quarta-feira, 8 de julho de 2015

Ser Polvo...

Ser polvo, ter poros, agir em sinceridade.




Mas, tudo isso? Atenção no espaço, no outro com quem jogo, nos outros da plateia com quem posso também jogar, em mim, no jogo, no tempo, nos objetos, no Toinho passando atrás de mim, no “feeling”... Mas, TUDO isso??

E ainda há aqueles que perguntam se não temos nada o que fazer. Meu amigo, se você também se dispusesse a vestir essa menor máscara do mundo comigo, acredite, você não estaria se esforçando em fazer o nada, mas sim fazendo tudo.

E é difícil. Sim, é muito difícil. Cansa, amassa a gente, empurra-nos pra nós mesmos como se estivéssemos dentro de uma bolha que encolhe cada vez mais. Às vezes aperta de um jeito forte, asfixiante, que chega a não caber partes da gente em nós mesmos. Então a gente cospe, a gente deixa escapar certas coisas. A questão é que esse deixar escapar também pode doer, e é também difícil.

É por isso que sempre ouvi, e vou sempre dizer. Palhaço é também destruição. Calma, calma, calma. É destruir-se de forma respeitosa, no seu tempo. Você toma as rédeas dessa destruição, se assim permitir destruir-se respeitosamente, e assim, romper a barreira da bolha que encolhe. Após isso, brincar com aquilo mesmo que tanto me encolhia, reprimia, e até sentir saudade depois de dar um adeus. De novo, não é fácil.

Mas para que haja essa destruição, é preciso ter algo antes construído... sim? Sim, e já há. Vocês, cada um de vocês, Preta, Rafa, Sarah, Vermelha, Ju, Azul, Jucá, Cantal, Lara, Laís, Miná, Af, Mayko, Sebbe, Vanildo, Renan, já têm algo muito bonito em vocês. Nós temos a coragem. A coragem grande de assumir que temos medos. Que sentimos desconforto, que sentimos dúvidas sufocantes, assumimos, enfim, que sentimos.

E é nesse movimento de sinceridade que se inicia uma aproximação consigo. Ser polvo é ter muitas mãos para alcançar tudo no espaço, eu, o outro, o som de catarro escarrado no banheiro, o homem da portaria passando 1m por trás de mim. Tudo isso, ao mesmo tempo agora.

E conseguir assim ser polvo, é estar vazio, com vazios a serem sempre preenchidos, poros que dizem sim ao jogo do outro, que não desistem do jogo, que fazem com que sejamos, nós mesmos, na frente de muitos, ou mesmo de um público formado por uma só criança – o que já é muito para o palhaço, é sinônimo de casa cheia para o espetáculo.

Sendo nós mesmos, agimos na sinceridade, sentimentos sinceramente, mostramos com sinceridade. E não é fácil sermos sincero com um público. Mas o início de tudo isso é sermos sinceros com nós mesmos. Palhaço não é só destruição. Ser palhaço é ter coragem, é se conectar ao espaço e aos outros. Ser palhaço é perceber os detalhes, sentir de forma atenta, intensa. Mas palhaço é, especialmente, aceitação.

Aceitem a angústia que sentem, o medo, a vergonha. Sintam.

E sim, vocês nasceram para isso.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Sobre o cansaço

       De todos os jogos de palhaço que a gente costuma fazer nas ofycynas, acho que o que eu sempre gostei mais foi o de ocupar os espaços, sabe? Não sei, tem alguma coisa de diferente nele que mexe diferente comigo. Hoje, nos colocamos a andar até a exaustão. E que sentimento maravilhoso, esse de exaustão. "Eu me senti exausta, porque eu me entreguei muito, sabe?" Ah!! Que sentimento maravilhoso, esse da exaustão! Da entrega! E entrega ao quê? Ao movimento, à dança, à infinitude do outro, aos infinitos olhares e bom-dias silenciosos, à infinita sala que vai do totó à coluna -respondem com seus pés, olhos, ombros, trejeitos e, por fim, suas bocas. Entrega. Outro sentimento maravilhoso!

     Suam, ofegam, se deitam no chão. Feito velhas meninas com insônia por ter tomado um remédio para suas quase-pneumonias , tendo dormido nem duas horas direito, protestam contra o início do movimento num instante, e no outro, dançam em seus próprios ritmos, sem vergonha quaisquer, pra maior plateia do mundo que os ovaciona enquanto eles fazem seus grand finales (que não necessariamente precisavam ser grand) no minúsculo espaço entre os braços, danças e a coluna o totó e um esbarrão do coleguinha. A sala transpira com eles. Escorrego no seu suor. Ou isso é o mijo do beto?

