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terça-feira, 21 de abril de 2015

Sobre os dias ruins

A gente nunca fala sobre os dias ruins, em geral. Apesar do nome do blogguy, aprendyzes, a gente ta sempre falando sobre as coisas que deram certo. Sobre os dias que a gente se emocionou. Sobre o dia em que aquele jogo foi incrível. Sobre o dia em que a gente transformou o ambiente. Sobre o dia em que a criança se abriu pra gente e a gente foi criança de novo e tudo isso fez sentido na nossa cabeça.  Enfim, sempre estamos falando dos dias bons.

Hoje eu quero falar dos dias que não são bons.
Porque tem dias que, simplesmente, não são bons.

Tem dia que a acompanhante não quer te ver;
Tem dia que a criança chora e não importa qual das mil técnicas que sempre funcionam você use pra conseguir se aproximar, ela não te aceita;
Tem dia que o hospital ta vazio;
Tem dia que você não sabe o que fazer;
Tem dia que nenhum jogo encaixa;
Tem dia que o tempo parece passar mais devagar que o costume;
Tem dias que não aparece nenhuma risadinha, nem um sorriso e nenhuma comoção. Tem dia que é de indiferença. Quiça torpor;
Tem dias que você não entende direito qual a sua função ali. Se é que ela existe;
Tem dia que o nariz vermelho pesa um pouco...não é natural.

Pois é, às vezes, as visitas não são boas.E não importa o quanto o palhaço seja forte, ou ache que é forte, tem coisas que não da pra ir contra. O próprio hospital, que reconhecemos, com frequência, como um ambiente duro, quadrado, concreto, muitas vezes é duro demais e é difícil quebrar isso. Algumas vezes, na verdade, é o hospital quem nos quebra. E isso não é terceirizar a culpa. Claro que outros palhaços poderiam se sair melhor, no mesmo ambiente, mas isso não pode diminuir quem sentiu dificuldade.
Desconstruir, no hospital, é trabalhar em um meio difícil. Principalmente quando você está, de algum modo, habituado a ele. Desconstruir o hospital é difícil. Principalmente quando você é ele - e quando, mesmo assim, você ainda se choca e se ofende com tudo o que ele pode ser.

Também tem fatores pessoais. Tem aqueles dias mais difíceis pro próprio palhaço. Tem aquele paciente que lembra alguém por quem você tem mais carinho, tem aquela pessoa que lembra quem você sente falta, tem aquela situação que te irritou ontem, tem o ônibus lotado e quente com aquele pastor irritante gritando a viagem toda...

No fim das contas tem dias que só...não vai. Alguma coisa se perde no caminho e quando você sai da visita e finalmente tira o nariz (e você quase ansiava por isso) você pensa "Hoje não foi...".

É uma sensação difícil essa do "não foi". As pessoas não te dizem que você vai passar por dias "não foi", quando você começa. Na verdade, as pessoas nunca te falam sobre os dias "não foi", em canto algum.

Em dias assim, no entanto, é sempre bom ter um amigo palhaço que olhe pra você, sorria e diga:
"obrigado por ter ido comigo hoje! Foi ótimo!" e te faça pensar naquela acompanhante no fundo da sala que tava sorrindo de olho em vocês, quando vocês nem estavam dando atenção pra ela. Ou ainda te faça pensar na menininha que nem olhou na sua cara e passou o tempo todo de costas, mas que se acalmou um pouco e ficou prestando atenção, quieta, quando vocês começaram a discutir, na porta. Ou ainda que te faça rir pensando em como aquele jogo de vocês dois deu muito errado.

No fim das contas, hoje nem foi um dos dias realmente ruins. Mas hoje, de algum modo, "não foi". Já houveram dias incrivelmente piores, é claro. Mas esse tipo particular de gravidade (contrário à leveza) me sondou hoje, durante boa parte do dia.

De qualquer forma, hoje eu quis escrever sobre os dias difíceis. Sobre o nariz incômodo.

Até pra me lembrar que não somos heróis. Que nem sempre somos bem vindos. E que nem sempre teremos o poder para mudar o mundo, seja ele um hospital, seja ele o mundo particular no qual cada um de nós vive - e que talvez seja o maior de todos.

