sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

VYSYTA DE NATAL AO HOSPITAL UNIVERSITÁRIO !


Um dia espontaneamente, improvisadamente, deliciosamente, incrivelmente, emocionantemente (existe?!), engraçadamente, ypsiloniamente, natalmente, verdadeiramente .... especial !!! Com direito a Papayaço Noel de barba pÔde a laranja , uma tentativa de trenó :o) e tudo ! Valeu todos os doutores payaços que se fizeram presentes !


Felyz Natal e Um Ano novo bem Y e bem mais FelYz para todos nós !!
comprimidos bem apertadinhos e esprimidos !!!
Dra. Marmota

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Doutor, você pode me ouvir?

Arte feita, um tanto atrasada, em prol do movimento que o Y participou 'por uma medicina mais humana'. É como diz o Humberto Maturana:

"O conversar é um fluir na convivência, no entrelaçamento do linguagear e do emocionar. Ou seja, viver na convivência em coordenações de coordenações de fazeres e de emoções. Por isso é que digo que tudo o que é humano se constitui pela conversa, o fluxo de coordenações de coordenações de fazeres e emoções. Quando alguém, por exemplo, aprende uma profissão, aprende em uma rede de conversações."

Ele quer dizer que o ser humano é eminetemente dialógico, dialogal...

Dá mó valor uma conversa!

Mas, como a medicina gosta muito de dar ordem para ordenar o que se desordenou, acaba esquecendo a via de mão-dupla e se torna o que o ser humano se torna sem diálogo: um não-humano. Eis um dos pontos da tal humanização médica.

Há muitos outros pontos e muitos outros pensadores que poderíamos citar, como também há muito tempo pela frente pra fazer isso. Vamos homeopaticamente... aliás, o Samuel Hahnemann, criador da homeopatia, foi um desses que defendeu uma medicina mais humana e fez do diálogo com o paciente um dos grandes motes da medicina homeopática.

Quando ele fala sobre "o semelhante cura o semelhante" contrariando lá o Hipócrates no seu "o contrário para o contrário" pode-se ver nisso, numa extrapolação sublime, muito mais do que uma proposição teórica de remédios, um mandamento moral de relação humana.

- Quem vai te curar será um semelhante teu, nem maior, nem melhor.

E, embora Hipócrates tenha querido diminuir as justificativas sagradas da doença dizendo que...

quem joga um manto de divino sobre ela o faz para que sua ignorância não seja manifesta...

o fez tirando o dom da cura das mãos dos curandeiros populares para deixar, imponente, nas receitas dos deuses de consultório.

Vá lá que realmente havia muitos curandeiros charlatães, como ainda os há. Vá lá que o divino foi muitas vezes usado como uma ignorância a seduzir ignorantes, como ainda o é. Mas, todo o processo de tirar o divino do ato de curar deixou a medicina bem humana, no sentido do qual queremos nos afastar. Com sua sede de verdade, de domínio, de poder. E, bem ao contrário do que os curandeiros são, o médico é um ser bem distante do povo, enredado em torres de concreto.

Queremos uma medicina humana, mas não qualquer tipo de humana, um tipo especial. Queremos uma medicina divina, mas não aquele divino que esmaga, um divino sem igual. Um que desça do seu céu para lavar os pés dos seus. Então, cito um último pensador por hora, mais poeta que pensador:

"Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo."

Não vejo como o primeiro mandamento possa ser semelhante ao segundo a não ser que esse Deus aí seja semelhante ao próximo.

Se devemos ouvir a Deus, ao próximo é um bom começo.

Pela dyvynyzação da medicina!

Allan Denizard

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Eram os olhos...

Eram duas palhacinhas (ou seriam palhaçonas????) mais uma vez atrasadas correndo pelo hospital, que apesar de sempre prometerem não fazer barulho, já chegavam com o timbal na mão, fazendo batucadas e cantarolando musiquinhas.
Enquanto elas gastavam toda sua energia, que para ambas parece não ter fim, ouvia-se um som, talvez o som mais desanimador de todos nas suas visitas. Não é o choro de uma criança, este é só um desafio que as instiga a transformá-lo em outro som, o emitido por uma gargalhada. O som era o chefe. Aquele que diz por hoje é o fim; aquele que as tiram de um mundo paralelo, um mundo de sonhos, de alegria, a “Terra do Nunca”, uma dimensão talvez só conhecida pelas crianças e palhaços; aquele que diz é hora de voltar para realidade; aquele capaz de trazer um pouquinho de tristeza para o rosto de todos que estavam naquele mundo. A ordem que, infelizmente, deve ser cumprida.
Xyxyryca, como sempre não atendia ao chamado do chefe, deixando Cartola louca. Cartola tentava, tentava, tentava, mas a Xyxyryca é teimosa. E depois de muito, mas muuuuuuuito tempo, Xyxyryca saía da pediatria com um sorriso na cara, o sorriso que Cartola já conhecia bem, que diz aprontei outra vez. Equanto as duas corriam mais uma vez atrasadas, Cartola correndo o triplo que Xyxyryca, ouviu-se um novo som.
“Ei, palhaços!!! Palhaço?!?! Tem algum palhaço aqui?!?!” Talvez seja esse o bordão do Y, mas é essa pequena brincadeira que mostra que ele está sempre pronto para interagir. Em pouco tempo elas descobriram que havia um aniversariante ali. Mas e o chefe?? Ah! Que chefe?!?! Ambas estavam de volta ao mundo delas.
Elas foram então arrastadas. Cartola estava totalmente perdida. Ela nunca estivera naquele lugar antes. Ssshhh!!! É aqui! E naquele clima de silêncio, surpresa e ansiedade, elas entraram no leito cantando Parabéns!
Os olhos do aniversariante brilhavam e transmitiam a felicidade que ele sentia naquele momento. As palhacinhas cantavam e batucavam todas as músicas de parabéns que elas conheciam. E logo apareceram várias máquinas. Foto, foto, foto!! As palhacinhas, como num reflexo, se colocaram ao lado do aniversariante e fizeram pose. E ele, tão feliz, fazia carinho nelas. Cartola também queria registrar aquele momento, era um momento de felicidade plena, e pediu para baterem uma foto no seu celular. Todos estavam bastante felizes. Talvez as pessoas não saibam como um sorriso é importante para a felicidade daqueles palhacinhos que levam alegria para os outros. Não saibam que tudo não passe de uma troca, uma transmissão de felicidade mútua e como os palhaços tiram sua energia de um sorriso.
Naquele caso, contudo, eram os olhos. Eram os olhos que brilhavam, os olhos que transmitiam uma boa energia. E não importava o tamanho daquela pessoa que olhava as palhacinhas. Eram os olhos inocentes e alegres de uma criança. Cartola e Xyxyryca retornaram mais uma vez de sua visita, não houve tempo perdido, mas sim a sensação de felicidade e missão cumprida.

Carla Oliveira

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

quarta-feira, 10 de outubro de 2007


Quase que não está dando pra visitar nas quartas-feiras. Normal desculpa para nós, não é mesmo? Cada vez que os semestres vão passando, o nosso tempo parece encurtar e os dias parecem menores. Às vezes dá vontade de desistir e de deixar de fazer o que a gente gosta só pra não ficar tudo tão atrasado. Mas hoje percebi o quanto uma visita renova! Depois de três semanas sem ter tempo de visitar, entrei na sala Y e tava a Marmotinha, a Metidinha e a Fulô quase prontas! Minha reação foi pedir pra elas esperarem, queria ir também!! Me arrumei rápido, a roupa da Lalita é fácil de vestir. Não é que dessa vez a sobrancelha não borrou? Só o cabelo que tava mais curto que o normal, e o João Lalinha tava mais menino que menina! Não tinha rosa no cabelo, nem maquiagem que desse jeito! Mas na verdade nunca teve jeito de deixar a Lalita menos João Lalinha, ela é assim..
A Dra. Fulô não queria ir. No meio do caminho parou e disse que não queria ir. Mas por quê? Não sei até agora, cada um tem seus motivos. Acabou indo, depois das Payaças insistirem, ainda bem, acho que tinha alguém esperando por ela.
No caminho, a platéia de sempre estava na frente do hospital, esperando. Esperando, esperando, esperando. Todos os futuros pacientes sentadinhos, velhos, novos, criança, adulto, bigodudos, gordinhos! Gente de todo jeito. Sabe, estou quase convencida que eles esperam mesmo é algum palhaço desorientado passar. Coitadinhos!
Na Pediatria, alguém chama: Ei, palhaço!! A Lalita olha assustada e pergunta: Que palhaço? Num tô vendo palhaço aqui! Tu tá vendo, Marmota?
A Marmota procura com o patinho amarelo na mão, sem achar nenhum palhaço perto. Epa!! Escutei algum palhaço, Marmota!! Tá vindo de dentro dela!! A Marmota vai pra pertinho da menininha que viu os palhaços e fica procurando perto dela com o patinho, e a Taís ria que ria!! Cada riso era um vestígio para a procura do palhaço escondido dentro dela. E olhe que a gente procurou muito e esse danado não aparecia! Marmota!! Ausculta ela com o telescópio pra ouvir melhor, pode ser que vc encontre mais rápido!! A Marmotinha tira o estetoscópio vermelho de dentro do jaleco e tenta escutar..mas nada!
O telescópio, então, virou um telefone que a Lalita testava, pensando que tava quebrado: Alô?? Alô?? Taís você ta me ouvindo??
Tô siiiiim!
Taís?? Tá me ouvindo, Taís?? Fala mais alto!!!
Eu tô falando altoo!!!
Taís!!
Pruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuum!!
Que foi isso Taís?? Foi um pum?? Fuum!! Que pôde!! Pára de rir!! Né tu que tá cheirando, né!! Alô??
Prruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuum!!
A Lalita, não agüentando o pum transmitido telefonicamente pela Taís, foi pegar uma máscara. Quando tentou botar no rosto, o nariz atrapalhou e vrum! A mascara subiu e tapou seus olhos!!! Marmota!!! Me salva!! Tô vendo nada!! Que foi isso!! E a Lalita, com os braços pra frente e olhos tampados, andava no corredor da Pediatria sob a orientação da Dra. Marmota. Ela fazia a Lalinha bater em todas as paredes! Foi quando começou um monte de abelha beliscar a PaYaça!! Nossa nossa!! Quanta abelha!! Dava pra ouvir os risinhos das crianças beliscando a Doutora!! E o enxame de abelhas foi ficando cada vez maior, até as Payaças se esbarrarem e cairem no chão!!
Foi então que consegui enxergar. Pedi pra uma das crianças sentadas no corredor para amarrar direitinho a máscara, mas ela amarrou muito frouxo! Vaila!! Uma tanga de biquíni!! A mascara virou uma tanga de biquíni!! Será que cabe em mim? Queria tanto ir pra praia!! Era uma mini-tanga. Ofereci a tanguinha pra minha ajudante e disse pra ela botar muito protetor solar, porque a tanga num tampa nada e queima tudo no sol!
Quando estávamos indo embora, achei a Dr. Fulô de máscara, conversando com um velho amigo, num quarto que tinha isolamento. Ele era imunossuprimido. Mas quem disse esse nome estranho foi a Médica dele, na visita passada. A Fulô descobriu que era mentira, que o nome dele verdadeiro era outro, muito mais bonito! Eles conversavam como velhos amigos.
“Eu já o conhecia, apesar de não saber o seu nome. Ele já estava internado no hospital há bastante tempo e sempre foi um garoto esperto, cheio de energia. Ele brincava por todo o corredor, correndo atrás de nós, inventando jogos e mais jogos, e sempre com seu abdome globoso, elevado, indicando que havia algo errado com seu corpo.Ficamos tristes tb ao ver q ele queria brincar, mas ñ podia.”