   A gente ta sempre no espaço, sabe? E nem sempre a gente percebe. Nem sempre a gente percebe que a gente anda. Nem sempre a gente percebe que "caralho, a minha mão fica desse jeito quando eu ando?". Nem sempre a gente percebe o quanto é difícil se equilibrar pra andar. Nem sempre a gente percebe o quão forte bate o coração da gente no nosso peito. Nem sempre a gente percebe quanto é estranho cair. Nem sempre a gente percebe como cair demanda extremo esforço. Respirar demanda extremo esforço. Sentir demanda extremíssimo esforço. Esforço. Força! Exaustão.

   Mas não sei, direito... ao mesmo tempo que o suor pinga do meu nariz e escorre da minha bochecha,  num movimento tão involuntário quanto essa transpiração alguma coisa puxa minhas comissuras labiais (óia o atlas de anatomia!) pra cima num sorriso meio pueril. E eu fico lá, sorrindo que nem imbecil, morto de cansado, transpirando, ofegando, fedendo, nojento véi, com o suor escorrendo pra dentro da boca... suor salgado. Feito água do mar... Ressaca... não, não as ressacas do Cantal. Ressaca de mar mesmo. Aquela força que arrasta, toma pra ela, que faz barulho quando esbarra na orla... Nem sei se faz sentido direito, mas fico com essa imagem na cabeça. É uma força grotesca, que se impõe e chega e pronto! feito o cansaço que a gente sente; Mas também é uma sensação que da um tipo estranho de paz, que nem quando você escuta o barulho das ondas batendo nas pedras do estoril e a água salgada respinga no seu rosto, feito o contentamento que eu sinto depois de dançar e andar e rodar e cair.

  Depois de dançar, parece que o mundo fica mais leve, sabe? Sapatilhas se parecem mais com orelhas de coelho, chapéis se parecem mais com discos voadores e um panda de pelúcia tentando segurar uma caneta... bem, acho que isso sempre vai parecer ridiculamente engraçado. Mas fiquei pensando em como o peso dos nossos corpos exaustos não impediam a leveza da nossas mentes de nos fazer dançar pelas graças e não graças (hilárias) uns dos outros. Não nos impediam de refletir e ser reflexo das emoções uns dos outros. Não nos impediam de rir do nosso próprio ridículo e do nosso próprio fracasso, e mesmo do ridículo e do fracasso do outro. Do mesmo jeito que o nível dois não nos impedia de ocupar completamente o absurdamente gigante espaço em que só cabe euzinho, ou que andar no nível menos três não impede nossos corpos de se esbarrarem uns nos outros.

     No fim... talvez, o que me deixe mais envolvido pela dinâmica de ocupar espaços vazios é o fato de que sempre vai haver espaços vazios, por mais que a gente esteja ocupando todos os espaços. Do mesmo jeito contraditório que há tanta, tanta leveza em tão exaustos corpos.


Tchuuuuuááá faz a onda do mar, batendo na pedra da praia.
Durmo ouvindo o mar e com gosto de sal ainda na boca, durante toda a aula da tarde.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Nova carta para Ana

Essa carta é pra te agradecer, Ana. A sua presença. 

Te insultei tantas vezes, e você voltou. É porque sabia que o insulto era apenas mais um elemento da nossa relação. Nem sei se sabia ao certo disso. Talvez você seja a boba mesmo que suponho e estes insultos apenas passem por você. 

Só em saber que desde aquele dia em que conversamos sobre os seus medos, você não desistiu de visitar e chegou de novo aqui para voltarmos a nos falar. O medo não passa, não é? E diante de tantos pensadores procurando o que é definitivo no homem e falando de tantas virtudes, pergunto-me se não é o medo que, em verdade, nos define. Ele aponta a nossa fragilidade de existir quase não existindo e nos ridiculariza na frente de toda a platéia. O palhaço olha todo tempo para a platéia a fim de averiguar se não está dando uma de bobo, e é nisso que ele é bobo. Mas, sabe o que acho? É nisso que ele é belo, porque desnudo e corajoso para não deixar de viver isso: o que o amedronta. 

