quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Oração por sorrisos confortáveis.


Hoje decidi tirar prosa com um dor meus funcionários preferidos da faculdade: o seu Ivan. Parece que ele sempre tem um discurso certo pra mim, por isso adoro doar um pouco do meu tempo pra ouvir algumas palavras dele. Quando falei do Y, ele me disse algo que mudou meu dia:

"As vezes é preciso deixar o nariz de lado e olhar no fundo dos olhos dos outros, doar carinho e mostrar que você, verdadeiramente, se importa."

Em meio a atrasos e correrias, apertamentos e tropeços, encontrei-me novamente vestida de Dra Zói de Bila, pronta para visitar meus pacientes no hospital. Algo dentro de mim já gritava "HOJE VAI SER BOM".
Ali, naquela entrada que tanto conheço e frequento, toquei meus primeiros acordes. Tentei passar o olhar em todos enquanto a música ressoava, e todos que ali estavam esperando para fazer exames me retribuíram com o mesmo gesto. "E se eu tiver alguma fala, eu mudo pra 'eu amo vocês'". Assim terminei a canção e estendi meu meu chapéu atrás do cachê. "Forma de pagamento? Pode ser palma, beijo, ou abraço, senhora. O que você vai preferir?". Ela se levantou e me abraçou apertado, e como uma onda do bem se propagando, todos a quem estendi meu porta cachê também pagaram a canção via abraço. Tinha que ser forte, apertado! "Você está tão linda, palhacinha. Que Deus te abençoe."
Subimos a escada e no corredor encontramos uma das funcionários do hospital. Já a conhecia de outros plantões. "Oi! Doutora Zói de Bila não é?". Pedi mais uma vez pra ela me dar os olhos azuis esverdeados dela: pedido negado.
Ao som de Noite Feliz, entramos cantando na pediatria. Uma porta aberta me convidou a espiar, e um menino de 3 anos me convidou pra entrar. Toque pra ele e ele me ensinou os acordes desafinados de "Jacaré", de autoria dele. Encaminhei-me ao quarto ao lado.
Dois meninos dividiam o quarto: Thiago, 10 anos, acompanhado do pai; e Lucas, que devia ter uns 8 anos, acompanhado da avó (que, pra ele, era 5 vezes mãe). Os dois estavam muito quietos e comportados pra idade, o que me causou surpresa. "Lucas, cê gosta de pop? Rock? Sertanejo? Forró?" e toquei Xote da Alegria. Lucas, que antes estava afundado na cama, foi ajeitando sua postura. Thiago ia observando de longe.
Pedi meu cachê em palmas, ma o chapéu ainda estava leve demais. Leite Ninho já é caro, imagina pagando com afeto! Depois de me pagarem com abraços comprimidos e sinceros, o chapéu ficou tão pesado que caiu da minha cabeça. Dr Cookie teve que me ajudar a achar todos os abraços perdidos na queda.
Em meio aos sopros da Dra Crystalina, eis que surge o pedido do Lucas por um balão vermelho com um coração alado e coroado. "Sabe que música isso me lembra?" perguntou Crystalina.

"Meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois"

Éramos palhaços cantarolantes no quarto. Meus acordes acompanhavam cada palavra, que cantei olhando no fundo dos olhos do Thiago. Senti que ele percebeu minha felicidade em estar ali, naquele momentinho da minha rotina, com ele. Não houve uma gargalhada, mas aos poucos a sua feição séria desencadeou um sorriso leve, discreto, confortável. Encontrei o calor naquele olhar.
Saímos do hospital proclamando aquela oração. Fiquei sem ar de tão radiante que estava. Naquele momento que findou a visita, lembrei das palavras do seu Ivan, e de palavras que escrevi no meu teste de seleção para o Projeto Y:

"Hoje me apaixonei por um par de olhos que provavelmente nunca mais irei ver, mas ele me deu motivos para sorrir o resto do dia."


Dra Zói de Bila

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sobre o lugar pra onde eu não quero voltar

Há dois meses eu parti e deixei um monte de coisas pra trás.
Amigos, família, faculdade... deixei até meu país, meu continente, minha terra e meu sol.

Troquei tudo por uma vida absolutamente nova, sozinho, explorando o gigantesco mundo lá fora e o vasto mundo aqui dentro.

Há dois meses eu parti.