Ele podia sim, Fulo, ele podia brincar e tava muito feliz com vc!! Nayan, vc percebe como as coisas são? Como as coisas q têm q ser são? Tinha alguém esperando por você.

A hora do parto chegou, íamos voltar pra Palhaçolândia. No corredor da saída, três crianças foram com a gente, até o final, e não queria voltar pros leitos. Falei que, se eles não voltassem, iam dar bronca nos palhaços e não iam mais deixar a gente visitar! O Diego, um dos besouros que atacou a Dra. Lalita, segurou a mão das outras duas meninas e olhou pra mim. Não precisou dizer nada! Ele garantiu a volta dos palhaços, ele queria isso, e foi maravilhoso perceber que éramos bem vindos.
A gente sempre volta, fica tranqüilo tá, Diego!?

domingo, 7 de outubro de 2007

Vocês pensam que é bryncadeyra?

Se for, a coisa é sérya! Qualquer um que tenha feito o básico de inglês sabe que felicidade nessa língua se escreve: H.A.P.P.I.N.E.S.S.

Com "i".

Mas olha só o que fizeram nesse filme:


sábado, 22 de setembro de 2007

O que é o Y?


Há uma aerodynâmyca bem ynteressante nessa conformação. Vocês não acham?

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

"Parabéns?!"

E assim foi o 14 de setembro, nem eu sabia, mas antes da visita,na sala do Y, alguém me ligou e me deu os parabéns.E eu nem tinha percebido que uma festa estava prestes a acontecer.A pessoa me disse que eu saberia o porquê dos parabéns..ela tinha razão. agora eu sei.No começo foi difícil de interagir, grande novidade né?! Mas depois foi ficando fácil de não interagir..o que pra mim pelo menos não é reduntante.Entende, eu queria apenas ficar olhando as "velhas" palhaças,porque não havia nada de mais novo pra fazer naquele momento.Mas um palhaço recém graduado não se autoriza ficar parado e então eu procurei outra enfermaria.E foi lá que eu encontrei ele.No colo da mãe, os braços bem presos ao próprio corpo, como quem tinha um tesouro a esconder.E a verdade é que tinha.Enquanto a garotinha expressava todo seu instinto destrutivo nas minhas costas, eu decidí descobrir aquele tesouro.Me lembrei que tinha um molho de chaves coloridas no meu bolso e resolvi pedir a mãe que me ajudasse a escolher qual abriria a fechadura que trancava aqueles bracinhos.Ela me disse que a chave certa era a azul, talvez a cor preferida do Ryan.Num golpe de sorte ele me deixou ver onde ficava a fechadura, eram duas, uma embaixo de cada braço.Coloquei então a chave no suvaco esquerdo, digo, na fechadura esquerda, e um sorriso se abriu.A porta que todo palhaço deseja abrir.
Depois de quase todas as portas abertas, resolvi sentar um pouco, mas a doutora Não Tenho Nome Ainda IV(Mychelle) puxou a cadeira e resolveu me sentar no chão.A garotinha gritou:"Tá contaminado!!"..e eu gritei mais alto:"Tá contaminado???"... Alguém tinha que fazer alguma coisa.Lembrei do meu nariz ultra power descontaminator e tratei logo de fazer todos o apertarem, era a ultima chance deles.A garotinha não quis, disse que não gostava de mim, que eu estava contaminado.Eu entrei em desespero, chorei e chorei, pedi que ela não me abandonasse e ela adorou isso.Pegou um brinquedo, bateu em mim e saiu correndo.Claro que não ía deixar ficar barato, corri até ela, dei um grande abraço e voltei correndo e gritando:"Eu te abrace,ei..tu nem me abraçaaa"..e aí a gente começou uma verdadeira guerra de quem abraçava mais..bem melhor que bater no palhaço né!?
E o Ryan aprendeu a tocar Bethoven, Mozart, tudo com o pandeiro.Que talento!! E a mãe dele se divertiu em puxar meu nariz bem forte e soltar depois.Será que toda visita tem que ter isso??E o 14 de setembro foi assim.E agora eu entendo os parabéns, não eram pra mim, foi pra alguém que hoje nasceu em minha vida,que não deixa de ser eu mesmo, mas é um eu meu tão bom, que é quase um não eu.Só pra imitar o Aullan..falar difícil é tão legal.. Eu ía me esquecendo.No final quando pegamos carona na carroça da Dra tampinha e já íamos embora pelo corredor, olhei pra trás e ví que o Ryan tinha seguido a gente e vinha correndo atrás de nós, agora com os braços bem abertos.Pulei da carroça e decidi voltar para o derradeiro abraço.Quando ele me abraçou, fez um som de lamento:Ahhhhhh!!..(que pena, acabou)..nessa hora meus olhos quiseram me trair, mas não deu tempo de chorar, a Dra "Não Tenho Nome Ainda" voltou em seu cavalo branco de plástico pra me resgatar.Eu fui, mas ainda deu tempo de escutar alguém dizendo: Tchau, Palhaço!!
Lucas Tavares.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Além do Nariz Vermelho...

Eu entrei na faculdade sem saber direito como seriam esses 6 anos ou qual especialidade eu ia seguir depois de formada. Na verdade, eu sabia muito pouca coisa, mas entre tantas dúvidas eu tinha uma certeza: eu queria ser um médico diferente desses que a gente vê por aí. Desses que não nos olham, não nos ouvem, não nos examinam. Logo na primeira semana de aula, descobri que essas coisas nas quais eu pensava tinham um nome: HUMANIZAÇÃO.

Apesar de o conceito parecer bem claro na minha cabeça, eu não sabia como poderia colocá-lo em prática ainda na faculdade, ou melhor, ainda no primeiro semestre. Foi aí que apareceu o Y na minha vida e eu tive certeza de que eu poderia ser agente ativo nesse processo de humanizar. Agora, surge um novo desafio na minha vida acadêmica: Como praticar a humanização sem estar vestida de palhaço? Como ser humana atendendo em uma emergência?

Pessoas esperam horas por atendimento. É preciso ser rápido, é preciso ser eficiente. Onde está a gentileza? O acolhimento? Há pessoas alcoolizadas, ofensas, caos. É preciso se impor, é preciso se manter firme e calmo. E agora? Cadê a humanização? Cadê o Y dentro de mim?

Devo confessar que tive certa decepção, pois cheguei a acreditar que os ideais do Y não poderiam ser praticados em todas as situações. Pensei que ás vezes é preciso ser como esses médicos dos quais a gente não gosta. Mas eis que de repente, entre assepsias, anestesias e suturas encontrei um espacinho para dizer: “Boa tarde. Como é o nome do Sr(a).? Encontrei um jeito de perguntar a uma criança que chorava com medo da agulha qual era seu sabor de sorvete favorito. Um tempinho para encher de ar uma luva e fazer um balão para presentear as crianças.

Enfim, posso dizer que no fim do dia voltei para casa com o coração tranqüilo por saber que ser um médico diferente não é um sonho bobo de um estudante no início da faculdade. Os princípios do projeto Y não ficarão restritos a pediatria do HUWC, nem ficarão escondidos atrás do nariz vermelho. Seja em um consultório, em uma enfermaria ou em uma emergência, seja como estudante ou médico, eles estarão sempre comigo.
Mel (Dra Pinguinho)
Eu escrevi esse texto depois do meu primeiro dia de estágio. Queria dividir com vocês essa experYência! ;OD

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

"O meu coração estava preso às crianças, a sua felicidade era a minha felicidade, a sua alegria, a minha alegria – elas deviam ler isso na minha fronte, perceber isso nos meus lábios, desde manhã cedinho até tarde da noite, a cada instante do dia."


Pestalozzi

...mas, bem que poderia ser...

