segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Espero que agora exista um pequeno ponto de luz

Eu ainda lembro da corda, lembro das frases do Sensei, lembro do grito de guerra da minha geração. As falas dos Mafapocas me fizeram ir no mais simplório do meu Y, onde minha sede de responder todas as perguntas me cegavam para a beleza da incógnita. Eu me permiti ter dúvidas, e me encontrei dentro de um mundo onde tudo é possível, onde a trapaça é válida, onde não há o certo, nem o errado.

Sempre estaremos um pouco perdidos nessa vida. Exemplo disso é que a casa da Serafim não é nem um pouco perto do Órbita, não sabemos a real medida de três quarteirões de distância, e eu nunca sei pra que lado fica as ruas onde devo pegar ônibus. 

No mais, vejo que eles ainda estão se acostumando com as implicâncias, filosofias e questionamentos de uma criança que brinca de ser médico (ou de um médico que na verdade é palhaço), e é evidente uma carga de olhares que dizem "o que vem agora?", "o que vem depois?", "será que eu fui bem?". É normal. O Allan é assustadoramente fofo e estranhamente encantador. Eu devo muito a ele. Eu queria ser igual a ele.

Na verdade, não sei se fui bem. Meu desejo foi tentar entregar um pouco do que eu sei (ou acho que sei) para que houvesse um pequeno ponto luminoso no meio daquele nevoeiro de ideias. Improvisar é dar um abraço no absurdo e quebrar todas as expectativas que a plateia possua, mesmo que a plateia seja eu mesmo. O Improviso casa bem com a palhaçaria, em um altar onde tudo é possível, até mesmo rir da besteira que eu mesmo fiz. 

Risadas. Silêncio. Risadas. Gargalhadas. Silêncio. Silêncio. Nem sempre temos coragem de mostrar a ideia que chegou aqui, na mente. Nem sempre queremos nos expor. Temos medo, e é bom ter medo. Mas o erro ainda é um jogo, e o rir do erro é um acerto. Não é? 

Eu me permiti ser um velho que promove um momento de capacitação pra quem está chegando, e me sinto feliz por isso. Eles se permitiram entrar em todos os meus jogos, se desafiando, se arriscando e se enxergando capazes de serem mais, e eu fico feliz por eles. Eu fico mais feliz ainda de poder co-existir com os Mafapocas dessa maneira e, assim, dar mais um passo no meu mundo Y. 

Obrigado pela entrega de vocês. Espero que agora exista um pequeno ponto de luz. Vocês são fó fufeffo<3 div="">


Matheus Sebbe - Dr. Marmota

domingo, 6 de agosto de 2017

Segundo dia ou Abraçar a coluna

Hoje tive vontade de abraçar a coluna. Vai ser um relato diferente este. Aproveito-me do que vivo com vocês para falar de mim. Quem não faz isso enquanto escreve ignora o poder de terra que tem as letras, para sepultar sentimentos, florescer ânimo.

Meu filho maior, como deu pra perceber no texto anterior, requer muita atenção. É que além de ter autismo, vem com ciúmes do menor. A família não é tão grande para revezar cuidados. Minha mãe precisa de mais cuidados que ele. Resta-nos a avó materna que também vem tendo seus limites. 

Aprender sobre o brincar no Projeto Y me fez perceber que não é um simples "deixar acontecer". Existe uma preparação e uma prontidão para o jogo que nos faz suar. Uma vontade e um esforço para não deixar a coisa cair que faz transudar. As pernas tremem, o coração galopa antes de visitar. O véu do templo do mundo se rasga, as pessoas se multiplicam. Brincar com crianças com limitações parece ser a mais difícil das coisas, e é a mais leve, quando acontece de acontecer.  

As reflexões de roda das oficinas destroem as ilusões de que palhaço é aquela coisa fofa de só fazer graça. O ambiente quasi-controlado traz a ilusão de que é só jogar e pronto. Tem algo entre estas duas coisas que nos escapa: é o universo do outro com quem queremos brincar. 

O maior milagre da vida é conseguir entender o outro. O mais óbvio é brigar. Como algo que nasce em você consegue se fazer inteligível em mim. É fácil quando a linguagem consensual das palavras que aprendemos juntos nesse idioma compartilhado se fazem de meio. É fácil quando a lógica do cotidiano também se interpõe. E quando elas falham? Quando a criança fala uma língua que não te soa natural aos ouvidos, e quando a lógica dela escapa continuamente pelas tuas mãos feito areia? 

