segunda-feira, 19 de junho de 2017

Aula 1 - Introdução de "O espírito do doutor palhaço"



(5 min de leitura)

Por aqui vou chamar você que está lendo de você, ok? Queria que fosse uma conversa de pé de orelha. O espírito vai ser esse, se vou conseguir deixar tão íntimo, tenho lá minhas dúvidas. É que o assunto é denso. E ninguém toma um cafezinho jogando conversa fora com esses assuntos. Mas, tentemos. 

Uma professora de clown disse que era uma pesquisa ousada, típica da pós-modernidade, esta que eu estava empreendendo. Eu disse para todos, à turma do mestrado, desde o início, que queria pesquisar sobre o que há de espiritualidade na palhaçoterapia. As pessoas se admiraram, porque acharam estranho e difícil demais tentar desenvolver algo assim. Todavia, nunca visualizei outra abordagem. 

Nos dez anos que acompanhei o projeto, vendo-o crescer, geração após geração, lá estavam pessoas se revelando, se desafiando, colocando máscaras, deixando outras caírem. Fomos construindo ritos de acolhimento e de despedida, de desabafo e de captação de brilho nos olhos. Presenciávamos a sala lotada nas palestras sobre o projeto, quando à seleção de novos integrantes. As lágrimas ao conseguir entrar e por ter que sair. Sem contar nas outras tantas que diziam "foi meu porto seguro", "me deu um sentido na faculdade", "não imagino fazer algo igual na vida". 

De que ordem são estas falas? Da verdade? Sim, há uma verdade em cada fala, mas não é universal. Existe singularidade em cada vivência. Do dever? Era uma obrigação as visitas de palhaço ao hospital, mas engajadas em um sentido para além da retidão e do crime, e cheias de gratuidade. Do político? Nada tem a ver com a administração dos bens públicos, da polis ou da luta pela justiça social, a não ser em uma política muito própria dos afetos. E, então, o que? O que estamos falando quando dizemos "sentido", "amor", "singularidade"? Não creio estar sendo leviano se disser que são expressões da ordem do espírito. 

Um erro que talvez eu tenha deixado escapar no vídeo, mas que logo depois corrigi, é que para pensar a ordem do espírito não devemos pensar em sentidos que escapam como que despregados do resto da realidade material. São assuntos que coroam nossa vida. Imaginei agora aquelas aves do Pequeno Príncipe que o levaram para além de seu planeta, mas igualmente a flor que ele amava tanto e que o feria na mesma medida. As aves, a flor, um pequeno príncipe, sim, é de espírito que estamos falando. É o que dá humanidade ao corpo, é o que se apaga nele à morte. 

Sabia que se o objetivo era flagrar estes assunto nas falas das pessoas, era o espírito que eu deveria deflagrar em nossas interações de pesquisa. Tentar se mover sobre a face dessas águas, como Deus o fazia ao princípio de tudo. 

O pesquisador não é Deus. Não faz surgir as verdades da pesquisa ex nihilo. Assemelha-se mais ao demiurgo platônico: uma espécie de divindade que manipula os elementos já existentes dando forma aos mundos. Ser uma divindade é afastar-se dos mortais. É o meu movimento quando busco objetivar o olhar, escalando referências bibliográficas para encontrar quaisquer peles que consigam enfaixar as ideias. 

Um detalhe importante que falarei no próximo momento é que esteve longe de eu poder ter sido um demiurgo completo. Antes, um leviano que se esforçou por um movimento apoteótico. Eu vinha misturado com todos estes rapazes e moças na esteira do tempo, na areia dos anos. Tive que desapegar, desvencilhar, desvanecer-me como membro até onde dava para conseguir olhar com mais calma, mais serenidade, mais leveza seus movimentos. Ao final, você deverá perceber que essa atitude só me trouxe mais insônia, inquietação, agitação. E é o que Nitezsche aprovaria, pois disse só poder acreditar em um "deus que dança". 

Essa pesquisa, pois, acabou sendo uma dança com eles. 



Querendo acessar a dissertação completa, clique aqui.

sábado, 17 de junho de 2017

Curso sobre o Y



(2 min de leitura)


Olá, 

Meu nome é Allan Denizard e irei iniciar um curso falando sobre o que consegui apreender a respeito do Espírito deste projeto que deram para chamar de Y. 



Fiz um mestrado sobre isso e o defendi junto ao programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Ceará. Minha orientadora era a arte-educadora Ângela Linhares, sem a qual meus insights teriam sido mais pobres e sombrios. 