Desde então venho aprendendo muito sobre mim e as coisas. Mas, talvez, o que tenha aprendido de mais valioso até agora vem sendo os lugares para onde eu quero e os lugares para onde eu não quero voltar.

Também faz dois meses que eu me afastei da salinha laranja/azul, das maquiagens, do meu nariz vermelho, das bagunças na hora do almoço e do entrelaçado de pernas risonhas toda sexta feira.

E de todas as coisas que eu deixei, de todos os lugares que eu parti... eu não sei direito. Mas acho que um pedaço de mim ainda tá lá. Um pedaço de mim que talvez não tenha vindo comigo. Porque de todos os lugares que eu me afastei, esse é o que vem gritando mais alto em busca do meu olhar. Da minha saudade. E... esses dias... vem sendo o lugar do qual talvez...do qual talvez eu mais sinta falta.

Inclusive, graças a ele, esses dias pude explorar um lugar ainda novo aqui dentro; Graças a falta que sinto dele, andei percebendo que também sinto falta de jalecos e prontuários, de estetoscópios e receitas, de consultórios e consultas. Também sinto falta da medicina contra a qual tantas vezes bradei com meus punhos cerrados afrontas mil.

E talvez a distância esteja colocando as coisas um pouco fora de foco mas, eu já nem sei mais se esses dois ainda são mesmo lugares tão diferentes pra mim.

Há dois meses eu parti.
E o Y é um dos lugares pra onde eu não quero voltar.
Porque certos lugares...certas vínculos...sei lá...
...certas coisas não dá pra partir.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Dez anos



É um tanto obrigação para mim falar sobre o que foi nossa noite de dez anos. Não porque tenham me obrigado, mas é que necessito. 

Não vê? Já se foram dez anos. Recentemente descobri que é o mesmo intervalo de tempo que me separa da última geração. Minha coluna dói na cervical e na lombar. Acordo todos os dias feito boneco de cera, e o sol vai me amolecendo. Meu joelho está com a cartilagem fissurada porque o espírito não aceita que tenhamos envelhecido, e insiste em nos fazer dançar ao máximo. É daqui que olho para este tempo passando e vejo a magreza que eu não achava que tinha e os amigos que eu não fazia ideia que eram tantos. 

O projeto Y é um pedaço muito pequeno do mundo. Em uma matemática leviana, podemos contar cerca de nove gerações idas, cada qual com cerca de dez a quinze integrantes, fazendo, então, algo em torno de cem peregrinos. Foi isso que ele sempre foi para todos: uma ponte. 

Nunca vou me esquecer da cena da minha infância em que brincava de bicicleta com meu primo em cima da ponte que levava para... não sei onde. Não sei para onde a ponte levava porque sempre brincávamos na ponte. Em certo momentos parávamos e íamos mijar no lago sob ela. Não havia tempo de voltar para casa. Perderíamos brincadeira. Perderíamos por quê? Não fazíamos ideia o que nos esperava adiante. Eram as meninas que namoraríamos, os estudos que se aprofundariam, a faculdade, as doenças de nossas mães, o casamento, os filhos. E, todavia, a ponte continuava ali, em nós.

Por ela, passou gente que eu mal fazia ideia do quanto eu amaria. Recentemente fiz um trabalho sobre o projeto Y, e as entrevistas foram reencontros. Outra coisa é que saímos de nós. Os que estiveram na frente daquela noite decidiram homenagear estes outros que encontramos. Encontramos outros palhaços mundo a fora que comungavam do que sentíamos.  Sabe qual o sentido de comunhão, né? É um bolo que se reparte e não se acaba, porque não é divisão, é partilha. 

Como dizia, este projeto é um pedaço pequeno. Vivemos dizendo que a ideia é conquistar o mundo que nos acolhe, mas todos nós, no fundo, sabemos que isso é balela. O bonito daquela festa não foi ver o quanto conseguimos nos proliferar, mas o quanto conseguimos nos unir, verdadeiramente. Reconhecer nos outros o que nós fomos, somos, seremos, queremos. Parar um pouco para mijar ali, que não havia tempo de voltar para casa. Não dava mais para voltar para casa. Não a mesma casa. Não o mesmo eu. 

