segunda-feira, 3 de julho de 2017

Aula 3 - Caminho teórico-metodológico



(2 min de leitura)

Há muito exigem da gente deixar inteligível o caminho que trilhamos para chegar nas conclusões que chegamos. Desde, pelo menos, Sócrates, o irônico.

Dos cinco últimos séculos para cá, a coisa piorou enormemente. É a tal da exigência do pensamento crítico, que não aceita que certos conhecimentos possam surgir, de repente, no palco da mente. Acho, de algum modo justo, pois muito charlatão se aproveitou do ponto cego das pessoas, passando por verdade ilusões.

Desde então, ninguém pode entrar no castelo da ciência sem responder a pergunta-senha: “qual foi o seu método?”. O problema é que, em certo momento, encantaram-se os homens de ciência tanto com o método que submeteram a incomensurabilidade da realidade a ele. Falo particularmente do método positivo, aquele que quis matematizar as coisas, tabulá-las em uma geometria arestosa.

Conseqüência maior: a realidade foi amputada em toda sua riqueza para caber lá dentro.

O capítulo 3 fala sobre parte da natureza do que quero captar e, portanto, da inviabilidade de muitos métodos que flertam com o positivismo para conseguir promover essa captura. É um capítulo difícil de ler. Dialoga com muitos pensadores para me fazer aceito pela academia. Tive que fazer uma grande corrente para arrombar a porta.

Em resumo, o que queria passar é o seguinte:

  • Que não podia abdicar de mim mesmo para entrar na pesquisa;
  • Que meus afetos pelo grupo poderiam e deviam estar comprometidos com a pesquisa;
  • Que o raciocínio estava presente, bem como a lógica, mas sem prescindir da poesia;
  • Que, por fim, não iria abdicar da amizade, do amor e da alegria para escrever um texto enxuto, aceitável. 

Não falei isto agora que irei falar na pesquisa, mas bem que poderia ter cunhado um método que em vez de se chamar pesquisa-colaborativa, se chamaria pesquisa-visita. É o que os palhaços do projeto fazem quase todos os dias: vão pesquisar como pode ser a relação com as crianças. É dessa experimentação que surge a verdade deles, da relação. Uma verdade quente, espumante, muitas vezes frágil para se cristalizar na matéria, mas durável na ordem do espírito.

Se você gostou dessa última imagem - da cristalização frágil das experiências na matéria, mas de sua duração no espírito - vai adorar saber que encontrei uma filosofia que pudesse referendar essa visão. Falaremos dela mais ao capítulo sete. Não perca a explicação do próximo capítulo, ele, sim, é o essencial.




Para acessar a dissertação inteira, clique aqui.

domingo, 2 de julho de 2017

Diálogo domingueiro sobre ser palhaço, do Y, querer ser doutor, e outras bagatelas

Allan (1): Falei recentemente com a Júlia Sargento (2), pedi dicas de como dar oficina. Ela me falou algo intrigante: "tem que, primeiro de tudo, ver a motivação das pessoas para entrar no palhaço. Porque visitar crianças hospitalizadas para dar alguma alegria e bálsamo pra elas, várias atividades podem fazer isso. Mas, será que o palhaço é o caminho DESSA PESSOA SINGULAR que está querendo fazer isso?"                        

Mayko (3): MOR-TO                        

Allan: Fiquei pensando quantos não ficam deslocados no Y porque não era o caminho dela [dessa pessoa singular].
                        
Mayko: Faz muito sentido.  
                      
Allan: Vou dividir contigo o e-mail. Chega já.                        

Mayko: Mas, mano, foda isso. Eu sou muito bolado com quem quer entrar no Y porque acha que é projeto social, caridade, alegrar as crianças. A gente nunca se propôs a ser só isso, mesmo assim várias pessoas acham que é isso que a gente é. Sempre sinto muito isso lendo os materiais da seleção. Cheio de nego mandando coisa pra gente como se fosse participar de ONG ou coisa de igreja.    

Allan: Sim. Pelas palavras da Júlia, e nesse momento fico pensando mais sobre isso, o palhaço de fato deveria vir primeiro. E não a caridade, a igreja, a ONG. Não que não seja importante a caridade, a igreja, a ONG, mas é que se não, não tem palhaço. Daí algumas pessoas saírem logo. Vêem que não era o que sonhavam.                        

Mayko: Eu achei que tu ia discordar de mim, tô feliz!                        

Allan: Tem gente, como aquela nossa amiga querida, que não sai, mas também não fica. São pessoas que captam a grandiosidade da coisa mas sentem no fundo que não é o caminho delas. Mas, se amam o fim, são muito trôpegas no meio. Pra pessoa se encontrar mesmo no Y tem que sentir sede de ser palhaço. A criança pode até ficar em segundo plano, mas é um plano. O final dessa história é o encontro da sede do palhaço com a fome do sorriso da criança sofrida. 
                       
Mayko: Da minha ótica falta a variável doutor na tua equação. Mas concordo com tudo, fora isso.
                        
Allan: Eu me tornei imortalmente Y, porque o palhaço sempre foi importante pra mim. E a criança, idem. A síntese tava meio feita, ainda imatura, mas encaminhada. 
                       
Mayko: Mas é muito difícil não perder o palhaço no caminho, ó, Allan. A faculdade meio que engole muito. Esse semestre [o último antes dos estágios finais] eu visitei 4 vezes, só, eu acho. 
                       
Allan: Na minha ainda pobre visão, acredito que o sentimento de querer amenizar o sofrimento é o que nos dirige para o doutor. Antes de exercer a profissão de fato, esse desejo tem que ser centuplicado. 
                       
Mayko: Hum... eu discordo. Acho que incluir o doutor na equação como variável, e não como resultado, é importante.   
                     
Allan: Cara, é que acho que não se pode incluir uma variável que é uma incógnita em uma equação que queremos que resulte em algo. O que diabos é ser doutor? Fui descobrir isso ao final do meu primeiro ano de formado, e ainda de forma tosca. 
                       
