quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Cavalgar os monstros da caixinha

Camila: Esses teus textos me deixam confusa. Vou nem falar nada (risos)                        


Allan: Fale.                        


Camila: O povo tá desejando tanto o visitão e eu com medo. Tava pensando sobre o que tu falou. Parar de se desculpar por tudo.                        


Allan: O que tem o que eu falei?                        


Camila: Nunca tinha percebido que eu me desculpava por tudo. E que sempre pedia permissão pra fazer até as coisas que eu queria                        


Allan: E por que o meu texto despertou esta conversa?                        


Camila: Acho que eu tava com medo de ser a deslocada. E, então, você percebe através de um texto que não tá só nessa.                        


Allan: Então, ele não te deixou confusa apenas. Ele te fez se reencontrar com a sua confusão.                        


Camila: Acho que eu tô gostando desse reencontro com a confusão. Sentir primeiro antes de entender                        


Allan: O meu pedido de parar de se desculpar de pedir desculpa cai no palhaço querendo que você sempre peça desculpa após colocar o nariz, tá?                        


Camila: Tá não (risos) . Não entendi.                        


Allan: O que você acha de ficar pedindo desculpa direto?                        


Camila: Eu nem noto quando faço isso.Tão natural. Quando parei pra pensar, achei feio (risos)                        


Allan: Uma coisa que é natural e feia: isso deve vir à tona após o nariz. Permita. (No caso do palhaço de hospital, também é algo inocente, que não irá agredir a criança, o que torna este seu atributo ainda mais precioso)                        


Camila: Nossa! Quero me permitir sim. Quero me permitir naquilo que eu não gosto também, entender que essas partes me formam em um todo.                        


Allan: Já descobriu outros feiúras?                        


Camila: Tô rindo muito com aquela risada de porquinho (risos). Minha mãe odeia!                        


Allan: Bom! Tem outras feiúras que não são tão óbvias, confundem-se com belezas, e de fato são. São belezas brancas. Em vez de gerar riso, podem gerar raiva nos transeuntes. E  daí ser tão difícil acolhê-las como fazendo parte de si.                        


Camila: Nossa, entendi. Gerar essa raiva é ruim?                        


Allan: Você gosta de música clássica?                        


Camila: Eu amo. Principalmente as melancólicas.                        


Allan: Mesmo nas melancólicas, há alegria em certos momentos, né?                        


Camila: Sim                        


Allan: Mesmo nas alegres, há melancolia.                        


Camila: Exatamente. Sempre assim. Você tá esperando algo triste e aí vem o alegre, que prepara você para o triste novamente.                       


Allan: A grandeza dela é como ela consegue introduzir na nossa alma os muitos tons dos sentimentos sem nos esgarçar. O que não nos esgarça nos expande.                        


Camila: Expande e causa uma explosão.                        


Allan: Depois nós recolhemos nossos pedaços e voltamos à vida, mais porosos para que o mundo passe por nós.                        


Camila: E assim teremos outras explosões. Nunca vividas. A vida é como um campo de guerra. Explosões boas e ruins.                        


Allan: E chuvas boas e ruins. Sereno massageando o rosto, tempestade fustigando a pele. O sol queimando a nós, mas também aos nossos agressores. A lua acalmando os homens, enlouquecendo as maré, etc. Gerar raiva é ruim?                        


Camila: Não, depois da raiva pode ter raiva ou pode ter outras coisas. A raiva também faz parte dessa explosão.                        


Allan: Dessa melodia... Claro que pode ferir no início. Como fere os ouvidos do músico a nota distoante. Mas somos aprendizes dessa arte. Tentar não ferir é ser politicamente correto e evitar a grandeza.                        


Camila: Até que um dia tudo começa a fazer parte de você e se torna tão natural como o pianista em um piano, né? Não quero evitar a grandeza, por muito tempo evitei.                        


Allan: Evitou?                        


Camila: Sim, acho que ela sempre esteve aqui. Ou talvez eu fingia que tava evitando. Quando você fala de ferir eu penso: Se não ferir alguém, serei ferida, em algum momento, né?                        


Allan: Ela fica querendo sair, e sai, é quando você a desfaz em desculpa. Mas não é uma questão de "fira para não ser ferida". É mais de "fira e seja ferida".                        


