quarta-feira, 12 de abril de 2017

Sobre Meus Dois Jalecos

   No começo, pra mim, o meu Doutor Palhaço era uma forma de me rebelar contra uma faculdade na qual eu não me encontrava. Contra um sistema que não parecia me incluir. Era uma forma de externar o meu ódio contra aquela medicina que me era ensinada nas aulas tediosas nas quais eu nunca conseguia aprender. O Dr Caju era muito antes uma sátira a tudo aquilo que eu achava de estranho e bizarro na figura do Médico do que qualquer outra coisa. E por muito tempo eu preferi usar meu jaleco branco e vermelho, de Dr Caju, do que o meu jaleco todo branco (e um tanto mais sem graça) de Futuro-Dr Mayko. O Jaleco vermelho era mais feliz, mais leve, mais divertido. Com ele eu era livre pra brincar de esconde-esconde, correr, fazer piada sem graça e, principalmente, pra frescar com medicina com a qual eu não me dava bem. O jaleco branco precisava ser mais pragmático. Precisava ser algo mais distante. Precisava ser mais sério. O jaleco branco precisava estar mais limpo, sem manchas ou marcas e com seus fios mais em ordem. E enquanto o jaleco branco sempre precisava ser mais, o jaleco vermelho sempre parecia ser o bastante

    Aos poucos, no entanto, o jaleco vermelho foi me ensinando a gostar mais do branco. Acho que em algum momento o meu frescar com a medicina se tornou brincar com a medicina. E pouco depois disso, como se já estivéssemos acostumados a dar as mãos para rodar em ciranda, eu e a medicina acabamos ficando de mãos dadas, de vez.

    Hoje, por conta do tempo, visto o jaleco vermelho cada vez menos. Hoje, por conta do tempo, visto o jaleco branco cada vez mais. Mas hoje, também por conta do tempo, eu aprendi a amar profundamente os dois jalecos. E já não há tanto peso. Já não há tanta angústia. E se também não há tanta correria, tanto esconde-esconde e tanta piada sem graça, ainda sobram as mãos dadas, em ciranda, com esta minha grande e outrora improvável amiga.

    O Dr Caju me ensinou a ser o Dr Mayko. E hoje, não importa o quanto eu tente lavar, o meu jaleco branco pra sempre vai estar um pouco manchado de vermelho.

Um só. Que na verdade eram dois. ou dois, mas que na verdade eram um só. A essa altura já não da pra saber.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Estou perdido

Estive conversando com um de vocês. Não é a primeira vez que tenho essa conversa, neste teor: "esta faculdade me esmaga". Pra falar a verdade, o grosso da pesquisa que fiz sobre o que vem sendo vocês se dedicando pro Y acaba tocando profundamente nessa ferida. 

Quando me aproximo do espelho, vejo as falhas da barba, os detalhes da assimetria da cicatriz que agora carrego, as manchas na minha esclera que de longe é branca toda. Quando me aproximo de vocês, vejo cada um desse mosaico que de longe chamamos Y. Eu acho bonitas as duas visões. Não por carregar harmonia, como queriam os gregos, mas por ser repleta de humanidade. 

A última pessoa que me veio falar, estava em busca de conhecer o mundo para além da faculdade. Achava que seria um médico melhor voltando dessa busca. Talvez pudesse mesmo encontrar que ser melhor fosse não ser médico. 

Já houve quem subiu montanhas e enfrentou ventanias, só para chegar num lugar bem alto, a fim de ver se lá de cima, no silêncio, na posição mais privilegiada que os olhos poderiam ter (quando as pálpebras cerram), conseguiria ver o que diabos tinha dentro de si. Há quem habite palcos ou frequente mesas brancas ou terreiros ou círculos cristãos de oração em línguas, que são experiências de transcendência sem igual: ser outro no meu corpo, incorporar os outros que sou. Outros foram para ilhas revolucionárias, dessas que vivem um outro mundo possível. Outros ainda decidiram simplesmente, na grandeza que essa simplicidade esconde, andar de bicicleta por cidades que respiram as quatro estações, deitar-se em praças que as famílias vivem o piquenique, deliciar-se com os sabores e aromas de civilizações que nos criaram. 

