segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Experimentando o novo

A tensão começou semanas antes. Pela manhã, free hugs na Praça do Ferreira, que era pra entrar no clima. Encontramos um palhaço. É um sinal!

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Vestido emprestado, meia adquirida, crocs do projeto, maquiagem dada pitaco, cabelo feito por alguém. E aí, tô pronta. Mas falta o nariz.
“Quando vocês estiverem prontos, podem colocar!” Isso é coisa que se diga? Ou é no 1 2 3 já, ou não é nunca. Muitos pensamentos passando muito rápido: conversas no fim de capacitações, angústias pelo whatsapp, a vez (péssima) que eu tentei colocar o nariz. Então, já. Nem pesou tanto quanto eu pensava.
Engraçado como uma bola vermelha muda muita coisa além da aparência. Mexe com o andar, com a fala, mas, principalmente, com o jeito de enxergar e de sentir. Engraçado ver crianças no leito e não fazer questão de saber o qual o motivo de elas estarem lá. Engraçado achar que eu nunca diria a um policial chamado Wa-shing-ton que a gente ia casar, ou impedir um menino de entrar no hospital porque ele era feio. Mas o sentimento da visita não é o de graça, esse é o pós. O sentimento da visita é o novo. Tudo novo. E a melhor parte foi me deixar experimentar.
Fiquei sem reação algumas vezes. Minha Ana Flávia quis sair e falar: “Pois é, gente, é isso aí, vou ali no outro quarto, bjk”, mas o nariz me fez ignorar. Não sei como, mas fez, e em pouco tempo eu já tinha virado autoridade máxima do hospital, e ai de quem mexesse comigo.

Meu palhaço é meio torto, meio desajeitado, mas me passou a segurança (ou falta dela) que eu precisava pra fazer aquela tarde bem melhor do que eu tinha imaginado.
- E o teu nome?
- Não posso dizer, porque eu misquici!
- Então vou te chamar de Misqui. Vai, Misqui.
E, pro momento, foi o bastante. 

Ana perdida ou Ana e não-Ana

Ela sai da visita alegre, triste. Não, ela sai alegre. Triste. Não sabe. O que aconteceu? Gerou risos? Sim. Não. Mais sim do que não. Mas, não tanto em si. 

Estava sem maquiagem, sem roupa, quase não tinha um nome seu palhaço. Os outros brincavam tanto que ela se achava pouca. Não é que estava nua, estava sem aquela roupa que poderia chamar de sua. Nem que estava sem tinta no rosto, é que mais parecia estar suja. 

As crianças, os pais, os profissionais, todos lhe achavam linda, linda, a mais linda dos feios! E assim, dela debochavam. 

(Assim, podiam passar adiante o eterno debochado que a doença e a internação faziam deles - Ana mal percebia que estava permitindo que eles partilhassem as dores pelo deboche).

Ela queria ter dito mil piadas, feito dez mil travessuras, cem mil cambalhotas. Em vez disso, risadas, risadas e mais risadas de toda a nulidade de si. Sem roupa, sem maquiagem, quase sem nome.

(Os pacientes: sem roupa, sem maquiagem, quase sem nome. Ana mal percebia que era igual a eles).

Havia vivido tão intensamente o curso de formação de palhaço que queria desesperadamente ser um ao final. Tinha a esperança... Enquanto esperava ser, nunca era, e seu olho ficava onde seu corpo não estava.

(Ana não percebeu que havia permitido àquela pacientezinha, também de nome Ana, ter o olho de volta ao presente que estava ali, na estranheza de Ana - Ana sem roupa, Ana sem maquiagem, Ana quase sem Ana. Os olhos da menina viviam fora da órbita, em casa ou no tempo em que ainda não havia adoecido. Ao ver Ana, a menina esqueceu, por uma hora, de casa e de que estava doente. Riu dela como se risse de si). 