Para que esta dissertação circule, decidi abrir um curso falando dela. Estou ministrando, a princípio, este curso para os ypsilonianos, mas como devem ter percebido, nada é secreto, hermético, sibilino. Todos os textos que irei escrever explicando a dissertação estarão publicados aqui, e todos os vídeos no Youtube do projeto. 

Estou pedindo aos meus querydos e querydas que participem de forma bem amena: 1. assistir aos vídeos, 2. ler os textos, 3. comentar. Eles estarão comentando junto ao google classroom, em uma turma que abri especialmente para eles, mas se você caiu por aqui e decidiu seguir também esta aventura, terei prazer em ler o que você comentou no bloguy e no Youtube. 

Em resumo, o curso serão 

  • 8 semanas
  • 1 texto e 1 vídeo explicativos por semana
  • 1 comentário seu por semana com direito a feedback dos pares
  • Só isso!


Não pretendo que leia a dissertação. Não agora. Talvez algum dia, você senta, respira três vezes, imagina que alguém que muito amou outro alguém decidiu pesquisar sobre um projeto que muito amou e ama, junto com pessoas que amam outras pessoas e que, de alguma forma, deram corpo a este projeto com a capacidade delas de amar.

Do jeito que lançam comentários de efeitos em filme e livros, vou mostrar um que saiu da timeline do corretor de ortografia a que submeti o texto:



Por favor, não é esnobismo. É apenas um estímulo para que pelo menos abra, algum dia, essa dissertação e a folheie. 

Se esse dia for hoje, eis:




terça-feira, 13 de junho de 2017

RESULTADO DA PRIMEIRA FASE - SELEÇÃO 2017

   Olá!
    Sei que faz tempo que vocês estavam ansiosos pra ouvir algo de nós. Se serve de consolo, todos nós estávamos muito  ansiosos para ouvir, ver e sentir vocês também, durante todo esse tempo, desde o dia 05. E que honra é saber que vocês puderam se abrir de um jeito tão honesto e grandioso para nós. Então, de cara, queríamos agradecer a cada um de vocês que tiveram a coragem de se mostrar para nós de um jeito tão especial. Durante esses 40 dias nós dedicamos parte do nosso tempo para sorrir,  nos emocionar e sentir todas as outras emoções e sensações que vocês colocaram em suas produções. E a cada candidato nos deparávamos com uma nova surpresa. Com um novo universo. E, feito astronautas, viajando por estranhos e novos planetas, íamos descobrindo esses solos estranhos, hora com cuidado, hora dominados por ansiedade. Mas sempre com uma vontade de desbravar, presa em nós. Com sede de descobrir todas as cores desses mundos. Todas as faces das pessoas que moravam dentro deles. Todos os sóis que iluminavam os seus dias. Com fome de todos os sonhos, todos os medos, todas as alegrias e angustias que poderíamos encontrar lá. E nos permitimos nos perder nesses mundos. E, eventualmente, partir para mundos novos. E, como alguém que volta de uma longa viagem, após ler tudo o que cada um dos 36 de vocês escreveu, eu sinto como se trouxesse em minha bagagem muito mais do que levei. Aprendi novas línguas, novos costumes, aprendi a me apaixonar por coisas que não conhecia, aprendi a gostar de fazer coisas que jamais havia feito. Aprendi até a me permitir rir ou chorar por alguém que antes eu nunca havia visto. Viagens sempre fazem isso. Sempre voltamos com nossas malas mais cheias. E vivo agora um paradoxo engraçado, pois, ainda que com minhas malas mais cheias das experiências que trouxe, parte de mim também se sente mais leve após a oportunidade de ter vivido tanto, com vocês. Ou ainda: vivido vocês. Acho que essa última expressão talvez faça mais sentido. Eu vivi vocês. Ainda que só por um instante. Ainda que só uma fração do que vocês são. Ou estão. Ou eram.
 O que importa é que eu sou muito grato por isso. Todos nós somos.

    Agora, uma vez em casa, com as malas desfeitas, voltamos ao mundo real. Um mundo em que isso ainda é uma seleção. Um mundo em que, infelizmente, não podemos trazer todos os lugares que visitamos pra casa. Não importa o tamanho do nosso coração, nossa salynha é muito pequena. Não há espaço para todos. Ainda que quiséssemos. Ainda que nossa ganância nos dissesse que todos vocês deveriam estar aqui. Ainda que o mais justo seria que todos entrassem. Não podemos.
Foi difícil. E 14 horas corridas de reunião não fizeram parecer mais fácil. E não nos fez ter certeza de que tomamos a decisão mais certa. Haveria, afinal, decisão certa? Escolher candidatos para o projeto sempre é difícil. Sempre parece injusto. Sempre é doloroso.  Injusto porque quem somos nós para julgar quem merece ou não estar aqui? Doloroso porque como fechar a porta para alguém que se doou tanto para nós? Como lidar com o sentimento de perda por deixar algo tão valioso escorrer entre nossos dedos?