Mas também escrevi sobre os dias difíceis pra me lembrar de olhar para o pequeno, o simples -o sorriso da acompanhante do fundo da sala, com quem eu nem tava brincando.
Me lembrar de agradecer pelos dias que deram errado. De aprender com eles.
Me lembrar de ir para uma relação aberto, sem grandes expectativas.
Mas, principalmente, pra me lembrar de nunca deixar de ir.



Caju - Mayko

sábado, 18 de abril de 2015

Reflexões sobre nossa hystória

Allan Denizard diz:
ei
Allan Denizard diz:
ei
Allan Denizard diz:
ei
Allan Denizard diz:
ei
KaiLa diz:
uoi
KaiLa diz:
parece tu msm na foto
Allan Denizard diz:
aaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh
Allan Denizard diz:
a primeira pessoa que concorda com a minha realidade (foto do Volverine)
Allan Denizard diz:
!!!
Allan Denizard diz:
valeu!
KaiLa diz:
hahahaha
Allan Denizard diz:
escrevi um artigo sobre o INVENTÁRIO
Allan Denizard diz:
lê lá
Allan Denizard diz:
http://projetoy.blogspot.com.br/2009/04/os-doutores-da-alegria-estiveram-em.html
KaiLa diz:
sabia q ia dar nisso...
KaiLa diz:
e tu escreveu p eles?
Allan Denizard diz:
não sei se eles vão gostar do que eu escrevi
Allan Denizard diz:
lê lá!
KaiLa diz:
n, n tou falando do artigo ser p eles
KaiLa diz:
e sim uma msg no blog deles esclarecendo as ultimas duvidas..
Allan Denizard diz:
não
Allan Denizard diz:
lê lá!
Allan Denizard diz:
tu tá lendo?
KaiLa diz:
tu te acalma aí, q tou lendo
KaiLa diz:
tá qbrando o clima
KaiLa diz:
aullan
KaiLa diz:
tu mandou isso p eles?
Allan Denizard diz:
não
KaiLa diz:
eu gostei
KaiLa diz:
prncipalmente pelo final
Allan Denizard diz:
mas eu deixei o blog pra eles visitarem
KaiLa diz:
tu acha q n há amor no q eles fzm?
Allan Denizard diz:
não
Allan Denizard diz:
acho que eles não se tocam do amor que há no que eles fazem
Allan Denizard diz:
de que a essência da arte deles é amor
KaiLa diz:
sei não..
KaiLa diz:
assim, o q me pareceu foi mai ou menos aquilo q a gnt discutiu no email do y
KaiLa diz:
e q tu tb falou nesse artigo
Allan Denizard diz:
hum...
KaiLa diz:
pela necessidade de se qrer ser levado a sério
KaiLa diz:
acaba q eles procuram dar mais ênfase na "ciência", no trabalho árduo e tal
KaiLa diz:
do q naquilo q provavelmente os move
Allan Denizard diz:
perfeito Kakys
Allan Denizard diz:
concordo
KaiLa diz:
n acreditam q eles façam esse tipo de trabalho só p ganhar dinheiro p viver
Allan Denizard diz:
e o trabalho deles fica infinitamente menor pensando assim
Allan Denizard diz:
por mais sorrisos de qualidade que eles arranquem
KaiLa diz:
é...
KaiLa diz:
mas tu vê q eles dxam escapar q n é só isso, n eh só técnica
KaiLa diz:
qdo dzm no espetaculo e voltam a repetir na discussão
KaiLa diz:
q n se pode perder a ternura
Allan Denizard diz:
sim sim sim
Allan Denizard diz:
de certa forma
Allan Denizard diz:
ainda não encontraram a identidade deles
KaiLa diz:
acho q na arte, assim cm na medicina, hj é possível se trabalhar só cm p ganhar dinheiro sim e obter sucesso
KaiLa diz:
mas, em certo ramos, da arte e da medicina, n basta só técnica
KaiLa diz:
né n?
KaiLa diz:
 de certa forma
 ainda não encontraram a identidade deles