Você não deixou de viver o que lhe propus. Quando pergunto se se encontrou, responde: médio. E não é exatamente no meio que eu pedi para você sempre estar? No meio da ponte, passando, sem chegar, e o mundo, no seu meio, no seu seio. Mas, você não faz isso por alguma razão, não é? Apenas faz, e deixa passar. 

Deixe-me lhe dizer um segredo anatômico. Sabe porque o coração é um pouco desviado, em algumas pessoas para esquerda, a maioria, em outras, para a direita? É porque no meio do peito o mundo passa, e Deus afastou um pouco o coração para que fosse apenas roçado pelo mundo e não explodido por ele. Roçado, então, o mundo mancha o coração, traz impurezas, as de todas as emoções, leva a vida, até a última gota. É então quando a gente se esgota e o coração pára. Pára? Não, Ana. O coração não pára. Eis o nosso erro. Achar que o coração são aquelas quatro câmaras. O coração passa pelo repouso e segue com o mundo na cauda de seu fluir. 

Olha esse ar que passa entre os dentes das crianças. De tanto gargalhar pode perceber que boa parte delas tem os dentes erodidos ou afastados. É o mesmo princípio. Os olhos sempre úmidos, de chorar. São as duas forças que brigam dentro e fora de nós: o mundo e o coração. Até que aprendamos a deixar passar, acontecer e se entregar. 

É difícil, Ana. Mas, que bom que você voltou para eu te insultar. É quando, então, a lágrima escorre e posso garimpar as histórias que o rio trouxe lá da montanha onde te deixei.

Veja o que aconteceu conosco naquele tempo. Parece mais lógico ao chegar aqui embaixo de novo, não é? Não é lógico, Ana. É novo. 

sábado, 4 de julho de 2015

São tempos de crise

Acho que estou em crise, na verdade, pra variar, estou confusa. Bem-vinda ao Y. Quando comecei o curso de psicologia ouvi inúmeras vezes que eu entraria em crise em algum ponto do curso, naquelas crises de existência que parece que o pessoal aumenta só pra piorar o frio na barriga de ser caloura, "mas essa crise vem lá pro quinto semestre só, relaxa". Relaxa. Dessa última vez foi meu aviso pra mim mesma quando disseram "BRAGATUKI" - tradução: fecha os olhos e passa pela corda -. Não quero, não quero, não quero. Fechei e fui. Hoje, meu alívio de ficar de olhos abertos deu espaço pra uma crise: preciso fechar os olhos mais vezes. Achei que a crise viria no meio das mil psicologias que existem e ela veio no meio da área de saúde, com suas medicinas e odontologias, com os músculos que eu não faço ideia dos nomes, mas na brincadeira eu decidi ser a médica, logo, esse músculo virou osso (e, sério, ainda não sei falar o nome daquilo). Quando a cidade acorda pra se mexer da forma que tiver vontade, pra pular tentando encontrar sintonia, não ser líder nem seguidor, que tal sermos um só. Deparamos-nos com o soumos. É necessário olhar nos olhos, mas também é necessário fechar os olhos e "valha, eu fui de olho fechado mesmo". Risos. O que causou esse riso? Discorra sobre. Foi a quebra de expectativa... Ops... O inesperado... Não, pera... Foi o ponto do soumos, talvez. Foi o curtir do meu eu, com o que me pertence e aquilo que não me pertence e que também sou eu, e o curtir do nós, que nos faz humanos e conectados. Mas conectados em que frequência? Talvez todos de uma vez, talvez de dois em dois ou três ou mais... Ir por sentir que a outra pessoa vai andar, por supor que o outro vai, por esperar que alguém siga, por uma força que nos empurra, por algo que enche e depois de cheio damos o primeiro passo ou pela minha simples vontade de ir. Tem coisa que é difícil de explicar. Parece um discurso meio louco? Juro que não veio de um estudante do CH! Temos todos o direito e a beleza de "viajar" e acrescentar ao outro. Inclusive acrescentar uma venda metafórica e totalmente voluntária nos olhos, se for pra fazer sentir mais esse soumos (sou+somos).

Conversa de Bêbado

Chegamos bêbados de ontem.

Feito gari, venho nessa sina de polir os cristais que são esses novos vizynhos, recolher a sujeira dos sentidos, ofertá-los a certa deusa a quem prestamos culto, que paira feito lua sobre nós, e em sua maviosa narração nos encanta, nos dá vida e nos mata da forma mais cruel, sorvendo o vinho de nossas veias, jogando-nos - co(r)pos cristais - no círculo de tudo para ressurgir mais ali, e assim em diante, até que o palhaço se insurja.