Ana me encontrou e contou tudo o que não aconteceu, o que podia ter acontecido. E, enquanto ela me contava, eu enxergava em cada nulidade a presença de tudo o que havia ocorrido:

- Era uma vez uma palhacinha sem roupa, sem maquiagem e quase sem nome que permitiu à menina Ana rir por uma hora e esquecer da dor de estar ali.

A dor de Ana de estar ali, não estando.
O sorriso de Ana de não estar.

(Ana, não-Ana. Ama Ana. Ana, ama!)


domingo, 10 de agosto de 2014

Resultado Y por um dya



E que rufem os tambores “TRUTRUTRU”, toquem as cornetas “TANTANTANNN”, cantem os pássaros “PIU PIU”, saiam abraços “AHNW” e surjam risadas "HAHAHA"!!! Porque chegou a hora de divulgar o resultado mais esperado do século: “Y POR UM DYA”!! Nesse semestre, como o número de inscritos excedeu o de vagas mais uma vez “UHUU”,  utilizamos como método de seleção o SORTEIO. Estamos radYantes, felYzes e saltYtantes por ver tantos interessados em participar de tudo isso junto com a gente, nem que seja por um dia. Se todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, porque não esperar coisas M-A-R-A-V-Y-L-H-O-S-A-S de um dia de manhã, ou de tarde?! Ainda mais, quando nesse dia irá colocar um nariz vermelho e espalhar amor pelos quatro cantos de um hospital!? Parece mágica, ou um sonho talvez, mas é a mais pura realidade e acontece mesmo, e se eu te contar, que esse amor volta em dobro pra você? É bom demais pra ser verdade, mas é verdade, que bom que é!! Infelizmente não foi possível colocar todo mundo embaixo das asas e levar junto com a gente, o espaço físico às vezes limita o espaço do nosso coração S2 ,mas, não se limitem a esse sorteio, terão outros e outros, quem sabe um dia? E aos que foram sorteados: “bateu, bateuu, pode comemorarr!” se preparem para uma explosão de sentimentos bons, um dya que pode mudar todos os outros dias que virão.  :X. As datas das capacytações estão logo abaixo, qualquer dúvida, anseio ou dor de barriga, não se reprima, nos procure O/. Estaremos esperando vocês de braços e abraços abertos!
Beyjos, cheyros, queyjos e recheyos de brygadeyro! :o)



Selecionados:



Enfermagem:

Silvana Maria de Oliveira Sousa – S7

Gabriel Angelo de Aquino – S2

Thalita Caroline Costa Façanha – S3

Juliana Cunha Maia – S4
Ingridy da Silva Medeiros – S4
Ana Karoline Bastos Costa – S3

Medicina:
Thomás Arrais Morais – I2
Karen Félix da Silva – I1
Amanda Aparecida de Lima Arruda – S1
Thiago Sousa Sampaio – S2
Juliana Teles Medeiros –S1
Orlando Lima Diógenes – S2
Amanda Pimentel Lopes – S3

Fisioterapia:
Thaiana Marcelino Lima – S2
Mírian Alexandre Amaral da Cruz – S2
Marta Quézia Silva Fontenele – S2
Allefer da Silva Morais – S2
Núbia Caroline da Paz Oliverio – S2

Psicologia:
Joana Kelly Barbosa Amorim Leitão – S2
NatáliaVirgínia da Silva castro – S1
Nágila Ferreira dos Santos – S2
Suyane Bandeira Costa Monteiro – S4
Thaís Tavares Lopes Portella – S6


Odontologia:
Juliana Araújo Oliveira – S10
Edyr Pereira PaivaFreitas – S9
Raine Alves Ferreira – S2
Lara Choairy Aldeodato – S1
Rhayssa Abreu Rocha – S1
Nayra Cecília Santos Campelo – S1
Amanda Barroso de Oliveira Martins – S1