KaiLa diz:
hahahha
KaiLa diz:
a gnt sim, né
KaiLa diz:
mas parece q é por aí msm
KaiLa diz:
hj eu me sinto bm mais tranquila qto a isso, sabia?
Allan Denizard diz:
acho que nossos achismos são melhores achados
Allan Denizard diz:
você não se sentia?
KaiLa diz:
as 2 coisas podem e devem coexistir sem detrimento da outra
KaiLa diz:
nao..
KaiLa diz:
mas assim..
KaiLa diz:
tvz seja importante passar por varias fases
KaiLa diz:
por exemplo, bm no inciozim do y
Allan Denizard diz:
o Pacheco dizia que deve muito ao estilo tradicional de dar aula.
Allan Denizard diz:
Foi dando mil aulas tradicionais que ele se apercebeu do quanto elas eram inúteis
Allan Denizard diz:
fala
KaiLa diz:
kkkkkkkkkkkkk
KaiLa diz:
pois eh... naqla éopa, foi importante o "amor", digamos assim
KaiLa diz:
foi a paixão q fz com q fizessemos td o q fizemos... de ter coragem de montar m projeto assim, de ficar indo atrás de orientação, de ter perdido horas e horas de folga planejando cm seria, etc e tal
Allan Denizard diz:
foi!
KaiLa diz:
aí veio o macedo dzndo q era melhor ter um preparo mais tecnico, objetivar mais a preparação da equipe, focando mais na formação de um palhaço mais "profissional" q seria principal ferramenta do grupo..
KaiLa diz:
enfim, isso foi super importante tb.
Allan Denizard diz:
foi tb
KaiLa diz:
e aí,a  gnt estudou mais o palhaço do q eu estudei genética
Allan Denizard diz:
hauhauahauhuha
KaiLa diz:
e foi bom. acho demorou mais p gnt chegar na fase de se achar sem graça
KaiLa diz:
e com isso ter um monte de visita acumulada em q a gnt pode ver
KaiLa diz:
q a realidade obviamente n era tão romântica qto tvz a gnt pensasse ser
KaiLa diz:
no início, eu pelo menos tinha uma visão mais romantica, acreditava mais no poder transformador da "palhaçoterapia"
KaiLa diz:
depois agnt vê q é importante, mas tb não ééé coisa de super herói salvando o mundo
KaiLa diz:
aí a gnt passa a qrer fazer trabalho p provar q tm alguma serventia o q a gnt faz
KaiLa diz:
e até onde isso vai
Allan Denizard diz:
mas será se precisa provar?
KaiLa diz:
mas vê... se no incio, a gnt n tivesse essa visao mais romantica, se a gnt n acreditasse q eramos pesoas com y na testa levando amor aos hospitais
Allan Denizard diz:
YYY
KaiLa diz:
será q a gnt teria feito td o q fz?
Allan Denizard diz:
acho que a nossa história provou pra gente mesmo que assim devia ter sido para ser hoje o que somos
KaiLa diz:
poiseh!!
KaiLa diz:
aí a gnt entrou nota fase, de fzr trabalho, fzr ciencia e
KaiLa diz:
e recusar convites
KaiLa diz:
pq a gnt era palhaço de HOSPITAL, coisa profissional, bm estudada e td
KaiLa diz:
n dava p ir ficar alegrando velhim em asilo
KaiLa diz:
criancinha em orfanato
KaiLa diz:
dxa isso pros voluntarios da igreja
Allan Denizard diz:
humrum
KaiLa diz:
aí a gnt se fechou... e passou a focar mais no papel do palhaço no hospital, na terapia...
KaiLa diz:
e daí sairam trabalhos em congressos, publicação em revista
KaiLa diz:
bolsa de extensão...
Allan Denizard diz:
bem-vinda bolsa
KaiLa diz:
a gnt objetivou a coisa. transformou em numeros, dados, resultado
KaiLa diz:
resultados
KaiLa diz:
enfim... importantíssimo tb
KaiLa diz:
a gnt vê pela seleção de novos integrantes
KaiLa diz:
ñ é mais a msm multidão
KaiLa diz:
mas tm mais "qualidade", a maioria dos candidatos sabe onde tá se metendo
KaiLa diz:
n vm mais só o povo atrás de folia. e aqles "mais sérios", mais cientistas tb se interessam
Allan Denizard diz:
foi boa as aspas
KaiLa diz:
poiseh... posso estar errada ou isso só estar se passando pela minha cabeça, mas parece q agora se tenta achar o equilibrio disso no y
Allan Denizard diz:
equilíbrio entre o q e o q?
KaiLa diz:
 "Hay que pegar la veia, perder la ternura jamás!".

