quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Dez anos



É um tanto obrigação para mim falar sobre o que foi nossa noite de dez anos. Não porque tenham me obrigado, mas é que necessito. 

Não vê? Já se foram dez anos. Recentemente descobri que é o mesmo intervalo de tempo que me separa da última geração. Minha coluna dói na cervical e na lombar. Acordo todos os dias feito boneco de cera, e o sol vai me amolecendo. Meu joelho está com a cartilagem fissurada porque o espírito não aceita que tenhamos envelhecido, e insiste em nos fazer dançar ao máximo. É daqui que olho para este tempo passando e vejo a magreza que eu não achava que tinha e os amigos que eu não fazia ideia que eram tantos. 

O projeto Y é um pedaço muito pequeno do mundo. Em uma matemática leviana, podemos contar cerca de nove gerações idas, cada qual com cerca de dez a quinze integrantes, fazendo, então, algo em torno de cem peregrinos. Foi isso que ele sempre foi para todos: uma ponte. 

Nunca vou me esquecer da cena da minha infância em que brincava de bicicleta com meu primo em cima da ponte que levava para... não sei onde. Não sei para onde a ponte levava porque sempre brincávamos na ponte. Em certo momentos parávamos e íamos mijar no lago sob ela. Não havia tempo de voltar para casa. Perderíamos brincadeira. Perderíamos por quê? Não fazíamos ideia o que nos esperava adiante. Eram as meninas que namoraríamos, os estudos que se aprofundariam, a faculdade, as doenças de nossas mães, o casamento, os filhos. E, todavia, a ponte continuava ali, em nós.

Por ela, passou gente que eu mal fazia ideia do quanto eu amaria. Recentemente fiz um trabalho sobre o projeto Y, e as entrevistas foram reencontros. Outra coisa é que saímos de nós. Os que estiveram na frente daquela noite decidiram homenagear estes outros que encontramos. Encontramos outros palhaços mundo a fora que comungavam do que sentíamos.  Sabe qual o sentido de comunhão, né? É um bolo que se reparte e não se acaba, porque não é divisão, é partilha. 

Como dizia, este projeto é um pedaço pequeno. Vivemos dizendo que a ideia é conquistar o mundo que nos acolhe, mas todos nós, no fundo, sabemos que isso é balela. O bonito daquela festa não foi ver o quanto conseguimos nos proliferar, mas o quanto conseguimos nos unir, verdadeiramente. Reconhecer nos outros o que nós fomos, somos, seremos, queremos. Parar um pouco para mijar ali, que não havia tempo de voltar para casa. Não dava mais para voltar para casa. Não a mesma casa. Não o mesmo eu. 

Allan Denizard (Dr. Acerola)

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Se o sono pós uma visita é bom, imagine DUAS! *.*

Eita que hoje foi o aniversário do Caps!
Mais um desafio gostoso pela frente.
Andar na rua já foi difícil, quem dirá chegar lá no meio da festa do Caps.
Já fui perguntando por ele com minhas amigas.
- Cadê o Caps? Ele é alto? Baixo? Moreno? Negro? Loiro? Ruivo?
- Tá solteiro?
- Nãooo! E as pessoas riam de nós
- O Caps é onde você está!
- Ah ele trabalha aqui?
- Ér..Ele faz a gente viver!
- Ele nos dá coragem, amor, apoio!
- O Caps é tudo isso! (Erguendo o braços e rodeando-os, mostrando o local).

E meu coração se derreteu. Não deu para continuar na onda de que o Caps era uma pessoa. Nos apresentamos e, a partir daí; com um músico na festa, resolvemos cantar parabéns a esse núcleo tão maravilhoso que cuida de pessoas que também precisam de cuidado e amor!
Aliás, quem não precisa, né?!

