quinta-feira, 28 de julho de 2016

Diz-secação

Ela chegou na frente de todos
Não impediu o olhar de ninguém
Desabotoou o primeiro botão,
o segundo,
o terceiro,
o quarto.
Expôs uma semi-lua do seio esquerdo.

Só depois fui perceber a faca que trazia

Gentilmente, toma da lâmina
Rebate o sol em meu rosto
Fico cego por três segundos

Quando retorna a visão
A faca já havia cortado a pele
Exposto a gordura
A fáscia
O músculo

Delicada,
Desarticula a segunda costela
A terceira
A quarta
A quinta
A sexta

Leva a mão ao íntimo
(Ainda com a faca nela)
Já não mais a aorta
Ou a pulmonar
Ou qualquer grande vaso
Impede o coração de sair

Pulsando na mão dela
Vai mostrando a cada um
O quanto o sangue é azul

Saí dela dali sangrando
Mas, ela mal me tocou.
Alguém disse que estávamos ali para ela
Mas, por Deus!, esse sangue em mim
É que ela está aqui
E não larga mais.


(Allan Denizard)

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Terceyro dya: Uma iguana apareceu pra gente



Hoje sentamos para conversar e vimos uma iguana. Bem, sentamos para conversar. É que senti que quando as angústias estão muitas, precisamos falar. Eles já haviam falado muito. A maior parte era inquietação. Esse é o momento em que falo mais, iluminando o que vivemos com perspectivas esclarecedoras.

Evoquei então a história do palhaço e a provável e profunda conexão do clown de hoje com a commedia del'arte e suas variantes. O papel da máscara no jogo, o jogo, a trapaça. O outro nome do palhaço em algumas culturas é o trapaceiro (trickster). 

Esclarecemos um pouco sobre a improvisação a partir do que sabemos sobre as máscaras. Estas dão ao ator um mundo de possibilidades de ação, mas que são limitados pela história da máscara. A grande pergunta é: qual a história da máscara do palhaço?

Resposta: a sua. 

Quais os movimentos possíveis?

- Os seus

Mas, principalmente, os que você esconde.

Ouvi certa vez uma história da genética que nossa identidade (o que permite dizer quem são nossos pais) era muito mais ditada pela parte dos cromossomos silenciada (íntrons) do que pela parte manifesta (éxons). Essa parte silenciada seria a que nos poderia tornar multiformes, e não essa coisinha parecida com alguma coisa que somos. Seríamos tudo: Mística. Pois bem, o palhaço precisa que desembrulhemos essa totipotência. 

O que guardamos com o tempo no baú? O que não foi aceito pelos outros. Pois isso era a principal fonte de riso contra nós. Mas, quem vem buscar o palhaço busca o riso dos outros, ou busca elevar o riso que nunca saiu de cima de si à categoria de arte. Um professor da nossa faculdade de artes cênicas, que é pequeno e tem a coluna disforme, é doutor em artes cômicas. 

Deveria ser algo fácil trazer o que foi escondido à tona. Somos panela de pressão. Mas, os mecanismos que engendramos (eu e a sociedade) para recalcar isso são tão densos que precisamos de uma energia sobrehumana (artística) para chegar lá (no subsolo). É preciso de um espaço em que eu possa me experimentar. É preciso de um grupo que permita essa experiência.

Na cultura grega, essas forças tinham parentesco com os deuses do caos. Eram temidas, repudiadas, isoladas, mantidas no nadir do Tártaro, que é o oco da Terra. Porém, coisa interessante, entre os deuses do Olimpo, os majestosos mantenedores da organização cósmica, um filho de Zeus exercia o caos na Terra sob a anuência do pai. Na teologia cristã, esse rapaz, Dioniso, foi tido como uma das faces do mal, mas os gregos o colocavam como um dos deuses veneráveis do alto céu. Ele, o sombrio, e Apolo, o que navega no sol, irmãos. Por quê?

Ps.: Dioniso é o deus do teatro, além de ser o dos bêbados. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Segundo dya: Atravessar


A Ivne estava mais negra. Por quê? Ontem ela havia ido à praia, mas era o horário do sol bom. Por que mais negra? 

Porque era uma sereia, cujo sangue roxo a permitia uma cicatrização rápida, ainda que dividisse seu corpo para bronzear apenas os membros e não a barriga. Lambida pelos pseudópodos solares, ao mesmo tempo que pela língua prateada da lua, o sal do sangue de sereia serenou sua sorte sorrateira. Ninguém contou com o magnésia que luzindo em seu sangue a permitia atravessar a noite assistindo lua de cristal. Era o mesmo magnésio que preenchia seus ivnócitos a fim de torná-la sensível ao eclipse que aconteceu após o filme. Camaleoa, poderia ter se contentado com toda essa alquimia, mas teve de não só consumir a Azul que agora morava em sua mecha, como também decidiu vampirizar o João Cachinhos que estava ao seu lado. Em dois dias ele não estaria mais na terra de forma livre, mas incorporada nela. 