1º dia de capacytação: 14/08/14
Silvana Maria de Oliveira Sousa – S7
Gabriel Angelo de Aquino – S2
Thalita Caroline Costa Façanha – S3
Thomás ArraisMorais – I2
Thiago Sousa Sampaio – S2
Orlando Lima Diógenes – S2
Thaiana Marcelino Lima – S2
Mírian Alexandre Amaral da Cruz – S2
Marta Quézia Silva Fontenele – S2
Joana Kelly Barbosa AmorimLeitão – S2
NatáliaVirgínia da Silva castro – S1
Nágila Ferreira dos Santos – S2
Raine Alves Ferreira – S2
Lara Choairy Aldeodato – S1
Rhayssa Abreu Rocha – S1


2º dia de capacytação: 22/08/14
Juliana Cunha Maia – S4
Ingridy da Silva Medeiros – S4
Ana Karoline Bastos Costa – S3
Karen Félix da Silva – I1
Amanda Aparecida de Lima Arruda – S1
Juliana Teles Medeiros – S1
Amanda Pimentel Lopes – S3
Allefer da Silva Morais – S2
Núbia Caroline da Paz Oliverio – S2
SuyaneBandeira Costa Monteiro – S4
Thaís Tavares Lopes Portella – S6
Juliana Araújo Oliveira – S10
Edyr Pereira Paiva Freitas – S9
Nayra Cecília Santos Campelo – S1
Amanda Barroso de Oliveira Martins – S1


 


O primeiro de muitos!

          Deu certo, sim! Foi mágico, foi sublime, foi a realização de um sonho, foi melhor do que todos os meus pensamentos positivos juntos! Mas lógico, antes de todo o final feliz, tem o medo. Dizia a mim mesmo que o medo não poderia me derrubar, e me ensinaram que a gente deve brincar com o medo, assim como o rapaz brinca com um cigarro de mentira entre os dedos. O medo, pra mim, é um eterno sinal de alerta.

         Sim, isso porque eu sou daqueles que é movido pela emoção, e temo muito pela sistematização da vida. Sempre que subo num palco, pra fazer qualquer apresentação, por mais que já seja um tanto quanto acostumado, sempre escuto os outros falando num certo frio na barriga, o qual eu também sinto. E quero sentir sempre, pois esse frio na barriga representa medo, e no dia que eu perdê-lo, vou perceber que deixei a coisa sistemática, e me decepcionarei comigo mesmo. 

         Mas não havia palco, nem platéia definida. Não havia um protagonista, um diretor, um roteirista, figurinista, paisagista, baixista, cotista, nada! Haviam palhaços, e pessoas, e corredores, e portas, e janelas, e só. Não é preciso de muito, nem de coisas específicas pra que a mágica aconteça. E as borboletas que roíam-me por dentro, de início me tiraram a voz. PENSEI NO MEU PALHAÇO, MAS NUNCA PENSEI NA VOZ DELE, COMO PODE?

         Calei-me diante de tudo. Marmota caminhava pelo hospital com seu andar típico: o que não faz sentido nenhum, mas que mais parece que ele está todo assado. Não conseguia falar. Tinha medo. E mais uma vez, brinquei com o medo, E FALEI. Era um simples “Olá”, cumprimentando quem estivesse no corredor, levantando a perna direita que cambaleava enquanto o Marmota andava. E assim surgiram onomatopeias, palavras com sentido, frases... OS BENDITOS JOGOS SURGIRAM!

         Fui a marmota que o Marmota sempre me mostrou ser, com todas as palavras, e gestos, e danças, e olhares e tudo o que ele sempre quis fazer. Marmota brincou com tudo e com todos, e foi feliz alí. Na verdade, ele me fez feliz! Pelos olhos dele eu via crianças sorrindo, saindo da monotonia e da monocromática daqueles quartos. As cores saíam dos seus olhos e chegavam aos meus, mostrando como é esse sentimento aconchegante de ser importante pra alguém.