Camila: Entendi, minhas desculpas vem naturalmente após a grandeza.                       


Allan: Talvez. Não sei. Mas é comum pedirmos desculpas por termos sido grandes. É quando os outros se sentem pequenos por nossa causa. Se for, chegamos em algo mais profundo em você. Não é a desculpa que você tem que assumir ao nariz, mas a grandeza. Se for...                        


Camila: Eu escrevi algo que representa esse "fira e seja ferido". Quero viver isso um dia de cada vez.                        


Allan: Você havia me falado sobre algo assim, uma vez. Algo do tipo de não temer gostar por poder se ferir. Amar, apesar de se ferir, e seguir amando, despudoradamente.                        


Camila: Isso. Acho que eu sempre permiti as pessoas sentirem as coisas ruins e boas em relação a mim. Quando era eu, sentia o bom e escondia as coisas ruins. Pensar no outro sempre, depois de todos esses dias eu sair pensando em mim. E isso é louco! Olha : 


“Foram as 40h mais loucas da minha vida, alguns momentos eu queria que terminasse rápido, outros eu queria que demorassem pra sempre, na verdade foram as 40h que eu me soltei do tudo, pra ser nada e do nada pra ser tudo. Eu aprendi muito, muito, muito, talvez nem tanto quanto palhaça, e sim, como Camila. Eu só quero mostrar o que as pessoas não conhecem de mim, o meu escuro, o meu escondido, aquilo que eu guardo na caixinha do lado da minha cama.”                        


Allan: Essa caixa de Pandora do lado da sua cama, quando aberta, libertando os monstros, nossa ação é que eles sejam encarnados no jogo, e da interação surja a graça. Eles serão cavalgados pelo jogo, e, pelo jogo, vocês se decuplicarão.                        


Camila: Então que comecem os jogos! Eu sempre tive vontade de falar isso (risos)                        


Allan: É uma magia perigosa. Os Ypsilonianos vão ao campo muitas vezes sem preparar-se e preparar o outro para cavalgar nos monstros. É preciso coragem e sintonia com os ritmos presentes e libertos.                        


Camila: Vou ter cuidado com o que vou tirar da caixinha.                        


Allan: Seria melhor preparar-se junto ao seu companheiro de jogo para receber.                        


Camila: Deixar ele conhecer a caixinha antes, né? Trapaça talvez. Bom.                        


Allan: Óbvio que essa caixinha é sua ilha particular. Ninguém tem o direito e a possibilidade de conhecê-la por completo. Nem você. Mas, não é conhecer o que entra em jogo, mas deixá-la ser. A arte, toda arte, se quer ser grande, deve aprender a cavalgar. Cavalos indomáveis. Campos silvestres. Caatingas, até. O vaqueiro não faz ideia do que o cavalo é. O biólogo não faz ideia de como se monta naquilo. Não estou falando de um biólogo vaqueiro ou de um vaqueiro biólogo, claro! Como está a confusão?                        


Camila: Não consigo entender por completo ainda, ela ainda tá aqui (risos)                                                


Allan: Ótimo. Se depois de 40h e 1 conversa de whatsapp, sua confusão desaparecesse, que profundidade teria você?                        


Camila: Acho que pouca profundidade. Ela não desaparece (risos), só cria novas confusões. Quero viver cada uma delas. Como as ondas do mar, cada uma diferente da outra. Às vezes não tem onda e vem uma.                         


Allan: Ninguém é raso. As ondas vêm do mar que somos, lambendo o continente que nos circunda. O problema é que as zonas abissais são escuras demais e temos pouco fôlego para mergulhar até lá.

O começo de tudo é uma b...



(…) 
   
Ingrid: Mas é aquela mania de criança mesmo de achar que tudo é o fim. Mas, é só o começo 🤔 E o começo de tudo é uma b... Mas, o difícil mesmo é ver que o seu foi o mais b... de todos os começos b... Na verdade o deles nem foi. Eles tão super felizes. Eles se encontraram, eles já pareciam saber muita coisa. Mesmo antes. A paciência não é muito minha amiga, mas já tá mais que na hora de fazer as pazes, né? Crescer mais um pouquinho.                                           


Allan: Eles começaram pela luz, você pela sombra. Yin-Yang. A natureza distribui equilíbrio. Você foi a escolhida da lua. Sabe o que é bom disso? É que a lua tem muitas faces, explore-as.                        


