segunda-feira, 21 de abril de 2008

Brincante

Brincava já grande
com as crianças

Até sobrevir as rodas
Quando
então
passou a brincar de roda



Mas
se foram os braços
E se meteu a brincar de guia
Era guiado o tempo todo
por um bando de moleques

E sorria!



A roda acabou
Lhe tiraram as rodas

E teve de parar

Inventaram de inventar nova brincadeira
Que era a dos olhos

Seus olhos eram detetives sem par

Abertos. Fechados. Abertos

Comandavam
os moleques
a dançar



Ficando depois cego
Teve medo de ficar
sozinho
Mas
quão grande alegria
Não deve ter ele sentido
Quando
todo desprevinido
Sentiu milhões de toques vizinhos
!



Morreu
então
o bricante

- Enfim e sem pressa -

E como se esperassem algo
Sentados
passaram a bater palmas
Para uma alma que girava

De pernas saltitantes e braços soltos

Olhos fulgurantes
e
tronco mamulengo

A brincar e brincar

Levando ao delírio
um bocado de moleques.

Allan Denizard

domingo, 6 de abril de 2008

" ... eles sempre se encontram no final, num lugar chamado sorriso."


Visita 4 de abril de 2008


E logo no início os palhaços se perderam. Doutor Cenoura acostumado com os terrenos íngrimes e difíceis daquelas escadas que levam até os pódios chamados enfermarias se distanciou na frente. Atrás seguiam dra Metidinha, dra Chapolinha(é assim né) e dr Batatinha com seu detector de ruínas vibrando muito com aquela estrutura que os cercava. E quando finalmente chegamos demos de cara com aquela que, nem sabia eu, seria o meu inesquecível do dia. Logo ficamos sabendo que era o aniversário da Sara, mas que ela tava dormindo e era melhor não cantar parabéns num volume acima de 2 decibéis. Mas eu juro que pensei que ela preferia o sono do que palhaços. Minha pequenez me fez pensar que era o máximo que um corpo todo marcado poderia oferecer.
Assim sendo, seguimos viagem e na enfermaria seguinte ví um Dr Cenoura impressionado com a possibilidade de fazer churrasco com uma das crianças, bem carnuda por sinal, no ponto de abate. Juntos tentamos convencer a criança que seria um sacrifício nobre em favor dos palhaços famintos.Ele não gostou muito e começou a chorar. Acho que era vegetariano.
Seguimos até outra enfermaria. A Maria, tão pequenininha, mas um sorriso tão grande, tão encantador. E o gabriel, já se preparando pras Olimpíadas de Pequim exercitando suas pernas com sua fisioterapeuta doida, insistindo em dizer que era a mãe do atleta.E ficamos em dúvida de quem era mais doido naquela enfermaria, se o gabriel por correr deitado ou se a Sarinha, que durmia de olhos abertos. E o sorriso dela, ainda escuto agora, enquanto imito ela, acordando com meus olhos bem fechados e vejo um rosto de anjo, a despeito de toda marca, um anjo marcado enfim, um anjo que marca principalmente.
A viagem continuou e a próxima estação foi uma enfermaria lotada de criança e de palhaço.Metidinha foi olhar pela janela e ficou colada no vidro, Dr Batatinha, solícito como é, foi ajudá-la a se descolar e acabou colado também.Quando finalmente ambos se soltaram, descobriram que tudo se tratava de uma enfermidade do vidro e que era contagiosa. Os dois pegaram a colagemia aguda e quando Dr. Batatinha tentou levantar Dra Metidinha do chão, ficaram colados em posição de bazuca, a bunda de um na no outro. Dr Cenoura, um pesquisador de curas, logo descobriu o antídoto para aquela doença, o bom e velho peido bunda a bunda, porque boca a boca seria muito nojento. Funcionou, Dra Metidinha ficou boa bem rapidim, deu tempo nem do Batatinha peidar. Acho que era psicosomático né!
Entre peidos e curas, recebemos uma chamada urgente da Mãe da Sara. Ela tinha tido um súbito acesso de raiva e tava saindo pra bater raio X ( pobre coitado. Consentimos né, um X é sempre um possível rival para um Y ). Mas antes disso queria que os palhaços cantassem parabéns pra ela. Lá estavamos nós dois(Metidinha e Batatinha), mostrando todo o nosso talento cantando parabéns em operetas, depois em rap e por fim em baladas melódicas. Não tinha velas de aniversário, mas tinha uma soprano pra ajudar a aniversariante entender que o mais importante não é apagar a luz com um sopro, mas fazer vibrar a esperança cantando a vida.
E eu ainda escuto o sorriso dela!!
Quando Dr. Batatinha foi embora e deixou pra trás os sorrisos que vagarosamente íam perdendo o volume, fez com que um som diferente ressoasse não mais nos ouvidos do palhaço, mas na alma dele. E eu ainda escuto o sorriso da Sara. E ele teve a sensação de que os palhaços podem até se perder um dos outros no início, mas eles sempre se encontram no final, num lugar chamado sorriso de criança.