Mayko: Sobre por que diabos a variável doutor tem que entrar na equação:


  1. Pra que a relação que você tenha com a criança não seja de mero palhaço que veio te fazer sorrir. Mas pra que seja, também, de cuidado. E acho que o doutor acrescenta isso de forma mais óbvia. Muda a relação.
  2. Pra mudar a relação do palhaço com você mesmo. Percebi em um dos meninos do Y, esses dias, que uma crise comum ao Y é a de identidade. O palhaço não é a pessoa. A pessoa não é o médico. E no fim são três pessoas diferentes tentando existir juntas. Unificar as três imagens é parte do processo, pra mim. Eu sou Mayko, Caju e doutor. E sou os três ao mesmo tempo, sempre, mesmo quando sou mais um do que o outro. Destruir as barreiras que eu construí entre essas três imagens foi importante pra consolidar os benefícios do Y pra mim.
  3. Pra desmistificar, que é o óbvio.                        
- Sobre ser essa variável uma incógnita:
  1. Não acho que é tão incógnita, pra muita gente. 
  2. A gente experimenta o "ser doutor" de várias formas bizarras, na universidade. Aulas práticas, argüições, perguntas de familiares. Por que a visita não pode ser uma forma de experimentar o "ser doutor" sob uma ótica diferente? Sem tanta pressão, sem tanto stress... com sorriso, pra variar? Fazer sorrir não é cuidado? Conversar não é cuidado? Ouvir não é cuidado? Por que seriam privilégios só do palhaço? É bom que a gente experimente o Y como doutores, também. Ainda que a gente não saiba o que é isso. Porque é pra isso que o Y existe, não é? Pra formar doutores mais humanos. Não dá pra achar que isso um dia vai vir como resultado de equação. Doutor é construção, não um fenômeno que vai acontecer, eventualmente. O Y também é uma forma de experimentar ser doutor. E de construir essa ideia. Construir o ideal de doutor que eu quero ser. Por isso acho que não dá pra excluir. Não faz sentido ser só palhaço pra mim. É Doutor Caju. Sempre foi Doutor Caju. Mesmo quando eu queria desistir da medicina. Mesmo agora que eu cada vez mais percebo que não sei ser médico. Tô triste que esse papo tá só entre nós dois. Renderia tanto!                        

Allan: Acho que é os dois: Construção e Acontecimento. Não creio que esse diálogo vá dar em algum lugar, porque defendemos duas faces da verdade. O interessante da sua proposta é o que qualquer sistema de ensino médico preconiza: formar o ideal do médico para quando houver o choque da realidade ver se surge uma síntese mais sã. O problema também é da minha história. Sou extremamente ingrato com a universidade, por tudo que ela destruiu em mim. Ainda não elaborei direito a noite que ela representou. Por isso tendo a dizer: o doutor que temos em mente na faculdade é uma incógnita (querendo dizer: é um nada). Vou copiar isso aqui, trabalhar e transformar numa postagem.  
                      
Mayko: A faculdade não foi doce pra mim, também (risos). Melhorou faz pouco tempo, e continua ruim. Mas, não acho que não é desse ponto que a gente tem que partir, apesar de historicamente o Y ser um ninho de desajustados. Eu gosto de experimentar ser médico, mesmo sendo ignorante. Por isso que gosto de ir pro estágio. Por isso que gosto de aula prática. Por isso que gosto de ir pro hospital. Sabe porque eu defendo muito isso? Porque a visão de que o médico vai acontecer quando a gente se formar parte do ponto que antes da faculdade a gente tinha uma vocação. A faculdade destruiu essa vocação. E aí vamos nos reencontrar com ela quando nos formarmos. Sendo que o ideal é a vocação não morrer na faculdade. Tu nunca achou que tinha vocação pra médico. Talvez estivesse aí o erro. 
                        
Allan: Parece então que sua vontade de ser doutor é infinitamente mais suficiente para dar força a algum conceito do que foi a minha. Olhando para trás fico me perguntando o que foi aquilo. Lembro-me das pessoas que amei e amigos, e quase nada da medicina. Eu fiz dessa estrofe da música "Carrossel do Destino" a síntese da minha faculdade ao final de tudo:  


   Deixo os versos que escrevi 
As cantigas que cantei
5 ou 6 coisas que eu sei
E 1 milhão que eu esqueci

Deixo este mundo daqui
Selva com lei de cassino
Pra renascer num menino
      Num país além do mar!      
                  
Mayko: Morto, que bonito, mah! Me contempla, um pouco (risos). Mas, eu voltei a ver vontade de ser médico em mim. Inclusive já te disse que tu foi importante nisso. Desde de lá do quinto semestre. E agora de novo. Mas, a faculdade ainda é estranha e ruim, mesmo. Não deixar a vocação morrer é importante justamente por isso. 
                       
Allan: Eu tinha uma vontade de ser o que a faculdade não me mostrou. Na minha cabeça tinha o Ser, e na faculdade, veio o Não-Ser.      
                  
Mayko: E quando digo vocação é mais "vontade". Porque vocação sugere "capacidade de ser aquilo". E falar sobre ser capaz é pesado (risos). 

Allan: O pior é que, ao meu redor, as pessoas pareciam bem mais encontradas que eu. Fora raros habitantes que encontrei vagando na minha ilha. Minha primeira namorada na faculdade era quase igual a mim. Estava ilhado por pessoas que conseguiam nadar na correnteza. Eu me entregava aos vórtices. Experimentava a água salgada enchendo os pulmões. Salgava os olhos, e chorei uma vez - uma vez.  
                      
Mayko: Risos. Meus dois melhores amigos - praticamente únicos - na sala nova desde que eu voltei do Ciência Sem Fronteiras (CsF) são dois gênios muito bem resolvidos. E que, inclusive, tem, de vez em quando, discurso de que seu desempenho nas provas reflete o profissional que você vai ser. Imagina como é difícil ficar com eles dois 😅.
              
Allan: Reflete de fato. Menos em termos de excelência do que de caminhos. As provas da faculdade são o salvo-conduto para aquela medicina que eles definem, para aquele tipo de médico que eles definem. Se a medicina é uma construção histórica das respostas que nós humanos demos de dar para o sofrimento humano, a experiência de ser médico é simplesmente infinita. Veja o espectro da luz, vemos as cores que os olhos podem ver e ponto.             
           
Mayko: Eu não acho que reflete tanto. Mas sei lá, né? Ainda assim é ruim ouvir isso dos seus amigos. Até porque às vezes eles mal estudam e ainda assim tiram nota maior que eu (risos). Mas, essa conversa desandou, falar de nota não é interessante.
                        
Allan: Então a postagem acaba aqui, senão fica muito grande.