E em meio a bolos, refrigerantes, íamos nos apresentando: Sardynha, Felycia e Crystalina. As pessoas também se apresentavam e tiravam fotos e mais fotos. Mais um dia de artista!
Cantávamos, dançávamos com pessoas maravilhosas com olhos e atitudes de criança.
Brilhavam!
Só não saíam correndo conosco, porém entrar no jogo eram com elas mesmo.
Uma mulher me chamou em alto e bom som: "VACA"...
Oi?
Comecei a mugir...
Depois descobri que ela gostava de vaca! Sim, o animal!
Carregava consigo um chaveiro de vaquinha e não parava de apertar a vaca que levamos para a festa! Ufa, se ela me chamou de "VACA" é porque gostou de mim. E assim foi me mostrando seu modelito para a festa. Estava com um vestido que não era preto, nem branco como as típicas vacas, mas era muito bonito! Combinava com o azul do sapato e sua bolsa escura.
Tinha outra mocinha que só queria saber de abraçar. Dei muitos comprymidos a ela como devia de ser!
Outra que tinha se apresentado na festa. Estava de branco, com inúmeros colares e dançou feito baiana. Infelizmente, não chegamos a tempo, mas depois nos bastidores conversamos, Ela também dança Shakira! Já ganhei uma amiga artista!
E mais uma! Essa cantou!
Me arrepiei todinha:

"Esta jovem quer votar,
mas não lhe deram direito
por que aqui tem pessoas
que tem muito preconceito
e disseram para ela,
não nos entenda mal,
mas você não vai poder
por ser doente mental.

A jovem ficou calada
não queria responder
mas em seguida falou
escute o que vou dizer
eu hoje estou feliz,
tô alegre pra xuxu
Você disse que sou doida
e eu respondo doido é tu!

Não devemos baixar a cabeça
diante dos preconceitos
o que temos que fazer
é procurar nossos direitos!"

Ééé...Isso bateu no âmago e lá ficou! Nossa! E mais que cantar foi ela que compôs. Foi lindo de se ver! Fiquei pensando nos moribundos, naqueles esquecidos, marginalizados pela sociedade.
São seres que também precisam de amor e atenção. Seres que precisam dos seus dias transformados, resignificados, com apoio redobrado!
Acho que deixamos o Caps feliz!
E ele também nos deixou!
Feliz e com gostinho de quero mais...

Falando em mais!
Lá fomos pro HU ver nossas crianças! Estávamos prontas para labutar, por quê não chegar lá!
Já estava Aurora, Florêncio, Sem nome e ainda tivemos sorte de pegar a Spyvitada correndo pelo corredor da Ped.
Eita que era palhaço!
Eita que era criança!
Crianças felizes, correndo pra lá e pra cá! Florêncio caía no chão, levantava, corria. Cansei só de olhar haha. Sardynha gostou de mergulhar nessa brincadeira. O chão eram suas águas, e os meninos peixinhos também. Sem nome tava com seu violão alegrando a ala dos meninos junto com Aurora.
Eu e Felycia não queríamos atrapalhar, então lá fomos ver as meninas.
Raquel e Stefane estavam deitadinhas, então Eu e Felycia resolvemos sentar (estávamos cansadas da festa), mas ai fiquei falando com a Stefanie, de como seus olhos tinham ficado verde de tanto comer alface, de suas meias brancas que pareciam de líder de torcida segundo a doutora Aurora!
Papo vai, papo vem, surgiu um broto de gente de 2 anos impressionado com meu nariz vermelho e se punha a rir quando tocava nele e eu espirrava. Era besta, porém gostoso.
Já que era uma ruma de palhaço, fui ver a Stefanie novamente, e ela insistiu para que me mostrasse sua cirurgia, mas ela estava imobilizada e o esforço seria grande. Parei e disse, que isso menina, vai pegar friagem! Ela riu e parou. E depois de uma distração minha de alguns minutos, ela me chamou!
- PALHAÇA, PALHAÇA! Acabei de receber alta!
- Que legal, vc vai poder ser líder de torcida!!! Eu do um A, eu dou um D, eu dou um EUS! Adeus! Quero ver mais esses olhos verdes por aqui não...
Ela ria e reclamava de dor..."Eu não posso rir"...
E eu ah, desculpa. Essa doutora palhaça que nem respeita as condições dos seus pacientes...
Fiquei foi feliz oh, de poder presenciar essa cena!