Dr. Batatinha (Lucas Tavares)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Para cuidar é preciso cativar ?!


Lembrei do Y ....


O Pequeno príncipe e a raposa


" E foi então que apareceu a raposa:

-Bom dia - disse a raposa.

- Bom dia- respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.

- Eu estou aqui- disse a voz- debaixo da macieira ...

- Que és tu? - perguntou o principezinho. Tu és bonita ...

- Sou uma raposa - disse a raposa.

- Vem brincar comigo - propôs o principezinho.

- Estou tão triste ...

- Eu não posso brincar contigo - disse a raposa - Não me cativaram ainda.

- Ah ! Desculpa - disse o principezinho. Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar" ? Eu procuro amigos. Que quer dizer cativar !?

- É uma coisa muito esquecida - disse a raposa. Significa "criar laços" ...

- Criar laços ?

- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil garotos. Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas nós teremos necessidade um do outro. Será para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo...

- A gente só conhece bem as coisas que cativou- disse a raposa. - Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me !

- Os homens esqueceram essa verdade- disse a raposa- Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.


A cada visita temos criado laços únicos ... difícil tem sido muitas vezes saber o limite entre o cativar e o cuidar ... até que ponto podemos nos envolver com os nossos pacientes !? Será que essa dúvida é só minha ?!


abraço companheYros,



Gaby

Dra. Marmota

Comentário do Comentáryo

Apareceu um comentário simpático sobre o nosso Y na postagem passada. Duas coisas me chamaram a atenção de forma tão particular que não pude me abster de comentar o que ele comentou.

Antes de qualquer coisa, agradecer e ficar feliz. Não é caso isolado as pessoas nos abraçarem agradecendo por nós existirmos. Sublinho que todas as vezes que fui abraçado por essa existência solidária, foi, em verdade, na minha outra forma de existir na faculdade, por trás de um nariz. Não é diferente o que Marcus Mazzo fez aqui. Ele nos abraçou em uma forma bem particular de existirmos aqui na web. O que contamos nessas páginas são experiências compartilhadas de nariz. São, por assim dizer, catotas. Os pés-no-chão diriam que aí está a grande falha de nosso projeto: não somos o que passamos ser de verdade, somos a mentira de um momento de palhaço. Uma opinião bem conforme àqueles que sempre dizem que "é brincadeirinha", quando querem dizer que "é de mentirinha", desconsiderando ter toda brincadeira um fundo de verdade.

Preciso falar sobre o momento. O Mazzo falou de “sorrir por alguns instantes”. O hospital passa dia e noite com os olhos acesos para que o doente melhore. E nós passamos alguns instantes. Qual a autoridade que nós temos para criticar os olhos eternamente acesos? O problema é que os olhos do hospital acendem como as lanternas dos médicos, para olhar uma só parte que às vezes querem nos convencer que é tudo o que importa. Vigiam eles a dor daquele momento. Para que a dor venha a ter só alguns instantes, o hospital trabalha todo tempo. Mas, que dor? Esquecemos que a dor tem muito mais de invisível do que podemos perceber. É com esse invisível que tentamos trabalhar. Não somos a substituição para os olhos, somos o que não é olho. Não somos a exaltação dos sentidos, esse método clínico tão querido que faz o homem engaiolar a doença (e o doente) dentro de um diagnóstico, somos o que não faz sentido. E bem que queríamos ser eternos dentro do hospital, mas eu me pergunto por que a palavra instante brilha na escrita de Mazzo, bem como na vontade daquele instante por muitos amigos nossos? É porque não somos eternos, mas inauguramos eternidades instantâneas no seio daquela enfadonha eternidade cotidiana. São como bolhinhas de sabão n’água.

- Para onde vão aqueles palhaços tão coloridos? Espocar no ar da graça daqueles pequenos!

Outra coisa, que até continua o que eu vinha dizendo, é que Mazzo faz uma metáfora muito mais parecida com a gente do que pode querer contradizer o “mas” dele. O hospital nos treina para sermos médicos de programas. O paciente é todo um encadeamento complexo de estruturas físicas (hard) geradoras de atributos aparentemente abstratos (soft) que por hora estão desequilibradas. A intervenção do especialista deve fazer retornar o equilíbrio possível máximo. Não quero denegrir os muitos colegas que fazem dessa profissão o sentido de suas vidas, mas é que a gente se enreda num sistema de afirmações que definem o que é a doença e não percebe que acabamos por definir o ser humano pelos mesmos referenciais.

Então, volto para a mentira que passamos ser. Felizmente eu nunca disse que era o Acerola. E vejo uma concordância dessa atitude em todos os meus companheiros. Quando chega aquela figura bizarra a quebrar tudo que parece tranqüilo, não é uma mentira que se espalha, é uma transcendência.

Quando Jesus interpretou o amor no mundo, veio grávido de um Reino que transcendia qualquer olhar humano. Muitos olhavam e não viam nada. E ele, louco, andava sobre águas. Com que pés? Com os pés no chão?