KaiLa diz:
hueihiuheiuheie
Allan Denizard diz:
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Allan Denizard diz:
Gostaria de deixar claro que eu estou copiando essa conversa para disponibilizar na nossa lista de discussão

(A conversa continua, mas o Yahoogrupos truncou ela por exceder a capacidade de armazenamento de um e-mail isolado). 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Palhaço, Sorriso e Instante como Terapia [de existir]




Referências da Palestra dada originalmente ao dia 09 de março de 2015 como parte do Curso "O cuidado à Criança: uma abordagem interdisciplinar humanizada".

Primeiro momento: Sobre o palhaço, a finitude, a fragilidade e a deformidade humana essencial. Sobre a contigência da nossa existência primordial à lei que nos ordena. Sobre uma visão não-fantástica do homem: o menino vadio, passível de se perder, fraco e tolo.

Para essa reflexão me vali da Música de Chico Buarque "Sem Fantasia" e a análise da mitologia grega de Ilíada e Odisséia, frisando a figura de Ulisses, o símbolo do grande Herói, mas cuja travessia de volta para seu reinado é marcado pelas humilhações que vai sofrendo e as ilusões a que vai sendo submetido até o ponto de atingir a lucidez de querer ser quem realmente é: o rei de Ítaca, possuidor do leito de Penélope. Embora Ulisses seja o símbolo do grande herói, minha tese aponta que foi no momento em que se reconheceu como simples mortal que se aproximou da simpatia dos deuses. Essa tese não foi aprofundada a contento e explicitamente porque dei mais vazão aos recursos cômicos que empreendi com a platéia, mas ei-la aqui exposta. Sobre essa tese, não é originalmente minha, mas um diálogo com reflexões de Luc Ferry que a expõe em vários momentos de sua obra, particularmente em "Aprender a Viver 2: a sabedoria dos mitos gregos".

Segundo momento: Sobre o sorriso, que é um sub-riso, portanto, sobre o riso, o quanto ele nos define (o único animal que ri, dizia Aristóteles), o quanto ele nos expõe (Hobbes), o quanto ele nos humilha (Platão), o quanto nos afasta da verdade pura (ainda Platão), o quanto ele nos diferencia de Deus e dos outros animais (ideia Medieval), MAS TAMBÉM o quanto ele nos devolve à humanidade, nos tira o peso da perfeição, nos ajuda a palpar as próprias feridas e fragilidades com leveza, fazendo-nos participar de uma alegria compartilhada quando nos entregamos ao ofício de palhaço, ao sublime de um amor que não nos quer forte para se preencher, mas nos quer como nós somos para nos amar por amar, sem porquês.

Para essa reflexão me vali largamente das análise de Verena Alberti em "O riso e o risível na História do Pensamento ocidental". Mas também de Ariano Suassuna em "Iniciação à Estética".

Terceiro momento: Sobre o instante como outra forma de pensar o tempo, um tempo dilatado, um tempo que dura, um tempo de delicadeza, um tempo de emoções, um tempo não-escatológico, não-apocalíptico, não portador de flecha de sentido, mas buscador da riqueza de sentidos presentes, buscador de gozos mais do que de chegar ao gozo, de intensidades mais do que de produtividade, de qualidade mais do que de quantidade.