Às vezes fazê-la feliz é só abrir a portinhola que a protege (e a aprisiona) dentro de casa. Ele (falo agora de meu filho) é tão frágil. Dia desses pulou em um brinquedo inocente e sangrou o lábio. Já tive três vezes o sangue dele em minhas mãos. Mas, é preciso deixar que ele corra, que se jogue, que escale. É preciso às vezes fechar os olhos para onde ele vai, e se preparar para o choro de um insucesso ou para a conquista de uma nova habilidade. 

Coisa que ele não faz é desistir de brincar. Às vezes reluta em dormir porque parece temer não acordar. Vai cerrando os olhos aflito pelo desaparecimento neles das imagens das brincadeiras de que seu mundo esteve cheio. 

Vocês deviam conhecê-lo. É tão fácil fazê-lo rir. E é tão mágico. Há mais dentes ali do que possa contar nossa vã odontologia. E vem sendo tão fácil chorar. Sua alma sente que pode voar, mas a gravidade imanta. 

Ingrid, ele vem me ensinando a não pensar muito. Existe uma urgência de pular que me empurra, me convoca. Joyce, ele tem uns trejeitos de rir que me desarmam. Forja Chaves para o meu castelo abrindo portas que nem sabia estarem ali. Na Sombra do que ele revela, destrói as teias de aranha e espirra as poeiras para longe. A agitação dele é tamanha, Ana, que quem me vê  o protegendo pensa que tenho a calma feito tinta impregnada na pele. É o meu quartzo, Artur, derramado por Deus em nossos braços, pequeno Serafim. Cá entre nós, brincar cansa, dói as pernas, exige trapaça com a idade. As assimetrias que já me doem, Ivis, pedem repouso de vez em quando. É, então, que o vigio distante, e esperanço que as crianças acolham sua diferença. 

Quando a lógica de tudo o que acreditávamos ser relação efetiva faz água, o que faz com que abandonemos o barco e nademos juntos, e pulemos juntos, e procuremos juntos o caminho de volta para casa, para os outros, para os nossos?

Ele sabe que sou dele. A mão levanta para segurar a minha como a de ninguém. Já tiveram o prazer de estar à deriva no meio do infinito mar, com alguém que ama? Eu já. 

sábado, 5 de agosto de 2017

Primeiro dia ou Quartzo

Escrevo com dois filhos ao lado. Brinca um de digitar no computador, o outro de morder um pote. Mal sabem que, entre eles, onze pessoas estão comigo (Chaves, Sombra, Cá, Joyce, Tainah, Ana, Serafim, Ingrid, Ívina, Arthur, Mayko).

Há um infinito acontecendo em cada um de nós três. O Bernardo desafia as leis da gravidade repetida e ininterruptamente, jogando tudo ao chão. Eu apanho, coloco de volto e devolvo-me à escrita. O João, que estava digitando há pouco, toma o gosto de querer chamar minha atenção e começa  a me arremessar objetos. E assim... esse texto é uma escrita. E é um fluxo, feito a corda ao final. 

Mas, percebe que tudo fluiu quase sem lacunas. Peço perdão - embora não me sinta tendo pecado - por ter olhado o corpo de vocês e exposto tantos detalhes. Aqui uma petéquia, ali um joelho eritematoso, um quadríceps torneado, os cabelos preenchidos de vazio, o arame do óculos delineando a sobrancelha ou mesmo os cachos se confundindo na blusa, a assimetria e a simetria dos esmaltes, a calma tatuada na pele, a simplicidade da cerimônia, o quartzo. 

(João decide andar de triciclo ali no quintal, os ataques amenizam, "papai" é chamado com apelo, "deixa eu terminar de escrever, filho"). 

Deixa eu terminar de lembrar como as pessoas diziam o nome uma das outras alternando toques em um ritmo que quase gera violência. 

A vida vem violenta com alguns. Chacoalha-nos até a vertigem. E eu propondo que passem pela corda, de novo e de novo. A corda gira como a vida. Das virtudes da corda, uma delas é que não tem piedade. Devora-nos um a um. Ou você passa com galhardia ou todos voltam. Dois loucos conversam ao extremo sobre prosódia e onomatopéia. Não há como parar para os escutar. Quem vem empurra, quem já foi convoca.

(Interrupção de escrita. Marília me chamou lá em cima. Havia algo urgente. Tinha que me enrolar com papel higiênico junto com o João para fazer o papai de múmia). 

Liberto, prossigo algo preso a vocês desde às oito horas da manhã. O impulso de meus dedos acabará por chegar aos olhos de alguns. Conectados por não sei o que. Grávidos do amanhã.

domingo, 23 de julho de 2017

Coisa de Igreja

Allan: Sebbe, preciso entrevistar você...
Sebbe (1): hahahah sério?

Allan: Agora, por aqui. Estou escrevendo um livro não comerceial para os novos integrantes do Y e queria te fazer umas perguntas que vão nortear um dos capítulos. Pode ser?