Ingrid: Caraca isso fez todo o sentido! Pela primeira vez 🤔 Brincadeira! Mas, fez sentido pra mim. Pode não ter sido o mesmo que tu quis passar, mas fez. Eu tentei aqui escrever o que eu tava pensando mas não tenho essa capacidade, depois tu me diz como tu faz isso, por favor. Enquanto isso eu vou aqui explorando a lua. Ou melhor, minhas várias faces... Eu falando assim é engraçado, eu não falo em lua, gente! Me lembra signo e as viagens da galera, que eu não curto acompanhar. O que que esse Y tá fazendo comigo?                        
                      
Allan: Sobre o jogo do “volta”. O objetivo do Mayko no jogo era despertar de forma traumática a decepção de vocês. Quando a gente planeja, tudo sai "perfeito" e artificial. Mas o ideal no palhaço é a (im)perfeição que nasce do espontâneo. O "volta" provoca essa (im)perfeição espontânea. Do nada alguém diz "mas que merda!". E é uma graça! O que acha disso?                        


Ingrid: Acho que ele conseguiu me traumatizar (risos). Mas, é porque tinha umas cenas que ele deixava ir até o final.                        


Allan: Então, o que é o final para o palhaço?                        


Ingrid: Opa! Não sei, me pegou de surpresa                       


Allan: Lembra-se quando discutíamos sobre qual a finalidade (o final) do jogo da corda?                        


Ingrid: Lembro. Não era ganhar. Disso eu lembro.                        


Allan: Chegar ao final da cena é "ganhar" a cena. Qual o lugar confortável do palhaço no processo do jogo?                        


Ingrid: E quando a cena termina, o jogo termina. E o nosso objetivo não é fazer o jogo terminar. Ao contrário 🤔 Também acho que eu tava querendo fazer o meu jogo, e que a platéia entrasse nele. Mas, o Mayko ficou falando volta, volta, volta e eu tava esquecendo de entrar no jogo dele.                        


Allan: Então, o volta do Mayko permitia que você continuasse viva no jogo. O volta dele era a parte dele no jogo. Você ia morrer fazendo o jogo acabar. Ele te salvava.                        


Ingrid: Realmente.. quando alguma dupla conseguia terminar a cena, ela se sentava. Não tinha mais outra. Com o volta tinham cenas infinitas, infinitas cenas.                       


Allan: A trapaça contra a morte, herança da perspectiva religiosa, só pode se dar com a interferência de um deus exterior à cena da vida que é responsável pelo "volta".                        


Ingrid: Mayko me salvando, e eu aqui sendo ingrata (risos) Acho que entendi melhor. Mas, na "vida real" vai ter um deus para interferir e mandar a gente voltar?                        


Allan: Sempre. A criança, a enfermeira, o médico, os estudantes, os funcionários diversos, outros pacientes, os acompanhantes, todo elemento surpresa que entrar no seu jogo sem ter sido convidado. Se você estiver muito apegada a sua cena, não vai permitir ele te salvar do teu ensimesmamento cênico.                        


Ingrid: Entendi. Mas nem sempre vai ser tão claro. Não vai tá gritando "volta", vou precisar tá atenta. Às reações, ao que entra, ao que sai. Fui pesquisar o que era ensimesmamento (risos). Fez mais sentido agora. Por mais que essa palavra fale por si só, mas eu fiquei, tipo, essa palavra existe? 🤔 Às vezes eu acho que tu tem umas manias de neologismo, mas eu que sou leiga mesmo.                        


Allan: Existe. Ensimesmar-se. Toda a arte do palhaço é a de aguçar os sentidos ao ponto de não perder as deixas que o arredor vai esmigalhando pelo caminho, e que nos permita quebrar a lógica do movimento que parecia óbvio.                        


Ingrid: Eu entendi. Eu não tinha entendido nada do "volta" e só tava odiando profundamente. E perguntei ao Mayko 500 vezes. Ele só me ignorou (risos) Valeu mesmo. Por ter vindo aqui...                        


Allan: Falta falar de mais uma coisa...                        


Ingrid: Só não para de falar! Mas essa aí pareceu bad, tô nervosa.                       