Allan Denizard (Dr. Acerola)

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Se o sono pós uma visita é bom, imagine DUAS! *.*

Eita que hoje foi o aniversário do Caps!
Mais um desafio gostoso pela frente.
Andar na rua já foi difícil, quem dirá chegar lá no meio da festa do Caps.
Já fui perguntando por ele com minhas amigas.
- Cadê o Caps? Ele é alto? Baixo? Moreno? Negro? Loiro? Ruivo?
- Tá solteiro?
- Nãooo! E as pessoas riam de nós
- O Caps é onde você está!
- Ah ele trabalha aqui?
- Ér..Ele faz a gente viver!
- Ele nos dá coragem, amor, apoio!
- O Caps é tudo isso! (Erguendo o braços e rodeando-os, mostrando o local).

E meu coração se derreteu. Não deu para continuar na onda de que o Caps era uma pessoa. Nos apresentamos e, a partir daí; com um músico na festa, resolvemos cantar parabéns a esse núcleo tão maravilhoso que cuida de pessoas que também precisam de cuidado e amor!
Aliás, quem não precisa, né?!

E em meio a bolos, refrigerantes, íamos nos apresentando: Sardynha, Felycia e Crystalina. As pessoas também se apresentavam e tiravam fotos e mais fotos. Mais um dia de artista!
Cantávamos, dançávamos com pessoas maravilhosas com olhos e atitudes de criança.
Brilhavam!
Só não saíam correndo conosco, porém entrar no jogo eram com elas mesmo.
Uma mulher me chamou em alto e bom som: "VACA"...
Oi?
Comecei a mugir...
Depois descobri que ela gostava de vaca! Sim, o animal!
Carregava consigo um chaveiro de vaquinha e não parava de apertar a vaca que levamos para a festa! Ufa, se ela me chamou de "VACA" é porque gostou de mim. E assim foi me mostrando seu modelito para a festa. Estava com um vestido que não era preto, nem branco como as típicas vacas, mas era muito bonito! Combinava com o azul do sapato e sua bolsa escura.
Tinha outra mocinha que só queria saber de abraçar. Dei muitos comprymidos a ela como devia de ser!
Outra que tinha se apresentado na festa. Estava de branco, com inúmeros colares e dançou feito baiana. Infelizmente, não chegamos a tempo, mas depois nos bastidores conversamos, Ela também dança Shakira! Já ganhei uma amiga artista!
E mais uma! Essa cantou!
Me arrepiei todinha:

"Esta jovem quer votar,
mas não lhe deram direito
por que aqui tem pessoas
que tem muito preconceito
e disseram para ela,
não nos entenda mal,
mas você não vai poder
por ser doente mental.

A jovem ficou calada
não queria responder
mas em seguida falou
escute o que vou dizer
eu hoje estou feliz,
tô alegre pra xuxu
Você disse que sou doida
e eu respondo doido é tu!

Não devemos baixar a cabeça
diante dos preconceitos
o que temos que fazer
é procurar nossos direitos!"

Ééé...Isso bateu no âmago e lá ficou! Nossa! E mais que cantar foi ela que compôs. Foi lindo de se ver! Fiquei pensando nos moribundos, naqueles esquecidos, marginalizados pela sociedade.
São seres que também precisam de amor e atenção. Seres que precisam dos seus dias transformados, resignificados, com apoio redobrado!
Acho que deixamos o Caps feliz!
E ele também nos deixou!
Feliz e com gostinho de quero mais...

Falando em mais!
Lá fomos pro HU ver nossas crianças! Estávamos prontas para labutar, por quê não chegar lá!
Já estava Aurora, Florêncio, Sem nome e ainda tivemos sorte de pegar a Spyvitada correndo pelo corredor da Ped.
Eita que era palhaço!
Eita que era criança!
Crianças felizes, correndo pra lá e pra cá! Florêncio caía no chão, levantava, corria. Cansei só de olhar haha. Sardynha gostou de mergulhar nessa brincadeira. O chão eram suas águas, e os meninos peixinhos também. Sem nome tava com seu violão alegrando a ala dos meninos junto com Aurora.
Eu e Felycia não queríamos atrapalhar, então lá fomos ver as meninas.
Raquel e Stefane estavam deitadinhas, então Eu e Felycia resolvemos sentar (estávamos cansadas da festa), mas ai fiquei falando com a Stefanie, de como seus olhos tinham ficado verde de tanto comer alface, de suas meias brancas que pareciam de líder de torcida segundo a doutora Aurora!
Papo vai, papo vem, surgiu um broto de gente de 2 anos impressionado com meu nariz vermelho e se punha a rir quando tocava nele e eu espirrava. Era besta, porém gostoso.
Já que era uma ruma de palhaço, fui ver a Stefanie novamente, e ela insistiu para que me mostrasse sua cirurgia, mas ela estava imobilizada e o esforço seria grande. Parei e disse, que isso menina, vai pegar friagem! Ela riu e parou. E depois de uma distração minha de alguns minutos, ela me chamou!
- PALHAÇA, PALHAÇA! Acabei de receber alta!
- Que legal, vc vai poder ser líder de torcida!!! Eu do um A, eu dou um D, eu dou um EUS! Adeus! Quero ver mais esses olhos verdes por aqui não...
Ela ria e reclamava de dor..."Eu não posso rir"...
E eu ah, desculpa. Essa doutora palhaça que nem respeita as condições dos seus pacientes...
Fiquei foi feliz oh, de poder presenciar essa cena!

