buscador de gozos mais do que de chegar ao gozo, de intensidades mais do que de produtividade, de qualidade mais do que de quantidade.


Esqueci de fechar um círculo de reflexão aqui. Voltando a mitologia da Odisséia, quando Ulisses reencontra Penélope, depois de ter derrotado "os pretendentes" com a ajuda da deusa Atenas e do seu filho Telêmaco, quando enfim está no leito com sua rainha, Zeus faz com que o instante se estenda para que o casal viva intensamente o gozo daquele reencontro.

Para essa reflexão do instante me vali das análises sobre as Epistemologias do Sul de Boaventura de Sousa Santos, particularmente o que pode ser encontrado a respeito das monoculturas e ecologias do tempo no "Manual de Uso do Fórum Social Mundial". Também, uma referência ligeira à algo do pensamento Chinês presente na fala de François Jullien no CD Le Bonheur - Visions Occidentale Et Chinoise.


Querendo finalizar com poesia e algo do que vivi, fiz uma leitura dramática de "Velhas árvores" de Olavo Bilac, poema que marcou um momento de crise meu. A finitude e o ridículo do palhaço, o sorriso (mas também a lágrima) que tive (e quis despertar) e a importância do instante se aglutinam nesse poema - entenderão porque quando compartilhar o vídeo da declamação.


No momento anexo de perguntas me vali das reflexões de Edgar Morin e seu Pensamento Complexo ("Ciência com Consciência" e "Introdução ao Pensamento complexo"), da autoridade de Nise da Silveira e sua paixão por Espinosa em seu "Cartas à Spinosa", bem como das referências superficiais à "Ética segundo o método dos geômetras" de Spinoza, enriquecidos pelos comentários que venho ouvindo do filósofo Luc Ferry (Descartes - Spinoza - Leibniz l'Oeuvre Philosophique) e do desenvolvimento e atualização da teoria de Spinoza para nossos contextos contemporâneos de sentimento e razão feitos pelo filósofo André Comte-Sponville, em várias de suas obras.



Allan Denizard (Dr. Acerola)