Allan: Ninguém, nem você, encontrou seu nariz, sua maquiagem, seu figurino... Parabéns!                        


Ingrid: Mas, se existe um caminho para se chegar lá... eles [os outros participantes] pareciam tão na frente. E eu parecia ter é me perdido, tava em outro caminho.                        


Allan: Outro caminho. Eu te disse. A natureza te deu a lua. É fácil encontrar a face do Sol. E nos cegamos com sua majestosa unidade. Quem não sabe onde ele está? Mas a lua, sempre com uma face escondida...                        


Ingrid: A culpa é tua. Foi tu que me disse pra pegar o caminho mais difícil. Gosto mais da lua agora.                        


Allan: Então, como eu dizia, parabéns! Você tem o mistério todo ainda por explorar. Sei que assusta, dá palpitações. Elas são sentidas tanto no terror quanto nas aventuras. Transforme essa exploração em uma aventura e curta o coração vibrando consigo.                        


Ingrid: Eu gosto de aventuras. Prometo curtir cada momento. Inclusive esse agora tão confuso. Ei vem cá. Seria pedir demais. Que tu fosse pra uma visita com a gente? 🙃 Tipo pro visitão. Ou qualquer dia que tu esteja livre. Seria, né?! Por isso que eu não pedi, viu só?! Eu só queria muito 😭 Mas, eu entendo totalmente se não dá!                       


Allan: Vou tentar. Pro visitão, não. Mas durante este ano que entrará, me programarei.


Ingrid: Ah, se programa, por favor! E me avisa! Que eu dou meus pulos pra ir. Seria muito bom ♥ Muito mesmo!                        


Allan: Vá sentindo as coisas sem mim. É bom ter as próprias quedas.                        


Ingrid: Eu vou cair, sair bolando, me ralar toda, quebrar a perna, tô é vendo. E vai ser ótimo!

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A capacitação inicial do Y é uma violência

Se tivermos na mente a concepção evolucionista simplória herdada de certo círculo gnóstico medieval que pregava ser a história um contínuo ascendente linear, assim como a vida humana, e também cada aprendizado menor da vida humana, estaremos em maus lençóis. E, a capacitação inicial que damos aos novos ypsilonianos é uma violência. 

Preparo-me para ser chacota dos mestres do teatro e do clown ao dizer o que vou dizer. Em mais ou menos quarenta horas iniciamos os meninos e meninas na teoria do jogo teatral, na assunção do personagem em cena, no exercício da contra-cenação, no desafio da improvisação, na apresentação da máscara, em sua grandeza mística, em sua corrupção profana, no seu apequenamento artístico para o cômico, nas noções de sublime e grotesco, na maquiagem e na figurinização de si para revelar-se palhaço. Quarenta horas. 

- 40. 

Desculpem-me, senhores. Sei que isso leva uma vida. Há famílias de palhaço tradicionais que vão favorecendo o desabrochar do descendente de palhaço desde o berço. Vendo como ele se move, como se levanta, como cai, como corre, etc. Fora das tradições, secularizados, encontramos artistas que se esmeram na aquisição das virtudes do ator em palco, interpretando textos, das escolas mais diversas, para só então se jogar ao improviso, e daí ao palhaço. Leva-se em torno de cinco anos. 

- 40, horas. 

Então, eis minha primeira explicação. Não acredito em evolução linear.  De dramas a história é feita. Guerras e Paz e Guerras. Há quem reconheça o ridículo e a fragilidade humana para superar qualquer conflito histórico e acrescenta os deuses para permitir os finais. Outros contam a história a partir de homens e mulheres heróicos, e nos tornam deuses. Não sem sangue, não sem dor, não sem morte. Aqui e acolá, uma pitada de ressurreição. O amor, e toda a incongruência dele, contudo, sempre está presente.  E ao contrário de ser um alívio, muitas vezes torna-se mais um capítulo da angústia. Se aparece trazendo felicidade, como não encarar o seu espelho mais sombrio: a perda do ser amado, pela morte ou pela traição? 

A história é, quando muito, uma espiral. Se é que aprendemos alguma coisa e crescemos, e acredito que sim, aprendemos e crescemos, como crescem os concertos, isto se dá eivado de conflitos. Mas, sempre se dá a partir de um início. Debatemo-nos entre a sombra e a luz. No choque dos contrários, forjada é a nossa personalidade. Metal, fogo, água e martelo. 