O dia foi bem cansativo e muito prazeroso...Nada melhor do que o sono pós DUAS visitas! *.*
A vida segue...! :O)

Abaixo está o áudio da dona Graça que nos permitiu que postássemos sua obra de arte e sua cara no mundo rs...

 
29/09  
                                                                                                                   Crystalina.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Era tudo estratégia...

Nem tudo era estratégia
Está feliz; visite, está mal; visite.
Na dúvida; visite!
Em uma longa seca literária/ artística eu teci um casulo e lá fiquei. Minhas asas amassadas proclamando voo à medida que minha mente pedia descanso.
E em uma longa seca, precisava agir. Já estava descansada, eu só precisava romper a carcaça... Me munir de pessoas especiais, pessoas que me inspiram para voltar a visitar. E na necessidade disso, criei expectativas e mais do que isso, queria ser apenas espectadora daquelas palhaças. Só queria apreciar o espetáculo e aprender cada olhar. Nas outras visitas eu pensava o que dizer, o que jogar, como ser, como agir...Meu Deus, as dúvidas me levavam para um mar de questionamentos e de lá eu não saía e lá eu não era eu.
Aquela salinha tomou outra energia ao som de Novos Baianos. Aquelas paredes azuis davam risadas conosco, aquela miscelânea entre jovens e velhos, aquele carinho e ao mesmo tempo zoeira com o próximo era possível, tudo possível. 
Você é palhaço desde o momento que começa a se arrumar. Uma carga necessária vai aumentando para suportar tudo vem pela frente. Parece um termômetro recebendo desafios, estes eternos que temos que enfrentar. Depois de prontas, vieram uma chuva de bombons, melhor, um chafariz destes vindos depois de um apenas "bom dia"! Já ganhei minha manhã. Lá embaixo, ganhei um cházin para me acalmar e guardei o copo para mais tarde de tão bom que estava. Risadinha e Amylícia cumprimentavam todos e já íam brincando com o segurança, com as outras pessoas. Entrei na onda e apresentava a Criytalina, que brilha como um cristal. Ao entrar no hospital não foi diferente. As pessoas olhavam para nós com o olhar receptivo, era fácil se entrosar. Elas ansiavam por um carinho, uma fala, uma olhar sequer. E brincadeira aqui, brincadeira acolá, aquele hospital ia se tornando minha casa. Uma vontade de sentar naquelas cadeiras, ou deitar naquele chão ouvindo as histórias alheias em consonância com o momento. Era fácil, muito fácil.
E nos meios das minhas histórias boladas em que eu poderia ser quem eu quisesse, as pessoas também entravam no jogo, a ponto de eu mesma acreditar no enredo. Eu jurei em um dos momentos que dona Bernadete ia tirar seu nariz vermelho da bolsa e me acompanhar, mas era apenas seu celular tocando, rompendo aquela história com minhas risadas de realidade.
Era gostoso ouvir de um senhor que realizou um transplante de fígado, que tinha ganhado o dia só de falar conosco. E subindo devagarinho por conta de uma entorse quase curada, o ato tomou graça e importância. As pessoas com roupas verdes de hospital eram alfaces, os médicos eram nossos colegas de profissão que também entravam na onda, aliás uns sim outros não. Ali e acolá estávamos brincando, tirando fotos com figuras representáveis como o Einstein, com danças desengonçadas em meio a um tambor divertido de madeira.
E na rampa resolvi falar. Gente, meu coração está doendo. Sai do palhaço e disse: é sério! Já doía desde que entrei no hospital, mas a dor aumentou e não consegui guardar para mim. Eu ria e ele doía mais, sensações vinham, me arrepiavam e essa dor me acompanhava junto. 
Seria sinal de infarto? Gases? Respirava e doía também. Será que meu coração não estava aguentando tudo aquilo? Os sinais emotivos como chorar, arrepiar não faziam mais sentido. Ver a Risadinha ser aclamada e lembrada, era singelo, bonito. As pessoas lembrando dela mesmo depois de um bom tempo sem visitar. Comecei a observar: ela não usava artimanhas, artifícios para conquistar o pessoal e nem criava planos para visitar. Ela era ela! E assim era com a Amylícia (uma fusão de Felícia com o penteado de Amy Winehouse). E minha ficha caiu. Eu não preciso ser ninguém além de mim. O palhaço não é um personagem. Ele nasceu de mim e lá sempre estará. 