Sebbe: Pode sim, mas eu nao vou ficar online agora porque vou já encontrar com a Júlia. Se quiser mandar as perguntas, eu posso ir respondendo.

Allan: Nem eu vou ficar aqui todo tempo. Vamos conversando e se respondendo quando der.

Sebbe: Na hora 👍🏻

Allan: Você leu aquela conversa que tive com o Mayko e divulguei no bloguy?  

Sebbe: Li agora

Allan: Lá, tem essa parte aqui: "Cheio de nego mandando coisa pra gente como se fosse participar de ONG ou coisa de igreja." O Mayko considera isso algo ruim. Como se desvirtuasse o propósito do projeto. Sei que você é um cara da igreja, queria saber de você se o sentimento de igreja lhe animou a querer ser do projeto?

Sebbe: Allan, na verdade não. Eu nunca senti a necessidade de fazer o bem pro outro pra que Deus veja que eu estou sendo bom. De uma certa forma, eu concordo com o Mayko no ponto que as pessoas religiosas enxergam o Y como uma oportunidade de extensão da sua caridade, mas não como uma extensão do próprio "eu-estudante de saúde" ou do "eu-profissional". Meu avô me dizia "seja bom pros outros, não pelo fato de mostrar que você é bom, e sim por estar fazendo a coisa certa". O catolicismo sempre me mostrou a importância da caridade e do amor ao próximo, ao mesmo tempo que uma passagem me diz que "a tua mão não precisa saber quanto de esmola sua outra mão dá". Eu sempre me encantei pela figura do palhaço, desde que o palhaço era apenas o ponto cômico do circo. O Y me mostrou mais uma faceta encantadora do palhaço. Eu tentei o Y mais pela imensa vontade de fugir da redoma da saúde tecnicista da odontologia, através do palhaço, do que realmente por fazer uma coisa boa. O fazer o bem sempre foi uma consequência, e nunca meu foco principal. Talvez isso explique o porque de eu nunca sentir minha fé abalada por uma visita ruim. Eu nunca saí com a sensação de "nossa, não fiz o bem pra ninguém hoje, desculpa Deus". Acho que Deus enxerga minha vontade de fazer o bem tanto quanto o bem que eu faço.  Ser religioso, dentro do Y, amplia até o debate dentro do próprio grupo, de como as visitas causam reações diferentes em todos nós, e acho que é bastante interessante ver isso dentro do grupo.
Allan: Mas você descreveu mais ou menos um sentimento da sua igreja. Não importa se conseguiu o bem (a visita bem feita), mas a intenção, pois o seu Deus enxerga a intenção, a vontade invisível. E mesmo a fuga do tecnicismo com a devoção à arte tem analogia imensa com o exercício cristão de não ceder ao mundo de Leviatã, mas buscar o Reino do Amor, da Justiça e da Verdade. Há uma transposição do sentimento da igreja aqui, não acha? 
Sebbe: Sempre vai haver. A espiritualidade transcende o ser. O problema está na intenção com a qual se faz. Se Deus consegue enxergar o invisível, ele sabe das vontades internas de cada um na hora de fazer uma visita como doutor-palhaço em um hospital, entregar uma sopa a um morador de rua no centro da cidade, ajudar uma família mais humilde... Eu não procurei a palhaçoterapia para poder ser bom aos olhos de Deus. Eu procurei a oportunidade de conhecer a palhaçoterapia e, através dela, fazer saúde. O bem que eu faço eu enxergo como consequência da minha visita, e não como finalidade. De uma certa forma, a igreja não foi um ponto que me motivou a fazer palhaçoterapia, mas eu fico feliz por poder, no final das contas, conseguir enxergar Deus no que eu faço. 
Allan: Se não é o bem, qual é a finalidade da visita? 

Sebbe: O que eu quis dizer é que a finalidade é deixar o paciente em um ambiente mais acolhedor, é dar suporte emocional ao acompanhante no processo de internação, é melhorar o ambiente e a rotina dos profissionais do hospital... tudo isso pra eles! É um bem? Sim. É finalidade? Sim. Mas pra eles (pacientes, acompanhantes e profissionais) não pra mim. O ponto é que as pessoas, muitas vezes, atrelam o fato de que as visitas servem pra que os outros possam nos enxergar como pessoas boas, como se as visitas fossem para promover uma imagem boa para a sociedade e para Deus. E esse fato é o que muitas vezes faz com que pensem que o fato de eu ser religioso é o que me motiva a atuar como palhaço. Até mesmo os elogios que eu recebo me causam certa estranhamento, até um pouco de incômodo, pois eles vêm através dessa mentalidade. Eu faço porque eu amo. 
Allan: De novo você está descrevendo o sublime da sua religião. O catolicismo coloca o bem do outro como grande bem. Toda a doutrina de fé é fundada na vida de um homem que transferiu a noção de sacrifício para si próprio em favor dos outros, e não mais sacrificar outros para agradar a Deus. E você ainda coloca uma condição para que isso aconteça: "que eu não seja glorificado, mas o próximo e ele apenas". Essa é a condição mais católica que se pode imaginar. 
Sebbe: Então... talvez o meu inconsciente me guie pra isso. Jamais pensei que fosse tanto assim, sabe? Pra mim sempre foi pelo palhaço em si. Não imaginava que, lá no fundo, a religião fosse tão determinante. 