Quando Marx provocou guerras no mundo, só o conseguiu porque angariou pessoas suficientes para se engajar num projeto de um mundo que nunca existiu. Era mentira? Impossibilidade? Imaginação? Era a busca por um amor pelo outro que transcendia as lógicas de produção que regem o capital.

Não vivemos em um mundo só de individualismos. Mas também de fome do que nos transcenda.

É bem verdade que a busca pela nossa individuação foi uma conquista histórica fantástica. O respeito pela intimidade, pela privacidade, pelo corpo. Mas, com o médico-palhaço queremos propor um sentido de vida que seja mais do que esse cotidiano enfadonho material. Mascarado, ele não deixa de ser humano, mas bota pra fora uma transcendência que não deixa de ser íntima - aprendemos a guardá-la na intimidade. Retoma os não-olhos de um Reino cheio de amor e de alegria, fazendo do instante a revolução de todo um século, para distribuir a riqueza do tempo para o mais frágil dos seres humanos. Compartilhando a imaginação com a criança, ele faz daquele mundo impossível a presença de um futuro constante.

Não é que os abraços fossem falsos. Ou que eu não merecesse os abraços. Não abraçavam só a mim. É que esse projeto todo exala um perfume de sonho que a gente colhe de um outro tempo que deve ser cada vez mais próximo. Com o esforço amoroso dos homens e com a graça carinhosa de Deus! Abraçam a já existência do que só aos poucos tenta existir.


Allan Denizard

quinta-feira, 20 de março de 2008

Sobre a Ymaginação

Vou transcrever três trechos do livro "Convite à Filosofia" de Marylena Chauý falando sobre imaginação:

"Quando a criança brinca, sua imaginação desfaz a percepção: todos os objetos, todas as pessoas e todos os lugares nada têm a ver com seu sentido percebido, mas remetem a outros sentidos, criam sentidos inexistentes ou presentificam o ausente."

(...)

"A imaginção pode criar um mundo irreal que julgamos melhor do que o nosso, a ponto de recursarmos viver neste para "viver" imaginariamente naquele, perdendo todo contato com o real."

(...)

"Quando o fazemos [irrealizar o mundo percebido para realizar o sonho] para criar um outro mundo ao qual os outros seres humanos também podem ter acesso, a imaginação passa do sonho à obra de arte. Quando o fazemos para criar um mundo só nosso e ao qual ninguém mais pode ter acesso, a imaginação passa do sonho à loucura."

Pergunto: O que o Y tem haver com a imaginação? (queria a participação de todos para a construção dessa postagem)

Allan Denizard

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Fim das Férias

Sabe aqueles dias em que a gente já pisa na sala com medo de visitar?? Sabe aqueles dias em que a cara branca, de uma maquiagem ainda incompleta, refletida no espelho não consegue mascarar o nosso sentimento, e nada mais vemos do que um rosto disforme?? Sabe aqueles dias em que nossa mão treme ao pegar o lápis só para fazer aquele traço tão simples que costumamos traçar inconscientemente??

É, fim das férias, depois de tanto tempo parado, será que o palhaço estar pronto para sair? O medo, tão constante em nossas visitas, está mais forte. O espelho nos assombra. Uma cara pintada. O silêncio. Buscamos uma força interna. E, ainda que receosos, encaramos nosso destino.

Subitamente, a explosão.As fortes correntes que nos prendiam, agora estão rompidas, jogadas para escanteio. É incrível, como o palhaço adormecido se liberta do nada. E com mais vida, mais ânimo, mais alegria. O hospital é contagiado. Uma onda de energia invade os leitos.

E sua felicidade transborda ao ouvir aqueles comentários tão repetidos. “Cadê vocês?”, “Por onde andavam?”, “Estavam sumidos, né?”, “Estamos com saudade”. Podem repetir, podem continuar a falar, nós também estávamos com saudade.

E o medo, modificou-se. Não é o fato de visitar que nos assombra mais, ou melhor, não tanto. O que nos assusta, é ficar, novamente, tanto tempo parado, deixar aquele ser que já se mistura a nossa personalidade, que aflora com na empolgação de um momento, o palhaço, dormindo. E que venham as aulas, QUE VENHAM AS VISITAS!!!

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Pra não dizer que não falamos de espynhos

"É melhor tentar e falhar, que preocupar-se e ver a vida passar. É melhor tentar, ainda que em vão, que sentar-se, fazendo nada até o final. Eu prefiro na chuva caminhar, que em dias frios em casa me esconder. Prefiro ser feliz embora louco, que em conformidade viver." Martin Luther King

- Para todos os palhaços que já foram recebidos com um não.
Para lamas do sucesso
- Para todos aqueles que não tiraram risos no momento que mais parecia propício.
Para peito
- Para todos os que sentiram-se preocupados em ferir suas crianças.
Para le le pi pe do
- Para os que só encontraram vazios.
Para raio
- Para quem teve suas notas rebaixadas por menos tempo de estudo.
Para béns!

Allan Denizard