E na ida até a pediatria, tomou uma força maior. Brigávamos e brincávamos com o relógio. Ainda deveríamos ver as crianças! E já eram 12:20 e nada de as vermos. O tempo era outro e eram obrigações externas que nos faziam olhar o relógio.
E agora? Se passássemos por aquela corredor da pediatria, não iríamos sair tão cedo de lá.
E agora? 
Risadinha disse: vamos ver os artistas pelo menos. Eu não sabia quem era os artistas, mas disse, tudo bem, vamos lá! 
E lá estávamos andando pelo corredor, aquele da pediatria. Não queria fazer estardalhaços para não ludibriar as crianças, já íamos sair de lá infelizmente. E ao virar numa salinha à direita, lá estava a artista. Era uma senhora vestida de carinho e carência. Uma senhora doce, com mãos talentosas para o artesanato. Era realmente uma artista! Meus olhos brilharam ao ver tantas resignificações. Garrafas de cachaça virando vasos de flores, caixas de remédios se transformando em lindas caixinhas aveludadas e coloridas e outras coisas belas. Olhando para suas mãos, seus braços me chamaram mais atenção. Via ali uma fístula de hemodiálise, e a dor novamente no coração se fez presente. Lembrava ali da minha mãe, que lutou em busca de um rim por 12 anos. Era lindo de lembrar que minha mãe levava vida para o hospital com festas, bolos e salgadinhos, enquanto que a artista recrutava pacientes para fazer artesanato! Que lindo, que lindo de ser ver!
A artista cobrava a falta que Risadinha fazia, enquanto esta explicava seu desaparecimento. E eu disse com todas as palavras e sentimentos, que na ausência de Risadinha, Crystalina se faria presente. Nos despedimos e saímos devagar pelo corredor. Agora entendi o porquê dele ser tão grande. Era preciso nos estabilizar para ver mais e mais pessoas. E pelo hospital vinham mais abraços quentes e libertadores, a cada passo, eram mais fotos e fotos. Agradecimentos e parabéns mesmo nem sendo meu aniversário.
Quase saindo do Hospital , vimos uma senhora chorando. Ali seria um momento ideal para retirar o nariz vermelho e conversarmos de "gente para gente", mas não. Com o nariz em seu lugar, perguntei à senhora se queria um abraço e lá estava eu querendo passar todo meu carinho possível para aquele ser ali, frágil. 
Estava preocupada com seu parceiro, casados à 35 anos que acabava de ir para a mesa de cirurgia. E por conta de um aumento de pressão o procedimento seria dificultado. Tentamos dar força, conversar, distrair. Ela contava sua história. Desde a perda de sua mãe recentemente, até a formação de sua família, de seus quatro filhos e de um netinho lindo. Ela estava relativamente bem quando então recebeu um telefonema, talvez de um parente perguntando de seu marido, e aos prantos falou que só teria ele, que sua mãe já tinha falecido e que ela estava sozinha. 
Depois que desligou eu tive que intervir, afinal sei o que é perder uma mãe e assim como ela se fez presente na visita, ela se fará em todos os momentos da minha vida. Eu disse a ela: Você não está sozinha, Sua mãe está nas suas lembranças, no seu coração, em cada parte do seu corpo. Ela sempre estará com você. Deus lhe dará forças para continuar! 
E depois de afirmações silenciosas, permanecemos assim por um tempo. Recompusemos todas e saímos dali, deixando-a mais calma.
 A vantagem de estar com o pé machucado, foi que as escadas pareciam outro corredor da pediatria, em que eu poderia digerir tudo para continuar.
Com altos e baixos fez-se a manhã/tarde. Meu coração mesmo sendo grande, foi pequeno para tantos sentimentos, saímos dali com gosto de, poxa nem vimos as crianças, mas com certeza foi maravilhoso entrar nesse espaço e mexer com todos aqueles que ainda possuem uma criança dentro de si. 
Foi gostoso entrar na ponte e nunca mais dela sair! E assim sigo com mais gana de visitar e perceber que não preciso ser ninguém além de mim. Dançar até o sol raiar, mostrar como sou, jogar meu corpo no mundo, não desprezar nenhum canto e saber que pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto (e que tanto) <3>