A capacitação inicial do Y é o início, um começo complexo, confuso, intenso. Há quem termine feliz, e há quem queira chorar. Ninguém termina o mesmo. Onde terminará? Só vi duas saídas nestes onze anos de projeto: a desistência e a paciência. Viver o nascimento de si para a arte em meio a um universo de ciência é, no mínimo, problemático. Perturbador é viver o nascimento de si para a arte em meio a outros oito nascimentos. 

Mas, é isso, criança: nascimento. Peço paciência. Nada do que um dia após o outro. Peço, então, trezentos e sessenta e cinco, e nos encontrarmos ao final. A pelugem terá caído, sua miopia diminuído, as pernas estarão menos trôpegas. Quando voltar para a corda, e atravessar só mais uma vez, olharei em seus olhos e perguntarei: e então? 

Resposta: (... volte daqui há um ano...)    

domingo, 13 de agosto de 2017

Sexto dia ou Sempre Se Descobrindo

Não sabendo muito o que vai sair, mas precisando cuspir, eu gostaria de começar pedindo desculpas por não ter ido nos outros dias. A vida, às vezes, apronta com a gente, não necessariamente de maneira ruim, mas apronta, e toda vez que eu me programava pra aparecer, ela dizia "hoje não". Tentei trapacea-la nessa manhã, não avisando que ia (e rezando pra ter comida a mais) e consegui. Consegui e estou muito grata por isso.

Agora quero eu falar deles. Sete deles pra ser mais precisa. Tão lindos que deu vontade de abraçar. Vi cada um e todos fazerem coisas inimagináveis. Vi um mesa ser minha prancha e uma cesta de basquete fazer parte uma corrente. Vi fofura, beleza, meiguice, presença, tranquilidade, encantamento e descontração. Vi um peito incapaz e um braço tendo que se virar pra ser dois ou não ser dois ou só ser. Vi chateação, choro, surpresa, devaneio, quietude, aflição e entrega. Vi um pentagrama redondo refletindo o caos daquilo tudo, refletindo nosso caos. Não sou um exemplo a ser seguido ou a segurança em pessoa, mas tá tudo bem não saber, tá tudo bem não entender, tá tudo bem não se conectar com momento. Não deu bom? Muda. Mudanças são bem-vindas, eu sempre digo. Tá tudo bem não ter roupa, maquiagem, tamanho do nariz, nome, papel, tá tudo bem não ter nada pronto. Não estou falando de acomodação, a questão é respeitar seu tempo. Tu é incrível. Eu preciso repetir isso quantas vezes pra entrar nessa tua cabeça teimosa?

Em terceiro lugar, vou falar do nosso capacitador. Ele é tão maravilhoso. Chegou machucado e sentindo dor, mas esqueceu (ou pelo menos nos fez esquecer). Ele se divertir me alegra, ele rir me faz gargalhar, ele chorar me emociona, ele sentir me sensibiliza. Saber que eu posso falar com ele me acalma. A satisfação que eu sinto quando lembro que os meninos tiveram a oportunidade de ter contato com ele não cabe em mim. Ter o Mayko perto é um aprendizado. Ele me é saudável e espero de coração que seja pra vocês também.

Por ultimo, preciso falar de mim. Quando cheguei, não lembrava de muita coisa das minhas capacitações, mas eles ou o vento ou as sinapses me fizeram recordar. Sensação fantástica essa. Estar ali pela segunda vez e minimamente mais madura foi colorido. Não tive medo e, no decorrer do manhã, pude conhecer mais do meu palhaço. Quase olhando de fora, percebi a necessidade de ter alguém. Quase como se não fosse eu, descobri minha bengala. Quase como uma terceira pessoa, entendi porque ela é tão importante pra mim. Talvez não faça sentido pra ela, mas fazer sentido pra mim me basta (risos). Agradeço por me abrigarem, por me respeitarem e por me ajudarem. O Y é essa confusão gostosa de sentimentos mesmo. Até mais.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Quinto dia ou Sobre a Reposta do Jogo do "Volta"

Pra ser bom honesto, eu ia escrever um textão bem mais bonito que esse pra falar sobre o quinto dia da capacitação dos mafapocas que na verdade foram o sétimo e oitavo dias. Mas, sei lá, não pareceu natural.
Natural mesmo pra mim foi dizer, pra um grupo de amigos ex-ypsilonianos, o quanto eu tava contente com a capacitação de hoje. O quanto eu conseguia ver as particularidades de cada um durante os jogos. Natural foi o gosto que eu tive de descrevê-las, falando sobre o que me encantava em cada um deles nove pros meus amigos, afim de que eles conhecessem mais os novos, como eu estava conhecendo. E pra que eles se cativassem por eles e por essas particularidades, como eu me cativei.