Pestalozzy

domingo, 26 de agosto de 2007

O que é o Y?

Porque precisamos passar a olhar a vida sob outras perspectyvas!

sábado, 25 de agosto de 2007

Doce Estréya


Se foi bom?
E os cabelinhos da cabeça dela
Se enrolavam iguais aos da cabeça dele
Conectados por laços sutis
Formados por um pequeno braço
E um grande nariz!

(Re)Nascymento

Já fazia muito tempo que eu não fazia visita. Eu já estava achando que a Pinguinho nunca mais ia aparecer. Mas hoje eu acordei com uma certeza muito grande de que eu devia ir lá, mesmo que fosse pra confirmar que meus tempos de palhaça haviam terminado. Cheguei no Albert Sabin e já estava quase todo mundo lá. De longe dava pra ver que eles estavam com aquele frio na barriga, aquela ansiedade boa que a gente tem antes dos momentos importantes.

Fomos levados para aquela parte que tem uma cidade de brinquedos e lá mesmo nos arrumamos. Enquanto eu me pintava lembrei o quanto eu adorava fazer isso. Os novatos me pediram idéias de maquiagem e eu fiquei feliz em ajudar a pintar aqueles rostos ansiosos.
Começamos a interagir com as crianças que estavam naquele local. Era muito palhaço e pouca criança, comecei a ficar com medo porque quando é assim eu sempre travo. Procurei um menino que estava quietinho no banco com um carro de brinquedo no colo.
- Esse carro é seu?
- É, sim.
- Você me dá uma carona?
- Hum rum.

Eu sentei ao seu lado no banco e alguns Novylhos se aproximaram.
- Eles também podem pagar carona com a gente?
- Pode.

Vários doutores-palhaços entraram no nosso carro e nós andamos fazendo o barulho do motor. Os espelhinhos que tínhamos usado na hora da maquiagem tinham virado espelhos retrovisores. Após algum tempo pedi pra parar o carro porque já tinha chegado onde eu queria descer.

Depois eu fui até a janela que dava para o bloco C (nesse nós não podíamos entrar) e vi que a janela tinha braços. “Que coisa estranha!” e tinha também cabeça. Era a Dona Janela. Não falava muito, apenas ria, principalmente quando a Dra. Cartola Joaquina prendia a mão na janela. Depois Dra. Cartola, apesar de ser muito esbelta (“esbelta é a mesma coisa que feia, né?”), ficou entalada na janela. Vários doutores foram chamados para ajudá-la.

Fomos passear no outro bloco. A Dra. que ainda não foi batizada (vamos chamá-la de Ilze por enquanto ;P) teve a idéia de fazer entrevista com os pacientes. Ilze filmava e eu, com meu microfone, perguntava aos pacientes e acompanhantes o que eles estavam achando da estadia no hotel, do serviço de quarto e se os companheiros de quarto roncavam. Encerramos a nossa transmissão “Ao vivo do hospital Alberto Sabido, Dra. Pinguinho, Boa Tarde!”

Mais tarde, uma enfermeira chamou eu, Ilze e Dra. Cartola pra entrar no bloco C, onde tinha uma menina que não queria deixar que colhessem seu sangue. A gente entrou no bloco, mas não podia entrar nos quartos. Ficamos no corredor fazendo brincadeiras na frente das janelas. Ilze, olhando pro seu reflexo, disse: ‘Olha, ela ta lá dentro. Não pode!”. Nós três ficamos brincando com aqueles palhaços teimosos, que não obedeciam quando a gente mandava eles saírem, mas ficavam imitando nossos movimentos. Depois, já com muita fome, fomos ao balcão do posto de enfermagem pedir nosso lanche: pizza, sanduíches, sucos e refrigerantes. A enfermeira anotou tudo e mandou a gente esperar. (Infelizmente nosso pedido não chegou)

Um outro momento legal foi com a Dra. Metidinha. A gente brincava com a boquinha que ficava mordendo o dedo e o nariz das pessoas. Dra. Metidinha sentia cócegas com a mordida no nariz e as crianças, principalmente as pequenas, adoraram.

Hoje foi especial. Eu queria parabenizar os Novylhos pela excelente estréia (Vocês foram ótimos!) e também agradecer, por que o nascimento de vocês fez a Pinguinho renascer.

Mel (Dra. Pinguinho)

sábado, 18 de agosto de 2007

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O Amor que cuida daqueles que precisam do nosso amor

O dia exato? Não sei... acho que foi 13 de junho. Já faz mais de um mês e, por isso, eu tava quase desistindo de escrever este depoimento. Mas foram tantas as riquezas que a visita desse dia trouxe ao meu coração, que eu não as posso guardar só pra mim. Tenho certeza de que minha memória vai falhar em relação aos detalhes dos acontecimentos, mas a essência da lição que aprendi nesse dia com certeza virá à tona, pois ela é tão simples e tão linda que eu jamais a esqueceria.
Pois então, era uma quarta-feira como as outras, hora do almoço, correria, de tarde ia ter aula... Mas fomos nós 3, Dra Fulô, Dra Lalyta e Dra Fuynha visytar as crianças.
O caminho até a pediatria estava sendo animado, nós estávamos à vontade, mas não me recordo bem de cada coisa que aconteceu. Só me lembro direitinho do momento em que, já na pediatria, as palhacinhas perceberam uns pedaços de isopor jogados no chão. Acho que tinham sido usados pra proteger uma geladeira nova... Mas, enfim, o importante é q um deles tinha o formato de uma TV, daquelas antigas, com um buraco grande e quadrado para ser a tela e um espaço ao seu lado, onde ficariam os botões para mudar o canal. Logo surgiu a idéia de fazer um canal de televisão, mas, no vai-e-vem dos jogos de clown, a gente acabou deixando a televisão de lado.
Muito bem, fomos aos leitos e brincamos muito com muitas crianças, elas estavam bem receptivas e nós estávamos muito livres.
Bem, o importante é que havia um leito no qual não podíamos entrar. Já quase na hora de ir embora, passamos em frente a ele e lá dentro havia um garoto que estava cheio de vontade de sair e ir brincar com a gente no corredor, mas que foi barrado pela sua mãe. "Não pode", disse ela. E os olhinhos dele ficaram tristes... :(
Eu já o conhecia, apesar de não saber o seu nome. Ele já estava internado no hospital há bastante tempo e sempre foi um garoto esperto, cheio de energia. Ele brincava por todo o corredor, correndo atrás de nós, inventando jogos e mais jogos, e sempre com seu abdómen globoso, elevado, indicando que havia algo errado com seu corpo.
Ficamos tristes tb ao ver q ele queria brincar, mas ñ podia. Naquele momento de impasse, sem saber o q fazer, veio a interna e nos disse q ele realmente ñ podia entrar em contato conosco, pois havia sido submetido a um transplante hepático e estava tomando imunossupressores.
Foi então q nos veio à lembrança a televisão, ou melhor, a tevelisão!!!!!!!!
Tudo, a partir daí, começou a ser mágico!!!!! Fomos buscar o isopor e o colocamos na janela de seu leito (a qual é toda fechada e de vidro transparente, barrando o contato, mas não a visão nem o som). Começamos com um programa de entrevistas apresentado pela Dra Lalyta, e logo fomos a um programa de música, depois a um de ballet (ops! mas ele é menino, não menina), então passamos a um jogo de futebol... Tentamos tb fazer as propagandas... E era ele quem mudava os canais, conforme queria ou conforme sugeríamos. Todos ao redor assistiam com admiração e tb participavam!!!!!!!! Foi simplesmente maravilhoso! Os olhos dele brilhavam de encanto!
Na hora de ir embora, pedimos, autorização para levarmos a tevelisão à palhaçolândia. E, no caminho de volta, a Dra Fuynha foi fazendo entrevistas com as pessoas que passavam e as apresentava em seu programa. Ah! Elas tb mandavam beijo pros parentes q as estavam assistindo em casa!
Foi engrandecedor!!!!!!!!! Tanta liberdade!!!!!!!!!! Tanta alegria!!!!!!!!!! Tanta certeza de estar sendo importante para fazer o outro sorrir!!!!!!!!!!!!!
Mas o q mais me marcou nisso tudo e o q mais me impulsionou a escrever este relato foi o comentário da Elaine (a Dra Lalyta) já na sala do Y, já sem maquiagem e já indo embora. "Nayan, vc percebe como as coisas são? Como as coisas q têm q ser são? Por que a gente encontrou aquele isopor? Não foi coincidência... Vc entende? Não é?"
E essas palavras trouxeram ainda mais alegria ao meu coração, pois trouxeram sentido pra tudo aquilo q tínhamos acabado de viver... E eu tive, mais uma vez, certeza de q o Amor realmente existe, zela por nós e nos utiliza como instrumentos para cuidar do outro. Se estamos disponíveis a doar o nosso amor e tomamos essa decisão livremente, o Amor conduz o nosso amor aos corações que necessitam de carinho e de atenção, preenchendo-os. Louvado seja o Amor, q nos consola, q nos dá sentido e q faz novas todas as coisas!