         Mas na verdade a felicidade maior, pelo o que o Marmota me contou, não vinha das crianças, por mais que elas fossem as que mais sorrissem. Mas vinham dos seus familiares. Mamães e papais que não podem fazer muito por seus filhos doentes, a não ser entregar-los em suas orações e ficar próximos para tentar ser um acalento pra dor. O palhaço parece ser o remédio para a dor da criança e para todas as dores que as mamães e papais tomaram delas pra si, implorando a um Deus que lhes tirassem aquele sofrimento todo.


         Marmota fez seu carnaval. Mas infelizmente, seu desfile tinha um limite para poder findar-se. E findou, com a boa e velha ligação do patrão. Do Chefe. E ele entendeu bem isso, de que toda brincadeira precisa de um fim, pra que uma outra comece. Marmota nasceu, enfim. E por mais que ainda não saiba andar direito, a vida é um eterno aprendizado. Mas me desculpem: ele nunca vai andar direito. 


Sobre a primeira vez, maracas e um Caju que finalmente apareceu.

Se a jogo começa ainda na fila,  o meu jogo começou vários dias antes da primeira visita. Esconde-esconde com o Caju.
    Por dias a fio vim o procurando dentro de mim, desde que o perdi. E a sensação de distância dele me provocava um medo enorme. Um insegurança sem tamanho. O que eu faria se não o encontrasse até o tão esperado Dia?
    Juntos, eu e Caju, esperamos muito pelo Grande Dia. Estávamos eufóricos para enfim visitar. Para nos banharmos um do outro. Para finalmente respirar através da Máscara das Máscaras. Sem máscaras nenhumas.

   Mas o Caju sumiu.

    Às vezes mostrava só um pouquinho de si, ou dava um grito pra que eu soubesse onde ele se escondia, mas, por mais que eu achasse que sabia onde ele estava, sempre acabava sozinho. Mesmo quando o achava por algum curto tempo, perdia-o de novo. E esse "esconde-esconde" foi ficando mais e mais cansativo. O medo do Caju não aparecer foi ficando mais e mais forte. E, na véspera e na manhã do Grande Dia, a certeza de que eu visitaria sozinho, sem ele, já me afligia muito.

    "Vamos nos encontrar em um bazar? A gente pode ver algumas roupas e tal..." disse uma veterana, na noite anterior ao Dia-Tão-Esperado (e que agora ele queria tanto adiar)

Bem, não tinha muito a perder. Até porquê nem sequer as roupas do Caju  eu havia achado. E, talvez, uma manhã com uma palhaça de longa data me inspirasse. Ou pelo menos me tirasse da tensão. "Vamos".

   Acordei cedo. Bem mais cedo do que o planejado. Me arrumei mais cedo do que o planejado. Comi mais cedo do que o planejado. Sai de casa bem mais tarde do que o planejado.

    No bazar, pouco mudara. Roupas, pessoas, uma palhaça de longa data com boas ideias, mas nada do Caju. Em lugar nenhum. Até que... "OLHA ESSE SHORT". Uma coceirinha na barriga dizia um tímido "talvez" e, olhando pro short vermelho de listras coloridas (que era curto demais pra ele [FANTÁSTICO!]) ele não conseguia parar de sorrir. "Talvez..."

   O tempo passou, andaram muiiiito em busca de mais coisas pros outros palhaços. Uma longa espera, uma caminhada longa, um transito longuíssimo. O cansaço foi tomando conta, a fome foi tirando ainda mais a paciência e a tranquilidade. "Puxa vida, vai dar mesmo pra alegrar alguém desse jeito?"

   Almoçamos, enfim (ALELÚIA). Até que fiquei um pouco menos impaciente. Ainda muito cansado. Ainda muito inseguro. Um Caju ainda perdido. 

No fusca rosa, começamos a viagem de ida pro Hospital, onde tudo deveria acontecer. Onde talvez não acontecesse. "É...ta ficando perto. Quase na hora". Cada quarteirão por onde passávamos me colocava mais perto dos meus medos. Do meu não achado.