                                                                                                          Dra. Crystalina.


terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Amarelo Escondido no Vermelho


                Tenho que admitir que não foi fácil. Usar um nariz me torna uma dicotomia ambulante, na qual me sinto leve (por poder voar mais alto com meu ser mais imaginativo) e, ao mesmo tempo, pesada (pelas responsabilidades e realidades que ele me trouxe). “Mas é só vestir a roupa de palhaço e visitar criancinhas no hospital, o que tem de tão difícil?”. HAHA.
                Acho que o peso todo vem de um estado de espírito que, devo admitir, não está muito presente em meu ser: engraçado. Todo palhaço é engraçado! Não?! Engraçado... Eu pensava ser assim que a palhaçolândia girava, através da graça, tanto que muito surpresa fiquei a ser selecionada em meio a 46 pares de olhos. Que graça eu tinha, afinal?  “O que essas pessoas enxergaram em mim que eu não encontro ao olhar no espelho?”
                Depois de 40 horas tentando achar a minha graça em uma oficyna, me contaram da primeira visita. Seria a primeira vez com meu nariz recém nascido, o que me deixou nervosa. É engraçado (olha a graça aqui!) como eu fico hiperativa em situações de pressão, o que leva muitos a pensar que estou preparada para a situação... Não! Meu riso solto, ansioso, mascarava meu nervosismo por estar tão próximo de usar a menor máscara do mundo.
                O que eu posso dizer da minha primeira visyta? Médio. Normal. Foi bom. Nada demais. Senti-me estranha, não era pra ter sido o melhor dia da minha vida, o meu nascimento como palhaço? Hoje eu lembro que nem os bebês nascem sorrindo.
                “Não, tudo bem, a próxima vai ser perfeita, agora que eu já sei como esse troço de visyta funciona”. Ops! Dá pra ser pior que médio? Saí pesada do Hospital Universitário depois da minha primeira visyta por lá, a casa do Y. Arranquei nenhum sorriso.  E agora, o que eu faço? Uma pergunta que me fizeram na entrevista do projeto ecoava em minha cabeça: “e se você descobrir que o projeto não é pra você, o que você faria?”. SOCORRO, EU ESTOU ONDE DEVERIA ESTAR?
                A greve veio em boa hora, fugi um pouco das visytas. Só ia para a salynha nas reuniões, para escutar os relatos, que acabavam me deixando mais preocupada, porque todo mundo queria visytar mais e mais, e eu ficava com as memórias de como eu era um péssimo palhaço.
                Peguei-me refletindo em casa, tentando lembrar a resposta da pergunta feita na entrevista. “E se eu  descobrir que o projeto não é pra mim, o que eu faria?”. Nesse momento o celular tocou e era uma pessoa do projeto pedindo para eu cobrir um horário dela na visyta dos velhos. Aceitei porque lembrei a resposta: “eu faria de tudo para enxergar outros lados do projeto y até encontrar um em que me faça feliz, em que me encaixe”. Aquela visyta no domingo à tarde pós meu aniversário era minha busca por outras faces.
                Falando em outras faces, lembrei algo enquanto me vestia na salynha para ir ao hospital: meu nariz é amarelo na face de dentro... Por que nunca o usei assim? Virei-o ao avesso, como virei as memórias ruins ao meu favor. “Quando tento te definir em uma cor, só consigo pensar em amarelo” disse o Dr Marmota nas primeiras semanas da minha faculdade.
                Sol. Naquele dia eu era Sol na pediatria. Iluminei o corredor com as músicas que toquei no violão. Brilhei no The Voice HU, direto do quarto dos meninos. Irradiei amor quando me casei com o Francisco Davi (que está convencido que meu nome é Ana Paula, apesar de ele me chamar de Gabriela). Nasci verdadeiramente ali. Doutora Zói de Bila nasceu naquele dia, como sol nasce de manhã, e até hoje ela ainda não se pôs.
“O essencial é invisível aos olhos”. Invisível como o amarelo, que estava escondido do outro lado do vermelho. Ou como a minha graça, que todo tempo estava no meu eu palhaço.
             