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É estranhamento engraçado fazer parte do processo de formação do palhaço deles. E estranhamente prazeroso ver a curva de evolução deles ao longo de tão poucas reuniões.

Ao mesmo tempo em que to saindo do projeto, é como se eu pudesse olhar pra trás enquanto parto e tivesse vendo crescer e florir novas árvores que farão sombra e aconchego pra um projeto que eu amei muito. E que amo muito. É acolhedor e nostálgico ao mesmo tempo. Me faz querer ficar, mas me deixa em paz por partir.

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E sabe, não importa o motivo pelo qual diabos um Palhaço-Diretor(!) Rígido e Mal Amado qualquer fez vocês voltarem mil vezes, partindo aquelas cenas (as suas primeiras cenas!) ao meio tão cruelmente. Importa mais a cólera comedida saindo devagar dos bolsos dele, ou a descoberta dela de que o seu corpo falava muito, ou ainda o estado de quase transe em que aquela outra acreditou piamente que a cadeira era seu bebê.

Importa antes o momento de graça. E viver a desgraça junto. Importa antes o Estar no Jogo e aquela sensação gostosa de ansiedade antes de começar a brincar. Importa o palco, a cortina, a pausa pro riso, a trapaça, a travessura, o silêncio e a gargalhada.

Importa antes que, vocês, palhaços, tenham se divertido.
E, a mim, me importa mais vê-los florir.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Quarto dia ou Meu Canário Azul

O Sol é o ponto máximo de uma corda celeste. Aquele que divide ela ao meio. Nos dois extremos da corda, entidades brincam de fazer o tempo passar mais rápido, mais devagar. Cada perímetro que a corda solar varre, vem noite, vem dia. E lá se foram quatro pulos. Os dias pularam, e mal percebi quando toquei meus pés no chão. 

A corda parecia ser largada, de repente. E como era no espaço, o Sol caía leve, como neve. Eu olhava o céu, sem desejar aquele roxo. Em breve seria noite, estaria morto para eles. Alguns passarinhos se despediam: passou, passou. Os grilos já estrilavam, as estrelas surgiriam.  

Foi um dia sagrado. Foram quatro. Que fiz eu neste passado? Estive presente. E quase não me recordo de tudo. A função da memória é esquecer, seu tolo! E deixar ficar no jogo das lembranças apenas o que conta. 

- O que conta de novo, homem?

Conto nove que chegaram. Noventa que partiram. Ânsia de quem vem. Ancestralidade de quem vai. 

O canário canta insistente. Despede-se. Cala-te, infame! Se eu calar a despedida de tudo, a alma fica? Quem sabe?

- Vai, voa! Já me vou. 
- Volta, estas nove sementes são nossas. 
- Que sementes?
- Estas que vão, como quem não quer, no bolso.
- Ah! Estas aqui...
- Sim, estas. Precisamos delas. 
- Tudo bem. Estão podres mesmo. 

Retrocedo os passos com calma, olho para o público. Seguro cada semente no bolso. A mão as abraça por inteiro. Olho para o público. Revelo o punhado que se escondia no meu jogo. 

- A terra é boa aqui, não é?
- É. Deixe-as aí. 
- Não as queria mesmo. Como disse, estão podres.

Olho para o público, cavo a terra. Derrubo uma, duas, três... nove. Platéia. Terra. Platéia... Terra.

- Acabou?
- Sim. 
- Tchau!
- Claro!

Tomo a mochila com o resto da vida dentro. Sussurro cá comigo: "Estão podres as sementes. Em breve arvorecerão. Crianças deitarão em suas sombras, e um riso farto acontecerá. Ora o que vejo? Um ninho em cada uma delas. Quem dentro? O canário."