RESULTADO DA SEGUNDA FASE - Seleção 2017




Para acabar com o nervosismo dos selecionados para a segunda fase, apresentamos o resultado final do nosso Processo Seletivo de 2017! Antes de trazermos os nomes dos nossos novos Yntegrantes, temos algumas palavrinhas pra todos:




Não me avisaram que é mais difícil quando não é recíproco. Quando você conhece mas não é conhecido. Quando você recebe mas não dá. Quando você escuta mas não fala. É tão mais fácil trocar...
É mascarar uma maturidade que não existe e apontar. Apontar imatura e imoral não é certo. Eu só não quero escolher. Quero a amizade de todos. Quero dividir com todos. Quero abraçar todos (e quase abracei). Quero cuidar de todos. Mas eu sou tão pequena...
E, na minha pequenez, eu percebi que era o momento deles…
Quanta presença! Ela se soltou e se jogou e carregou quem pôde carregar. Gostar de suco de maracujá só me confirma a sua sensatez. E ela me encantou. Ensinou com o corpo e me fez sentir viva com seus sinais. Obrigada por me lembrar que eu não preciso me importar com o que eles estão olhando.
Ele entrou puro, sentou puro, falou puro. "Tô tranquilo". E estava. Ele se despiu. Ficou nu ali pra nós [tão vestidos] e me invadiu de um jeito bom não invasivo. Ele é simples assim como todo nosso (mais meu) processo de aproximação. Tão gentil que me deu um pouco de sua tranquilidade. Até meu choro foi puro (e purificador). Agradeço-o imensamente.
Não somos iguais, sequer parecidas, mas eu me vi em ti. Um ano é muito tempo, é muita experiência, é muita gente. Mudança é tão bom. Viver o Y em momentos diferentes é melhor ainda. Eu te entendo. A neném cresceu e se mostrou grande não só pra mãe mas pra gente também. Obrigada por me lembrar da minha caminhada.
Surpreendente, eu o definiria. Sua fala bonita deixou transparecer uma beleza exterior. Sua conexão com ambiente coloriu o momento. Suas piadinhas sem graça fizeram meu coração rir. Obrigada, garoto, eu gosto do inesperado.
Moça forte! As panturrilhas já estão muito bem trabalhadas, né não? Eu sei, eu vi! Ela me envolveu e me prendeu e me agradou. Mas o tempo (maldito!) insistia em passar rápido. Não pude fazer nada. E ela foi forte. Foi forte ao escolher entre os conhecidos. Foi forte ao perceber a tensão e não se abalar. Foi forte ao, apesar do silêncio, se levantar com um sorrisão e se apresentar. E, principalmente, foi forte ao abraçar meu choro impotente. Obrigada, moça, obrigada por me consolar.
Ela entrou grande e eu podia jurar que estava radiante. Se derramou com uma facilidade que me tocou. Falou de um amor tão forte, tão sincero, tão Y... habilidosamente, usou teoria pra me mostrar uma imensidão prática. E a gente riu. Riu porque ela se permitiu. Obrigada por me levantar.
Ela chegou quieta e, com sua voz de mar calmo, me cativou. O cabelo tão brilhante não escondeu sua sinceridade. Esticamos e ela nos apresentou seu musical. Acho que não te dei o que precisava, mas obrigada por ter procurado meu olhar.
Ela é tão acolhedora, uma fofa. Uma tradutora nata com uma coordenação de pensamentos admirável! Falou dos sonhos. Juro que, se pudesse, te pegava no colo e fazia da tua vida um filme. Me promete, menina, me promete que não vai esquecer de ti. Tu é infinita, mostra pro mundo tua infinitude, vai! Obrigada por ser o que o Y me permite ser.
Cansado, penúltimo, agitado. Ele chegou com sua companheira de sempre e fascinou. Brincou quando se sentiu chamado e falou sério quando foi apropriado. Conduziu muito bem e batucou. Obrigada por me engrandecer.
Dezessete mundos girando, dezessete histórias imergentes, nove momentos propícios. Gostaria de agradecer intensamente a toda a completude de vocês. Obrigada por se dedicar, obrigada por se entregar. Nós nos dedicamos e nos entregamos também. Mas, assim como eu, nossa salynha também é pequena e, apesar de plena, não é dilatada. Queria eu poder abrigar todos vocês. Estou aprendendo a lidar com meus limites. Aos que não estavam num presente favorável, eu, guiada por um egoísmo simpático, peço que tentem próximo ano, o Y é feito de ciclos! Meu coração sossega se vocês acreditarem que o universo é esperto (embora não pareça, as vezes). Aos que estão chegando, minhas boas-vindas! Espero que o Y arranque sorrisos bobos durante suas distrações, que abrace quente seus cansaços, que preencha suas lembranças gostosas. Espero que o Y exploda em vocês como explodiu em mim. E até logo!

Alícia

O trem azul se camuflava por entre as nuvens feitas de algodão. Já fazia anos que suas andanças se enredavam por ai em busca de estórias.
Feito abraço, ele resgata sonhos, olhares, desejos de sair do comum e conduz a cada estação. Para. Carrega. Descarrega. Alguns partem sem ter planos e sabem que pode voltar quando quer. Outros seguem a viagem que fica numa ponte qualquer. Mas todos deixam nele um pedacinho e levam consigo a certeza de que essa jornada valeu para muitas vidas.
Sentada na janela, fito a energia de cada passageiro prestes a entrar. Com meus olhos de palhaça, sugo a arte intrínseca que sai de cada um de nós. Um olhar pode dizer muito, tudo. Um olhar acolhe no silêncio ou na agitação.
Ao entrar no vagão, uns vieram tranquilos, plenos, outros não paravam de expressar em palavras aquela sensação. Elas pareciam gotas de chuva torrencial que atenua o calor que vem de dentro prestes a queimar. Também havia olhos arregalados mirando o desconhecido, acompanhados de frases coloridas feito arco-íris. Gesticulações e expressões comandavam um balé de mãos e pés. Batuques, pulos de nervosismo e alegria também sem envolviam na melodia. Haviam lágrimas também. Como eu amo lágrimas. Lágrimas lavam o nosso trem, limpam cada vagão, deixa fluído nossa caminhada pela emoção. Por favor, vai, não pare de chorar. Não guarde para si esse líquido sagrado que insiste em sair.
Havia também seres de segunda viagem. Era a segunda, mas os seres não eram os mesmos, muito mesmo a viagem. Foi gostoso ver olhos curiosos, cheios de vontade e coragem.
Ao chegar numa estação, quem teve que descer fui eu. Perdi algumas nuances, alguns sorrisos do dia, nem pude observar aquele rio que o trem atravessa lotado de jacarés. Perdi algumas palavras, suspiros, mas ganhei reflexões como "a gente é gente, não é réptil.","não é questão de status" estar no vagão, muito menos, "não existe um modelo" para entrar em locomoção.
Pasmem, diga-se de passagem, um passageiro chegou na sua motinha envenenada, expressando suas emoções e sonhos reais. Minha vontade foi montar na garupa e ser coadjuvante dessa tão grande protagonista da sua arte. Eram seres únicos, cada qual em sua infinitude e multiplicidade.
Escutem o barulho da locomotiva, ela está prestes a sair. Nesta viagem somos todos clandestinos, não existe certo nem errado, pronto ou despreparado, muito menos assertivo ao saber para onde se vai.
A quantidade de passageiros é limitada, apesar do trem se dilatar no tempo e espaço; fisicamente ficamos bem apertados. Queria eu expandir mais vagões. Mas lembre-se, a linha férrea não tem fim. O combustível que aquece cada um de nós precisa sustentar o sorriso do outro e o encontro de si. E por favor, não deixe morrer essa flama tão grande que existe em você. Somos todos "Y" quando insistimos em apenas ser.  
O trem azul não pode parar e vocês não sabem o quanto da potência e força de cada passageiro ele precisa para estar lá.
Não disse onde, não disse quando, nem disse por quê e para quê.
Vamos adiante que nem essas perguntas até hoje eu não consigo responder (e nem quero).