O dia foi bem cansativo e muito prazeroso...Nada melhor do que o sono pós DUAS visitas! *.*
A vida segue...! :O)

Abaixo está o áudio da dona Graça que nos permitiu que postássemos sua obra de arte e sua cara no mundo rs...

 
29/09  
                                                                                                                   Crystalina.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Era tudo estratégia...

Nem tudo era estratégia
Está feliz; visite, está mal; visite.
Na dúvida; visite!
Em uma longa seca literária/ artística eu teci um casulo e lá fiquei. Minhas asas amassadas proclamando voo à medida que minha mente pedia descanso.
E em uma longa seca, precisava agir. Já estava descansada, eu só precisava romper a carcaça... Me munir de pessoas especiais, pessoas que me inspiram para voltar a visitar. E na necessidade disso, criei expectativas e mais do que isso, queria ser apenas espectadora daquelas palhaças. Só queria apreciar o espetáculo e aprender cada olhar. Nas outras visitas eu pensava o que dizer, o que jogar, como ser, como agir...Meu Deus, as dúvidas me levavam para um mar de questionamentos e de lá eu não saía e lá eu não era eu.
Aquela salinha tomou outra energia ao som de Novos Baianos. Aquelas paredes azuis davam risadas conosco, aquela miscelânea entre jovens e velhos, aquele carinho e ao mesmo tempo zoeira com o próximo era possível, tudo possível. 
Você é palhaço desde o momento que começa a se arrumar. Uma carga necessária vai aumentando para suportar tudo vem pela frente. Parece um termômetro recebendo desafios, estes eternos que temos que enfrentar. Depois de prontas, vieram uma chuva de bombons, melhor, um chafariz destes vindos depois de um apenas "bom dia"! Já ganhei minha manhã. Lá embaixo, ganhei um cházin para me acalmar e guardei o copo para mais tarde de tão bom que estava. Risadinha e Amylícia cumprimentavam todos e já íam brincando com o segurança, com as outras pessoas. Entrei na onda e apresentava a Criytalina, que brilha como um cristal. Ao entrar no hospital não foi diferente. As pessoas olhavam para nós com o olhar receptivo, era fácil se entrosar. Elas ansiavam por um carinho, uma fala, uma olhar sequer. E brincadeira aqui, brincadeira acolá, aquele hospital ia se tornando minha casa. Uma vontade de sentar naquelas cadeiras, ou deitar naquele chão ouvindo as histórias alheias em consonância com o momento. Era fácil, muito fácil.
E nos meios das minhas histórias boladas em que eu poderia ser quem eu quisesse, as pessoas também entravam no jogo, a ponto de eu mesma acreditar no enredo. Eu jurei em um dos momentos que dona Bernadete ia tirar seu nariz vermelho da bolsa e me acompanhar, mas era apenas seu celular tocando, rompendo aquela história com minhas risadas de realidade.
Era gostoso ouvir de um senhor que realizou um transplante de fígado, que tinha ganhado o dia só de falar conosco. E subindo devagarinho por conta de uma entorse quase curada, o ato tomou graça e importância. As pessoas com roupas verdes de hospital eram alfaces, os médicos eram nossos colegas de profissão que também entravam na onda, aliás uns sim outros não. Ali e acolá estávamos brincando, tirando fotos com figuras representáveis como o Einstein, com danças desengonçadas em meio a um tambor divertido de madeira.
E na rampa resolvi falar. Gente, meu coração está doendo. Sai do palhaço e disse: é sério! Já doía desde que entrei no hospital, mas a dor aumentou e não consegui guardar para mim. Eu ria e ele doía mais, sensações vinham, me arrepiavam e essa dor me acompanhava junto. 
Seria sinal de infarto? Gases? Respirava e doía também. Será que meu coração não estava aguentando tudo aquilo? Os sinais emotivos como chorar, arrepiar não faziam mais sentido. Ver a Risadinha ser aclamada e lembrada, era singelo, bonito. As pessoas lembrando dela mesmo depois de um bom tempo sem visitar. Comecei a observar: ela não usava artimanhas, artifícios para conquistar o pessoal e nem criava planos para visitar. Ela era ela! E assim era com a Amylícia (uma fusão de Felícia com o penteado de Amy Winehouse). E minha ficha caiu. Eu não preciso ser ninguém além de mim. O palhaço não é um personagem. Ele nasceu de mim e lá sempre estará. 