Allan: O palhaço "em si" pra você parece não se desvencilhar da religião. O seu "em si" é um "para o outro". Isso é típico do "em si" cristão. A questão é se isso compromete o "em si" do palhaço? 
Sebbe: Nessa perspectiva, eu entendo que não comprometa. Acaba que se conota mais uma forma de cuidado, ainda que inconsciente. Na real, o palhaço no hospital tem um propósito maior do que a ideia simplória de proporcionar o riso. Acho que aí rola uma soma de intenções positivas: o cuidado artístico, o médico e o religioso. Eu não me imaginava inserido conscientemente nesse último. Essa conversa toda me abriu os olhos pra entender que tem mais Deus em mim, e no que eu faço, do que eu pensava. 
Allan: Excelente! Nosso capítulo fecha aqui. 😉

A criança em segundo plano

Allan: Amanda, aqui é Allan. Você leu aquele diálogo entre mim e o Mayko?

Amanda (1): Li agora, Allan! Interessante, na verdade, parece um pouco com aquela nossa conversa também que tivemos naquela atividade em sua casa. Mostra o lado complexo de alguém que é Y, mas que muitas vezes não precisa ser realmente definido. Complexo assim, né? Eu acho. Porque o Y, por mais que tenha um objetivo, cada um tem um olhar diferente depois de entrar. Cada um caminha em um aprendizado lá dentro, por isso determinar é difícil. Eu, por exemplo, vejo muita coisa diferente do Mayko, apesar de o fim dele ser o mesmo que o meu, nosso objetivo ser o mesmo. Mas, eu achei massa também a mudança que essa conversa mostrou. Se você conversar com o Mayko daquela nossa outra conversa de alguns anos atrás provavelmente ele não defenderia as mesmas coisas, eu talvez não leria da mesma forma, ou até o Allan não seria igual. Isso prova que o nosso próprio feeling, entre você e você mesmo, pode se tornar diferente dentro do projeto ao longo do tempo. Imagina entre você e tanta gente que compõe o Y. Por sinal, essas pessoas diferentes acho que é uma das coisas que mais dá cor ao Y. Torço muito pra que continuem tendo olhares diferentes como no meu tempo, era um crescimento e tanto.

Allan: Pois é. Eu te pedi pra ler, porque senti que aquela conversa que tive com o Mayko traía aquele momento que tivemos com você. Traiu? De outro modo, a criança para você era segundo plano?

Amanda: Não, pra mim não era segundo plano, pelo contrário, era o motivo da gente estar ali, era a motivação, apesar de não se resumir à criança. Claro que com a experiência com a criança, com doutor palhaço (que só se formava depois de algumas ou muitas visitas) ganhávamos muito além disso, ganhávamos tudo que o Mayko citou, um novo olhar do ser médico, principalmente. Acho que tentar ser um doutor palhaço provoca crescimento. E priorizar o doutor palhaço, o fato de "rir cuidando" engloba a criança, não tem como não ser. Justamente, acho que era um dos pontos daquela nossa conversa anterior: Criança x Crescimento pessoal. Esse tema encasquetou não só naquela conversa, foi inclusive problematização de seleção. Y não é caridade, projeto de igreja, isso também me incomodava na seleção. Mas, meu olhar acendia para aqueles que diziam gostar de cuidar e divertir, mesmo parecendo clichê, porque o Y é muito pra ser absorvido realmente pra quem tá de fora. Não achava que aquele que dizia que queria se conhecer melhor no Y seria melhor candidato, mas claro, há muitos outros fatores. A questão é que existem os dois: a criança e o crescimento pessoal. No caso aqui entra não só crescimento como Amanda, mas como Doutora Sem Nome também. A forma de ver e colocar em planos é que divergia. E, pensando bem, acho extremamente saudável para o projeto essa divergência, porque permitia ele se engrandecer em tantos fatores distintos e ser tão multi, pluri. Uma coisa que me aflige também, vou aproveitar que tu veio falar comigo, é o Y ser visto como o lugar daqueles que não se encontram com a faculdade, os "desajustados”. Isso não era a ideia dele inicial. Acontece que ele é realmente aconchego nos momentos difíceis, eu mesma precisei dele, e ele foi refúgio para muitos que não se encontravam, mas isso não pode ser tão, tão (não sei que palavra usar), por isso acho que a criança é primeiro plano entende. O Y muitas vezes é visto como um lugar "de certo tipo de pessoa”. Não me importa o que pensem, mas me importo que mude essa forma de enxergar, porque o Y é lugar de humanização acima de tudo, e qualquer pessoa pode ter essa possibilidade. Não sei se deu para entender?