Nas espirais de sua dança, cuja perna em forma de dragão corta os ares em suas diversas esferas, experienciamos a loucura de amar a três, a doçura de amar as três. Já quisemos viver o amor tranquilo de uma família esperada, mas que não vingou, porque o desespero das vontades borbulha mais que essa cerveja louca distribuída nessas bodegas velhas. 

Por falar em velha. Já prestaram atenção o quanto de cachaça escorre pelos olhos daquela senhora que só ama aos gatos? Fixem em sua neta, tenham piedade da professorinha da neta, e lembrem da prostituta que entregou sua filha aos gatos, virou a neta. Quantas histórias assim não encontro aterradas nas sacolas que dormem na frente das casas!

Falei sobre o quanto nos embriagamos. E o quanto da sepultura do nosso eu cotidiano desabrocha, rasgando a pedra de nossos papéis sociais, em um todo tão contínuo que mais parece que somos um - soumos.

Talvez não me entendam. Antes de ontem dormi homem, despertei mulher, hoje sou...mos. Quase nesse instante, criança, e agora torno a ser...mos.

Pelo lixo das pessoas, nestes últimos dez anos, fui catando histórias, e encontrando vida. Sujo e fedorento da experiência de oito gerações, já me deram uma filha que mal gosta de mim. O nome dela é Prisão, que vive em disputa com a Liberdade, filha concebida em meu ventre pela alquimia dos ventos.

A velha e seus gatos, lá imaginava que seria uma presença insistente ao redor de nós. E não é que olhá-la me deixa mais calmo. Acho que são seus pêlos.

Deixe-me lhes contar mais algo enquanto derramo mais essa dose de palavras. É sobre os cristais: percebi que alguns, quando os pulo demais - serão delírios? - vejo o Cristo. Alguns cristais, polidos demais, o Cristo. É coisa bonita de se ver. É de onde menos se espera a salvação: da chata do telefone que já ouviu de todos um pouco. Deveria conversar mais com ela. Tem um pouco de mim. Vai se infectando dos dejetos verbais de todos da cidade, e ainda assim não quer a morte deles. 

Não é só nela que vi isso. Vários cristãos já habitaram por estas casas. Alguém ouve seus passos? Andam leves, bailarinos. 

Bem diverso de mim. Gordo, barbudo, gari. Não me ressinto dessa profissão. Mesmo em outras vilas, meu ofício é de recolher vísceras, insinerar males. Já quis ser padre um dia. Não para queimar pecadores, combater devassidão. Para espalhar amor e união. Terminei pai-lhaço, espanando gerações. Zelando corações.

Ao final, quis falar alguma coisa, no concílio das gentes. Como disse o oráculo, uma energia estranha nos circundava. Não era de morte, como pensávamos, era de sobre-vida, vida que volvia sobre a outra, de tal forma que o que eu queria falar se havia escapulido da boca da puta forasteira. Uma fala simples, um convite breve:

- Guarda esse sentimento, gata! Tudo isso você vai ver na visita.

A criança era a assassina. Quase ninguém desconfiou. Como poderia a inocência...? Tolos! Não são exatamente elas que nos vêm matando estes anos todos? E, nascer de novo. 


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Milagre

   Não queria tá escrevendo como foi ontem pra mim, mas é que acho que fosse mandar áudio ia ser bem mais fácil. Por isso, cá estou, escrevendo como eu não queria tá escrevendo, médio com preguiça. EU JÁ PEGUEI ESSE NEGÓCIO DE “MÉDIO” TAMBÉM??? Merda... Tudo por causa de linguagem. Tudo por causa de um corpo Vanildo que insiste em pensar, em se expressar, médio. E é importante que se insista, o “pensar corpo” é necessário e fala muito. Linguagem corporal ou mímica? Não sei, e também não sei até que ponto é importante diferenciar. O que é incrível e necessário são comunicações, pontes, encontros, onde se encontrar é mais do que buscar entender. Encontrar-se todo, presente, já é entender. O entender-se apenas vem, vestido de milagre, numa ponte em que eu entendo que Sherlock Holmes agora usa binóculos e que banana = minions. Como diz um gordinho barbudo, isso tudo é “milagre”, é ser possível se comunicar, entender. Se comunicar com uma segurada forte de mão em uma conexão de choques. Se comunicar com duas pombas brancas, que eram uma só, únicas no mundo, todo dia indo ao nosso encontro. Se comunicar com uma criança que se esconde, e se aproxima, e corre, e tem medo, e ri, e chora, sente. E é criança. Brinca.