Besitos y hasta luego!

Sarah Astral, Sarah Gracy, Sarah Rodrigues ou melhor, dra. Crystalina.
                     Olá, novos!

Talvez, diferente dos meus colegas, meu texto não seja tanto para dar boas vindas a vocês. Tenho certeza que há outras 12 pessoas que os receberão de braços - e corações - abertos. Esse texto na verdade segue para pedir-lhes duas coisas:
A primeira delas é desculpas. Desculpem-me por eu não estar presente no próximo semestre, por não poder viver o Y com vocês como vivi com outros. Desculpem-me por eu não poder conhecê-los realmente e por não descobrir como será o palhaço de vocês. Desculpem-me por não ter a oportunidade de perceber os detalhes sobre vocês - quem fala mais firme e quem tem a risada engraçada. Desculpem-me por não poder ser uma Velha presente. A verdade é que o tempo e a vida estão pesando nos meus ombros há algum tempo e, por mais que o Y consiga levantar um tanto desse peso, acredito que seja a hora de eu aprender a carregá-lo sozinha.
A segunda é: aproveitem. O aconchego da salinha - mesmo com seu cheiro eterno de mofo e chulé. As paredes azuis. Os colchões perfeitos para um cochilo. A confusão da reunião. O embaraçado de pernas. Os relatos bagunçados e prolixos. As risadas e as piadas ruins. As viagens pra RP. As vibes do Allan durante as capacitações. As visitas. As crianças. O hospital. O palhaço e todas as possibilidades que ele oferece. Mais do que aproveitarem o Y, se aproveitem. Desejo-lhes a sorte de conhecer pessoas que não se tornem apenas amigos, mas partes importantes de vocês. Sei que essa sorte eu tive.
Obrigada por essa seleção. Obrigada por me fazerem ver o Y nos olhos de todos. Obrigada por me reapresentarem o Y.

Preta
Dra Espirro

Foi um fim de semana intenso. A semana anterior, para mim, havia durado uns dois anos e aí, após tanto tempo, mas não mais que de repente: um rasgo no tempo e espaço me leva para um universo paralelo naquele sábado cansado. Conversas, sorrisos, gritaria, confusão e tanta gente nova. É muito massa gente nova. Pessoas que nunca vi na vida e que não lembram, nem mesmo vagamente, os currículos que li com tanta dedicação. Isso é ruim? Claro que não. Alguns papéis jamais seriam capazes de descrever com precisão o que eram aqueles seres e, se fossem, seria uma manhã no mínimo previsível. Mas não foi. Os agradeço por isso. A todos os que construíram esse sábado: obrigado por me darem este mundo maluco que é essa seleção, por uma última vez. Isso vale para os integrantes atuais do Y, para aqueles que estão vindo e para aqueles que, infelizmente, não vão estar na salinha no próximo semestre mas que, mesmo assim, carregam o Y no coração, cada um do seu jeitinho.

Estou saindo, ao menos oficialmente, do projeto e por isso gostaria de falar  aos que estão chegando: sinto por não poder ver como serão na nossa salinha tão cheia de afetos. Gostaria de vê-los derramando seus sentimentos nessa parede azul e pintando o Y a sua maneira. Dando novas cores às antigas palhaçadas e trazendo novas palhaçadas,
pintadas talvez com antigas cores. As mudanças que com certeza trarão - pelo simples fato de existirem - à aquela pequena e imensa sala no bloco didático é essencial, pois, como já disse um outro integrante do Y: "um projeto com mais de dez anos que nunca muda, está fadado ao fracasso." Sendo assim, não vejo maneira mais bela de mudança do que aquela trazida por novos rostos.

Poderia também fazer um texto para vocês dizendo o que foi o Y para mim, mas não teria importância alguma. O que importa, é como será o Y para vocês. O Y de vocês. Espero que consigam dar e tirar o melhor que possam da experiência única que é fazer parte desse projeto. Espero que façam isso, cada um e como grupo, a sua própria maneira. Espero que sejam quem são. Só isso. Acreditem, não é pouco.

Minhas palavras são poucas e acho que não poderiam deixar de ser. Minha história no Y já teve momentos e agora, é tempo de novas histórias serem escritas. Aqui está a folha. Peguem seus pincéis, canetas e carvões. A produção é livre.

Quero desejar, assim, que entre bads e alegrias, choros e sorrisos, indiferenças e emoções, dê tudo certo pra quem chega. Quero terminar este texto agora falando - não mais para vocês do que para mim mesmo - uma mensagem muito forte que foi dita por uma antiga integrante do Y:

"Que não caiamos na besteira de tirar o nariz vermelho".
Sigo nessa luta e desejo a melhor da sorte para os que a acolhem. A gente se vê por aí.

TJ,
Pedro Cantal
Dr. Florêncio
Alegria! Os Mafapocas nasceram!