   Coloquei Kids pra tocar no fusquinha. "Se isso não vai fazer o Caju aparecer, pelo menos deve me animar".
Não, não funcionou.

   Até que..."AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!!!! TIVE UMA IDEIA! VAMOS TOMAR SORVETE!" disse a palhaça mais velha.

Já eram 13:50 mas a ideia pareceu tão absurdamente fantástica que ninguém se preocupou muito com o atraso evidente que isso resultaria.

E, não mais que de repente, entre uma palhetada e outra, um cereal flocado com bastante chocolate dentro do sorvete e uma calda de chocolate caindo e sujando o short, um sorriso travesso começou a se mostrar. Ao sair da sorveteria, lavando o rosto, os cabelos já pareciam mais desajeitados e as sobrancelhas mais curvas. "Caju?". Uma vontade doida de dançar e pular tomando o corpo. Atravessar a rua correndo até o fusquinha só de diversão. O sorriso travesso dizendo "QUASE NA HORA! TA CHEGANDO!".

Chegaram, por fim... Senta. Respira. BÓ SE ARRUMAR, NEGADA!!

Peguei numa calça, peguei numa blusa...nada. Peguei no short vermelho com listras coloridas... "É...É ELE!!". A coceirinha na barriga gritou "CERTEZA QUE É!" e, quando o vesti, as coisas já ficaram diferentes. Vesti uma meia da cor do short e uma blusa toda amarrotada de tãããão velinha. Um friozinho na barriga...

 "Eu to me sentindo tão...haha! Que irado!"

Não tinha uma palavra boa para aquilo. Lembrou da primeira vez que se maquiou. Aquela sensação doida de euforia e medo e tensão e "let's do it" e "caraca eu to ficando doido" me inundou mais e mais e o Caju finalmente tinha saído do esconderijo. Ele finalmente tava aparecendo pra mim.

"É verdade, a maquiagem!"

A sensação sem nome crescendo e crescendo. Pulos e umas dancinhas sem jeito entre cada "me empresta o lápis?" ou "quem ta com o pancake?". A euforia tomando forma e o sorriso traquina sem sair da boca.

Cada olhada no espelho era motivo de profunda euforia. Motivo de um sorriso largo e fácil. Os dedos coçavam.

Maquiagem pronta. Só falta o meu... "MEU DEUS CADE MEU BONÉ?". Ufa, tava na bolsa.

Alguém balançou as maracas, do outro lado da mesa.
"Trouxeram minhas maracas!!!!" :D

E a euforia se transformou em música (?) quando o tremor das mãos virou chocalho dos instrumentos.
Uma sensação de pertença enorme e de...algo ainda não nomeável.

Fez-se Caju. Ou Caju o fez.
É difícil explicar. Mas a sensação de achar algo que você procurou por tanto tempo é sempre muito boa. Especialmente porquê o perdera a pouco tempo e sabia que precisava demais dele.

Acho que Caju me fez.

Só sei que a visita foi ótima. Eu e Caju brincamos, rimos, fomos bastante xingados e até nos descobrimos menos brancos do que pensávamos. E a marca de cada um daqueles sorrisos vai ficar conosco por um bom tempo. A marca de cada um daqueles que mudaram o nosso dia. Que fizeram com que, eu e Caju, nos conectássemos ainda mais um ao outro e ao mundo ao nosso redor.

Também nos encontramos nos nossos amigos. nas descobertas deles. Nos jogos que eles nos propuseram. Nos seus medos e inseguranças. Nos erros e no "meu deus tu ta tão linda!". Especialmente no de duas palhacinhas que passaram o dia com a gente. Uma super ultra Top Model internacional que deixava as mães boquiabertas e uma tal de Bauru que veio de lonjão pra cá cuidar de galinhas e tambores/bancos/qualquer-coisa e que, por mais que tivesse experiência, experimentava tudo tão intensamente e pela primeira vez quanto nós. Nos encontramos neles porque também éramos erros, medos, inseguranças e tudo o mais. 