    Encontramos consolo em saber que somos humanos. Que temos falhas, também. Que não há uma resposta para esses questionamentos. Encontramos consolo em deixar que doa. E em acreditar e ter esperança de que ainda que a salynha não possa comportar todos vocês; não importando se vocês farão parte do projeto ou não, vocês podem e serão Y de seus próprios jeitos, pelo mundo a fora. Digo, vocês já o são. Porque o que chamamos de espírito do Y não se resume a um título, ou a participar de um projeto de palhaçoterapia da UFC. O espírito do Y é um espírito que possui vários outros nomes. E acredito que dentro de cada um de vocês, vocês já o têm. Cada um ao seu modo, vocês o encontraram e cultivaram ao longo de suas vidas. E ninguém pode tirar isso de vocês. Esperamos do fundo do coração que vocês nunca se esqueçam disso. E que vocês possam sempre deixar esse espírito de vários nomes brilhar e iluminar seus mundos com suas cores bonitas e quentes que nos iluminaram e nos aqueceram durante esses dias. A verdade de todos vocês é linda e única. E fomos muito felizes de descobrir um pouco de quem vocês são. 

Estamos ansiosos para nos encontrar com vocês de novo. Seja numa segunda fase ou numa seleção futura. Ou quem sabe ainda numa esquina de um planeta qualquer...
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Sem mais demora, anunciamos os selecionados na primeira fase do Projeto Y:

Ana Beatriz Madeiro - Medicina
Anne Teresa da Costa - Odontologia
Arthur Queiroz Pinheiro - Medicina
Bárbara Bezerra Lopes - Medicina
Camilla Barroso Martins Enfermagem
Gabriel da Silva Pereira - Psicologia
Glycia Silva de Souza Coelho - Psicologia
Guilherme Gomes de Oliveira Sombra - Medicina
Ingrid Gomes Queiroz - Psicologia
Ívina Maria Freitas Sampaio - Odontologia
Jéssica Almada Nunes - Medicina
João Marcelos Gomes Botelho - Medicina
Joycielle Pereira de Sousa - Odontologia
Lara Maria Brito - Psicologia
Letícia Ellen Viera Rocha - Enfermagem
Matheus Chaves Vieira da Costa - Medicina
Nathália Maria Serafim Brito - Medicina
Stephany Mayara Benigno Florencio - Fisioterapia
Classificação por ordem alfabética

Nossos parabéns a todos os aprovados! Entraremos em contato em novo e-mail para detalhes da segunda fase.

Um grande abraço a todos. Até mais

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Sobre Meus Dois Jalecos

   No começo, pra mim, o meu Doutor Palhaço era uma forma de me rebelar contra uma faculdade na qual eu não me encontrava. Contra um sistema que não parecia me incluir. Era uma forma de externar o meu ódio contra aquela medicina que me era ensinada nas aulas tediosas nas quais eu nunca conseguia aprender. O Dr Caju era muito antes uma sátira a tudo aquilo que eu achava de estranho e bizarro na figura do Médico do que qualquer outra coisa. E por muito tempo eu preferi usar meu jaleco branco e vermelho, de Dr Caju, do que o meu jaleco todo branco (e um tanto mais sem graça) de Futuro-Dr Mayko. O Jaleco vermelho era mais feliz, mais leve, mais divertido. Com ele eu era livre pra brincar de esconde-esconde, correr, fazer piada sem graça e, principalmente, pra frescar com medicina com a qual eu não me dava bem. O jaleco branco precisava ser mais pragmático. Precisava ser algo mais distante. Precisava ser mais sério. O jaleco branco precisava estar mais limpo, sem manchas ou marcas e com seus fios mais em ordem. E enquanto o jaleco branco sempre precisava ser mais, o jaleco vermelho sempre parecia ser o bastante

    Aos poucos, no entanto, o jaleco vermelho foi me ensinando a gostar mais do branco. Acho que em algum momento o meu frescar com a medicina se tornou brincar com a medicina. E pouco depois disso, como se já estivéssemos acostumados a dar as mãos para rodar em ciranda, eu e a medicina acabamos ficando de mãos dadas, de vez.