É sempre muito rico o momento de seleção. Algumas pessoas que estão de fora não entendem como a gente pode “desperdiçar” um final de semana inteiro pra fazer uma seleção de um projeto. Normal, minha mãe não entendeu, meu namorado não entendeu. Mas digo: eu “desperdicei” uma, duas vezes, e “desperdiçaria” quantas vezes mais precisasse. Quem está de fora não entende a riqueza e a intensidade do momento. Quantas almas lindas foram desnudas pra gente naquele sábado! Cada um, na sua singularidade, nos encantou de uma forma única e especial. Gostaria de dizer que vocês não tornaram fácil o nosso trabalho de escolher quem merecia ou não fazer parte do Projeto Y. Poxa vida, todos merecem!
Infelizmente, nossa Salynha é rodeada de paredes, e, por mais que nossos corações abarquem todos, ela não.
Mil perdões aos que não foram selecionados. Eu sei como é difícil não entrar em algo que você queria muito. Gostaria de poder abraçar cada um e dizer que ainda pode dar certo, se vocês quiserem, que ainda tem seleção no ano que vêm e que a vida é uma grande roda gigante. Em um momento você está por baixo e, no outro, por cima, e está tudo bem com isso. Se não existissem os momentos em que você encara o maquinista da roda gigante, você não apreciaria com tanta intensidade o céu azul cheio de nuvens que surge quando você está no topo.
Quanto aos que passaram, que felicidade! Como disse, não foi fácil fazer os Mafapocas nascerem. Foi difícil, cansativo, demorado, suado. Tudo a que tem direito um parto propriamente dito. E como uma mãe, estou muito ansiosa para conhecê-los e para me mostrar a vocês! Alguém falou nessa seleção (perdão pela minha memória de peixe por não saber quem foi de fato) que é muito bizarro o fato de a gente conhecer um pouco de vocês, às vezes até coisas muito íntimas, e vocês não saberem nada da gente! Calma, vai ter tempo pra gente se descobrir juntos.
Estou ficando velha, velhíssima. Percebi que agora serei a mais antiga do projeto, e isso bateu como uma flecha no meu peito (não que eu já tenha tomado uma flechada no peito, mas bateu como eu imagino que seja). Abandonar esse projeto não vai ser fácil, e, apesar de ainda ter um semestre com vocês, já fico com o coração apertado por ter tão pouco tempo. Apesar disso, fico feliz de saber que estarei deixando o Y em boas mãos.
A todos, muito obrigada pela participação, foi um dia incrível! Aos Mafapocas, sejam bem vindos!

Amanda Vermelha

Uma salinha pequena e imensos corações. Queria ser capaz de acolher cada mão trêmula, riso frouxo e olhar ansioso que pude ver. Minha mensagem é de persistência e abertura ao que acreditam, ao que são e ao que estão dispostos a ser. Uma narigada amarela de quem sempre estará esperando por vocês.

Thaís Holanda
Farofas que não é mais farofas.

Escrevo esse texto em uma segunda-feira de fim de semestre, estando em uma sala de espera após dois dias intensos com pessoas que eu amo e com pessoas que eu amei conhecer.
Há um ano eu estava na pior fase da minha vida, e também estava como candidata na segunda fase do projeto Y. O meu dia de seleção foi mais difícil do que estas palavras conseguiriam descrever. Eu chorei, me derramei. Eu não consegui participar das dinâmicas que eu amava. Eu nunca imaginei que entraria. E lá estava o Y, de braços abertos, pronto para me acolher. Eu não dei o que achava que um bom candidato devia dar. Mas eu me dei. Tudo o que eu tinha. E esta foi a primeira aparição da futura Dra. Caquinho.
E hoje, o que eu quero é agradecer. Agradecer por todos vocês que se abriram e se derramaram para nós. Foi uma aventura incrível é deliciosa entrar um pouquinho no mundo de cada um de vocês. Obrigada.
Tem algo do Y em que eu acredito muito: ele surge pra você quando você abre o seu coração é quando você quer abraçar outros corações. É nesse momento,  quando você escolhe ser um profissional diferenciado, com esse olhar do coração, que todos nós nos encontramos.
E eu acredito que o Y passa na sua vida, mesmo que seja por um minutos, pra te mostrar que não estamos sozinhos e que a humanização é uma prática possível e concreta. Mais uma vez, obrigada por nosso encontro. Espero que mais encontros venham.
Espero que todos nós, que estamos sim dentro desse projeto mesmo que seja só de coração, estejamos para sempre juntos nessa caminhada rumo à uma realidade mais humana. Vocês me trouxeram esperança.

Até o próximo encontro,

letícia lima.
Dra Caquinho, do centro do furacão.





Eu vim aqui dizer ou eu preciso dizer que comecei aquele dia 24/06/2017 sendo 19 ypsilons, aos poucos nos tornamos 28… e de forma rápida, intensa e dolorosa nos tornamos 22. Alguns plantaram sementes e viram seus jardins crescer no meu coração. Outros entram aqui agora com seu broto de flor pronto para florescer.

Mas poderíamos ser mais, queríamos ser mais! Queria que o Y fosse tão grande que coubesse um amor atras do outro, como nosso coração. O Y nos acolhe, nos machuca, nos leva além e nos ensina a hora de dizer “ate já”. O Y ainda não é coração da forma infinita que eu penso, mas o Y é coração da forma humana e natural de ser: é força motriz e dá o seu máximo para irrigar a todos com seu acolhimento. Infelizmente e felizmente o y também é concreto, é real e tem forma física. O Y é limitado única e exclusivamente pela salynha porque nada mais limita o Y de irrigar a todos; nada impede que você seja e sinta Y.

Todos tinha um Y vibrando dentro de si. Todos se entregaram da sua forma Y. Todos olharam, suaram, riram, tremeram, se perderam e se encontraram no Y que havia dentro de cada um naquele dia 24/06.

Aliais, eu estive naquela pele ano passado e lembro de alguém ver o Y em mim. Quem sou eu para dizer "esse sim e esse não”? Eu respondo: eu não sou ninguém além, eu sou Y como todos vocês que se doaram ao outro, a nós e a seleção. Eu sozinha não escolho, eu sozinha não seleciono (que palavra dura), eu sozinha não sou. Eu só sou porque haviam 19 Ys juntos compartilhando um sentimento desigual. A quem veio incrementar e compartilhar desse sentimento numa salinha tão pequena: bem-vindo! Cuidado, ta? Consigo, com os outros e com o Y. A você que ainda não encontrou seu nome na lista: você encontrou o seu Y, pode encontrar de novo e espero eu te encontrar novamente (desculpa ser pretensiosa e pedir isso, mas meu eu precisa.).