Allan: Deu pra entender, sim. O nome da sua palhaça era Dra. Sem Nome?

Amanda: Na verdade não consegui criar um nome, aí ficou a brincadeira de Dra. Sem Nome.

Allan: Foi importante pra você viver a busca do seu palhaço no plano de alegrar a criança?

Amanda: Com certeza! Só que incialmente me atrapalhou, porque, na minha cabeça, eu deveria ser tão alegre e me encontrar tanto quanto aqueles que entraram junto comigo. Eu tinha que ter um nome, uma roupa incrível, experiências sensacionais nas primeiras visitas. Isso me afastou do projeto no começo, pois achava que não tinha lugar pra mim, e que eu não era uma doutora palhaça, porque às vezes eu era até mais engraçada e espontânea sendo Amanda do que doutora palhaço. E pra mim isso tava errado. Mas, foram essas conversas entre diferentes cabeças que me ajudaram nisso. Naquela nossa primeira conversa, vi que tinha gente que pensava como eu, e era ótimo palhaço. Nunca vou me esquecer de uma conversa que tive com o Gui sobre isso, ele me dizendo que a Doutora Sem Nome não precisava se esforçar pra ser legal, que a Amanda não tinha que provar nada para ninguém porque ela já era legal, que o nariz não era pra ser peso, era pra ser uma porta aberta pra se ser o que sempre quis e se divertir. E você depois me disse que meu lugar no Y era único, porque justamente ele precisava de gente como eu também. E, escutando tudo isso, vi que não tinha que ser tão complexo, sabe? Eu não tinha que ter nome e ser como os outros, não tinha que ter experiências fora do normal, toda uma técnica. O pequeno já era muito. E a minha busca pelo palhaço passou a não ser busca pelo nome, por um jeito, passou a ser busca por vivências, por divertir me divertindo e cuidando. Eu ia pro hospital pra alegrar a criança e o que eu recebia em troca era o que me fazia me encontrar. E depois de ir me encontrando é que pude tentar levar mais pro lado de ser mais doutora palhaça. Porque tudo tem uma forma melhor de ser feita, mas não igual. E podia ser sem peso agora, mas sempre tendo a criança no plano principal. Isso que me ajudou.

Allan: Fantástico! Fiquei pensando agora na metáfora do caminho. Eu falei com o Mayko sobre começar no Y motivado pelo palhaço e encontrar a criança no meio ou no fim. Você me fala de um caminho que começa pela criança (até mesmo mostrando a insegurança da sua criança) e encontra o palhaço no meio ou no fim. Mais uma coisa, você revelou pra gente sua profunda pertença a sua família. Ao contrário de muitos processos de adolescer, você não quis romper com a casa dos pais. Você acha que isso te fez mais imatura do que as pessoas ao redor? (Pergunta difícil e íntima, eu sei)

Amanda: Não acho que esse meu sentimento de pertença e não-atrito com a família tenha me feito mais imatura. Talvez possa ser imatura em algum aspecto por outros motivos da vida e não esse. Acho que essa relação da família além de ter relação com seu próprio jeito, tem a ver com as experiências em que você foi exposto ao longo da vida. E minhas experiências claro que tem pontos positivos e negativos. E minha família tem problemas como todas as famílias, mas não me deram motivos para romper com a casa dos pais, pelo contrário, eles sempre me possibilitaram o contato com o mundo de forma a aprender fora de casa. Nunca fiquei só na família, e me encontrei muitas vezes no erro, mas sempre sabendo que tinha para onde retornar, um lugar que iria me acolher embora me colocasse pra voar. E é meu sentimento de gratidão por ter uma família assim que me dá esse sentimento de pertença e prioridade na minha vida. As diferenças me fazem crescer, mas a essência, que é o amor, é que me faz permanecer (e eu não sei como descrever isso porque é abstrato como sempre deixei claro). Acho que amadurecer não tá ligado a uma experiência propriamente específica, né? Cada um amadurece nas suas próprias dificuldades, só que o que é dificuldade pra você pode não ser pra mim e vice-versa. A nossa forma de lidar com as emoções, com certas situações, é diversa também. Acredito que a forma de lidar não necessariamente diz quem tem mais maturidade ou não, reflete muito mais a personalidade da pessoa.