A frase q ñ saiu da minha cabeça em nenhum momento daquela tarde foi: "Eu sou felyz porque eu sou palhaço!!!!!!!!!!!!!!"
Nayan Cristina (Dra Fulô)

domingo, 8 de julho de 2007

Essa vai para os no vYlhos sentirem um pouco do estranhamento que sentimos ao iniciarmos as visitas !
>> Quarta-feira. 22/11/2006
Foi um dia de reflexão. Foi a primeira vez que eu entrei no HU de jaleco, como Daniella e não como dra. GasguYta.Passar pela roleta da entrada sem a preparação física e psicológica característica da entrada da paYaça, ver toooooodas aquelas pessoas sentadas esperando e não poder (ou ter vergonha de) brincar, subir as escadas, descer a rampa, subir mais escadas, sempre andando muito rápido quase correndo, atrás da professora que , como ambulatório lotado , queria chegar logo. Foi a primeira vez que eu entrei no HU como estudante de medicina, mas senti no fundo do coração a dra. GasguYta pulsando, doida para gritar um "AIIIII !!! ". Penso que isso reflete um pouco do trabalho de humanização e dedicação que realizamos. Talvez nós, principalmente os novatos, que ainda estamos em fase de experimentação de sentimentos e situações novas, não tenhamos ainda muito claroo quanto o palhaço é parte de nós. Essa ficha caiu em mim nessa quarta-feira. Daí , fui para a visita. Foi um dia especial, fomos em 5 !!! Os jogos surgiram, usamos o estetoscópYo para mostrar às crianças o som do próprio coração (Será que pelo menos uma delas já sabia pra quê serve aquele colar esquisito que o doutor usa e encosta no peito dela ???), brincamos de balão, de examinar a Barata/Formiga/Joaninha do Eugênio, de operar o nariz da dr.a Gasguyta.... O Victor estava se sentindo um médico, colocando o estetoscópio no ouvido da dra. Gasguyta e fazendo-a escutar seu coração. A cada "tum-tum" que a palhaça transformava em careta ele abria um sorriso tão lindo que escondia o lábio todo ferido. Aquela risada gostosa junto com o brilho nos olhos a paYaça nunca vai esquecer. E ao final da visita, chega um pedido (infelizmente não lembro o nome da criança): " Ei quando vcs vierem de novo, traz o TELESCÓPIO !" . Gasguyta,Lalita e Junim se entreolharam com ar de interrogação.... Mas que telescópio ?!?!? , perguntaram-se os palhaços. Quando daí chega o Victor trazendo na mão o tal telescópio, que nada mais era do que o estetoscópio !!! "AAAAAAAAAAAHHHHhhhhhhh !!! O telescópio !!! " , disseram os palhaços, "pode deixar que a gente traz de novo!" . Foi um dia especial. Nunca vou esquecer.

domingo, 17 de junho de 2007

Fylosofya

Os gregos antigos, mais particularmente a corrente estóica, acreditavam que, ou chegaram a conclusão de que o mundo era harmonicamente organizado, no que deram eles para chamar essa estrutura coerente, harmônica de, diferindo do caos, cosmos!

Daí vem a palavra cosméticos.

Toda a filosofia estóica utilizava-se da razão, pois a razão conhece o que é racional pela identidade e pela identificação das naturezas, para conhecer a totalidade harmoniosa do concerto universal cheio de uma razão de ser. Talvez a dissecação de primeira vista mostrasse só confusão. Semelhante a quando estudamos um assunto pela primeira vez, informações difíceis, necessitando revisão. Mas a análise meticulosa e a busca incessante faziam com que se enxergasse esse todo belo, esse todo justo, esse todo cósmico, além das aparentes feiúras, injustiças, por trás do aparente caos.

Eu disse belo e volto a lembrar dos cosméticos.

Mas é possível encontrar uma falha nesse sistema de pensar. É uma falha que vem de um certo vício de pensamento. O amor pela ordem, pelo belo, pelo justo, pela harmonia era tão grande que nada impede que o sistema de pensamento criado para explicar o mundo e deixar essa harmonia visível, compreensível fosse um sistema viciado. Para os olhos de quem ama o belo, tudo ele quer que seja belo, em tudo quer ele encontrar o belo, e quem sabe ele não entre numa paixão, maquiada de razão, que venha a encontrar o belo onde não exista de fato.

Maquiada, eu disse. Volto a cosmética.

É o que a cosmética faz. Ressaltar a beleza de um rosto? Esconder as espinhas e os cravos, as manchas e certas dissimetrias!

O palhaço revoluciona nesse aspecto. Porque nós utilizamos uma maquiagem no sentido contrário do cosmético. Não, não é contrário. Mas diferente. E quero que vocês percebam que é o mesmo fim.

É da nossa filosofia ressaltar o que há de ridículo no mundo e em nós. Nossa maquiagem tem de ressaltar o que nos é defeituoso e, por isso mesmo, engraçado. Nossas roupas e nosso jeito também. Mas cultivamos uma arte que pretende fazer isso de forma bela. Contraditória por si mesma. Ressaltar, ampliar, exagerar o feio da forma mais bela que possamos fazer, para, no caso Y, chegar também ao belo. Porque não há nada mais belo do que relativizar o feio do hospital para fazer curar o sorriso de uma criança.

Então, na verdade, acho que a cosmética é uma corrupção do ideal estóico. O Y tem mais a ver com esse ideal. Porque a nossa cosmética trabalha exatamente com o feio, mas que dentro de um contexto maior, torna-se harmonicamente belo. Não disfarçamos nossas verrugas, as transformamos em graça, nos expomos e enfrentamos o riso debochado de todos os outros. Miramos aquele sorriso pequeno que nos enche de um êxtase, um momento de graça. Eternizamos aquele presente da visita.

Mexemos com o Amor.

Allan Denizard

domingo, 27 de maio de 2007

Nossa médya

Fazemos parte de um projeto em que periodicamente nos deparamos com a tarefa de divulgar quantas pessoas beneficiamos no ano. O olhar matemático facilitaria as contas, ou não.

Primeiro, quando foi para o projeto ser aprovado na coordenação do curso, tívemos que fazer uma projeção de benefício: quantas pessoas beneficiaríamos. Para um cálculo simplório, pegamos o número de leitos em média ocupados na Pediatria e multiplicamos por 4, levando em conta que cada criança passa, novamente em média, 1 semana no hospital. Esse valor é colocado no campo das pessoas beneficiadas e acrescentado por mês. Então, por exemplo, se são 12 leitos (sempre) em média, multiplicamos 12 por 4 (porque os meses têm, por assim dizer, em média 4 semanas) e teremos 48 pessoas/mês beneficiadas.

Mas não é verdade. Porque a média não existe. Percebe? Média é uma abstração. E na média não há graça, porque não há variação caótica, daquela que faz a regra mudar de sentido, gerando um estranhamento e um riso. Não há Y na média. Sem riso, sem graça, sem verdade. Porque a verdade das pessoas beneficiadas pegaria os funcionários que cuidam da limpeza do corredor e dos quartos, pegaria os auxiliares da enfermagem, os estudantes que por lá passam, os profissionais diplomados. Mas nem sempre e nem todos, porque há dias que não se pega ninguém, e há dias que alguém não está afim de ser pegue. Há uns que um dia são e outros dias não, pela própria vontade e pelo próprio contrário da vontade. E para ver como a média que nos pedem é cega, falo ainda de outras entidades que deveríamos contar, e que talvez até contemos e coloquemos no papel, mas que também não contamos muitas vezes e elas estão tão presentes: as mães. Porque não há crianças sem mães.

Claro que devemos contar e é por isso que às vezes contamos, ou melhor, algumas delas contamos. Porque o Y é tão surpreendentemente fora de um olhar mediano que há no Y mães beneficiadas que não são mães de hospital, não em média. São as mães dos próprios Ypsilonianos. E pais também.

Fico pensando porque uma mãe sairia de seus afazeres do dia para nos ajudar a desenhar palhaços e confeccionar lembrancinhas. Mas aconteceu. E perder boas horas do dia fazendo um desenho grande de uma menina soltando bolhinhas, tudo para que enfeitássemos uma nossa salinha. E os pais que “paitrocinam” os devaneios nossos.

Uma mãe vê o filhinho dela indo pra faculdade e ela pergunta o que vai fazer, e ele diz que vai brincar com as crianças, de palhaço. Ela olha desajeitada pro marido e fala o que ela vai fazer e o pai diz: “Deixe ele brincar. Não teve infância. Chamamos ele para a responsabilidade cedo demais.” E eu não sei, mas eu bem acho que aquele pai tinha um certo carinho pelo palhaço daquele filho Y. Era um beneficiado também.

A média não vê esses pais, essas mães. Não podemos registrar isso em nossos resultados. Há muita coisa que acontece no mundo que não podemos provar, mas que a gente sabe que existe. Como colocar isso de forma inequívoca pro mundo?

Sim, porque há aqueles que olham para esses relatos e dizem que é invenção, que é mentira. Mentira são as médias que dormem certinhas em fila nas gavetas por aí. Muito bem organizadas nas organizações. Como se a vida não fosse um monte de páginas diferentes, irreprodutíveis de próxima-página incerta.

Então me deixe colocar assim no campo de pessoas beneficiadas:

Às vezes 26, outras 31,7 - vírgula sete porque teve uma que não foi beneficiada por inteiro. Sendo alguns dias 1, mas pense num 1 bem beneficiado! Coloque em mente, contudo, 25, se preparando para que sejam 40. Melhor então deixar uma incógnita variável “x”, digo, melhor dizendo... eh... “y”. Pronto:

Allan (Dr. Acerola)

quarta-feira, 23 de maio de 2007

PERSONALYDADYS NA SEMANA DE ARTE MÉDICA

Dia: 29/05 (terça) e 01/06 (sexta)
Horário: 12:30 às 14h
Local: CA XII de Maio
Mediadores: Integrantes do Projeto Y e do CA XII de Maio
Biografado: Janusz Korczak “O BOM DOUTOR”
O Projeto Personalidydys trabalhará, adivinhem! personalidades que contribuíram decisivamente para o crescimento humanístico de nossa civilização. A princípio proporemos personalidades médicas, o que não fecha para inserção de indivíduos não-médicos. Começamos a falar superficialmente sobre o que tratará o projeto só para justificar a participação do Projeto Y nessa empreitada. Sendo o Y um projeto que visa enriquecer a visão de mundo dos estudantes da área de saúde sobre a relação médico-paciente, dando exemplos através da relação palhaço-criança das expansões que podemos ter enquanto seres relacionais, nada mais proveitoso para nós do que espalharmos ainda mais exemplos concretos de médicos que lutaram por uma medicina mais digna em termos de doação para o próximo.