                                                                        Dra Zói de Bila.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Como é difícil ser palhaço

“Como é difícil ser palhaço”, eu dizia para todos os meus amigos enquanto estava na minha capacitação. Desde julho, fui jogada em um mundo novo, no qual o objetivo não era mais alcançar, e, sim, tentar. A ponte do sucesso, que nós, seres humanos, sempre tentamos chegar ao final, não era mais para ser atravessada. Nós deveríamos ficar no meio, nós deveríamos ser a ponte entre dois mundos, ou pelo menos foi isso que entendi depois de tantas incógnitas que foram colocadas na minha cabeça. A vida que eu conhecia não era mais a mesma. Como assim eu teria que pular corda de olhos fechados? E se caísse? Como assim teria que dançar com um lenço de papel? Lenços não dançam! Foi dessa forma que o Y entrou na minha vida, desconstruindo tudo o que eu havia construído.
Depois de muita preparação, chegou a tão temida “Primeira Visita”. Em meio a vários Colegas-Y, todos imersos em uma aura de expectativa e ansiedade , coloquei minha roupinha listrada de branco e vermelho, meu sapato colorido, meu laço enorme na cabeça e, por fim, o nariz rubro (colocado num mar de pancake e tinta). “Voilà”! Tinha me transformado na Doutora Amêndoa. Pelo menos no exterior, porque no interior eu continuava a Amanda que tinha medo de errar, que tinha medo de não ser engraçada o suficiente e que temia não cumprir sua missão, que era ser ponte.
A visita começou meio capenga, comigo quase em desespero, buscando loucamente a ajuda de meus colegas. “Oi, tudo bom com você?”, era o que eu falava para tentar quebrar o gelo, mas nem sempre era o suficiente. Eu via o ambiente mudar, mas porque estava sempre com meus colegas que faziam seu trabalho mais do que satisfatoriamente. Sentia o peso nas minhas costas, a expectativa das pessoas para que eu falasse algo divertido e que fosse levar algum conforto ali naquele meio hospitalar tão cinza. Eu queria fugir, queria tirar a maquiagem e voltar a ser eu mesma, comum e imperceptível. Depois de algum tempo, porém, o jogo começou a virar.
Uma mãe me chamou, junto com a Doutora Crystalina, para animar sua filha. “Por que você está triste?”, nós perguntamos, e ela, com pesar nos olhos, nos respondeu “não posso andar”. Por um segundo, eu congelei. O que eu poderia dizer que fosse consolar essa menina? Aí que Crystalina entrou, e, logo depois, eu entrei junto, jogando conforme o que era necessário naquela situação. Um sorriso começou a ser formar no rosto da nossa “paciente” e começamos a ver a sua mudança de humor. Tínhamos conseguido! Fizemos a diferença naquele dia, e, se tivesse ido embora ali, já estaria satisfeita.
O melhor de tudo é que permaneci. A partir daí, só vieram flores. Subimos para ver mais crianças, e elas, como se soubessem do meu aperreio, estavam bastante animadas somente com a presença de palhaços ali. Não era preciso que eu fizesse muito para poder fazer parte do mundo delas. Brinquei de pega-pega nos corredores do hospital com Vitor, batizei o Pou da Cássia, me surpreendi com o forte aperto de mão do Wesley. Além disso, fiz concurso de dança e assisti a uma menina jantar enquanto conversava com ela. No fim, como se fosse a cereja do bolo, uma das crianças chega até mim e diz “vocês vão voltar, não é?”. Com essa pergunta, não importava mais se o começo da visita não tinha ido como o planejado, eu tinha cumprido minha missão ali.
Naquele dia, entendi que o palhaço é muito mais do que eu imaginava. Entendi que meu jeito pragmático de ser talvez me atrapalhe a alcançar o significado do que realmente é estar ali de nariz vermelho, mas que, com certeza, não deixarei de tentar ser a ponte entre a angústia e o sorriso.

“Como é difícil ser palhaço”, eu afirmo agora depois de ter vivido na pele.

Ruiva