Allan: Adorei suas colocações. Eu estou redigindo um livro para ser lido pelos iniciantes do Y. Aquela conversa com o Mayko foi o 1o capítulo. Essa conversa aqui será o segundo, se você permitir. Acho que sua fala é imprescindível para ser lida por todos os novos, para termos a pluralidade das vozes. Você topa?

Amanda: Sim, claro!

Allan: Pois me fala a última coisa. Qual o conselho que você daria para uma pessoa recém-ingressa viver o Y da melhor forma possível?

Amanda: Todo mundo é diferente, você não tem que ser mais engraçado, ser um palhaço pronto ou ter a roupa mais bonita para poder ser Y. Ser Y é poder se divertir sendo o que você sempre quis ser e fazendo bem com seu cuidado. É colorir o dia, é ser doutor palhaço, palhaço que nem sempre faz rir, porque o remédio nem sempre é esse. Mas, estar lá para dar o seu melhor. E pra ser único, não precisa ser definido, não precisa saber dizer quem se quer ser. Pra ser único, basta se permitir viver os encontros que são cada visita, não tenha pressa.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Aula 3 - Caminho teórico-metodológico



(2 min de leitura)

Há muito exigem da gente deixar inteligível o caminho que trilhamos para chegar nas conclusões que chegamos. Desde, pelo menos, Sócrates, o irônico.

Dos cinco últimos séculos para cá, a coisa piorou enormemente. É a tal da exigência do pensamento crítico, que não aceita que certos conhecimentos possam surgir, de repente, no palco da mente. Acho, de algum modo justo, pois muito charlatão se aproveitou do ponto cego das pessoas, passando por verdade ilusões.

Desde então, ninguém pode entrar no castelo da ciência sem responder a pergunta-senha: “qual foi o seu método?”. O problema é que, em certo momento, encantaram-se os homens de ciência tanto com o método que submeteram a incomensurabilidade da realidade a ele. Falo particularmente do método positivo, aquele que quis matematizar as coisas, tabulá-las em uma geometria arestosa.

Conseqüência maior: a realidade foi amputada em toda sua riqueza para caber lá dentro.

O capítulo 3 fala sobre parte da natureza do que quero captar e, portanto, da inviabilidade de muitos métodos que flertam com o positivismo para conseguir promover essa captura. É um capítulo difícil de ler. Dialoga com muitos pensadores para me fazer aceito pela academia. Tive que fazer uma grande corrente para arrombar a porta.

Em resumo, o que queria passar é o seguinte:

  • Que não podia abdicar de mim mesmo para entrar na pesquisa;
  • Que meus afetos pelo grupo poderiam e deviam estar comprometidos com a pesquisa;
  • Que o raciocínio estava presente, bem como a lógica, mas sem prescindir da poesia;
  • Que, por fim, não iria abdicar da amizade, do amor e da alegria para escrever um texto enxuto, aceitável. 

Não falei isto agora que irei falar na pesquisa, mas bem que poderia ter cunhado um método que em vez de se chamar pesquisa-colaborativa, se chamaria pesquisa-visita. É o que os palhaços do projeto fazem quase todos os dias: vão pesquisar como pode ser a relação com as crianças. É dessa experimentação que surge a verdade deles, da relação. Uma verdade quente, espumante, muitas vezes frágil para se cristalizar na matéria, mas durável na ordem do espírito.

Se você gostou dessa última imagem - da cristalização frágil das experiências na matéria, mas de sua duração no espírito - vai adorar saber que encontrei uma filosofia que pudesse referendar essa visão. Falaremos dela mais ao capítulo sete. Não perca a explicação do próximo capítulo, ele, sim, é o essencial.




Para acessar a dissertação inteira, clique aqui.

domingo, 2 de julho de 2017

Diálogo domingueiro sobre ser palhaço, do Y, querer ser doutor, e outras bagatelas

Allan (1): Falei recentemente com a Júlia Sargento (2), pedi dicas de como dar oficina. Ela me falou algo intrigante: "tem que, primeiro de tudo, ver a motivação das pessoas para entrar no palhaço. Porque visitar crianças hospitalizadas para dar alguma alegria e bálsamo pra elas, várias atividades podem fazer isso. Mas, será que o palhaço é o caminho DESSA PESSOA SINGULAR que está querendo fazer isso?"                        

Mayko (3): MOR-TO                        

Allan: Fiquei pensando quantos não ficam deslocados no Y porque não era o caminho dela [dessa pessoa singular].
                        