Sobre o Janusz Korczak:

"Meu primeiro encontro com a obra de Janusz Korczak (1878-1942), pseudônimo de Henryk Goldshmid, pediatra e educador polonês, deu-se no início dos anos oitenta, motivado pela crítica que alguns pedagogos faziam à amorosidade na educação. Diziam, ironicamente, que "quem sabe, ensina, e quem não sabe, ama". Defendendo uma posição contrária a esse desvio tecnicista, fui buscar argumentos na história da educação. Foi quando entrei em contato mais de perto com a obra de Korzcak que valorizava o papel da afetividade na educação e na construção do conhecimento." Moacir Gadotti*

* Moacir Gadotti, nascido no Brasil em 1941, educador e filósofo, é professor titular da
Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire. É doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra (Suiça). Escreveu diversas obras no campo da filosofia da educação, publicadas em várias línguas. Entre elas destacamos: Reading Paulo Freire e Pedagogy of praxis, ambas publicadas pela SUNY Press de New York.

prepare-se ...


quinta-feira, 17 de maio de 2007

do fundo do baú ! ++++

Na porta do hospital:

Tampynha: Deixa eu me arrumar!

E, olhando concentrada para o reflexo do vidro, vê uma mulher: Olha! Como estou bonita!

A mulher sai do hospital e tampa se assusta: Eita! É o meu reflexo...saiu do espelho!

Com a mulher, vinha um minininho...

Acelora: Olha! E o meu relfexo também! Tudo bem, meu reflexo??

E a brincadeira vai se desnrolando...

Os palhaços adentram!

Acelora vai cumprimentando tds que vê pela frente... Tampa começa a cantar uma música para uma mulher: Que bonita a sua rooooupa! Ela é mt engraçadiiinha! Que bonita a sua roooupa! Ela é mt beeeela! (mais ou menos isso...o importante é mostrar q no fim não há rima alguma...;P)

Então Acelora: Vaalha! Sabe rimar não a bichinha né?!
O homenzinho da recepção confirma...

Tampa: Ahn?! Remar?!
Acelora: Rimar!
Tampa: Errr...sempre quis saber remar mesmo..é assim? (gesticula como se estivesse remando)

No salão de espera:

Tampa entra fazendo gesto de remo...
Acelora: Nooossa! Quantas pessoas! O que é? Aqui vai ter aula de rimar é?
Pessoas confirmam...

Tampa: Oba! Vcs esperam o professor é? Pois saibam que ele rema mt bem viu?! (apontando pro Acelora)
Alguém fala: É ele o nosso professor!

Tampa: Ohhhh! Mesmo?!

A palhaça corre pra uma cadeira: Pois tá prof! Pode começar a aula!

Acelora: Tá...err...Boa tarde!!
Tampa se levanta empolgada: Booowa taaaaaaarde querido professoooooor!

Acelora: Ok! Então...repitam comigo!
E vai dizendo frases que rimam e Tampa sempre muda no fim pra nao rimar...teh q dá certo...

A caminho da pediatria:

Tampa não sabe as direções a seguir e Acelora tenta conduzir, o que gera mais confusão, inclusive pra quem aparece pelo caminho...

Maluco aparece!

Acelora: Malu!
Maluco: Não é Malu! É Maluco!
Acelora: Ah! Malu o que?
Maluco: CO!
Acelora: Ahhh! Malu...
Tampa: CO!

Maluco se irrita...

No corredor pra pediatria:

Acelora entra na cozinha que tem no meio do corredorzinho...: Geeente! Que cheirinho forte que tem aki neh!

Tampa: hmmm...err...to sentindo nao...to com o nariz entupido...

Acelora: vixe...ai é? a senhora por acaso tem alguma coisa que desentupa o nariz dela?
A senhora que limpava a cozinha negou...

Acelora insiste em procurar...até que maluco entrega um desentupidor de pia pra ele...

Acelora: Ahhh isso deve resolver...venha cá Tampynha...
Tampa reluta um pouco...

Acelora: não vai doer...
E aperta fortemente o desentupidor no nariz da tampa e puxa...

Mas pra compensar a eficiência do descongestionamento, Tampa tem um "pire-pake"...não consegue se mover...seus pés colaram no chão...

Daí a confusão é grande...mas a tampa consegue se curar antes de chegar à pediatria...ficam apenas alguns tremiliques (o que é normal... )

Na pediatria (enfim...):

Após algumas traquinagens, os palhaços avistam crianças no refeitório, uma delas a desenhar...

Acelora pede licença e senta na mesa onde o menininho desenha...

Ivana aparece: O que é isso?! Não pode! Vai quebrar a mesa!

Acelora: Ai é? Em cima não pode? Então tá!

Ele, então, vira a mesa, que se transforma em um automóel super-potente...

Acelora vai dirigindo (arrastando a mesa) até que tampa, destacando o seu nariz, põe-se à sua frente: Sinal vermelhôôô!!

Acelora pára e qd já está impaciente com a demora, surge maluco com sua camisa cor de limão: Sinal verdeee!!

Acelora continua e pergunta se alguém quer uma carona.

Tampynha logo se prontifica: Eu queeero uma CARONA! (gesticulando uma cara bem grande)

Acelora: Tá! Demos então uma carona pra tampynha.
Ele desenha a cara, prega na mesa e entrega pra palhaça, que, "morta" de feliz, dança com a sua tão sonhada carona.

Tampa se satisfaz e volta ao normal, então Maluco vai arrumar a bagunça que os outros 2 fizeram...

Coloca a mesa no lugar e começa a empilhar todas as cadeirinhas em cima dela...(grande expectativa pra não cairem as cadeiras...)...mas no fim...TCHANRAM! cadeiras organizadas! (ou nao... )

Passa um tempo e, por algum motivo, tampa cai...o que é raro...

Ao tentarem levanta-la, os palhaços criam mais uma confusão, em que não se pode mais identificar quem é quem naquele engodo de palhaços no qual só se vêem 3 narizes vermelhos...Quem chegasse por perto entrava na brincadeira tentando auxilia-los...

Problema resolvido! E os palhaços saem do refeitório...

No corredor, um menininho vê uma elevação no bolso do Acelora: um nariz...agora roubado! E Acelora, guiado por outro menininho, que, da porta de seu leito e sentado em uma cadeira de rodas, observava todos os movimentos do "ladrãozinho", corria do refeitório pro corredor e vice-versa, na tentativa de resgate do precioso nariz...Os outros palhaços o acompanhavam...palhaço pra cá...pra lá...colisão de palhaços...alguns torciam pelo resgate...outros pelo "meliante"...era uma brincadeira de polícia e ladrão...^^

Qd Acelora finalmente está conseguindo seu objetivo, o perseguido já havia passado o nariz para outro pequeno companheiro...era o menininho do isolamento! De máscara, ele coloca o nariz, e o aperta: FOOOOON!!! Aquele som estimula os palhaços de forma que a cada vez que o ouviam surgiam, involuntariamente, movimentos irregulares em seus corpos...(sim! Memórias do Corpo! )...tds ao redor riam muito!

Mas nessa "dança", eis que algum dos narigudos se entrelaça com uma das cordinhas com bandeirinhas que enfeitava o corredor e a arranca! E agora?

Enquanto Maluco servia provisoriamente como "pregador", Acelora e Tampa pedem ajuda à "Abacaxi Frito com caramelos encaracolados por cima", como eles denominaram uma funcionária...é o f im de mais um problema...

Um momento difícil:

No primeiro leito, tampa vê uma mãe com uma bebezinha nos braços...pergunta: errr...posso me aproximar?

A mãe: Ela num tá mt bem hj...

Tampa: ahhh...então vou cantar aki uma muzguinha ta?!

A mãe calada...

A muzga começa, acompanhada de uma "dança" tampinhística ...

"Sou viiivo mas não tenho corpo!
Por iiisso é que não tenho forma!
Peeeso eu também não tenho!
Não tenho cor!

Qd sou fraco...
me chamo brisa!
E se assobio...
isso é comum!
Qd sou forte...
me chamo vento!
Qd sou cheiro...
me chamo...

E Tampa pede pra mãe completar...

Mãe: eu tô preocupada...

Tampa pára um segundo e diz...

É?! Mas num se preocupa não...num vou soltar aqui não viu? Hj não tem perigo não viu?! Num se preocupa não...



Não se preocupa...



Beijõezinhos, narigudinhos!!!

terça-feira, 15 de maio de 2007

do fundo do baú !

* Tampinha cantando o que mandam
Tampinha: Vou cantar! Mas primeiro preciso fazer meu exercício vocal.
Tampinha fica enrolando...
Pinguinho: Canta logo Tampinha!
Tampinha: Logo tampiiiinha, logo tampiiiiinha, logo tampiiiinha.... Eu não quero cantar essa, eu quero cantar outra
Pinguinho: Então canta o que vc quiser Tampinha
Tampinha: o que vc quiser Tampinha, o que vc quiser Tampinha, o que vc quiser Tampinha...
E por aí vai... até Tampinha cantar: "a saideira Tampinha" ou até perder a graça =P

* Tampinha travou

Tampinha pede ajuda porque está caída no chão travada. Pinguinho vai ajudar, mas não consegue. Puxa uma perna, ela levanta outra, segura um braço ela levanta o outro (deu pra entender?) A gente "convoca" (estávamos no clima do jogo do Brasil) as crianças pra ajudar e elas participam. Tampinha só consegue destravar quando ela solta um pum. Mas... ela também sujou as calças, então Pinguinho e Malu pegam todo papel disponível na Pediatria pra conseguir limpar a sujeira, mas nunca é suficiente. Então concluimos que só um banho resolveria o problema (e devolvemos o papel)

* Contar histórias

A gente leu pro Fabrício (que tava em isolamento) o livrinho da cachinhos dourados. Foi muiiito improvisado, mas foi até legal, só que o Fabrício tava passando muiiiito mal naquela hora, então ele ficou bem quietinho.