Eu e Caju chegamos em casa cheios de histórias pra contar. Ainda vestia algumas das roupas dele e ele ainda vestia alguma das minhas. Alguns traços de maquiagem ainda no rosto. O boné ainda na cabeça. O corpo ainda se movimentando demais. A coceirinha na barriga virando fervilhão e aquela sensação engraçada e sem nome ainda pulsando forte. Os pés cansados ainda tinham vontade de dançar e pular. 

"Ta bom, Mayko, já pode deixar de ser palhaço", disse o irmão mais velho, durante a narrativa da extensa saga daquela tarde.
Podia mesmo?
Particularmente, acho que não.
Descobri que por mais que a gente se perca um do outro, o Caju ainda ta aqui em algum lugar. E eu vou sê-lo e ele me será enquanto, juntos, formos. Em cada palhetada de sorvete, em cada calda derramada no short, em cada passeio pelo centro num fusquinha cor-de-rosa, em cada sorriso que recebermos, em cada short colorido achado no meio do mar de roupas e em cada Kairós que se manifestar nele. Em mim. Em nós.

Sou Caju. 
Ele me é.
Somos.
Dancemos.



Deitado, antes de dormir, o som das nossas maracas ainda ecoavam, mais e mais, na nossa cabeça.
"To ficando doido... 
...Que sensação deliciosa!"


"Hear the shuffle of my dancing feet"



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Carta para Ana

Ana,

Difícil selecionar as lembranças que possam vir a melhorar a sua alma para a primeira vez que vai colocar o nariz e tentar ser palhaça para crianças.

Acho que realmente o melhor é falar de lembranças.

Minha primeira visita foi intensa e conturbada. Eu via o nosso primeiro professor se vestindo e se maquiando. Ficava pensando o quanto ele se paramentava bem. Eu: roupas pretas (nulas) e maquiagem copiada (suja).

Muitas pessoas inauguraram o Y. Aqueles metidos a palhaços, todos bagunçando os corredores do grande hospital pediátrico... bom que dava pra se esconder quando não se sabia o que fazer. Várias vezes me surpreendi imitando o mestre, indo para onde ele ia, completando o que ele começava. Todos os olhares e orelhas se multiplicavam ao redor como censores das minhas besteiras (fracassos?).

Talvez a expectativa seja imensa porque proporcional a preparação. Lá sabia eu que o palhaço levava tanta coisa consigo, tanto significado, tanta intensidade. Tão simples parecia quando o Patch Adams passava a imagem de apenas um belo atrevido, colocando um nariz e ousando dizer bom dia inusitadamente pela rua, caindo de cima de uma árvore. Tem gente que passa a faculdade inteira para adentrar no universo do palhaço. A faculdade de artes cênicas! E somos meros estudantes das doenças. Veja que ousadia e prepotência.

Acho que por causa desse ridículo (querermos ser em 40 horas o que pessoas levam uma vida para aprender) o melhor caminho era de dois ou três amigos meus que decidiram ser apenas um Patch (cujo significado, lembra?, é ser um curativo para as pessoas) e se permitir fazer apenas o que sem nariz nunca fariam. Sentir essa vida de permissão e traquinagem, gentileza e alegria que o senso comum entende dever ser o doutor palhaço. Assim, eles eram menos preocupados e curtiam mais.

É tipo quando a gente se forma em medicina. Morto de medo que qualquer paracetamol a mais vá fulminar com o fígado de um. Morrendo de vergonha de estar abrindo um livro na frente do paciente para tirar dúvida sobre o problema que ele compartilha. E, no entanto, pelo menos no contexto da atenção primária, a pessoa ficava feliz só por você estar ouvindo, atento, acolhedor, preocupado, se importando - presente.