Mayko: Faz muito sentido.  
                      
Allan: Vou dividir contigo o e-mail. Chega já.                        

Mayko: Mas, mano, foda isso. Eu sou muito bolado com quem quer entrar no Y porque acha que é projeto social, caridade, alegrar as crianças. A gente nunca se propôs a ser só isso, mesmo assim várias pessoas acham que é isso que a gente é. Sempre sinto muito isso lendo os materiais da seleção. Cheio de nego mandando coisa pra gente como se fosse participar de ONG ou coisa de igreja.    

Allan: Sim. Pelas palavras da Júlia, e nesse momento fico pensando mais sobre isso, o palhaço de fato deveria vir primeiro. E não a caridade, a igreja, a ONG. Não que não seja importante a caridade, a igreja, a ONG, mas é que se não, não tem palhaço. Daí algumas pessoas saírem logo. Vêem que não era o que sonhavam.                        

Mayko: Eu achei que tu ia discordar de mim, tô feliz!                        

Allan: Tem gente, como aquela nossa amiga querida, que não sai, mas também não fica. São pessoas que captam a grandiosidade da coisa mas sentem no fundo que não é o caminho delas. Mas, se amam o fim, são muito trôpegas no meio. Pra pessoa se encontrar mesmo no Y tem que sentir sede de ser palhaço. A criança pode até ficar em segundo plano, mas é um plano. O final dessa história é o encontro da sede do palhaço com a fome do sorriso da criança sofrida. 
                       
Mayko: Da minha ótica falta a variável doutor na tua equação. Mas concordo com tudo, fora isso.
                        
Allan: Eu me tornei imortalmente Y, porque o palhaço sempre foi importante pra mim. E a criança, idem. A síntese tava meio feita, ainda imatura, mas encaminhada. 
                       
Mayko: Mas é muito difícil não perder o palhaço no caminho, ó, Allan. A faculdade meio que engole muito. Esse semestre [o último antes dos estágios finais] eu visitei 4 vezes, só, eu acho. 
                       
Allan: Na minha ainda pobre visão, acredito que o sentimento de querer amenizar o sofrimento é o que nos dirige para o doutor. Antes de exercer a profissão de fato, esse desejo tem que ser centuplicado. 
                       
Mayko: Hum... eu discordo. Acho que incluir o doutor na equação como variável, e não como resultado, é importante.   
                     
Allan: Cara, é que acho que não se pode incluir uma variável que é uma incógnita em uma equação que queremos que resulte em algo. O que diabos é ser doutor? Fui descobrir isso ao final do meu primeiro ano de formado, e ainda de forma tosca. 
                       
Mayko: Sobre por que diabos a variável doutor tem que entrar na equação:


  1. Pra que a relação que você tenha com a criança não seja de mero palhaço que veio te fazer sorrir. Mas pra que seja, também, de cuidado. E acho que o doutor acrescenta isso de forma mais óbvia. Muda a relação.
  2. Pra mudar a relação do palhaço com você mesmo. Percebi em um dos meninos do Y, esses dias, que uma crise comum ao Y é a de identidade. O palhaço não é a pessoa. A pessoa não é o médico. E no fim são três pessoas diferentes tentando existir juntas. Unificar as três imagens é parte do processo, pra mim. Eu sou Mayko, Caju e doutor. E sou os três ao mesmo tempo, sempre, mesmo quando sou mais um do que o outro. Destruir as barreiras que eu construí entre essas três imagens foi importante pra consolidar os benefícios do Y pra mim.
  3. Pra desmistificar, que é o óbvio.                        
- Sobre ser essa variável uma incógnita:
  1. Não acho que é tão incógnita, pra muita gente. 
  2. A gente experimenta o "ser doutor" de várias formas bizarras, na universidade. Aulas práticas, argüições, perguntas de familiares. Por que a visita não pode ser uma forma de experimentar o "ser doutor" sob uma ótica diferente? Sem tanta pressão, sem tanto stress... com sorriso, pra variar? Fazer sorrir não é cuidado? Conversar não é cuidado? Ouvir não é cuidado? Por que seriam privilégios só do palhaço? É bom que a gente experimente o Y como doutores, também. Ainda que a gente não saiba o que é isso. Porque é pra isso que o Y existe, não é? Pra formar doutores mais humanos. Não dá pra achar que isso um dia vai vir como resultado de equação. Doutor é construção, não um fenômeno que vai acontecer, eventualmente. O Y também é uma forma de experimentar ser doutor. E de construir essa ideia. Construir o ideal de doutor que eu quero ser. Por isso acho que não dá pra excluir. Não faz sentido ser só palhaço pra mim. É Doutor Caju. Sempre foi Doutor Caju. Mesmo quando eu queria desistir da medicina. Mesmo agora que eu cada vez mais percebo que não sei ser médico. Tô triste que esse papo tá só entre nós dois. Renderia tanto!                        