Depois de entender o que se passava na pele de Ivne, fomos em busca de curar a talvez reação alérgica dela a ypsilocitocinas, que também provocaram a mudança da cor do chifre que Gerson carregava nas fuças. A cura: a corda. 

O que realmente imperou hoje foi o enfrentamento de nossos negros. Ou melhor: o não enfrentamento. 

Não conseguíamos imitar genuinamente a pessoa sob pena de fazê-la mais feia em nossa imitação. Não conseguíamos pedir para que alguém se calasse sob pena de silenciá-la para nós. Não nos permitimos correr longos passos para além da travessia da corda porque receávamos estatelarmo-nos na parede. Em vez disso a corda bateu em nós - muito e várias vezes. 

Todavia, sentimos melhor o que havia aqui dentro. Fechamos os olhos, ouvimos o fustigar do látego na grama, a ardência do marimbondo na pele, o suor das mãos de mais de dois agarrados em nós. Senti como o coração dela bate com medo. Alguém carregou o outro nos olhos. Foi intenso, mas não pesado. 

Alguém começa a entender alguma coisa:

- Mas, se podemos colocar tudo no jogo, posso eu colocar minha vontade de mandar a criança se calar?
- E se eu tenho só medo e insegurança, o que colocar?
(Eu calado)
- Deveria colocar o medo e a insegurança para jogar?
(Eu sem fala)
- Mas, se eu colocar essas coisas para os outros pode ser que eles se sintam mal e eu não vou me sentir bem com isso. 
(Eu poderia ter ficado calado, mas falei)
- Tanto maior sua sombra fica quanto menos você sabe qual o tamanho dela. 

A Ivne estava mais negra hoje. Por quê?

terça-feira, 19 de julho de 2016

Prymeiro dya: Sim, vamos começar!



Fico pensando o que deve passar na cabeça desses meus amigos, quando chego para dar a oficina no primeiro dia. Vim envelhecendo, me tornando casado, cada vez mais pai, e uma aura de (caduquice?) experiência vem mudando meu semblante. Aí, chego e digo, vamos começar!

Todavia, aparentemente não começa. Fico perambulando pelos corpos deles e tentando enxergá-los. É a espiral, o piercing, o anel grosso, a sapatilha de rendilha, o inusitado de ser comum (mas bem maior do que eu e com cachinhos), o bandaid no queixo (e a fibrilação no peito), o nome que poderia ser comum mas que ostenta um "e" ao final, a veia que salta na testa ao ficar constrangida, a moldura dos óculos, o brilho do cuidado das madeixas, o nome que parece um verbo substantivado, o nome que parece de um príncipe de Etérea. 

De repente, um pretexto. Acorda. Digo, a corda. A corda é um acordo para que acordemos uns para os outros. Diga aí que eles não se tocaram muito disso. Como todos vocês, eles ficam presos no objetivo, que deve ser perseguido, claro! Pular até o cinco, descer até o zero. A vida tem que ser obedecida. Mas, deve haver fendas na vida, como as de nossos joelhos que ralamos nas brincadeiras de esconde-esconde ao ir em busca da mancha. Vê. A brincadeira ordena que se esconde, mas quer que se ache. O que acontece entre estes dois pólos? Nós. 

Então, continuamos, agora eles junto comigo, a perambular pelos corpos deles. Descobrimos que a mão dela sua demais, que os gastrocnêmios dele são grossos e invejáveis, que aquele pula desengonçado, e que aquela pula graciosa. Vamos descobrindo o gritinho de susto, o gritão de desespero, o grito de seguir a norma. Revela-se o chatear-se, o entediar-se, o comprometer-se, o enfurecer-se aqui e ali, dessa e daquela pessoa. 

De novo: o objetivo final é aquele mesmo. Temos que pular até o cinco e descer até o zero. Mas, qual o objetivo final das alegrias que não querem ter fim, que não imaginavam nem ter começo? Eu falo dos mil risos gostosos que nascem espontâneos do meio. Qual o objetivo final do erro, do acidente? Não tem objetivo final, pois não tem nem objetivo. Erro e acidentes acontecem. Como acontecem os risos? São explosões de peito. 

Estar presente é muito importante. Segurar a mão. Agarrá-la. Dizer sim ao jogo. Veja que poderiam ter desistido. Ao contrário do que temia um dos joãos, não estamos mais em uma fase da seleção. Se você desistir da ofycyna, não quiser participar, achar tudo vão, não é mais critério de exclusão. O que está acontecendo aqui, já não é mais um processo decisório de uma cúpula superior para dizer quem fica. Vocês já estão aqui - dentro. O que essa ofycyna faz é tentar nos fazer entender qual o lugar em que você pode se aninhar nesse peyto.