    Hoje, por conta do tempo, visto o jaleco vermelho cada vez menos. Hoje, por conta do tempo, visto o jaleco branco cada vez mais. Mas hoje, também por conta do tempo, eu aprendi a amar profundamente os dois jalecos. E já não há tanto peso. Já não há tanta angústia. E se também não há tanta correria, tanto esconde-esconde e tanta piada sem graça, ainda sobram as mãos dadas, em ciranda, com esta minha grande e outrora improvável amiga.

    O Dr Caju me ensinou a ser o Dr Mayko. E hoje, não importa o quanto eu tente lavar, o meu jaleco branco pra sempre vai estar um pouco manchado de vermelho.

Um só. Que na verdade eram dois. ou dois, mas que na verdade eram um só. A essa altura já não da pra saber.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Estou perdido

Estive conversando com um de vocês. Não é a primeira vez que tenho essa conversa, neste teor: "esta faculdade me esmaga". Pra falar a verdade, o grosso da pesquisa que fiz sobre o que vem sendo vocês se dedicando pro Y acaba tocando profundamente nessa ferida. 

Quando me aproximo do espelho, vejo as falhas da barba, os detalhes da assimetria da cicatriz que agora carrego, as manchas na minha esclera que de longe é branca toda. Quando me aproximo de vocês, vejo cada um desse mosaico que de longe chamamos Y. Eu acho bonitas as duas visões. Não por carregar harmonia, como queriam os gregos, mas por ser repleta de humanidade. 

A última pessoa que me veio falar, estava em busca de conhecer o mundo para além da faculdade. Achava que seria um médico melhor voltando dessa busca. Talvez pudesse mesmo encontrar que ser melhor fosse não ser médico. 

Já houve quem subiu montanhas e enfrentou ventanias, só para chegar num lugar bem alto, a fim de ver se lá de cima, no silêncio, na posição mais privilegiada que os olhos poderiam ter (quando as pálpebras cerram), conseguiria ver o que diabos tinha dentro de si. Há quem habite palcos ou frequente mesas brancas ou terreiros ou círculos cristãos de oração em línguas, que são experiências de transcendência sem igual: ser outro no meu corpo, incorporar os outros que sou. Outros foram para ilhas revolucionárias, dessas que vivem um outro mundo possível. Outros ainda decidiram simplesmente, na grandeza que essa simplicidade esconde, andar de bicicleta por cidades que respiram as quatro estações, deitar-se em praças que as famílias vivem o piquenique, deliciar-se com os sabores e aromas de civilizações que nos criaram. 

Há por todos os lados, as vivências de lutas sobre o amor, como ele é feito, como ele pode ser vivido, "no meu corpo", "no seu corpo", "no nosso corpo", "no entre nós". Vivi dois amores no Y. Desses da ordem do sexo, da amizade e da transcendência de mim. Chorei no colo de um, me derramei, enfim, nos braços do outro. Venho encorpando esse último amor num lar em que me deito em paz depois das lutas do dia. 

O que a última conversa com um de vocês me trouxe é o mesmo calor de sempre. Uma vida errada na faculdade que reage para não se reduzir àquilo. Então, ela queria deixar de ser errada para ser errante. Se os meus erros significam que não acerto o alvo e a meta que os diretores me cobram, é que o corpo está fazendo a prova, mas a alma, onde está? 

Quer, então, trancar um pouco essa porta, abrir outras que arejem seu rosto. Sentir a pele molhada de vida, que na faculdade de medicina, a morte é onipresente vizinha. 

O que eu poderia dizer? Vá? Quem sou eu para dar autorização? Quem sou eu para tirar? Contando essas histórias, venho me sentindo uma árvore milenar crescida ali no canto da salynha. Vou testemunhando combates e, sem dar conselho algum, conto a própria história de vocês. 

O que eu poderia dizer, o que acho certo alertar, é que um semestre ou um ano ou um país distante não bastam para se encontrar. Para falar a verdade, feito árvore milenar, tenho pensado cá com minhas folhas cadentes que mesmo uma vida parece pouco. O que não pode acontecer é deixar de buscar.  


Dr. Acelora, ops, Acerola 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Deméter e a velha palhaça ou Sobre alegrias breves

Conta-se, entre muitas outras versões, que quando a deusa grega da fertilidade e dos cereais, Deméter, esteve triste e colérica por conta do rapto de sua filha Perséfone pelo infernal Hades, uma velinha de uma aldeia grega desconhecida foi prestar culto a deusa. 