Esqueci de fechar um círculo de reflexão aqui. Voltando a mitologia da Odisséia, quando Ulisses reencontra Penélope, depois de ter derrotado "os pretendentes" com a ajuda da deusa Atenas e do seu filho Telêmaco, quando enfim está no leito com sua rainha, Zeus faz com que o instante se estenda para que o casal viva intensamente o gozo daquele reencontro.

Para essa reflexão do instante me vali das análises sobre as Epistemologias do Sul de Boaventura de Sousa Santos, particularmente o que pode ser encontrado a respeito das monoculturas e ecologias do tempo no "Manual de Uso do Fórum Social Mundial". Também, uma referência ligeira à algo do pensamento Chinês presente na fala de François Jullien no CD Le Bonheur - Visions Occidentale Et Chinoise.


Querendo finalizar com poesia e algo do que vivi, fiz uma leitura dramática de "Velhas árvores" de Olavo Bilac, poema que marcou um momento de crise meu. A finitude e o ridículo do palhaço, o sorriso (mas também a lágrima) que tive (e quis despertar) e a importância do instante se aglutinam nesse poema - entenderão porque quando compartilhar o vídeo da declamação.


No momento anexo de perguntas me vali das reflexões de Edgar Morin e seu Pensamento Complexo ("Ciência com Consciência" e "Introdução ao Pensamento complexo"), da autoridade de Nise da Silveira e sua paixão por Espinosa em seu "Cartas à Spinosa", bem como das referências superficiais à "Ética segundo o método dos geômetras" de Spinoza, enriquecidos pelos comentários que venho ouvindo do filósofo Luc Ferry (Descartes - Spinoza - Leibniz l'Oeuvre Philosophique) e do desenvolvimento e atualização da teoria de Spinoza para nossos contextos contemporâneos de sentimento e razão feitos pelo filósofo André Comte-Sponville, em várias de suas obras.



Allan Denizard (Dr. Acerola)

domingo, 12 de agosto de 2012

A tragicomédia do século XXI: sobre narizes, palhaços e sociedade.

Primeiramente, olá.
Antes de postar o relato queria pedir desculpas em avanço por qualquer ofença que eu possa causar. =P
Sinceramente, espero que isso não aconteça. Qualquer generalização é mera licença poética. xD


"Bafo. Desabafo.

O que existe debaixo dessa máscara?! Bem, minha mãe sempre me disse que eu tenho mal hálito, um verdadeiro bafo, pela manhã. E assim eu acordo com o descomforto do meu hálito e dessa pergunta. A resposta é fácil. Um abismo. Trágico, não é mesmo?! Porque ninguém o vê?! Porque a máscara o disfarça. Um abismo no qual não desabo pelo simples fato de estar acostumado a ficar pendurado em sua beirada. O que me segura?! As interacções.

E por sinal a primeira, entre farofa de biscoito, amor e muita saliva, ocorre. Entretanto, ela não é vista. Ou melhor, não é sentida. Mas como não, se ela foi logo à altura dos seus olhos?! Será que a ela faltou algo?! Será que em mim faltou algo?!

É melhor esperar para descobrir o que me falta. Vamos seguir o caminho até o fim e ver o que me espera. Vamos seguir a listra amarela.

Mas até nesse simples gesto descobrimos o quão a vida é mesmo sem sentido, traiçoeira. Que nada é completo. Porque a listra amarela, embora um guia, lhe segue só até certo ponto da jornada, e então ela lhe abandona, acaba, do nada.

Você se sente desamparado, sem conhecer nada nem ninguém. Sem ideia de onde está nem de para onde ir. "Onde, em minha jornada, foi que eu errei?! Porque você teve que ir!? Como foi que eu vim parar aqui?!"

Cada passo parece em falso. Cada segundo desamparado cresce a certeza de que se está no caminho errado. Então um frio percorre a tua espinha. E é nesse momento que você descobre o quão grande é a sua força interior, mesmo com as adversidade e incertezas, para continuar adiante. Sempre radiante.

E então aparece a luz no fim do túnel. As luzes da cidade. Da cidade da criança. As luzes são seus habitantes. Rostos conhecidos, brilhantes mesmo na claridade da manhã. E então você percebe que não está mais sozinho e talvez nunca tenha estado. A verdade é que, ofuscado pelo medo, você simplesmente não queria enxergar. Talvez era isso o que me faltava, ou o que faltaram a mim, a visão.