Acho que foi isso... Marília e Junin, se lembrarem de algo, completem!

Sobre a visita de sexta, que eu fui pra ajudar dois palhacinhos solitários e acabei sendo maltratada, judiada, espancada, humilhada, pisoteada pelo Dr Zinho e seus discípulos... bom, acho que eu já disse tudo né? Não satisfeito em maltratar sua pobre aluna, Dr. Zinho ensina às crianças suas maldades. Poooobre Pinguinho... e o pior (ou melhor) foi que as crianças gostaram e mandaram-na gente voltar no dia seguinte. =P

Beijos procês (beijo não que isso não é coisa de macho! Aperto de mão caras!) ;) Huehueheuh

domingo, 13 de maio de 2007

Nem todos

Temos o costume de olhar para as criancinhas doentes e nos cobrir com um sentimento de piedade ingênuo que faz com que uma cabeça pelada seja vista com auréola e uma roupa de hospital como um vestido branco e, do nada, asinhas.

Não são anjos. Nenhuma delas. Poderão vocês encontrar uma aqui e outra ali que tenha um sorriso mais simpático, um jeito de falar mais manso, conquistador. E o resto vocês rejeitarão, porque são mal educadas, porque são revoltadas com a sua dor. Mas nunca devem ter parado pra pensar que o tal sorrisso simpático é simpático exatamente porque é conquistador. Às vezes, não digo sempre. Tolice minha entrar nas generalizações, se é delas que esse texto tenta fugir.

Dou exemplo de uma carequinha. Fui ver a atuação de um palhaço de hospital no Instituto do Câncer. Enquanto ele brincava com algumas, outras me chamaram para jogar dominó. Uma delas era linda e tinha pose de rainha. Devia ter uns cinco anos, ainda com bico na boca, segurava as peças de dominó com jeito de profissional, olhava para as peças com jeito de vencedora, falava os jargões do jogo com toda uma exeperiência, me dava ordens alertando ser minha vez com toda uma autoridade, e ganhou de mim uma vez rindo com todo um deboche. De bico! Tudo bem, diriam que a pobre era um papagaio dos adultos, mas por ser papagaio já provo que não era um anjo, embora também tenha asas.

Encontramos vários exemplos de crianças não-anjo. Uma tinha uma barriga doente, cheia de líquido, pardacenta, cabelos quebradiços. Por vezes a encontramos xingando o pai de palavrão impróprio de figurar por aqui. Outras vezes ela estava arredia, triste, deitada de lado. E, de todas as crianças da enfermaria, ela era a mais velha e a que mais tinha passado tempo por ali. Então vem o senso comum e o julgamento da caricatura e diz que ela é revoltada, difícil de abordar, chata até. Melhor ficar com a outra, quietinha, aberta, pródiga de sorrisos. Mas é preciso ter mais tempo de contato com uma imagem para perceber que ela tem movimento para além de nossos quadros. Foram necessários uns três meses e uma morte para saber o verdadeiro valor daquela criança na enfermaria. Doença resistente levou o pequeno a óbito e deixou todos em luto – todas as mães se irmanam na dor da perda de um filho. Percebemos na visita a instabilidade de algumas crianças de casos crônicos. Então vem a especulação dos motivos. Seria por que elas tinham se achado mais perto da morte? Teriam percebido que aquele era um lugar onde se poderia morrer do motivo que os levou até lá? Talvez. Mas, quem diria que as crianças estavam se sentindo mais desamparadas porque aquele que tinha morrido, antipático, era quem dava mais proteção e força pra elas no hospital.

Pestalozzi, educador infantil que viveu no século XIX, foi um dos primeiros a adotar o sistema que hoje conhecemos como monitoria estudantil dentro de seu educandário na Suiça. Ele elegia jovens que se destacavam, porque entendia que quanto mais perto das crianças em idade e tamanho, mais elas se abriam sem medo e vergonha. Ele utilizou esse dispositivo pedagógico com muito mais intensidade do que as escolas utilizam hoje e seu sistema de ensino, por essas e outras coisas (como pela besteira – diriam alguns – de falar que não pode haver educação sem a.m.o.r – suas crianças o chamavam de pai) seu sistema foi considerado revolucionário.

Nada mais exemplar. O menino que veio a falecer era o mais velho dali. E junto com as marcas de sua infância, tinha as da dor e do hospital. Seu currículo estava bem tatuado em sua pele, sendo ele o mais gabaritado para ensinar aos outros companheiros de enfermaria, passar a confiança que os pedagogos passam, guiar os colegas nos caminhos da dor. Educa-dor.

Devo ressaltar que ele era bem mais amigo da Dra. Chiquita, que é uma das brancas (tradução: palhaça chata) mais brancas que existem no Y. Ela poderá falar mais sobre ele se vocês a encontrarem, mas talvez nem fale, porque provavelmente ela lhes esnobem. Nem todos os palhaços são só risos, também. Mas essa é uma outra história.

Allan (Dr. Acerola)

na visita do dia das mães ...

- Ei, ei ... o que tem no seu coração ?! - Dra. Lalyta fazendo o exame clYnYco pergunta .
- Amor, amor ... - o Abraão responde .

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Suco de KIKAR

SUCO DE KIKAR

KIKAR é uma fruta mágica que existe na PalhaçolandYa.
Ela é usada pra qualquer coisa: Pra encolher, pra fazer crescer, ficar forte, emagrecer, ficar contente, desaparecer. Faz a dor de barriga passar, faz você pular bem alto, e dançar sem parar, sem ficar exausto. Já foram descritos até casos de que pode fazer alguém por você se apaixonar. Mas o efeito mais importante de todos é fazer as pessoas ficarem FELIZES. Tão felizes, mas tão felizes, que qualquer dor, coceira, impingem, preguiça, tremilique, sono, piripaque... desaparecem quando você toma suco de KIKAR. Só não cura feiúra né, mas até que melhora, afinal, mesmo o Dr. Zão pode ficar “engraçadinho” sorrindo! Pra quem não conhece, a história é assim: (Em cima tão os acordes pra quem quiser tentar tocar)

G Em Am D
A arra não posso acreditar
G Em Am D
Como é que tu não sabe o que que é suco de KIKAR

G Em Am D
A arra eu vou te ensinar
G Em Am D
Descubra o poder que tem o suco de KIKAR

G Em
Na hora de jantar
D
Depois de almoçar
G Em Am D
A gente tira o gosto com o suco de KIKAR

G Em
Se você tá com dor
D
Não para de coçar
G Em Am D
É só tomar um gole que isso tudo vai passar

BIS

G Em Am D
Estica encolhe teu corpo fica mole
G Em Am D
Tu começa a pular tomando suco de KIKAR

G Em Am D
E quica e quica e quica sem parar
G Em Am D
Você pode curar tomando suco de KIKAR

Os Drs do Projeto Y até que tentaram trazer esse suco para a terra, mas a repressão exercida pelos laboratórios farmacêuticos acabou por sufocar as suas tentativas. Sorte que essa fruta é transparente, e os palhaços (palhaços, que palhaços?) sempre andam com seus tubinhos com um pouco de suco de KIKAR para dar para os casos mais sérios de tristeza aguda. A via de administração é oral, por bolhas que parecem aquelas de sabão, e a posologia para adultos e crianças é a mesma: O quanto for preciso para exacerbar sorriso do paciente. A overdose pode acontecer, mas não é tóxica. O único efeito colateral que pode apresentar é riso frouxo. Mas isso não é problema para os Drs Y, afinal temos especialistas em “aumentar isso”... =O]

Dr. CenÔra

sábado, 28 de abril de 2007

Água Viva

"Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede, para sempre; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna." Jesus

Fui convidado certo dia a levar o Dr. Acerola para entreter um grupo de crianças num dia de festa em suas homenagens. Costumamos rejeitar esse tipo de papel, porque não somos palhaços de festa. Esse tipo de palhaço comanda um amontoado de crianças, organiza a indisciplina em que elas poderiam se transformar para se livrar do tédio ou para reagir ao chamado das muitas outras crianças que são poços de possibilidades de brincar. Quanto mais possibilidades fora do nada da mesa dos pais, mais cheia de diversão a festa, mais aversão dos adultos a esse correr e virar a festa ao avesso. Então, se contratam palhaços para conterem as crianças com suas brincadeiras organizadas, com sua equipe que chama a atenção, com seus brindes que prendem e, muitas vezes, segregam – vitoriosos e perdedores. Não chamem o Y para festas!

Fui convidado e aceitei. Por quê? Primeiro, porque não era uma festa propriamente dita. Era uma confraternização em um parque, um imenso parque. Segundo, porque eram crianças pobres do centro da cidade, assistidas por um punhado de voluntários que pelejavam por ensinar valores morais que as transformassem, senão em cidadãos, pelo menos em decentes marginais. Terceiro, porque era desafiador e um dos meus analistas tinha dito que o melhor remédio para o medo é o risco, faz-se angústia. E a angústia é gostosa.

Enfrentei um baita embrulho sem saber o que ia fazer com os pequenos. E, em frente do horizonte de ter de enfrentá-las, as crianças, muitas e soltas, comecei a pensar em brincadeiras que pudessem entretê-las – o mesmo pecado em que incorrem os palhaços de festas. Falei na noite anterior dessa minha angústia para um amigo que não viu nada demais em brincadeiras organizadas e achou desmedida a minha preocupação com o ideal de liberdade e contravenção do clown desorganizador. Pensei em algumas brincadeiras e graças a Deus o parque era a prova delas.