E na ida até a pediatria, tomou uma força maior. Brigávamos e brincávamos com o relógio. Ainda deveríamos ver as crianças! E já eram 12:20 e nada de as vermos. O tempo era outro e eram obrigações externas que nos faziam olhar o relógio.
E agora? Se passássemos por aquela corredor da pediatria, não iríamos sair tão cedo de lá.
E agora? 
Risadinha disse: vamos ver os artistas pelo menos. Eu não sabia quem era os artistas, mas disse, tudo bem, vamos lá! 
E lá estávamos andando pelo corredor, aquele da pediatria. Não queria fazer estardalhaços para não ludibriar as crianças, já íamos sair de lá infelizmente. E ao virar numa salinha à direita, lá estava a artista. Era uma senhora vestida de carinho e carência. Uma senhora doce, com mãos talentosas para o artesanato. Era realmente uma artista! Meus olhos brilharam ao ver tantas resignificações. Garrafas de cachaça virando vasos de flores, caixas de remédios se transformando em lindas caixinhas aveludadas e coloridas e outras coisas belas. Olhando para suas mãos, seus braços me chamaram mais atenção. Via ali uma fístula de hemodiálise, e a dor novamente no coração se fez presente. Lembrava ali da minha mãe, que lutou em busca de um rim por 12 anos. Era lindo de lembrar que minha mãe levava vida para o hospital com festas, bolos e salgadinhos, enquanto que a artista recrutava pacientes para fazer artesanato! Que lindo, que lindo de ser ver!
A artista cobrava a falta que Risadinha fazia, enquanto esta explicava seu desaparecimento. E eu disse com todas as palavras e sentimentos, que na ausência de Risadinha, Crystalina se faria presente. Nos despedimos e saímos devagar pelo corredor. Agora entendi o porquê dele ser tão grande. Era preciso nos estabilizar para ver mais e mais pessoas. E pelo hospital vinham mais abraços quentes e libertadores, a cada passo, eram mais fotos e fotos. Agradecimentos e parabéns mesmo nem sendo meu aniversário.
Quase saindo do Hospital , vimos uma senhora chorando. Ali seria um momento ideal para retirar o nariz vermelho e conversarmos de "gente para gente", mas não. Com o nariz em seu lugar, perguntei à senhora se queria um abraço e lá estava eu querendo passar todo meu carinho possível para aquele ser ali, frágil. 
Estava preocupada com seu parceiro, casados à 35 anos que acabava de ir para a mesa de cirurgia. E por conta de um aumento de pressão o procedimento seria dificultado. Tentamos dar força, conversar, distrair. Ela contava sua história. Desde a perda de sua mãe recentemente, até a formação de sua família, de seus quatro filhos e de um netinho lindo. Ela estava relativamente bem quando então recebeu um telefonema, talvez de um parente perguntando de seu marido, e aos prantos falou que só teria ele, que sua mãe já tinha falecido e que ela estava sozinha. 
Depois que desligou eu tive que intervir, afinal sei o que é perder uma mãe e assim como ela se fez presente na visita, ela se fará em todos os momentos da minha vida. Eu disse a ela: Você não está sozinha, Sua mãe está nas suas lembranças, no seu coração, em cada parte do seu corpo. Ela sempre estará com você. Deus lhe dará forças para continuar! 
E depois de afirmações silenciosas, permanecemos assim por um tempo. Recompusemos todas e saímos dali, deixando-a mais calma.
 A vantagem de estar com o pé machucado, foi que as escadas pareciam outro corredor da pediatria, em que eu poderia digerir tudo para continuar.
Com altos e baixos fez-se a manhã/tarde. Meu coração mesmo sendo grande, foi pequeno para tantos sentimentos, saímos dali com gosto de, poxa nem vimos as crianças, mas com certeza foi maravilhoso entrar nesse espaço e mexer com todos aqueles que ainda possuem uma criança dentro de si. 
Foi gostoso entrar na ponte e nunca mais dela sair! E assim sigo com mais gana de visitar e perceber que não preciso ser ninguém além de mim. Dançar até o sol raiar, mostrar como sou, jogar meu corpo no mundo, não desprezar nenhum canto e saber que pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto (e que tanto) <3>