E então começa a correria. E aqui confirmo minha teoria. Estou rodeado por cegos. Cegos que, como qualquer deficiente, procuram a sua cura. Cegos que, mesmo sem saber, são a minha cura. Mal percebem eles que o que mais procuram está logo em baixo dos seus narizes. Ou melhor dizendo. São os seus narizes.

E assim, entre lápis preto, amor e tinta, muita tinta, começa a terapia comunitária. As vozes vão afinando, os narizes vão aparecendo e as interacções, antes ignoradas, agora começam a serem vistas e sentidas! E assim, com os seus narizes, é que finalmente eles me encontram. Só com os narizes eu consigo ser visto!

Então adentramos o hospital. A linha amarela está lá novamente. Mas dessa vez, ninguém se importa com ela. Porque não mais estamos preocupados com o nosso destino. Qualquer lugar é justamente onde queremos estar. Em casa, juntos, no nosso lar.

E eu vou te contar, essa casa nossa tá com uma praga que é de todo tipo e tá em todo lugar. São os palhaços. E parece que eles vieram pra ficar. E aqui mais uma vez reforço a minha teoria. Só tinha um  requisito pra ser palhaço, bastava ser gente! E agora, que alegria!, todos viam o mesmo. Todos os palhaços reconheciam os palhaços! Sempre soube que o que falta ao mundo é reconhecimento.

E assim a manhã veio, e, juntos, enxergamos esse mundo maravilhoso que nos cerca. Mas infelizmente o tempo não quis ficar ao nosso lado e foi embora. E a manhã acabou. E então, curiosamente, alguns voltaram a procurar a linha amarela. E as pessoas começaram a tirar seus óculos. Desculpem, quero dizer, seus narizes. E simples assim, alguns palhaços foram embora, ficando somente os que já povoavam aquela nossa nova casa antes da nossa chegada.

Minto. Todos os palhaços continuavam lá. O que aconteceu é que os que perderam os seus narizes ficaram cegos novamente! E além de cegos, parece que ainda perderam a memória! Será que elas esqueceram que todos os outros palhaços do hospital não tinham narizes?!

Esta é a minha teoria. Esses narizes são mágicos. Na verdade, eles são óculos especiais, que permitem o seu usuário ver através da máscara do próximo e enxergar, além do seu próprio nariz, o nariz alheio. Mas é engraçado, essa é uma habilidade inerente ao ser humano. Porque então ele precisa que alguém use um nariz pra poder usá-la?! Porque você nega o seu nariz?! Ele ainda estão aí, eu o vejo mesmo através de sua máscara, e ele está bem fixo ao seu rosto, ele é o seu rosto. Será que você não consegue senti-lo?!

Não deixem que a sociedade lhes dite a normalidade, pois esta é uma ilusão imbecil e estéril. Não deixem que a sociedade diga que as palhaçadas, ou as interações, sem um nariz para tal, são, na verdade, aberrações. Engraçado, isso. Quando se tem um palhaço por perto, todos se permitem e querem ser palhaços. Mas quando o palhaço está ausente, todos tem medo de serem os palhaços.

Por isso, os suplico mais uma vez. Não deixem que a sociedade tire de você o seu nariz. Não deixe, nem por um segundo, de enxergar ele. Na verdade, seja como o Rudolph. Deixe o seu nariz bilhar, vermelho e intenso. Faça questão que o mundo o veja e que ele lhe seja motivo de orgulho. E ajude o mundo a ver que ele também tem o seu próprio nariz, e que ele é lindo!

E, mais importante ainda, nunca deixe de enxergar e reconhecer o nariz do próximo. Pois, talvez, esse nariz seja a única coisa que ele tem e que o mantêm seguro à beira do abismo.

Cá estou novamente. Por uma máscara tornado invisível em meio a uma multidão de cegos. Por quanto tempo?! Pelo tempo que meu naryz me sustentar.

Bar. Desabar."

Dr. Zynho