Chegando lá a primeira coisa que houve foi a dispersão na medida do crescimento da minha dúvida de que eu tivesse alguma função ali. Já haviam me anunciado como participante de um grupo que tinha experiência em animar crianças. Dependendo do significado do termo animar, eu era, o que não era talvez o mesmo significado do anúncio. Uma criança que quebra o vidro da escola com um chute numa bola de meia só pode estar muito animada. Tão animada que nem precisa de bola, uma meia aqui, outra ali, e pés descalços. Tão animada que a janela era alta e a bola foi falar com ela, sem saber muito bem a distância de um cumprimento cordial. Me odeiem por essa subversão radical, mas o Y é essa animação, pegando macas com rodinhas em pleno corredor da Pediatria para servir de automóvel em corrida. É como quebrar janelas com bolas de meia. E bufam as médicas e enfermeiras que só querem ordem, primam por ela, ganham por ela.
As crianças tão logo chegaram se embrenharam naquele verde e naquele ar que mais pareciam pássaros soltos há pouco.

- E agora? Você quer que eu chame elas para começar a brincadeira?

Mas como, se a brincadeira já tinha começado?! Ufa! Não houve cena mais linda que a daquela liberdade. E aquelas crianças com a corrida que dizia não precisar de mim para se divertirem me colocava no humilde lugar de apenas mais um membro do mundo. O Dr. Acerola veio e unitário no meio do mundo onde tudo é meio começou a encher balões e distribuí-los, junto com acenos e sorrisos e cumprimentos, pras pessoas, pras não-pessoas, pras mesmas pessoas e pras outras pessoas. Alguns olhares vieram a sua procura e o Acerola consegue sua aceitação pelos pequenos. Não os chamei. Eles vieram. Não pedi e eles me aceitaram. Ou melhor, não os chamei com as palavras de ouvir nem os pedi com as palavras de aceitar. Lembram? O Y é muito de silêncio para os que só estão acostumados a ouvir o cotidiano.

Das minhas mãos saiam balões como se fossem bolhas com a palheta no vento bom. Dos meus pés saíram carreiras porque os meninos não paravam de me perseguir. Do meu jaleco saiam rasgos porque subi nas árvores e os da terra não paravam de me puxar. Janelas quebradas e bolas de meia!

No final, águas em saquinhos de dindins foram distribuídas para os moleques. Eu quis uma e outra das boas aconteceu. A que distribuía hesitou um pouco em me dar, porque era água de torneira. Como? Aqueles meninos com quem eu passei a manhã brincando, que manhã gostosa!, podiam beber daquela água de torneira e eu, que já havia subido tanto para conseguir alcançá-los, saido da minha pequena vida de estudante de medicina, escalado as maquiagens e vestimentas do Acerola, não podia subir só mais um degrau e destemer as águas do mundo? Foi uma manhã gostosa assim como a água, que, dizem os livros de ciência, potável é insípida. Mas aquela foi extremamente potável e gostosa como manhã de brincadeira. Descia pela minha garganta leve como crianças correndo em parque e flutuava no meu estômago como balões produzidos em massa. Eu era um deles. Se as verminoses me atacariam depois, cobrando o preço daquele caótico paraíso, de que serve a medicina? Albendazol, Secnidazol, Metronidazol... para salvar esse palhaço que mais parece um pacote de dindim cheio de lembranças, boas lembranças, muito boas lembranças.
Allan (Dr. Acerola)

terça-feira, 24 de abril de 2007

visita de sexta


Fortaleza, 20 de abril de 2007.

Chegamos à pediatria por volta das 18h, já na entrada sentada numa cadeira, com um palito na boca e um olhar de autoridade estava a “dona da enfermaria”: Mikaele. E piiiii! Lalyta pegou nela e ela gritou. Piiiiiiiii! Cenora tocou e ela gritou de novo. Pi, pi, pi! Com a Marmota, Gasguyta e Fulo foi a mesma coisa ! Eita o negócio é sério mesmo! e agora ?! vamo examinar ela ?! Marmota pega o estetroscopio e dá para Lalyta auscultá-la. Hum ... sibilos ! E tunstunstuntum ! uma verdadeira percussão ! E a Mikaele ria que ria! Foi assim que começou a visita !
No primeiro quarto, alguns bbs que assustaram com o feio do Cenora ! td culpa dele ! lesmera! :oP fugimos!
Aos poucos algumas crianças foram saindo dos quartos e os paYaços se dividiram. A Mikaele , de repente puxou a mão da Marmota pedindo para ela se abaixar, pegou o estetroscópio, pegou um pouquinho da maquiagem da Marmota e pintou o seu nariz ! Sim! Ela agora era uma palhacYnha ! E agora, quem a gente vai atender ? – pergunta ela para a Dra. Marmota . Hum , vamos por aqui ! – era o quarto da Dégila e de cara começou a rir da cena. A Marmota , claro, com o seu ultramegapower óculos do poder, detectou prontamente uma patologia serYiiissima: riso frouxo! Depois de um rigoroso exame fYsico confirmou o diagnóstico . Oo minha assistente, precisamos dos serviços do Dr. Cenora, só ele sabe fazer a cirurgia para resolver esse problema! – a Dra. chama pela menina que já estava com o receituário besteirógico nas mãos anotando tudo! (detalhe: ela não sabe escrever, mas fez vários rabiscos, fingindo estar anotando as constatações da Dra). Lá se foi ela com toda seriedade chamar o Dr... Vamo, vamo Cenora, bora logo ! Crii, Crii, Croo .... pronto! Resolvido! A Dégila e a acompanhante riam bastante!
Ei ei que bom q vcs vieram ! Eu sou a Dona Avenida ! a mãe do Ruan ! hihi
Marmotinha, vc nem trouxe a linha que pedi, fiquei esperando sua visita ... - Perdoe-me Matilde ... tive alguns probleminhas na palhaçolândYa (provas na semana passada) .... – err, não teve desculpa (deu um apertozim no coração... ain arrependimento)
Enquanto isso no outro quarto... Uma barataaa !! Não uma aranha !!! Não, não ! uma, uma (a Taionara com cara de mal pensava em algo mais )... baleia ! - Baleia ?!?! E a Gasguita, a Fulô, a Lalyta , o Cenora e Marmota pulavam com medo dessa ruma de bichos em cima deles ! E as crianças repetiam e os doutores pulavam e fugiam e gritavam ... até ... até perder a graça !
A visita foi realmente cheia de procedimentos cirúrgicos ! Dra. Lalyta fez um implante de laço do braço da Débora! Uma modelo (disseram para a gente que ela queria ser modelo qd crescer) - todos falaram . E a menina esboçou um sorriso escondendo sonhos de uma criança tão linda. Ela pediu para brincar com o estetroscópio, disse que queria ser médica ! médica modelo !? ou modelo de médica!? Err .. deixa pra lá !Deu para reparar a dificuldade de socialização dela com as outras crianças. Insistimos para ela tentar levantar (na reunião de casos clínicos da semana passada pediram que estimulássemos ela para perder o medo de andar) , em alguns momentos reparamos que ela sentia-se tentada, mas o medo a fazia deitar novamente. O medo , sempre ele ...
Enfim ... maYs uma das aventuras desses paYaços ... dp de uma intensa semana de patologia, imuno, necropsia ...voltamos maYs saudáveis de lá ... revigorados ... mays perto de Deus ?
mYssao cumprYda !
valeu Dra. Fulo. Dra. Gasguyta, Dra. Lalyta Lalynha e Dr. Cenora!


abraçooo

Dra. Marmota

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Vai dar tudo certo !



(essa vai especialmente para mia !)


Das utopias


"Se as coisas são inatingíveis ... ora!

Não é motivo para não querê-las ...

que tristes os caminhos

se não fora a presença distante das estrelas ! "


Quintana



Que o nosso grupo permaneça sempre unido !
obs: fotinha da despedia do aullan ! em frente ao hu !

domingo, 8 de abril de 2007

Ouçam baixinho

Sem muito o que falar, depois de ter ouvido muito a música do Y feita pelo Johann, quis dizer uma coisa...

Às vezes eu quero ficar calado sobre o Y. Como a manter um segredo. Porque é como dizer que vi um anjo. Poucos acreditariam. As pessoas acreditam em números, em arranha-céus, em fábricas. Nada de anjos. Tenho vontade de falar Y sussurrando. Às vezes nem eu mesmo acredito que ele existe. Nesse mundo normal ele não existe mesmo. Mas tem um mundo além, que ultrapassa essa luta do dia e da noite, onde o sol parece encontrar a lua, onde a nuvem parece encontrar a terra, parece ser a nossa terra, onde são outras as palavras... Pronto! É isso. Quero ficar calado sobre o Y porque talvez no silêncio eu possa dizer pras pessoas o que ele é. Tudo que tem entre mim e meu palhaço, entre ele e uma criança. Porque eu não sei cantar, não sei fazer melodias. Se eu soubesse não conseguiria falar Y no seco. Então talvez seja por isso que quero falar sussurrando, porque era num sussurro que minha mãe cantava pra eu dormir, acalmava minha dor, me fazia morrer toda noite, para ir ver anjos. Desculpem, pois, se eu não conseguir dizer pra vocês o que é o Y... é que ele foi feito de outra matéria que não a nossa, foi feito daquilo que não existe... (sussurrando)... é um sonho.

Allan (Dr. Acerola)

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Era uma VeYz ...