Somos todos um ajuntamento de pessoas Y, disse ela a mim e eu digo a todos você: há em mim um ajuntamento dos Ys de vocês após o dia 24/06.

Tainah
Dra. ainda sem nome, mas se pudesse escolher agora, diria Dra Abraço para caber todos aqui dentro.

Como meu coração ficou apertado ao saber que não poderia participar da seleção de vocês e assim não pude ver cada um face a face. A surpresa do resultado veio também para mim. Veio a alegria de saber que pessoas tão boas passaram mas também veio uma dorzinha por sentir falta do resto dos outros nomes. Não é uma seleção fácil, nem de longe, porque mexe com aquilo que é mais nosso, nosso Ser. Pede-se a arte de mostrar ao mundo quem nós somos da maneira mais autêntica. Isso, por si só, já é algo difícil, mas, ainda assim, não mostra tudo que se esconde por trás do que a boca fala e do que os olhos acenam. Vocês são bem mais que tudo que foi dito no currículo ou na entrevista, bem mais do que qualquer um de nós possa mensurar por nossos falhos sentidos. Parabéns aos que adotarão em breve seus narizes vermelhos, aos que conhecerão o aconchego de uma salinha lotada de amor a cada reunião, aos que (vi)verão um hospital de uma maneira única que só de palhaço se consegue (vi)ver e que depois que depois que dele saírem será difícil (vi)ver tudo como antes. Espero que aproveitem cada fase que passarem aqui dentro. Espero que tenham dificuldades, medos e dúvidas para que elas sejam superadas e vocês cresçam e se sintam mais seguros de serem vulneráveis e ridículos como o palhaço é, e que belo ele ser assim! Espero que encontrem apoio e sejam apoio uns dos outros. A salinha é muito pequena para se dividir, ela precisa ser diversa e coesa para tudo funcionar bem. Espero que cuidem do espaço da salinha e dos compromissos que assumirem aqui pois o Y carrega um tesouro de vivências no tripé da universidade que vocês nunca viverão em nenhum outro projeto, liga ou sejaláoque. Àqueles que, infelizmente, não passaram, queria muito que vocês tentassem de novo, de verdade. Sei que alguns tentarão, mas outros talvez já não consigam mais. De qualquer maneira, espero que vocês estejam ligados ao Y de algum jeito, pelo amor à palhaçoterapia nos hospitais e, principalmente, pelo que a sustenta que é a humanização em saúde.
Façam tudo com amor e amem tudo o que façam aqui no Y.

Um cheiro e um queijo, Felícia. (ou Lelê!)

É difícil.
Não achem nem por um momento que essa seleção é fácil para quem está do lado de cá. Não é. Um total de 28h30min de processo seletivo não me deixam mentir. Exaustão, desabafos, discussões e uma torrente de sentimentos foram despejados nessa odisseia que é o processo seletivo do Projeto Y e, aos poucos, uma nova geração de doutores-palhaços foi emergindo.
Acreditem: estou sendo sincero quando digo que cada um de vocês tem o Ipsilon dentro de si e ver todos vocês ali juntinhos e poder provar da gama de sabores que constitui cada um de vocês reacende a chama de esperança pela construção de uma saúde mais humanizada que queima no meu coração e me impulsiona a procurar crescer cada vez mais. Desde o mais amargo, indigesto e azedo até o mais doce, saboroso e inebriante dos sabores me tocaram de maneira única – inclusive (ou principalmente) os agridoces!
Se vocês são os futuros profissionais de saúde no Brasil, tenho certeza de que ela está em boas mãos.
Contudo, nossa pequena salynha não consegue comportar todos que possuem o Ipsilon dentro de si. É piegas, eu sei, mas acreditem: se pudéssemos fazer isso, todos seriam aprovados. Limites, limites e mais limites se superpõem para que precisemos limitar o número de vagas e, no fim das contas, temos que estabelecer critérios para decidir quem vai entrar no projeto. Digo e repito: ser selecionado não significa que você é melhor que ninguém. Não ser selecionado não significa que você é pior que ninguém. Não se esqueçam disso nem por um segundo.
Todos vocês são incríveis.
Cada um de vocês é uma peça chave desse grande quebra-cabeça que é a humanização da saúde. Vocês são imprescindíveis nessa luta. Obrigado por serem tão maravilhosos.
Aos que não foram selecionados, não hesitem em tentar novamente se for isso que o coração de vocês ainda pedir no próximo ano. Eu mesmo não fui selecionado na minha primeira tentativa. Nós mudamos tanto em um ano sem sequer percebermos... assim como o projeto também muda. Diferentes circunstâncias geram diferentes resultados; nenhum mais correto do que o outro.
Aos que foram selecionados, sejam bem-vindos! Não vejo a hora de ter vocês conosco toda sexta na salynha. Estou deliciosamente ansioso por visitar com cada um de vocês e ver os maravilhosos doutores-palhaços que vão sair do processo tão apocalíptico que é o nascimento de um clown. Ah, e se preparem: vocês ainda não viveram nem um terço do que ainda há de ser vivido no mundo da palhaçaria.

Com amor, João.
documento aprovado, comprovado e autorizado pelo Dr. Aparecido





AGORA SIM! O que era pra dizer já foi dito, o que era pra escrever já foi escrito.
Segue abaixo os nomes dos novos membros do Projeto Y de riso, sorriso e saúde.
Parabéns!! Vocês já são Y!!!

Camila Barroso Martins (Enfermagem)
Ana Beatriz Madeira Araújo (Medicina)
Joycielle Pereira de Sousa (Odontologia)
Ingrid Gomes Queiroz (Psicologia)
Guilherme Gomes de Oliveira Sombra (Medicina)
Ívina Maria Freitas Sampaio (Odontologia)
Arthur Queiroz Pinheiro (Medicina)
Nathália Maria Serafim Pinto (Medicina)
Matheus Chaves Vieira da Costa (Medicina s1)


Os Mafapocas devem comparecer à sua primeira reunião dia 14/07 (sexta-feira) às 12:30 na salynha do Projeto Y no campus do Porangabussu.

sábado, 1 de julho de 2017

Aula 2 - Conhecendo territórios



(2 min de leitura)

O capítulo dois fala de territórios. Mas, quando você entrar nele é preciso saber que eu rasgo o conceito de território para que as pessoas que andam sobre ele possam aparecer. Quer dizer, então, que o capítulo dois fala de pegadas.