Recentemente, nas minhas terapias, eu descobri essa coisa tão importante sobre a grandeza de meu pai. Depois que cresci, ele deixou de ser para mim aquele grande herói, conseguia derrubá-lo na queda de braço, corria mais veloz que ele, ultrapassei seus conhecimentos matemáticos e, mesmo, os das noções das cadeiras básicas de medicina. Por que, então, que depois de sua morte eu fui sentindo uma falta abissal dele? Seus gestos mais bobos nascendo em meu corpo. Suas piadas mais tolas, em minha boca. Sua forma de pensar mais cotidiana, em meus atos. Porque, entendi, ele esteve sempre presente. Desde as madrugadas em que trocava as fraldas, até os banhos debaixo do chuveiro para baixar a febre, até a sua pequena pança me servindo de travesseiro, seus métodos infalíveis de me fazer decorar os capítulos de história, seu rádio da madrugada, seus jornais de todo domingo, as figurinhas que trazia das bancas para completar meus álbuns, sua forma de dormir com o travesseiro ou o livro no rosto, até o nosso último café que ele sempre fazia amargo. 

Claro, Ana, que você está longe de ser alguém tão importante assim na vida de qualquer criança. Não há tempo para se formar tanto passado. Mas, eu te aconselho só isso, depois de todas as orientações que passei nas oficinas: se não há tempo suficiente para se construir um grande passado entre vocês, esteja, pelo menos, presente. 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Assessorya de Palhaços

Vocês acreditam que até hoje nunca tivemos um acompanhamento longitudinal de nossos palhaços. Um espaço semanal para sentar e discutir, elaborar, digerir, assimilar, transcender e imanentizar toda a loucura que acontece em nós ao vestir a máscara de palhaço e ir visitar crianças que nos ensinam que há motivos para sorrir apesar de...

Precisamos de muitas coisas: respeitar os duetos, incrementar os jogos, intensificar os instantes, tornar mais cômicos os corpos sem se valer de tantos adereços, encontrar as roupas certas, aquela maquiagem, sentir mais os narizes, respeitar a arte, falar das quedas e de si. 

É a esse momento que eu chamo de "Eu, Caio". Três coisas acontecem nessa frase:

1. "Eu sou Caio, prazer!". A pessoa fala mais de si e se deixa enxergar como um sujeito todo especial, singular, como todos somos. 
2. "Sim, eu caí!". A pessoa fala da sua queda, da sua falha, onde ela acha que vacilou. Dividimos angústias de visitas e de máscara fora do lugar. 
3. "Sim, eu caio, e daí?!". A arte do palhaço é a de cair em todos os instantes. Falar de e treinar como reinventar quedas para gerar graça. 


***

Queria muito que aquela tal de "medicina é ciência e arte" fosse verdade. A arte está muito longe de nossa faculdade. Não sinto que o Projeto Y, sendo um dos pouquíssimos a se aventurar de manter alguma conexão estabelecida com esse mundo, seja suficiente para promover grandes mudanças. Mas, o que mais admiro nele é se atrever a ser ponte. Ponte para um tempo que sei lá quando chegará. Será um dia em que aprenderemos (eu encarnado em meus tataranetos) anatomia e fisiologia com nossos próprios corpos. Sim, isso é erótico, e daí?! Perdemos a capacidade de ser eróticos de tanto querer sublimar as coisas. E de tanto sublimar, viramos técnica. Já pensou o professor falando:

- Pessoal, para entendermos a fisiologia da contratilidade cardíaca precisamos ver até que limite nosso coração pode bater, por isso gostaria de convidá-los a dançar. 


***


 A ideia primeira é que essa assessorya seja semanal, trabalhando com uma dupla de palhaços por vez. Acredito que, com isso, vamos elevar a experiência de nossos menynos e menynas do Y a um outro patamar de potência de viver. 

- Espero que dê certo! Já está dando! - diz o Beto.