Era uma vez 3 (tinha que ser três!), digamos... seres. Eu- Estudante de Medicina, Eu-Palhaço e Eu-Paciente. Eu-Estudante convivia muito bem com Eu-Palhaço. Penso até que eles estavam tão próximos que ás vezes era difícil saber onde terminava um e começava o outro.Contudo, nenhum dos dois sabia da existência do Eu-Paciente. Mas o destino é um Branco. Ele prega peças na gente e depois fica achando graça. Foi assim que esse palhaço, o qual eu vou chamar de Dr. DestYno juntou os três seres.
Eu- Estudante foi o primeiro a se manifestar. Obviamente que ele não gostou nada do Eu-paciente. “O seu lugar não é aqui”, dizia. Eu-paciente também não estava gostando da situação. Sentia-se só e com muito medo. Passava os dias chorando. Em um ponto concordava com Eu-estudante: o seu lugar não era ali.
A situação parecia que não ia melhorar até que Eu-Palhaço resolveu se manifestar. Ele fez companhia para o Eu-Paciente e o ajudou a superar os momentos ruins. Mostrou que o Eu-Paciente também tinha o direito de rir e de fazer piadas. Assim, Eu-estudante acabou mudando de opinião e passou a aceitar o Eu-paciente, que foi ficando cada vez melhor e recebeu a visita de Amigos-Estudantes e Amigos-Palhaços.
E o Dr. DestYno? Eu disse que ele é um Branco. Acabou vítima de suas próprias brincadeiras. Foi alvo de risos e piadas dos Augustos Eu-Palhaço, Eu-paciente e (por que não?) Eu-Estudante.



FYM




Eu agradeço ao Dr. DestYno por me permitir fazer parte desse projeto e por ter amYgos como vocês. Fazer e receber uma visita do Y... não tenho nem palavras pra descrever. Amo vc´s bando de Payaços!!!

;O*


Mel (Dra. Pinguinho)

domingo, 1 de abril de 2007

Especialista do abraço...




Ser palhaço (em Y)
http://video.google.com/videoplay?docid=-1326726222005965734

Maquiagem e balões
Suas graças, diversões
E assim vai o palhaço
Outra visita começar.

Quantas crianças pra falar
E brincadeiras pra brincar
Contar estórias, fazer teatro
E aliviar o cansaço.

E se um sorriso não brotar
E o palhaço desmoronar
Lembrar-se-á, em meio a lágrimas,
A missão deve continuar.

Transformar dor em sorriso
E beijos a lançar
E segue o palhaço
Especialista do abraço.
Outros corações a visitar.
(música perfeita composta pelo grande amigo Johann Vargas, especialmente pro Y! Nosso eterno Valeu Xou Xou!)

sábado, 31 de março de 2007

...há brinquedos que também fazem pipi.



O Dr. Acerola chegou e, como de costume, quiseram fazer dele suco. E ele assustado. E os promissores assassinos rindo.
O susto e o medo foram os sentimentos que mais nos travaram no começo de nossa atividade de palhaços no hospital. A imagem de eles fazerem suco de nós é bem o que pensávamos que poderia acontecer. Moer-nos de críticas. Liquidificar nossos ideais. Fazer um coquetel de indiferença. Trágico! Foi bem o contrário que aconteceu, ainda que a ameaça de pegar o Dr. Acerola para fazer dele suco tenha surgido e se perpetuado. Se nos leitos o jogo já não rola, dê uma olhada no corredor que estarão tentando pegar o palhaço para fazerem suco de acerola.
Engraçado como conquistamos nosso espaço lá dentro, as simpatias, o território. Os palhaços têm amigos entre os funcionários. É mais belo que isso! Os funcionários mais amigos dos palhaços são os mais humildes na escala hierárquica. É o moço do lixo, é a senhora da vassoura e do rodo, são os cozinheiros.
Dessa vez, tão logo ele chegou no início do corredor e lá no final um grito e um riso: "O Acerola!". Tão logo ele se aproximou da cozinha e já tinha uma das cozinheiras com seus braços armados para lhe dar um abraço. Outra lhe deu um susto e segurou sua gravata a fim de arrastá-lo para dentro do liquidificador.
As crianças já estavam a postos olhando sequiosas os palhaços se aproximarem. Depois de alguns mungangos e cumprimentos introdutórios, o Dr. Acerola acompanhou uma delas até a brinquedoteca. Ficou admirado, nunca tinha reparado nas possibilidades de jogo lá dentro. Dessa vez decidiu que brincaria mais ali. Uma menininha chega perguntando pelo Acerola. Ela o convida para ir ao balancê. Ele senta e ela o balança. Depois se inverte. O palhaço se empolga e sobe em cima do balanço, se pendura no teto, fica balançando por lá. Cai. A pequena, que já havia presenciado milhares de quedas do Acerola desde que se havia internado, pergunta:
- Falando sério, certo? Falando sério. Você sente dor quando cai?
- Não.
- Sério?
- É.
Um dos meninos filósofos que ouvia a conversa encontra o motivo:
- Ele é feito de borracha.
- Preciso lavar minha mão. - diz o Acerola mostrando a mão toda suja.
- Por aqui! - levando ele ao banheiro mais próximo.
- Preciso de sabão.
- Aqui. - vai em outro banheiro que naquele não tinha.
- Mas a torneira não funciona aqui.
- Então vem cá. - vai guiando o Acerola como se ele fosse o brinquedo falante dela.
Acerola lava as mãos com sabão. Não sabe onde enxugar. A pequena aponta pra um varal onde tinha uma roupa estendida. O palhaço não pensa duas vezes e enxuga lá mesmo. Enquanto ele enxuga, ela faz pipi do lado.
Quando foi a última vez que eu fiz pipi do lado de alguém? Foi quando criança, depois de ter andando muito de bicicleta com meu primo. Na beira de uma ponte. Foi numa noite, depois de a molecada ter jogado bola até a exaustão. Na beira de uma calçada. Foi numa tarde, depois de termos escalado todos os galhos possíveis de uma cajarana. Na beira do quintal.
O que essas cenas têm em comum? A inocência das crianças que até o pipi tornam uma atividade social. E os brinquedos que nunca vão criticá-las por estarem fazendo o que não devem. Faziam pipi ao lado da bicicleta, da bola, da cajarana. Por que não fazer pipi ao lado do Acerola?
Mas os brinquedos não curam a criança de uma doença. Mas quem é que a criança faz questão de levar para todos os cantos, para o pipi ou para o hospital? Deve haver alguma influência nessa vontade dessa presença, desse amigo.
Finda a atividade, passa-se lá pela cozinha para bater o ponto - um beijo de uma das cozinheiras, um copo de água de coco para sair no pipi mais tarde. Ora, há brinquedos que também fazem pipi.

Deus nos deu mãos para libertar borboletas...




Sobre as pequenas coisas.
Eu estava atravessando um dos corredores do hospital-escola, por onde passam várias vidas em construção ou em recuperação e vi uma vida estranha, debatendo-se nas janelas de vidro. Uma borboleta alaranjada com pingos pretos nas asas. Entrara no hospital por aqueles espaços que se confundem com a transparência dos vidros e não mais encontrou outro espaço que não fosse ilusão de saída. Ora, porque aquelas transparências passam a idéia de uma liberdade ilusória para a visão leiga. É mais belo o mundo sendo visto no meio de seu ar quente e úmido que nasce da terra mesmo, nua, do que apreciá-lo de dentro de uma estufa. Devia ser por isso que a borboleta se debatia. Ela queria o mundo que transcendia aquele corredor, aquele hospital todo. Queria mais que o hospital, porque ela não se desviava pro lado que não tivesse visão de céu. Pra dentro do hospital há escuro de prédio, ela queria aquele azul anil.
Eu passei e encontrei aquela luta. Admirei aquele enorme desejo flutuando inquieto por ali. Pensei em soltá-la. Tive medo e passei direto. Pensei, então, que a luta solitária dela a tornaria mais forte. Passei direto, mas fiquei olhando de soslaio como se aquela luta me ferisse, me convidasse para lutar com ela, por ela, me convocasse. Não, estaria impedindo de ela crescer vencendo aquelas ilusões em rumo da liberdade maior. Não adiantava só voar, aquele voar tinha de ter espaço, e carecia de estética, uma beleza que estava longe daquele corredor. Mas a dor a faria maior. E quando conquistasse o vôo sereno, seria ela mais feliz para além daquele cansado debater. O mérito deveria ser dela e dela só.
Ah! Maldito coração. Ele ficou pequeno. E disse que quanto mais eu andasse dali pra longe, quanto mais eu adquirisse o espaço que aquele pequeno ser pelejava adquirir, quanto mais eu o fizesse só, menos ele me seguiria, meu coração iria me abandonar. Iria ficar pequeno em cada passo avante até desaparecer.
Já estava virando a esquina e parei. Olhei pra trás. Diz um provérbio antigo para nunca fazer isso - deve ser por isso que ele é antigo. Fui até a pequenina e ela começou a bater mais forte. Não queria minha mão amiga. Quantas mãos já não a prenderam! Quantas outras não a mataram! Mas a mão que está dentro do hospital só quer devolver vida - me apercebi dessa verdade. Deve devolver vida. Deve querer constantemente isso.
- Para que Deus nos deu mãos?
- Para libertar borboletas.
Eis minha primeira paciente desses últimos quatro anos. Minha do começo ao fim. Desde a aceitação em tratá-la até a glória de vê-la livre. Tudo bem que ela não requisitou consulta, nem agendada estava. Mas aquelas asas intranqüilas poderiam caracterizar um pedido. Poderíamos colocar na categoria de Demanda Espontânea Inconsciente ou Instintiva.
Ela nem me agradeceu também. A não ser que quisessem me dizer alguma coisa aquelas curvas que se delinearam no ar lá de fora.
É... Pelo menos tenho meu coração comigo.