Dizem que, após a dissipação da nuvem atômica da bomba de Hiroshima, restaram as sombras dos mortos presas ao chão. O capítulo dois fala da sombra das pessoas nos territórios. Mas, elas não estão mortas. A arte e o espírito denunciam isso. A ciência seria a morte do espírito? Acho que não. A morte vem com a separação. Até mesmo os religiosos acreditam nisso: a morte aconteceu quando corpo e alma já não estão mais unidos. Tanto ciência sem espírito é morte (ela fica obtusa), quanto espírito sem ciência (ele fica incognoscível).

O capítulo dois fala de mim, também. Há uma tristeza nessa história. A faculdade era uma tristeza para mim, um território inóspito. Falo disso lá. Há uma alegria nessa história que é o surgimento do Y. Engraçado agora lembrar que o primeiro texto que escrevi sobre este projeto falava das sombras dos clowns emergindo na faculdade. Colando essa imagem neste texto, me vem a mente que as sombras de Hiroshima aprisionadas na terra pelo uso demoníaco da ciência se desprendem no outro lado do mundo com máscaras de palhaço para consolar os que sobraram na vida feridos. Estranha conexão de uma mente crepuscular. São seis horas da manhã. Venho pensando em como falar sobre o capítulo dois desde as três e meia da madrugada. O galo canta à minha esquerda, pássaros pipilam à direita, o bebê acorda lá em cima, meu amor dorme. Vê, acabei de descrever um território! O capítulo dois faz isso.

Levanto três teses principais neste capítulo:

  1. A verdade que tanto cavamos é, quando muito, uma biografia. 
  2. O ator-palhaço traz as pessoas de fora de si para dentro do corpo, no aconchego da caracterização. Isso tem um significado simbólico enorme. 
  3. O espírito e a arte são resistentes. O pensamento positivo não logrou calá-los na matéria. Dela, eles falam insistentes. 

Do capítulo dois, então, sobram estas três teses, que são as três cinzas sombras que devem ficar nos seus olhos depois de queimadas aquelas páginas.




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segunda-feira, 26 de junho de 2017

Sobre a menina dos olhos vermelhos

Os olhos vermelhos dela me faziam lembrar de sangue. 
Do sangue que parecia ferver dentro dela e se agitar la dentro, bombeado por um coração gigantesco
 que se empolgava, e se emocionava e que parecia querer sair dali, da contenção daquele tórax, 
para se doar por inteiro e, ao mesmo tempo, recebê-los todos dentro de si. 
E talvez fosse o motivo pelo qual os olhos dela insistiam em se derramar: 
pra poder extravasar toda aquela energia gigantesca que ela tinha dentro de si. 
E que ela não se preocupava em conter. E que ela não se importava em deixar fluir.
E fluia. Intenso. Vivo. Forte. E ainda assim, silencioso, sutil, pacífico.


*Talvez esse texto esteja chegando atrasado, porque eu também cheguei. Mas talvez ele também chegue bem na hora, porque de alguma forma, faz sentido que ele tenha acontecido agora e porquê talvez o universo seja mesmo esperto*

Foram dois dias duros. Cansados. Penosos. Num processo que não só seleciona os outros mas também nos faz nos encontrar com nós mesmos, tentávamos chegar a consensos que talvez não existissem. É difícil debater sobre vidas, sobre experiências, sobre impressões e sobre sentimentos. Mas no meio da confusão gigante que existia dentro de mim e mesmo dentro de nós, como grupo, algumas coisas me saltaram aos olhos e me trouxeram um calor gostoso no peito. Alguns encontros fazem nossa alma sorrir, e esse texto é sobre um desses encontros.

Ela tinha os olhos vermelhos e inchados, porque eles insistiam em se derramar, de forma quase contínua. Ainda assim, ela conseguia ter uma voz tranquila e calma sempre que a voz dela era necessária. E não era só a voz. Era o sorriso que os convidava a chegar mais perto. Era o corpo inclinado pra eles, me dizendo o quanto ela ansiava os abraçar. Cada um deles.

E eu não entendo. Não entendo como. Não entendo o por quê.

Não é só sobre a força tão grande de ser quem ela era, o tempo todo, tão intensamente, por dois dias . Era também sobre ser alguém tão cheio de luz que conseguia enxergar até cantos escuros ou distantes que minha visão não alcançava. Ela viu em todos eles coisas que eu não pude ver. E mesmo nos que eu vi, ela viu além. Ela viu mais. Ela viu mais intenso. Mais bonito. Mais puro. Mais cru.
E ela conseguiu amar a todos. E a todos nós. Mesmo quando nos desencontrávamos. Mesmo quando éramos limitados demais para ver o que ela via. Ao invés de se revoltar conosco - "tolos, como vocês não enxergam?!" - ela sorria e balançava a cabeça, segurando uma mão amiga, seguia em frente.

Ainda lá. Toda lá. Inteiramente lá.  É uma presença até difícil de explicar mas, mesmo sem que ela fizesse nada, meus olhos se voltavam para onde ela estava.

É uma gentileza tão tão mais tão grande que ela conseguia ver em todos eles algo de belo, de único, de especial. Uma gentileza tão grande que ela sofria por não poder dar para todos eles o melhor que eles mereciam. Uma gentileza tão grande que, mesmo em mim, com meu jeito explosivo e turbulento  que eu sempre achei tão diferente dela, ela viu algo de belo e valioso. E, ainda além disso, ela disse que viu a si mesma.
Uma gentileza tão grande que, ainda que sem concordar e, possivelmente sem entender, ela confiou em todos nós e nunca dirigiu sentimento negativo sequer. Ela ainda é abraço e sorriso e olhar aconchegante, mesmo entre seres tão discordantes dela.

Eu não te entendo, menina. Mas eu amo tanto tudo isso que, enquanto leio o que tu escreve, ou agora mesmo enquanto escrevo isso pensando em como me sinto sobre a tua presença tranquila e o teu olhar acolhedor, eu me derramo também Como você se derramou tanto pra tantos deles, candidatos. E pra tantos de nós, seus colegas.

Eu acho que todo esse lance de sair do projeto ta me deixando bastante sensível. Mas eu quero muito te dizer que eu to muito feliz de te ter aqui, enquanto eu saio. De te ver como alguém que ama o Y com tanta intensidade como eu amei (talvez até mais). E eu amo e admiro muito que essa intensidade toda venha com uma gentileza que eu nunca consegui cultivar. E que brilha tanto.

Você é gigantesca.