No meio do culto deu para tombar, cair e ficar de bunda para o ar com a calcinha a mostra (se é que tinha calcinha). Deméter olhou aquilo do alto de sua infeliz potestade e - riu! Sua gargalhada gerou mil bouganvilles novos, alcaparras aos montes, pólens escapulindo da sua boca fecundando um sem fim de terra, em um solo fustigado pela seca, pela raiva de uma deusa-mãe sem sua filha. Num átimo voltou a se lembrar que a filha ainda estava longe de si, e neve verteu de seus olhos queimando o que havia florescido. 

Esse mito ilustra muitas coisas. Entre elas, o fato de nosso fazer de palhaço de hospital gerar uma alegria breve. Outra delas é sermos - nós, os agentes do riso - desconhecidos, moradores de uma aldeia qualquer, nada de heroísmo, nomes fulgurando na história universal. Outra ainda, é o de provocar flores, que são lindas, e que morrem. 

Lembrei disso nesse momento em que perdemos nossas perséfones (e um perséfono): Rafaela, Lara, Jucá e Renan. Eles vão seguir no casamento com suas profissões, seus infernos. Vão nos deixar aqui, no inverno de Deméter. Não sofremos como a deusa, porque não temos o menor poder de negociar a volta deles com qualquer superior que seja. Sofremos como a velha do tombo. O máximo que podemos fazer é continuar tombando a fim de continuar o ofício de provocar flores, como eles provocaram por alguns anos em nós. Somos desconhecidos, de fato, mas nossos amores, seus nomes, sabemos bem quais são, quem são cada um. 

As palavras-chaves que eu escreveria se esta postagem fosse um artigo científico para ser publicado seriam: Saudade, Brevidade, Flores. 

Voltem a nos visitar, por favor! Será, então, primavera. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Há um ano e um pouquinho

Começou tudo com um desconforto. Será que vou saber visitar com essa pessoa Tão diferente de mim?
Bom, só saberia se criasse coragem e fosse pra visita.
Com toda a ansiedade que cabia em mim, fui pra salinha. Algumas conversas jogadas fora me acalmaram e me fizeram pensar que talvez não fosse ser tão ruim assim. Quando nos arrumamos, estava com vergonha, mas ansiosa para saber como acabaria aquele dia.
Munidos de ukelele e bolhinhas de sabão, nos encaminhamos ao HU, e as coisas foram acontecendo. Um porteiro simpático tendo sua garrafa de café roubada. Um guardinha gente boa brincando conosco. Uma recepcionista beijando as nossas mãos. Pessoas sorrindo ao passarmos cantando e tocando as cordinhas do pequeno instrumento.
A música me acalmou e salvou meu juízo. A leveza começou nesse momento.
Ao chegarmos à enfermaria e sermos bem recepcionados no quarto, já recebi elogios. “Poxa, sou Doutora Sem Nome” “Deveria ser é Doutora Linda!”. Sorrisos acolhedores e abraços envolventes. A leveza continuou aumentando.
Da sequência dos eventos seguintes não me lembro bem, mas ficaram registrados.
Um palhaço segurando o ukelele, e uma criança que sempre quis saber tocar batendo nas cordas. Ambos tinham os olhos brilhando.
Duas crianças fazendo competição de quem fazia a maior bolhinha de sabão, e o quarto inteiro prestando atenção e sugerindo dicas para os competidores por quem torcia.
Uma criança dançando e sorrindo em meio a uma brisa de bolhas de sabão com uma música desafinada tocando do chão, e uma mãe vendo tudo e sorrindo mais ainda.
Médicos, enfermeiras e funcionários da limpeza sorrindo e felizes por estamos lá, nos dando água e nos passando suco de manga.
Uma menina no isolamento e um menino Forte rindo de dois palhaços e uma criança (que, de tão alegre, mais se assemelhava aos ébrios felizes) dançando e rebolando o bumbum, enquanto cantavam que “os seus problemas você deve esquecer!”.
Momentos que pareciam estender o tempo em mil, nos permitindo vivê-los o máximo que podíamos.
Ao fim de uma visita que fora tão longa, mas, ao mesmo tempo, tão curta, meu coração estava mais do que leve. Sentia cada célula do meu corpo sorrindo e aí percebi.
Percebi nossa função naquele ambiente. Percebi que, por mais que nós tenhamos ajudado as pessoas do hospital, nós Nos ajudamos ainda mais.



Há pouco mais de um ano, escrevi esse relato da visita que até hoje conto sobre quando quero falar sobre a sensibilidade que o Y me trouxe. Talvez eu devesse ter postado na época, quando as lembranças ainda estavam frescas, e Elephant Gun ainda tocava na minha cabeça, mas a timidez me impediu. Enfim. Tá aí agora.


Preta.