Allan: Acho que é os dois: Construção e Acontecimento. Não creio que esse diálogo vá dar em algum lugar, porque defendemos duas faces da verdade. O interessante da sua proposta é o que qualquer sistema de ensino médico preconiza: formar o ideal do médico para quando houver o choque da realidade ver se surge uma síntese mais sã. O problema também é da minha história. Sou extremamente ingrato com a universidade, por tudo que ela destruiu em mim. Ainda não elaborei direito a noite que ela representou. Por isso tendo a dizer: o doutor que temos em mente na faculdade é uma incógnita (querendo dizer: é um nada). Vou copiar isso aqui, trabalhar e transformar numa postagem.  
                      
Mayko: A faculdade não foi doce pra mim, também (risos). Melhorou faz pouco tempo, e continua ruim. Mas, não acho que não é desse ponto que a gente tem que partir, apesar de historicamente o Y ser um ninho de desajustados. Eu gosto de experimentar ser médico, mesmo sendo ignorante. Por isso que gosto de ir pro estágio. Por isso que gosto de aula prática. Por isso que gosto de ir pro hospital. Sabe porque eu defendo muito isso? Porque a visão de que o médico vai acontecer quando a gente se formar parte do ponto que antes da faculdade a gente tinha uma vocação. A faculdade destruiu essa vocação. E aí vamos nos reencontrar com ela quando nos formarmos. Sendo que o ideal é a vocação não morrer na faculdade. Tu nunca achou que tinha vocação pra médico. Talvez estivesse aí o erro. 
                        
Allan: Parece então que sua vontade de ser doutor é infinitamente mais suficiente para dar força a algum conceito do que foi a minha. Olhando para trás fico me perguntando o que foi aquilo. Lembro-me das pessoas que amei e amigos, e quase nada da medicina. Eu fiz dessa estrofe da música "Carrossel do Destino" a síntese da minha faculdade ao final de tudo:  


   Deixo os versos que escrevi 
As cantigas que cantei
5 ou 6 coisas que eu sei
E 1 milhão que eu esqueci

Deixo este mundo daqui
Selva com lei de cassino
Pra renascer num menino
      Num país além do mar!      
                  
Mayko: Morto, que bonito, mah! Me contempla, um pouco (risos). Mas, eu voltei a ver vontade de ser médico em mim. Inclusive já te disse que tu foi importante nisso. Desde de lá do quinto semestre. E agora de novo. Mas, a faculdade ainda é estranha e ruim, mesmo. Não deixar a vocação morrer é importante justamente por isso. 
                       
Allan: Eu tinha uma vontade de ser o que a faculdade não me mostrou. Na minha cabeça tinha o Ser, e na faculdade, veio o Não-Ser.      
                  
Mayko: E quando digo vocação é mais "vontade". Porque vocação sugere "capacidade de ser aquilo". E falar sobre ser capaz é pesado (risos). 

Allan: O pior é que, ao meu redor, as pessoas pareciam bem mais encontradas que eu. Fora raros habitantes que encontrei vagando na minha ilha. Minha primeira namorada na faculdade era quase igual a mim. Estava ilhado por pessoas que conseguiam nadar na correnteza. Eu me entregava aos vórtices. Experimentava a água salgada enchendo os pulmões. Salgava os olhos, e chorei uma vez - uma vez.  
                      
Mayko: Risos. Meus dois melhores amigos - praticamente únicos - na sala nova desde que eu voltei do Ciência Sem Fronteiras (CsF) são dois gênios muito bem resolvidos. E que, inclusive, tem, de vez em quando, discurso de que seu desempenho nas provas reflete o profissional que você vai ser. Imagina como é difícil ficar com eles dois 😅.
              
Allan: Reflete de fato. Menos em termos de excelência do que de caminhos. As provas da faculdade são o salvo-conduto para aquela medicina que eles definem, para aquele tipo de médico que eles definem. Se a medicina é uma construção histórica das respostas que nós humanos demos de dar para o sofrimento humano, a experiência de ser médico é simplesmente infinita. Veja o espectro da luz, vemos as cores que os olhos podem ver e ponto.             
           
Mayko: Eu não acho que reflete tanto. Mas sei lá, né? Ainda assim é ruim ouvir isso dos seus amigos. Até porque às vezes eles mal estudam e ainda assim tiram nota maior que eu (risos). Mas, essa conversa desandou, falar de nota não é interessante.
                        
Allan: Então a postagem acaba aqui, senão fica muito grande.