Meu Deus, que tempo fugaz! O céu já está azul... infinito.  

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Terceiro dia ou Pequenos milagres diuturnos

Quando Bernardo nasceu, dei um beijo nela e fui acompanhá-lo ao aquecedor. Ele estava de olhos bem abertos como nunca havia visto: eu que nunca o havia visto, ele que nunca havia visto qualquer coisa. 

Sempre conduzido de olhos molhados pelo escuro para onde queríamos. Um vórtice o joga no mundo e, de repente, meus grandes olhos a lhe fitar. Ele ainda flutuou a atenção pelo mundo, mas meus grunhidos o faziam voltar para mim. 

Entregue aos meus braços, sem muita escolha senão neles deitar, repousava-o no seio materno para lambuzar sua boca. Ele não tateava para se aconchegar. O corpo inteiro, ele todo, em bloco, voltava a ela. Sua existência despencava na dela. E naquele instante, a dela era a dele. 

Por dias tivemos que entender seu ritmo. O momento certo em que sua vontade casava com nossa ação. Relaxava, então, o choro, e alcançávamos, assim, o semblante sereno. Trocávamos olhares de consenso e paz. 


***

À medida que Bernardo se distancia da mãe parece voltar a me encontrar. Nem sempre é o sorriso que nos une, mas o olhar. Dois olhos enormes olhando meu macaqueado. O que para o João é um riso fácil para ele não funciona. De tudo o que faço, e que não desisto, o riso mais certo é quando o encontro, de repente, ao descer a escada, ou eu cansado, ao voltar do dia. O riso mais certo é quando desisto de fazê-lo rir. 


***

O que fizemos hoje? Não ver e ser conduzido. Não ver e ser chamado. Entregar-se a braços. Despencar. Felicitarmo-nos por enxergar o outro. Encontrarmo-nos num milagre cujo acerto foi não ter acertado nada.

Espero que agora exista um pequeno ponto de luz

Eu ainda lembro da corda, lembro das frases do Sensei, lembro do grito de guerra da minha geração. As falas dos Mafapocas me fizeram ir no mais simplório do meu Y, onde minha sede de responder todas as perguntas me cegavam para a beleza da incógnita. Eu me permiti ter dúvidas, e me encontrei dentro de um mundo onde tudo é possível, onde a trapaça é válida, onde não há o certo, nem o errado.

Sempre estaremos um pouco perdidos nessa vida. Exemplo disso é que a casa da Serafim não é nem um pouco perto do Órbita, não sabemos a real medida de três quarteirões de distância, e eu nunca sei pra que lado fica as ruas onde devo pegar ônibus. 

No mais, vejo que eles ainda estão se acostumando com as implicâncias, filosofias e questionamentos de uma criança que brinca de ser médico (ou de um médico que na verdade é palhaço), e é evidente uma carga de olhares que dizem "o que vem agora?", "o que vem depois?", "será que eu fui bem?". É normal. O Allan é assustadoramente fofo e estranhamente encantador. Eu devo muito a ele. Eu queria ser igual a ele.

Na verdade, não sei se fui bem. Meu desejo foi tentar entregar um pouco do que eu sei (ou acho que sei) para que houvesse um pequeno ponto luminoso no meio daquele nevoeiro de ideias. Improvisar é dar um abraço no absurdo e quebrar todas as expectativas que a plateia possua, mesmo que a plateia seja eu mesmo. O Improviso casa bem com a palhaçaria, em um altar onde tudo é possível, até mesmo rir da besteira que eu mesmo fiz. 

Risadas. Silêncio. Risadas. Gargalhadas. Silêncio. Silêncio. Nem sempre temos coragem de mostrar a ideia que chegou aqui, na mente. Nem sempre queremos nos expor. Temos medo, e é bom ter medo. Mas o erro ainda é um jogo, e o rir do erro é um acerto. Não é? 

Eu me permiti ser um velho que promove um momento de capacitação pra quem está chegando, e me sinto feliz por isso. Eles se permitiram entrar em todos os meus jogos, se desafiando, se arriscando e se enxergando capazes de serem mais, e eu fico feliz por eles. Eu fico mais feliz ainda de poder co-existir com os Mafapocas dessa maneira e, assim, dar mais um passo no meu mundo Y. 