                                                                                                          Dra. Crystalina.


terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Amarelo Escondido no Vermelho


                Tenho que admitir que não foi fácil. Usar um nariz me torna uma dicotomia ambulante, na qual me sinto leve (por poder voar mais alto com meu ser mais imaginativo) e, ao mesmo tempo, pesada (pelas responsabilidades e realidades que ele me trouxe). “Mas é só vestir a roupa de palhaço e visitar criancinhas no hospital, o que tem de tão difícil?”. HAHA.
                Acho que o peso todo vem de um estado de espírito que, devo admitir, não está muito presente em meu ser: engraçado. Todo palhaço é engraçado! Não?! Engraçado... Eu pensava ser assim que a palhaçolândia girava, através da graça, tanto que muito surpresa fiquei a ser selecionada em meio a 46 pares de olhos. Que graça eu tinha, afinal?  “O que essas pessoas enxergaram em mim que eu não encontro ao olhar no espelho?”
                Depois de 40 horas tentando achar a minha graça em uma oficyna, me contaram da primeira visita. Seria a primeira vez com meu nariz recém nascido, o que me deixou nervosa. É engraçado (olha a graça aqui!) como eu fico hiperativa em situações de pressão, o que leva muitos a pensar que estou preparada para a situação... Não! Meu riso solto, ansioso, mascarava meu nervosismo por estar tão próximo de usar a menor máscara do mundo.
                O que eu posso dizer da minha primeira visyta? Médio. Normal. Foi bom. Nada demais. Senti-me estranha, não era pra ter sido o melhor dia da minha vida, o meu nascimento como palhaço? Hoje eu lembro que nem os bebês nascem sorrindo.
                “Não, tudo bem, a próxima vai ser perfeita, agora que eu já sei como esse troço de visyta funciona”. Ops! Dá pra ser pior que médio? Saí pesada do Hospital Universitário depois da minha primeira visyta por lá, a casa do Y. Arranquei nenhum sorriso.  E agora, o que eu faço? Uma pergunta que me fizeram na entrevista do projeto ecoava em minha cabeça: “e se você descobrir que o projeto não é pra você, o que você faria?”. SOCORRO, EU ESTOU ONDE DEVERIA ESTAR?
                A greve veio em boa hora, fugi um pouco das visytas. Só ia para a salynha nas reuniões, para escutar os relatos, que acabavam me deixando mais preocupada, porque todo mundo queria visytar mais e mais, e eu ficava com as memórias de como eu era um péssimo palhaço.
                Peguei-me refletindo em casa, tentando lembrar a resposta da pergunta feita na entrevista. “E se eu  descobrir que o projeto não é pra mim, o que eu faria?”. Nesse momento o celular tocou e era uma pessoa do projeto pedindo para eu cobrir um horário dela na visyta dos velhos. Aceitei porque lembrei a resposta: “eu faria de tudo para enxergar outros lados do projeto y até encontrar um em que me faça feliz, em que me encaixe”. Aquela visyta no domingo à tarde pós meu aniversário era minha busca por outras faces.
                Falando em outras faces, lembrei algo enquanto me vestia na salynha para ir ao hospital: meu nariz é amarelo na face de dentro... Por que nunca o usei assim? Virei-o ao avesso, como virei as memórias ruins ao meu favor. “Quando tento te definir em uma cor, só consigo pensar em amarelo” disse o Dr Marmota nas primeiras semanas da minha faculdade.
                Sol. Naquele dia eu era Sol na pediatria. Iluminei o corredor com as músicas que toquei no violão. Brilhei no The Voice HU, direto do quarto dos meninos. Irradiei amor quando me casei com o Francisco Davi (que está convencido que meu nome é Ana Paula, apesar de ele me chamar de Gabriela). Nasci verdadeiramente ali. Doutora Zói de Bila nasceu naquele dia, como sol nasce de manhã, e até hoje ela ainda não se pôs.
“O essencial é invisível aos olhos”. Invisível como o amarelo, que estava escondido do outro lado do vermelho. Ou como a minha graça, que todo tempo estava no meu eu palhaço.
             