Há por todos os lados, as vivências de lutas sobre o amor, como ele é feito, como ele pode ser vivido, "no meu corpo", "no seu corpo", "no nosso corpo", "no entre nós". Vivi dois amores no Y. Desses da ordem do sexo, da amizade e da transcendência de mim. Chorei no colo de um, me derramei, enfim, nos braços do outro. Venho encorpando esse último amor num lar em que me deito em paz depois das lutas do dia. 

O que a última conversa com um de vocês me trouxe é o mesmo calor de sempre. Uma vida errada na faculdade que reage para não se reduzir àquilo. Então, ela queria deixar de ser errada para ser errante. Se os meus erros significam que não acerto o alvo e a meta que os diretores me cobram, é que o corpo está fazendo a prova, mas a alma, onde está? 

Quer, então, trancar um pouco essa porta, abrir outras que arejem seu rosto. Sentir a pele molhada de vida, que na faculdade de medicina, a morte é onipresente vizinha. 

O que eu poderia dizer? Vá? Quem sou eu para dar autorização? Quem sou eu para tirar? Contando essas histórias, venho me sentindo uma árvore milenar crescida ali no canto da salynha. Vou testemunhando combates e, sem dar conselho algum, conto a própria história de vocês. 

O que eu poderia dizer, o que acho certo alertar, é que um semestre ou um ano ou um país distante não bastam para se encontrar. Para falar a verdade, feito árvore milenar, tenho pensado cá com minhas folhas cadentes que mesmo uma vida parece pouco. O que não pode acontecer é deixar de buscar.  


Dr. Acelora, ops, Acerola 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Deméter e a velha palhaça ou Sobre alegrias breves

Conta-se, entre muitas outras versões, que quando a deusa grega da fertilidade e dos cereais, Deméter, esteve triste e colérica por conta do rapto de sua filha Perséfone pelo infernal Hades, uma velinha de uma aldeia grega desconhecida foi prestar culto a deusa. 

No meio do culto deu para tombar, cair e ficar de bunda para o ar com a calcinha a mostra (se é que tinha calcinha). Deméter olhou aquilo do alto de sua infeliz potestade e - riu! Sua gargalhada gerou mil bouganvilles novos, alcaparras aos montes, pólens escapulindo da sua boca fecundando um sem fim de terra, em um solo fustigado pela seca, pela raiva de uma deusa-mãe sem sua filha. Num átimo voltou a se lembrar que a filha ainda estava longe de si, e neve verteu de seus olhos queimando o que havia florescido. 

Esse mito ilustra muitas coisas. Entre elas, o fato de nosso fazer de palhaço de hospital gerar uma alegria breve. Outra delas é sermos - nós, os agentes do riso - desconhecidos, moradores de uma aldeia qualquer, nada de heroísmo, nomes fulgurando na história universal. Outra ainda, é o de provocar flores, que são lindas, e que morrem. 

Lembrei disso nesse momento em que perdemos nossas perséfones (e um perséfono): Rafaela, Lara, Jucá e Renan. Eles vão seguir no casamento com suas profissões, seus infernos. Vão nos deixar aqui, no inverno de Deméter. Não sofremos como a deusa, porque não temos o menor poder de negociar a volta deles com qualquer superior que seja. Sofremos como a velha do tombo. O máximo que podemos fazer é continuar tombando a fim de continuar o ofício de provocar flores, como eles provocaram por alguns anos em nós. Somos desconhecidos, de fato, mas nossos amores, seus nomes, sabemos bem quais são, quem são cada um. 

As palavras-chaves que eu escreveria se esta postagem fosse um artigo científico para ser publicado seriam: Saudade, Brevidade, Flores. 

Voltem a nos visitar, por favor! Será, então, primavera. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Há um ano e um pouquinho

Começou tudo com um desconforto. Será que vou saber visitar com essa pessoa Tão diferente de mim?
Bom, só saberia se criasse coragem e fosse pra visita.
Com toda a ansiedade que cabia em mim, fui pra salinha. Algumas conversas jogadas fora me acalmaram e me fizeram pensar que talvez não fosse ser tão ruim assim. Quando nos arrumamos, estava com vergonha, mas ansiosa para saber como acabaria aquele dia.
Munidos de ukelele e bolhinhas de sabão, nos encaminhamos ao HU, e as coisas foram acontecendo. Um porteiro simpático tendo sua garrafa de café roubada. Um guardinha gente boa brincando conosco. Uma recepcionista beijando as nossas mãos. Pessoas sorrindo ao passarmos cantando e tocando as cordinhas do pequeno instrumento.
A música me acalmou e salvou meu juízo. A leveza começou nesse momento.
Ao chegarmos à enfermaria e sermos bem recepcionados no quarto, já recebi elogios. “Poxa, sou Doutora Sem Nome” “Deveria ser é Doutora Linda!”. Sorrisos acolhedores e abraços envolventes. A leveza continuou aumentando.
Da sequência dos eventos seguintes não me lembro bem, mas ficaram registrados.
Um palhaço segurando o ukelele, e uma criança que sempre quis saber tocar batendo nas cordas. Ambos tinham os olhos brilhando.
Duas crianças fazendo competição de quem fazia a maior bolhinha de sabão, e o quarto inteiro prestando atenção e sugerindo dicas para os competidores por quem torcia.
Uma criança dançando e sorrindo em meio a uma brisa de bolhas de sabão com uma música desafinada tocando do chão, e uma mãe vendo tudo e sorrindo mais ainda.
Médicos, enfermeiras e funcionários da limpeza sorrindo e felizes por estamos lá, nos dando água e nos passando suco de manga.
Uma menina no isolamento e um menino Forte rindo de dois palhaços e uma criança (que, de tão alegre, mais se assemelhava aos ébrios felizes) dançando e rebolando o bumbum, enquanto cantavam que “os seus problemas você deve esquecer!”.
Momentos que pareciam estender o tempo em mil, nos permitindo vivê-los o máximo que podíamos.
Ao fim de uma visita que fora tão longa, mas, ao mesmo tempo, tão curta, meu coração estava mais do que leve. Sentia cada célula do meu corpo sorrindo e aí percebi.
Percebi nossa função naquele ambiente. Percebi que, por mais que nós tenhamos ajudado as pessoas do hospital, nós Nos ajudamos ainda mais.



Há pouco mais de um ano, escrevi esse relato da visita que até hoje conto sobre quando quero falar sobre a sensibilidade que o Y me trouxe. Talvez eu devesse ter postado na época, quando as lembranças ainda estavam frescas, e Elephant Gun ainda tocava na minha cabeça, mas a timidez me impediu. Enfim. Tá aí agora.


Preta.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Esquecer os sapatos...

É quase como transformar os seus pés em patas gigantes, listradas em preto e branco e com unhas enormes;
É quase como se transformar no ortopedista do hospital e ter a certeza de que todo mundo quer fazer uma cirurgia pra ficar com os pés iguais aos seus;
É quase como se tornar um bailarino profissional sem nunca ter colocado uma sapatilha de balé na vida;
É quase como começar a perceber que célebre frase "dá a patinha" pode fazer sentido real oficial;
É quase como perceber que você é uma das poucas pessoas que tem passe livre pra andar descalço no hospital (liberdade para as patinhas!);
É quase como notar que suas unhas dos pés são tão grandes quanto as unhas das mãos de outras pessoas;
É quase como perceber, depois de algum tempo, que você também esqueceu seus óculos (que agoniante!!!) e bater um desespero de turvar a visão de verdade;
É quase como se abismar ao ver que tem pessoas que sequer reparam nos seus maravilhosos pés de monstro;
É quase como olhar pro lado e ver uma Aurora brilhante e uma Preguiça ambulante prontas pra errar tudo o que pode ser errado;
É quase como perder o horário pra sua aula da tarde e não se importar nem um pouco;
É quase como ter certeza que não vai aguentar esperar uma semana pra voltar a perder os sapatos.

Ainda não entendeu? Deixe-me explicar melhor...

É quase como comer um pote de nutella com um saco de batata ruffles cebola e salsa, deitado no sofá da sala, enquanto um incenso de camomila queima na mesinha de centro, um cobertor felpudo - carinhosamente apelidado de peludo - lhe cobre dos pés aos ombros e a chuva de fim de tarde cai do céu nublado e bate na janela num ritmo sereno (tudo isso enquanto você está vendo umas nóias nitzscheanas no computador).
É quase isso.
Ou talvez um pouco mais.


Dr. Aparecido

terça-feira, 23 de agosto de 2016

No quarto andar










As vigas eram as mesmas, o elevador que levava às alturas também. A sensação vinha como um deja vu fantasiado de nervosismo e ansiedade. E lá estava eu com meus balões.
O tempo se esvaia como bolas de mercúrio esmagadas aos poucos pelas mãos, mas eu não poderia deixar de afagar mais um coração e, como efeito lateral, o meu também sairia mais quentinho.
Meus olhos fitaram aquele ser indo em direção à vista do quarto andar. Sua energia era densa, daquelas difíceis de penetrar, mas eu não ia desistir tão facilmente.
Me guiei em seu olhar e fiz dele meu aliado. Ao mirar o céu espantosamente, chamei-a para desfrutar dessa dádiva, e lá estavam seus olhos fitando comigo o teto azul. Resolvi ir mais longe e apontei para as montanhas envergonhadas do lado direito e, seus olhos, meus companheiros, levavam o pescoço para apreciar aquelas manchas verdes.

Contudo, meus colegas estavam abalados, tristes talvez com a distância deles com o mundo fora do quarto andar. Foi aí que eu consegui não só andar, mas correr...
Não iria só. Convidei-a para chutar a bola gigante que se encontrava em cima de um prédio, escorregar em uma ponte vista lá de longe e brincar com os bichinhos de nuvens presentes no céu.
A energia foi ficando criança. Seus olhos tímidos já emitiam esperança e senti que eu já poderia partir.

Deixei ela lá com um balão, a imaginação e a certeza de que o quarto andar sempre será um convite para amar e voar!

Crystalina.






segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Carta ao meu nervosismo.

22 de agosto de 2016

Dra. Florida
Coração Palpiteiro
Rua Medo, Sem Número


Prezado Nervosismo,

Eu queria te dizer o quão ingênuo foi esses medos que você provocou, mas queria te mostrar o quão grande eles me fizeram sentir depois.  Eu queria te dizer o quão singular foi deixar cada gota de suor  fazendo aquela maquiagem e ansiando saber o que me esperava. Mal imaginava eu que a primeira porta aberta seria enfeitada com cantoria de palhaços. Cantamos parabéns para alguém, mas parecia mais uma felicitação a cada um que ali venceu seu medo e seu nervosismo, que juntou seus cacos e se fez inteiro para viver o nosso vysitao. 
Foi uma tarde intensa, prezado nervosismo. Três horas passaram, você se foi e eu nem vi. Ou vi? Ah! Eu vi e deixei você escoar no sorriso singelo do Gabriel, que desenhou o nariz amarelo da Dra Farrofas e pintou minha tatuagem com lápis cor roxa. Eu vi e deixei você ir embora junto com o medo do Lucas, que não conseguia respirar sem a máscara de oxigênio. Te deixei embora para conseguir segurar o Lucas no ombro e ajuda-lo a descer na cama. Eu te deixei ir embora porque naquela tarde o que me ocupou foi o conforto. Estranho, né? Como sentir conforto diante daquela criança que chorava quando eu aparecia no vidro da enfermaria? Conforto porque no final da tarde aquela mesma criança que chorava agora brincava com bolhas de sabão as quais eu não conseguia soprar,  mas o Dr. Noia conseguia fazer aquelas bolhas parecerem maiores que o mundo. Brincava eu de estourar bolhas com nariz de coração. Foi ali mesmo que residiu meu coração a tarde toda, a tarde toda no nariz vermelho.
Prezado nervorsismo, eu queria te dizer que naquela tarde eu me escrevi e me bordei de todos os meus sentidos. Eu me vi e revivi na memória cada olhinho espantado de criança ou sorriso pequeno nos lábios dos adultos. Eu te deixei de lado para me alimentar de brotos de fantasias que nascia nos olhos daqueles pequenos. Desde o garoto que tomou café quente e acreditou que barriga ia ferver à menininha que se assustou com a buzina do nariz vermelho. Eu te deixei de lado para entrar no mundo de fantasia meu, onde eu acredito que eu posso ser tudo que eu quiser, puder e imaginar. Eu te deixei chegar talvez desde o dia da primeira fase da seleção para poder te deixar e ir embora no momento onde algo melhor pudesse ocupar o seu lugar. Hoje eu sou ocupada, minha ocupação é levar minha fantasia para onde precisam dela. 



Atenciosamente,


Dra. Florida.