    O dia de ontem me fez lembrar hoje de uma dança, dança de uma conversa incrível. Tem grito, tem pedido de socorro, tem desculpas, tem adeus, tudo muito alto e intenso, sem nenhuma palavra dita sequer.

Sobre expectativas

Pense num baita dum conselho idiota!!!
"Não crie expectativas!"
Como assim não criar expectativas? Não é exatamente algo que a gente controle. É só um negócinho que ta lá, na caixola, morto de expectativa para que algo o tire desse estado expectante e bote-o a funcionar, criando expectativas na gente, que nunca está esperando esse negócinho chegar, mas sempre tem a companhia dele quando algo (não) tá pra acontecer...ou talvez a gente esteja sempre esperando alguma coisa, e só perceba as vezes...ou talvez ainda...

"É o que Mayko? Ta viajando igual o Allan é?"

Sei lá! Mas me incubiram da tarefa de co-coordenar a ofycyna hoje, assim do nada, no meio de uma atípica prova que eu fazia nas férias. E enquanto a expectativa de férias felizes falecia junto com todos os vários percentos dos corações que tem reação imunológica pós transplante (eu devia saber esse percentual pra prova), nascia a gigante expectativa diante da responsabilidade recém entregue de substituir o Allan.

E... bem, talvez quebrar essa expectativa não gere graça nenhuma.

Mas  talvez, como diz o Canjal "a gente tem que se tacar mesmo". E se tacando entre James Bond e Caça Fantasmas, Assaltantes de Geladeira ou Matadores de Aula, Minios e Velas de Giz de Cera a gente sorri e se empolga e comemora cada vitória e se frustra a cada derrota e se arrasta no chão, e pula, e faz barulho de máquina-porco-de-lavar e até esquece o que é que tava esperando. A expectativa meio que fica em segundo plano. E com a pretensão de quem não precisa dizer nada, o jogo de mimica rendeu assunto pra uma tarde toda.

Joga o adulto que é capaz de, como adulto que é, ver a simbologia por trás do jogo como nunca tinha visto até ser o adulto que se tornou  - "e apesar de bom isso pode ser perigoso!", alerta um deles. Mas "lá, na hora," diz a menina de cabelo azul, "eu não to nem pensando em significado com cabeça de adulto nenhum não, eu tô é brincando que nem quando criança". E vão se amolecendo as cordas, tão duras de pular, do primeiro dia.

E eu, que até a hora da ofycyna estava tão cheio de expectativas a cumprir e expectativas a não frustrar acabei me divertindo, também, quando a hora chegou. E eu nem sei se as expectativas foram quebradas ou só esquecidas, só sei que a graça tava lá, na leveza daquela roda com eles, ouvindo eles falarem sobre o corpo, as sensações e como eles se conectaram entre si. E eu sorria, pensando em como eles estavam me capacitando e como eu aprendia com eles. Sorria vendo novas cores surgirem na tela de suas falas. Sorria ao ver os corpos se atiçando pra falar. E sorria principalmente em vê-los sorrirem ao descobrir juntos sentidos maiores pra tudo aquilo que eles estavam vivendo, passando e construindo.

E se o sentido que eles descobriam era certo ou errado? Pouco importa.
Importam antes os sorrisos! Até porque eu não tinha ideia da resposta!

E feito suor das mãos que se apertavam num fluxo confuso e sem jeito, as expectativas escorreram de mim e eu pude brincar e sorrir com todos eles, mais leve. E, no fim, talvez o conselho não seja sobre criar expectativas ou não, mas sobre não esquecer de viver a leveza, por conta delas.

E se por acaso a gente ria junto por efeito do já esperado "inesperado", ou pela quebra da expectativa (perdoem o pleonasmo, vocês não esperavam por isso!) ou ainda pela piada sem graça e mal contada que alguém achou que devia contar, eu já nem lembro mais.
"Mas tem graça!!" enfatiza a Ruivinha.

"Graça... que palavra bonita" eu pensei!
-TEM TANTO!