                                                                        Dra Zói de Bila.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Como é difícil ser palhaço

“Como é difícil ser palhaço”, eu dizia para todos os meus amigos enquanto estava na minha capacitação. Desde julho, fui jogada em um mundo novo, no qual o objetivo não era mais alcançar, e, sim, tentar. A ponte do sucesso, que nós, seres humanos, sempre tentamos chegar ao final, não era mais para ser atravessada. Nós deveríamos ficar no meio, nós deveríamos ser a ponte entre dois mundos, ou pelo menos foi isso que entendi depois de tantas incógnitas que foram colocadas na minha cabeça. A vida que eu conhecia não era mais a mesma. Como assim eu teria que pular corda de olhos fechados? E se caísse? Como assim teria que dançar com um lenço de papel? Lenços não dançam! Foi dessa forma que o Y entrou na minha vida, desconstruindo tudo o que eu havia construído.
Depois de muita preparação, chegou a tão temida “Primeira Visita”. Em meio a vários Colegas-Y, todos imersos em uma aura de expectativa e ansiedade , coloquei minha roupinha listrada de branco e vermelho, meu sapato colorido, meu laço enorme na cabeça e, por fim, o nariz rubro (colocado num mar de pancake e tinta). “Voilà”! Tinha me transformado na Doutora Amêndoa. Pelo menos no exterior, porque no interior eu continuava a Amanda que tinha medo de errar, que tinha medo de não ser engraçada o suficiente e que temia não cumprir sua missão, que era ser ponte.
A visita começou meio capenga, comigo quase em desespero, buscando loucamente a ajuda de meus colegas. “Oi, tudo bom com você?”, era o que eu falava para tentar quebrar o gelo, mas nem sempre era o suficiente. Eu via o ambiente mudar, mas porque estava sempre com meus colegas que faziam seu trabalho mais do que satisfatoriamente. Sentia o peso nas minhas costas, a expectativa das pessoas para que eu falasse algo divertido e que fosse levar algum conforto ali naquele meio hospitalar tão cinza. Eu queria fugir, queria tirar a maquiagem e voltar a ser eu mesma, comum e imperceptível. Depois de algum tempo, porém, o jogo começou a virar.
Uma mãe me chamou, junto com a Doutora Crystalina, para animar sua filha. “Por que você está triste?”, nós perguntamos, e ela, com pesar nos olhos, nos respondeu “não posso andar”. Por um segundo, eu congelei. O que eu poderia dizer que fosse consolar essa menina? Aí que Crystalina entrou, e, logo depois, eu entrei junto, jogando conforme o que era necessário naquela situação. Um sorriso começou a ser formar no rosto da nossa “paciente” e começamos a ver a sua mudança de humor. Tínhamos conseguido! Fizemos a diferença naquele dia, e, se tivesse ido embora ali, já estaria satisfeita.
O melhor de tudo é que permaneci. A partir daí, só vieram flores. Subimos para ver mais crianças, e elas, como se soubessem do meu aperreio, estavam bastante animadas somente com a presença de palhaços ali. Não era preciso que eu fizesse muito para poder fazer parte do mundo delas. Brinquei de pega-pega nos corredores do hospital com Vitor, batizei o Pou da Cássia, me surpreendi com o forte aperto de mão do Wesley. Além disso, fiz concurso de dança e assisti a uma menina jantar enquanto conversava com ela. No fim, como se fosse a cereja do bolo, uma das crianças chega até mim e diz “vocês vão voltar, não é?”. Com essa pergunta, não importava mais se o começo da visita não tinha ido como o planejado, eu tinha cumprido minha missão ali.
Naquele dia, entendi que o palhaço é muito mais do que eu imaginava. Entendi que meu jeito pragmático de ser talvez me atrapalhe a alcançar o significado do que realmente é estar ali de nariz vermelho, mas que, com certeza, não deixarei de tentar ser a ponte entre a angústia e o sorriso.