E é lindo ver que, por trás desses teus silêncios, você é uma mulher tão vibrante e tão intensa.
E eu me senti muito bem de ser encontrado por você. E me sinto muito bem de saber que você nos encontrou.

Espero que o mar calmo e cristalino dentro de ti nunca seque e continue se deixando derramar tantas vezes esse teu coração enorme achar necessário. O som dessas tuas ondas me traz uma paz e uma calma imensos.

E... sabe? Ainda que eu saia do Y e me afaste desse litoral que encontrei em ti; feito concha, eu sinto que há hoje um lugar em mim onde eu sempre vou poder repousar a orelha a fim de me lembrar de como é gostoso ouvir as ondas.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Aula 1 - Introdução de "O espírito do doutor palhaço"



(5 min de leitura)

Por aqui vou chamar você que está lendo de você, ok? Queria que fosse uma conversa de pé de orelha. O espírito vai ser esse, se vou conseguir deixar tão íntimo, tenho lá minhas dúvidas. É que o assunto é denso. E ninguém toma um cafezinho jogando conversa fora com esses assuntos. Mas, tentemos. 

Uma professora de clown disse que era uma pesquisa ousada, típica da pós-modernidade, esta que eu estava empreendendo. Eu disse para todos, à turma do mestrado, desde o início, que queria pesquisar sobre o que há de espiritualidade na palhaçoterapia. As pessoas se admiraram, porque acharam estranho e difícil demais tentar desenvolver algo assim. Todavia, nunca visualizei outra abordagem. 

Nos dez anos que acompanhei o projeto, vendo-o crescer, geração após geração, lá estavam pessoas se revelando, se desafiando, colocando máscaras, deixando outras caírem. Fomos construindo ritos de acolhimento e de despedida, de desabafo e de captação de brilho nos olhos. Presenciávamos a sala lotada nas palestras sobre o projeto, quando à seleção de novos integrantes. As lágrimas ao conseguir entrar e por ter que sair. Sem contar nas outras tantas que diziam "foi meu porto seguro", "me deu um sentido na faculdade", "não imagino fazer algo igual na vida". 

De que ordem são estas falas? Da verdade? Sim, há uma verdade em cada fala, mas não é universal. Existe singularidade em cada vivência. Do dever? Era uma obrigação as visitas de palhaço ao hospital, mas engajadas em um sentido para além da retidão e do crime, e cheias de gratuidade. Do político? Nada tem a ver com a administração dos bens públicos, da polis ou da luta pela justiça social, a não ser em uma política muito própria dos afetos. E, então, o que? O que estamos falando quando dizemos "sentido", "amor", "singularidade"? Não creio estar sendo leviano se disser que são expressões da ordem do espírito. 

Um erro que talvez eu tenha deixado escapar no vídeo, mas que logo depois corrigi, é que para pensar a ordem do espírito não devemos pensar em sentidos que escapam como que despregados do resto da realidade material. São assuntos que coroam nossa vida. Imaginei agora aquelas aves do Pequeno Príncipe que o levaram para além de seu planeta, mas igualmente a flor que ele amava tanto e que o feria na mesma medida. As aves, a flor, um pequeno príncipe, sim, é de espírito que estamos falando. É o que dá humanidade ao corpo, é o que se apaga nele à morte. 

Sabia que se o objetivo era flagrar estes assunto nas falas das pessoas, era o espírito que eu deveria deflagrar em nossas interações de pesquisa. Tentar se mover sobre a face dessas águas, como Deus o fazia ao princípio de tudo. 

O pesquisador não é Deus. Não faz surgir as verdades da pesquisa ex nihilo. Assemelha-se mais ao demiurgo platônico: uma espécie de divindade que manipula os elementos já existentes dando forma aos mundos. Ser uma divindade é afastar-se dos mortais. É o meu movimento quando busco objetivar o olhar, escalando referências bibliográficas para encontrar quaisquer peles que consigam enfaixar as ideias. 

Um detalhe importante que falarei no próximo momento é que esteve longe de eu poder ter sido um demiurgo completo. Antes, um leviano que se esforçou por um movimento apoteótico. Eu vinha misturado com todos estes rapazes e moças na esteira do tempo, na areia dos anos. Tive que desapegar, desvencilhar, desvanecer-me como membro até onde dava para conseguir olhar com mais calma, mais serenidade, mais leveza seus movimentos. Ao final, você deverá perceber que essa atitude só me trouxe mais insônia, inquietação, agitação. E é o que Nitezsche aprovaria, pois disse só poder acreditar em um "deus que dança". 

Essa pesquisa, pois, acabou sendo uma dança com eles. 



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sábado, 17 de junho de 2017

Curso sobre o Y



(2 min de leitura)


Olá, 

Meu nome é Allan Denizard e irei iniciar um curso falando sobre o que consegui apreender a respeito do Espírito deste projeto que deram para chamar de Y. 



Fiz um mestrado sobre isso e o defendi junto ao programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Ceará. Minha orientadora era a arte-educadora Ângela Linhares, sem a qual meus insights teriam sido mais pobres e sombrios. 

Para que esta dissertação circule, decidi abrir um curso falando dela. Estou ministrando, a princípio, este curso para os ypsilonianos, mas como devem ter percebido, nada é secreto, hermético, sibilino. Todos os textos que irei escrever explicando a dissertação estarão publicados aqui, e todos os vídeos no Youtube do projeto. 

Estou pedindo aos meus querydos e querydas que participem de forma bem amena: 1. assistir aos vídeos, 2. ler os textos, 3. comentar. Eles estarão comentando junto ao google classroom, em uma turma que abri especialmente para eles, mas se você caiu por aqui e decidiu seguir também esta aventura, terei prazer em ler o que você comentou no bloguy e no Youtube. 

Em resumo, o curso serão 

  • 8 semanas
  • 1 texto e 1 vídeo explicativos por semana
  • 1 comentário seu por semana com direito a feedback dos pares
  • Só isso!


Não pretendo que leia a dissertação. Não agora. Talvez algum dia, você senta, respira três vezes, imagina que alguém que muito amou outro alguém decidiu pesquisar sobre um projeto que muito amou e ama, junto com pessoas que amam outras pessoas e que, de alguma forma, deram corpo a este projeto com a capacidade delas de amar.

Do jeito que lançam comentários de efeitos em filme e livros, vou mostrar um que saiu da timeline do corretor de ortografia a que submeti o texto:



Por favor, não é esnobismo. É apenas um estímulo para que pelo menos abra, algum dia, essa dissertação e a folheie. 

Se esse dia for hoje, eis: