segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Problemas em mim

Olá, 

Raramente me apresento por aqui, embora quase sempre presente. Sou Allan Denizard, de alguma forma orientador artístico-filosófico do projeto. 

Decidi falar um pouco mais de mim porque estive recebendo feedback da capacitação que dou para quem está entrando. 

O que me chamou a atenção é a mesma experiência de muitos dos que iniciam essa vida de visitas como doutores palhaços ao hospital que assistimos. Há surpresa, descobrimento, amorosidade. Às vezes há desgosto, desânimo, incômodo. 

Disseram as moças e rapazes que minha capacitação é boa, mas não poderia contemplar toda a riqueza da realidade do contato com as crianças. E, isso é muito tranquilo para mim. Qual a concha que pode conter o mar?

O que me fez pensar mais sobre o que venho fazendo é o meu crescimento histórico em relação a cada nova geração que acompanho. 

Investigue este blog e verá que textos com meu rosto estão presentes desde 2007. Vivi as visitas por seis anos e depois fiquei vivendo os visitantes. Fui para outros palcos, dos quais o que mais me desafia é ser pailhaço de duas crianças cuja (i)lógica do riso são completamente diferentes. Não os visito, são meus filhos, moro com eles. Lá, ao Y, aprendíamos a brincar com a fugacidade do encontro. Como torná-lo potente ainda que fugaz. E brincadeira é coisa séria! Aqui evoluí para o aprendizado de não deixar o cotidiano da convivência, que é sério por natureza, corroer a brincadeira. Lá estavam doentes. A brincadeira era visitá-las. Aqui estão sadias, pelejo para que permaneçam. A brincadeira é para não as adoecer, para que não tenha de as visitar no hospital. 

Todos os anos tento passar para os novos Ypsilonianos tudo o que venho aprendendo. A reação é sempre a mesma: quem está chegando se encanta e quase não entende; quem já experimentou mais do projeto e está revisitando a oficina se espanta em entender bem mais tudo o que é a capacitação inicial, e que não muda muito em termos de corpo de brincadeiras. É como se abrissem portas do castelo da compreensão. Só que agora eles têm chaves. 

Do meu lado, toda capacitação é uma viagem nova. Cada uma delas me faz entrar em territórios inexplorados e sagrados. Tem que tirar as sandálias para entrar neles. São pessoas que se permitem sair do normal acadêmico para ficar brincando por quarenta horas quase ininterruptas. Às vezes me sinto Caronte, o velho barqueiro do Styx, conduzindo a pessoa para a própria sombra. Não é tão denso assim, mas é um experiência, por assim dizer, caudalosa. 

O que talvez eles não percebam - não tem como perceber - é que todo ano eu volto maior, mais largo, mais amplo. Vou estudando o palhaço e todo o teatro que ele evoca, vou buscando entender mais isso que um dia fiz, que agora faço de outro modo mais suado, por vezes, mais insone. Para ter uma ideia, fiz um mestrado só sobre isso. Mas, eles, que são o mesmo punhado de estudantes querendo se iniciar na palhaçaria, tem mais ou menos o mesmo tamanho para mim, que é o da dúvida e o de certa ignorância deste conhecimento que me pesa. E um pecado enorme cometo contra eles: quero que me acompanhem. 

Dessa forma, perco suas singularidades, fico cego para seus desvios de como podem viver o mesmo assunto por caminhos diversos. "Não sinto isso, não sinto aquilo, para mim não foi desse jeito, para mim não funcionou assim." São falas que me passam mudas por causa de meus ouvidos displicentes para o novo dos novos. "O nariz para mim é apenas um gatilho, por que tenho de atuar, fico bem apenas desse jeito, daquele outro, etc." Esqueço assim que eles estão começando uma peregrinação sem meus pés. 

O que posso fazer? Continuar no meu caminho, suponho, e assumir que passar o que sabemos para outros é narrar aventuras de lugares onde não estiveram, ouvir deles os lugares por onde não passei. Vejo agora como meu ofício de caronte sempre foi mais tentar fazê-los chegar até mim, e o quanto eles pularam da barca no meio do caminho para mergulhar no fundo do rio de si. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Rolê Maroto ou "Que vysita top, manow"

Bros e sis, lpz?

Hoje foi irado. Primeira visita pro NUTEP, e, não só porque foi a única, mas foi a melhor, real. Rolou parkour, correria pelos corredores (faz jus ao nome e sim, essa foi podre ;) ), palhaço acocado na outra, briga e tudo. Mas se eu soubesse que, no final, ganharia um abraço bem gostoso e veria um monte de sorrisos tão grandes pra gente tão pequenininha, mano, eu já tava era lá faz ano!
Só o caminho lá praquelas quebrada foi bom demais, nóis frescando com todo mundo e o povo rindo da gente pelo simples fato de ver a gente. Conhecemos o maior gângster dessa Porangs, que nada menos que a família dele todinha trabalha por lá, paqueramo foi muito (não rolou Abel Brasil, daí a gente compensou, só pode), ganhamos bombom e passeamos de cadeira de rodas pelo HU, só pra fechar.
AH! E eu ainda encoxei uma lady lá, moh gente boa. Ela disse pro povo me jogar no lixo só pra ela ir lá depois e me pegar pra ela, ESSA FOFA.
Acho que é isso. Foi irado.

                                                                                              É nois,
                                                                                                     Dr. Vetim

sábado, 16 de setembro de 2017

Subo as escadas do meu prédio com as pernas trêmulas, sem sequer estar voltando da academia.
Sinto o peso da velhice do palhaço me visitar. E quero relutar contra isso, afinal tenho muito a aprender, muito a conhecer e desbravar por essas enveredas que escolhi 3 anos atrás. Contudo, senti muito medo por eles e por mim. E mesmo sabendo que era inconcebível, peguei a responsabilidade de deixá-los bem. Quem sou eu para isso, afinal? Ninguém. E ainda bem que percebi a tempo que não iria fazer isso sozinha. Lá estavam elas...
Crianças! Os melhores palhaços do jogo! Crianças, muitas crianças. Ingenuamente, não sabia que o SOPAI era um hospital DELAS! Apenas delas. E, ao passar pelo terceiro visitão, meus olhos de palhaça não eram mais os mesmos. Trazem a senescência, o orgulho de ver os novos se virando com suas piadas, abraços e histórias. Minha vontade era sentar numa cadeira de balanço e ser plateia dessa leva, dessa geração massa que é a Mafa!
Meus olhos apurados também enxergavam demandas das crianças, sejam elas de carência, violência, atenção. Senti que estava ali para que se qualquer coisa desse merda ou não. Os seios de uma palhaça viraram balão, e assim, para que eles não fossem estourados, a barriga de outro palhaço virou a explosão. Em outra situação, uma palhaça parecia ser a senhora elástico, e ali eu vi que seu poder era se esticar sem ao menos tirar o sorriso do rosto. Fez-me lembrar de outros amigos, de outras gerações, que eram sempre espancados por uma leva de "monstros".
Reparei que o esconderijo de um deles foi a casinha do bebedouro, e quão foi confortante a esse o momento de contar uma história na brinquedoteca.
Via tombos e uma montanha de crianças por cima de alguns e sarcasticamente ria da situação. Estava tudo sob controle aparentemente sob minha visão (ou não).
Ao pegar essa "responsabilidade" de deixá-los bem naquela situação de risco, quem ficou bem fui eu.
Me senti plena ao saber que escolhemos pessoinhas certas para entrar nesse mundo de uma letra única, mas tão inteira e intensa!
Vou ficando por aqui. O cansaço me ocupa de uma forma transcendental neste momento, mas junto dele a sensação de leveza, ao vislumbrar as belas asas desses novos seres planando sob narizes, corações vermelhos e pulsantes!

Crystalina.
Pra vc, Crystal! :)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Segunda Primeira Vysita

Eu tava na salynha, sentado, deitado ou largado no chão, mesmo. Alguma dessas coisas. E não ia visitar.

De novo.

Sabe, a última visita que eu tinha feito foi a primeira, também. Vysitão. E com isso tudo, pelo que via eu era o mais verde ali. Só que poxa, de todas as cores do mundo, logo verde, que eu praticamente nem enxergo (kkk - rindo de nervoso, tá).

Pois eu podia sentir as pelúcias olhando pra mim. Me encaravam com aqueles olhos de bila, quase já opacos: nem vai visitar de novo, né, Arthur? Terceira semana seguida, eu sei. 
De novo, uma série de eventos sobre os quais eu não tinha o menor controle parecia me colocar nessa posição. Eu ficava perdido.

E dava pra sentir, também, que eu tava chegando na bad - ou a bad tava chegando em mim. Bad, daquelas que você esquece o próprio nome de tanto que você rumina as idéias.

Aí estalou alguma coisa na minha cabeça. Do jeitinho que a gente sente vibrar o celular no bolso, quando chega mensagem. O Arthur tinha acabado de me mandar uma, e ele tinha um bocado de coisa pra dizer.
Já faziam duas horas que eu tava só enrolando lá, largado num colchão. Que era que eu ia fazer, ué? Visitar sozinho?


É. Exatamente.

E sabe por quê? Pelo único e exclusivo motivo de que você quer, e você pode. Por que é bom tu se lembrar de que quem tá vivendo é tu. De que se a vida for um jogo, esse jogo só vai pra frente quando tu começar a jogar. E que às vezes a gente até esquece, mas o protagonista dessa marmota toda é a gente, ué.

Então, eu sei que você tá nervoso. Eu sei que tu não faz a menor ideia de onde é a pediatria, porque a final de contas tu nunca foi lá mesmo. Mas já que você tá com medo, vai com medo mesmo. Deixa a tua adrenalina subir, passar da lua, dar uma volta em marte e voltar. Você tá todo se tremendo, menino (e nem é uma resposta de meme).

Deixa tu ficar tão ansioso que não consegue deixar os dois pés parados no chão ao mesmo tempo. Mas com tudo que tu puder fazer, lembra que quem tá fazendo é você mesmo. E que é tu quem tá tomando as rédeas da tua vida, por mais que tenham coisas que ninguém controla.

Então, a Azul vai aparecer aí. A Sarah e o Liso também. E tu vai querer com todas as forças implorar que eles vão contigo. Mas só vai na visita - só vai nessa viagem marmotosa - quem tiver na vontade. E não se obriga ninguém. Pois aí aproveita, que tu aprende logo é na marra.

Tu e a imensidão do mundo.
Por mais que às vezes tu não consiga fazer dessa forma.

Então, doutor, aproveita. 
Aproveita, porque isso é sobre mais coisa que palhaço-terapia. Aproveita, que a visita pode ser maravilhosa, mas pode ser uma completa desgraça também. E provavelmente não vai ser nenhuma das duas coisas. Só tem gente, lá; são pessoas, apenas, tu sabe disso? Na pior das hipóteses, tu volta cedo: é só o tempo dos ponteiros darem umas voltas, e é você quem tá de volta. O conteúdo da visita nem vai fazer tanta diferença assim.


Pois doutor, aproveita, porque agora tu é o Doutor Mungango. Batizado, benzido e avacalhado. 

E aproveita, porque você tá vivendo.


- Arthur

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Transportada pra fora de mim

Tudo começou pela simples vontade que esse dia não chegasse, faltar no dia e justificar seria uma boa ideia. Acordar às quatro e trinta da manhã com o estômago embrulhado, os pés e as mão tremendo não é fácil pra ninguém. OI, Ansiedade!! Já entendi que você está aqui.

Entrar naquela sala onde a gente ia se arrumar foi como estar na sala do começo. Uma vez que se entra não se pode mais voltar (era isso que eu achava, até que eu escutei um "VOLTA"). O medo, a ansiedade e o estômago estavam gritando dentro de mim, ao ponto do meu coração quase parar, refletindo nas mãos geladas de um novo agora, precisando, assim, de uma outra mão pra me aquecer (obrigado por isso).

Observar cada detalhe deles, das suas roupas, suas maquiagens, seus risos, me fez entender que eu não estava só nessa. Olhar naquele espelho que refletia a minha imagem, me fez ficar mais confusa, naquele momento a maquiagem era tão importante, ela me encorajava a ser eu.

Em um círculo que não tinha quebras, suas mãos me deram suporte e suas palavras chegaram aos meus ouvidos como uma música com vários tons. Chegou a hora então. O nariz não só no rosto, mas no coração. Conectados como vagões de um trem.

Esse momemnto eu chamo de gut-gut. Entrar devagar em um quarto sem choros... NOOOOSSAAAAA!!! Eles eram tão pequenos comparados a mim, mas me causavam uma imensidão sem fim. Falar na língua da Babyelândia foi a verdade mais pura que eu já vivi. Vivemos. Ele, seu pequeno violão e eu. Dançando no "passinho do bebê dorme" foi como dançar a música da vida.

 Esse momento eu chamo de Êxtase. Mirela ou Lelela, como ela se apresentou, com uma roupa rosa e seus cabelos cacheados que pareciam os meus. O seu beijo, na ponta do meu nariz vermelho, me paralisou, sua vontade de ir embora comigo e seu pedido para que eu fosse sua mãe me instigaram por alguns segundos aplanejar como roubaria ela daquele hospital.

João, ele que não queria falar comigo, que não olhava e nem deu bola, se envolveu nos meus gestos quando me desfiz das palavras faladas. Acreditar que um acesso era um relógio que marcava 27 horas, me fez entender que o tempo não importava, naquele momento, ele não existia e, que o agora é mais importante às 27 horas do dia 27 de agosto de 2017.

Queria tanto falar de todos eles, todos lindos, todos grandes, todos com seus detalhes que me chamavam atenção. No final disso tudo, percebi, então, que o nariz não pesou. Era como se fosse meu, não da cor da pele, mas, ainda assim, meu. A maquiagem nem importava mais, ela já tava toda derretida e, ao mesmo tempo que ela mostrava a Dra Palhaça que estou construindo, mostrava a Camila que sou.

 E o jogo? Eu nem percebi que tava jogando, eu nem o reconheci, eu só o vivi, eu só disse sYm. As minhas mãos, o meu corpo, o meu coração, a minha risada engraçada e as minhas desculpas disseram sYm.

Escrevo essas palavras com minhas última forças (por hoje) com os olhos chovendo e o coração, que quase parava, agora, tá batendo mais forte. A ansiedade e o medo foram passear, dando espaço para o amor e a paz.

            Termino esse texto com uma vírgula, para que não seja o fim, mas o começo,



Palavras de: Uma ansiedade
                                   Um medo
                                               Uma menina
                                                           Uma doutora palhaça sem nome
                                                                       Um coração que quase parou
                                                                              Um agora,


                                                                                                                                                Camila (A)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Não sei criar título

Eu sou ansiosa e eu penso demais. Algumas poucas vezes meu cérebro me dá uma folga e eu consigo ignorar a coisa até que ela aconteça. Essa foi uma dessas vezes. Só fui me dar conta de verdade que ia visitar quando eu tava tentando entrar na minha legging verde e decidir qual ia ser a cor da minha sombra. E aí vieram várias coisas de uma vez, e vários cenários que tudo poderia dar terrivelmente errado e como eu seria a pior palhaça da história do Y. Mas aí colocaram música e tava todo mundo conversando e rindo, começou a fluir uma energia e eu resolvi seguir o conselho muito sábio que me deram “é só não pensar muito”. E foi uma das poucas vezes que eu consegui. A visita toda foi uma experiência quase extracorpórea, em que eu tirei todos os mil filtros que eu carrego e me deixei falar a primeira coisa que vinha na cabeça. Achei uma sala de seres fantásticos, cantei a música da baleia que ninguém conhecia, insisti com um menino mudo, e tentei convencer todos de que o cabelo mais lindo era uma peruca. Ganhei um chapéu e um beijo, ganhei um makeover e uma amiga nova e tive no colo a criaturinha mais preciosa. Queria cuidar de todo mundo, queria abraçar todos ao mesmo tempo. Quis muito tirá-los dali. Mas tanto foge do nosso controle e embora eu ainda não aceite muito bem, tô aprendendo a lidar. Eu deixei um pedacinho de mim e venho trazendo alguns  pedacinhos que eu peguei. No fim, eu já meio cansada, encontrei carinhas com olhos brilhando e uma euforia que me contagiou.  Ver aquelas pessoas que desde o primeiro momento eu gostei tanto, carregando em si um sol de de amor e alegria me fez um bem que vou guardar comigo por um bom tempo. Nunca imaginei que viveria algo assim, e agora não consigo imaginar como seria não viver.

Ana 

domingo, 27 de agosto de 2017

Sobre Um Hoje

          E lá tava eu, me olhando num espelho pequeno, pouco maior que a palma da mão. Tava completamente perdido, como de costume. Olhava pra uma esponja cortada num formato estranho... Como era mesmo o nome daquele negócio colorido? Já me disseram tantas vezes.
          E eu tentando imprimir no meu rosto um cartão de visitas, com nome, CPF e RG de um palhaço que eu ainda não sabia exatamente como era.
          Isso me incomodava um bocado. Pra ser sincero, talvez um pouco mais do que deveria. Como eu não sabia ainda que palhaço eu era? E tudo parecia tão fácil, nas mãos dos outros... E tudo parecia tão estatística avançada nas minhas.
          Pois passei um tempo só olhando pra mim mesmo. Quem é que diabos se esconde debaixo dessa minha pele? Como se chama, quem chama, e o que diz...? Aí parei pra pensar um pouco: claro, a maquiagem do palhaço é importante, sim. Mas agora eu tenho minhas dúvidas sobre umas coisas. Tipo qual a importância que uma criança ia dar pra simetria do meu rosto, enquanto eu aposto corrida em câmera lenta com ela.
          Qual é a importância que tem a cor da minha camisa, enquanto a criança me diz que a barriga dela ronca em espanhol, e a gente tenta escutar com um estetoscópio?
          Então eu desisto daquelas esponjas esquisitas. Desisto de adivinhar a cor de todas aquelas tintas. E no fim, acabo usando os dedos mesmo, pra encher o rosto daquela tinta-pó-e-pasta-branca que tem nome de bolo gourmet.
          E por favor, me perdoem todos os místicos, mas o nariz tava no meu rosto. E só. Ainda era o Arthur me encarando de volta do outro lado do espelho. Nenhuma entidade tinha batido na minha porta, sabe? Mas agora eu estava jogando. E preocupado com uma coisa só: jogar. Que se dane a maquiagem mal feita. Pro inferno com uma roupa séria demais pra um palhaço. Tem mais coisa pra viver do que isso.

          E eu vivi.
          Dancei como se todo mundo estivesse olhando. Porque isso era bom: dançar marmotoso, com uma dúzia de olhares sobre mim, e continuar dançando mesmo assim.
          Examinei vários estômagos poliglotas, e fiz a medição de uma boa dezena de juízos.
          Ri, fiz marmota, tive raiva e fiquei triste. Vi crianças problemáticas, que talvez não tivessem ninguém ali por elas.
          E vi muitos dentes. Brancos, amarelos, bonitos e desengonçados. Risos fortes, contidos ou escancarados como coração de mãe.
          E entendi que tudo isso faz parte.

          Mal sinto as pernas de tanto cansaço. Suei tanto. E ainda rasgaram botões do meu jaleco.
          Mas caramba. De uma coisa eu sei:
          O Arthur que eu via nos espelhos de mão com certeza estava bem mais feliz depois, no reflexo de uns olhares emoldurados por sorrisos.


- Aquele que espirra, aquele das marmotas, aquele ainda sem nome.
Aquele Arthur.