“Como é difícil ser palhaço”, eu afirmo agora depois de ter vivido na pele.

Ruiva

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Sobre a primeira visita (e talvez um pouco mais)



Ultimamente, percebi que tendo a gostar mais de observar cenários do que de participar deles. Prefiro assistir à vida alheia a ser a estrela da minha. Essa é minha zona de conforto, em que apenas sou espectadora do espetáculo de terceiros. E, (in)felizmente, o palhaço Tenta me tirar dela.
Isso é o que amo e odeio nele. 
Minha primeira visita resumiu-se em tentativas. Tentar me sentir à vontade com o peso do nariz vermelho, que antes já me derrubara. Tentar não chorar de nervosismo. Tentar entrar em sintonia com algum dos outros tantos palhaços que lá estavam: uns pulavam, dançavam e se sentiam à vontade com as crianças; outros não entendiam as brincadeiras e perdiam a voz em meio ao fuzuê. E eu no meio de tudo isso, olhando, me juntando à plateia e aplaudindo meus companheiros. Com a certeza de que estava fazendo tudo errado, de que, se fosse para só assistir, podia muito bem ter ido de Amanda, sem a necessidade de me montar. E isso foi me trazendo um nervosismo antigo, uma sensação de não pertencer. De ser "outsider".
E aí houve a quebra. 
Os antigos acharam ruim, pois tivemos que "sair" do palhaço. Mas e quem nem tinha entrado? Para mim, foi um momento de alívio. Alívio de não mais ver o Dindim, mas o Vanildo. Não mais a Relogynho, mas a Rafa. Foi a hora de conseguir respirar com calma, de confessar para alguém que não tava rolando para mim, de inspirar fundo e de procurar coragem para voltar ao hospital. 
E, nessa volta, o dia se salvou. Ao nos separarmos nos andares do Sabin, fiquei com três palhaços com quem não imaginava ter tanta sintonia, em especial uma com um pitó no alto da cabeça que olhava direto para o relógio e agitava umas maracas. 
Houve momentos ruins e tensos, quando arrancaram meu nariz, e me joguei no chão porque não conseguia respirar, por exemplo. Mas também existiram aqueles que me fizeram ter vontade de continuar, como risadas e brincadeiras com pessoinhas miúdas e não-tão-miúdas e cumplicidade com meus colegas palhaços, quando nos olhávamos com surpresa, nossos olhos dizendo "caramba, tá rolando!".

Minha relação com o palhaço nunca foi de liberdade ou de espontaneidade, mas de desafio, de desconstrução e de ansiedade. Desafiar minha timidez e minhas limitações. Desconstruir meus conceitos de ridículo e minha necessidade de não passar vergonha. Ficar ansiosa pelo desconforto causado por tudo isso. 
Depois da primeira visita, porém, devo acrescentar a essa lista Gratidão e sensação de Querer Mais. Agradecer às crianças e aos outros palhaços pelos empurrõezinhos de incentivo (ou não) que recebi. Querer sentir cada vez mais tudo o que sinto quando coloco minha roupinha e meu nariz, seja algo bom ou ruim. 

Preta. 