Obrigado pela entrega de vocês. Espero que agora exista um pequeno ponto de luz. Vocês são fó fufeffo<3 div="">


Matheus Sebbe - Dr. Marmota

domingo, 6 de agosto de 2017

Segundo dia ou Abraçar a coluna

Hoje tive vontade de abraçar a coluna. Vai ser um relato diferente este. Aproveito-me do que vivo com vocês para falar de mim. Quem não faz isso enquanto escreve ignora o poder de terra que tem as letras, para sepultar sentimentos, florescer ânimo.

Meu filho maior, como deu pra perceber no texto anterior, requer muita atenção. É que além de ter autismo, vem com ciúmes do menor. A família não é tão grande para revezar cuidados. Minha mãe precisa de mais cuidados que ele. Resta-nos a avó materna que também vem tendo seus limites. 

Aprender sobre o brincar no Projeto Y me fez perceber que não é um simples "deixar acontecer". Existe uma preparação e uma prontidão para o jogo que nos faz suar. Uma vontade e um esforço para não deixar a coisa cair que faz transudar. As pernas tremem, o coração galopa antes de visitar. O véu do templo do mundo se rasga, as pessoas se multiplicam. Brincar com crianças com limitações parece ser a mais difícil das coisas, e é a mais leve, quando acontece de acontecer.  

As reflexões de roda das oficinas destroem as ilusões de que palhaço é aquela coisa fofa de só fazer graça. O ambiente quasi-controlado traz a ilusão de que é só jogar e pronto. Tem algo entre estas duas coisas que nos escapa: é o universo do outro com quem queremos brincar. 

O maior milagre da vida é conseguir entender o outro. O mais óbvio é brigar. Como algo que nasce em você consegue se fazer inteligível em mim. É fácil quando a linguagem consensual das palavras que aprendemos juntos nesse idioma compartilhado se fazem de meio. É fácil quando a lógica do cotidiano também se interpõe. E quando elas falham? Quando a criança fala uma língua que não te soa natural aos ouvidos, e quando a lógica dela escapa continuamente pelas tuas mãos feito areia? 

Às vezes fazê-la feliz é só abrir a portinhola que a protege (e a aprisiona) dentro de casa. Ele (falo agora de meu filho) é tão frágil. Dia desses pulou em um brinquedo inocente e sangrou o lábio. Já tive três vezes o sangue dele em minhas mãos. Mas, é preciso deixar que ele corra, que se jogue, que escale. É preciso às vezes fechar os olhos para onde ele vai, e se preparar para o choro de um insucesso ou para a conquista de uma nova habilidade. 

Coisa que ele não faz é desistir de brincar. Às vezes reluta em dormir porque parece temer não acordar. Vai cerrando os olhos aflito pelo desaparecimento neles das imagens das brincadeiras de que seu mundo esteve cheio. 

Vocês deviam conhecê-lo. É tão fácil fazê-lo rir. E é tão mágico. Há mais dentes ali do que possa contar nossa vã odontologia. E vem sendo tão fácil chorar. Sua alma sente que pode voar, mas a gravidade imanta. 

Ingrid, ele vem me ensinando a não pensar muito. Existe uma urgência de pular que me empurra, me convoca. Joyce, ele tem uns trejeitos de rir que me desarmam. Forja Chaves para o meu castelo abrindo portas que nem sabia estarem ali. Na Sombra do que ele revela, destrói as teias de aranha e espirra as poeiras para longe. A agitação dele é tamanha, Ana, que quem me vê  o protegendo pensa que tenho a calma feito tinta impregnada na pele. É o meu quartzo, Artur, derramado por Deus em nossos braços, pequeno Serafim. Cá entre nós, brincar cansa, dói as pernas, exige trapaça com a idade. As assimetrias que já me doem, Ivis, pedem repouso de vez em quando. É, então, que o vigio distante, e esperanço que as crianças acolham sua diferença. 

Quando a lógica de tudo o que acreditávamos ser relação efetiva faz água, o que faz com que abandonemos o barco e nademos juntos, e pulemos juntos, e procuremos juntos o caminho de volta para casa, para os outros, para os nossos?

Ele sabe que sou dele. A mão levanta para segurar a minha como a de ninguém. Já tiveram o prazer de estar à deriva no meio do infinito mar, com alguém que ama? Eu já.