Sobre descobrir a liberdade: primeira visita

Todos pensamos que somos livres. Ô pobres mortais iludidos, não sabem que a sua volta estão presos em diversos tipos de amarras. Amarras sociais, econômicas, geográficas, lingüísticas, profissionais, amarras emocionais. A todo tempo nos prendemos em algo e parte de nós fica estática vendo a vida passar sem se adaptar. Nascemos e somos criados sempre em busca de grupos e pertencimentos, procuramos agradar, buscamos nos encaixar e vivemos na esperança de sermos aceitos. Todas as nossas atitudes são guiadas por padrões fixos e determinadas por um alguém que nem sabemos quem é. Você não pode falar alto em público, você não pode usar listrado com bolinha, você não pode usar meias diferentes em cada pé, você não pode sair por aí com a cara pintada, você não pode sentar no chão sujo, você não pode. Quantas vezes não já ouvimos isso? E desde quando isso é liberdade?
Vetar é fácil demais, difícil mesmo é ter coragem de ir contra o veto. Um dia eu conheci alguém que teve essa coragem. Coragem de ser livre em todos os âmbitos. Antes de conhecê-la, eu não imaginava que ela fosse assim. Não esperava que tudo acontecesse tão naturalmente e que nosso encaixe fosse ser tão sincrônico. No dia que resolvi ser Preguiça, descobri que se eu pudesse, seria Preguiça todos os dias da minha vida. Nessa viagem de quem eu sou e quem ela é, vivenciei momentos onde não existia o não pode. Eu pude dizer que morava numa casa debaixo da terra, pude convidar todas as pessoas pra uma festa no endereço Lagoa dos Porcos esquina com Lagoa das Vacas, pude dizer que estava calçando a Peppa e o George, eu pude vender bolsas que vinham do Beco da Poeira francês, pude dizer que não sabia andar de elevador, pude acreditar que se eu falasse bem alto o elevador me levaria pra onde eu quisesse, eu pude gritar, pular, fazer estrelinha sem tocar no chão, pude me aterrorizar ao ouvir a história da loira do banheiro, pude chorar ao ouvir ordens, pude dizer que a segurança era invejosa e que a recepcionista me achava linda. Eu pude dançar forró como se estivesse matando formiga, pude receber autógrafo no braço e passá-lo adiante, pude brigar com os médicos que passavam, pude vender uma caixa de nariz que transformava centavo em real, pude vender um espelho que multiplicava a beleza, pude perguntar a qualquer pessoa da minha frente se eles tinham uma cama pra eu deitar. Eu pude fazer o que eu queria e falar qualquer coisa, pude agir como se todos os julgamentos tivessem sidos dizimados e como se padrão nenhum guiasse minhas ações. Eu pude esquecer tudo que tinham me dito antes sobre palhaços serem alegres e engraçados e pude ser uma palhaça com olheiras, cara de sono, que não estava animada pra brincadeira, mas que queria muito um lugar pra deitar. Eu pude jogar com o inesperado, com o novo, pude ver reações inúmeras e inventar alguma coisa para cada uma delas. Sim, nesse momento eu descobri o que realmente significa a palavra liberdade.
Em meio a tantas outras interferências e tantos outros mundos correlacionando-se com o meu, eu me encontrei. Hoje o que desejo pro meu futuro é continuar nessa montanha-russa onde eu me escondo pra encontrar a Preguiça e me encontro pra escondê-la. As percepções desse primeiro encontro são as melhores, com certeza iremos nos ver mais vezes com muito prazer. Com a reação dos outros sobre o que eu estava fazendo, eu não me importo. Apenas me preocupo com o que fui e o que pude ser. Hoje sigo com a certeza que eu descobri algo que não teria sido descoberto de outra forma. Independente do sucesso geral da visita, ela foi extremamente importante pra que eu tivesse a certeza de que esse é o meu caminho. Na volta pra casa, os olhos se encheram de lágrimas e o sofá da minha casa sentiu minhas mãos suadas e tremendo. Eu consegui. Isso não significa que eu atingi um objetivo, mas sim que eu consegui não atingir objetivo nenhum. E mais que isso, consegui não me importar. Consegui lapidar a real liberdade de vestir um nariz vermelho e poder ser livre. Eu e a Dra. Preguiça estamos num nível de relacionamento onde tudo são flores. Ainda que isso mude ou não permaneça sempre assim, eu vou sempre lembrar que um dia, ela me ensinou que EU POSSO.
Eu fui a Dra. Preguiça, ela já é parte de mim e de agora em diante serei livre.  

Juliana Medeiros