segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Sobre o meu primeiro curso de Clown - Dia 4

Foi o dia mais away, pra mim.
Trabalharam figurinos. Pediram pra levar os nossos. E o nariz.
Ando meio bolado com a Roupa do Caju. Pensei em levar a do Brás, que é o palhaço pra rua, mas não tava comigo. Acabei levando a do Caju. Mesmo insatisfeito.

Falaram sobre o figurino. Sobre valorizar as coisas do nosso próprio corpo e tal. Sobre a mensagem que a gente quer passar. Eu nem sei mais a mensagem que quero passar com a roupa do Caju. No início era pra ser uma coisa meio Infantil. Mas já não penso no Caju como criança. Ele tem no mínimo, algo muito perto de 20 anos. Às vezes a blusa do homem aranha e as meias coloridas fazem eu me sentir meio idiota. Enfim

Deram umas dicas de maquiagem. Eu tava muito perdido. Muito distante. Dificuldade de ficar alí, na hora. Vi a maquiagem da galera. Tive umas ideias legais pra tentar depois. Também fiquei pensando numa roupa diferente. Mas ainda to com o problema da mensagem.

Pra preencher o dia 4, vou escrever coisas que conversamos nos dias anteriores e esqueci de citar.

A Catharina mudou um pouco a minha visão de palhaço. Enquanto a gente discutia ela falou, em alguma lingua que não era português e, pelo visto, nem espanhol, que "o forte do palhaço é o medo". a galera ficou meio confusa com a lingua, e tentou traduzir a palavra que ela usou pra "medo" como "ridículo", "feio" ou essas coisas que eu já ouvia muito, quando falava de palhaço. Ela repetiu mil vezes até todo mundo entender. Não é ridículo. É medo! Parece absurdamente diferente. Mas nem é. O ridículo é só um dos medos. A magia de substituir Medo por Ridículo é que o medo é bem mais abrangente. Medo de gente. Medo de criança. Medo de escuro. Medo de faca. Medo de ficar sozinho. Medo de ficar parado... Medo é um sentimento muito forte. E de uma identificação imediata muito mais forte que o ridículo. Foi um mind blow na hora. Foi irado.

"público!"e "stop" também foram coisas que trabalharam muito com a gente. A potência do olhar e da parada. O efeito cômico disso. Intensidade e velocidade. Coisas que eu já tinha visto muito, com o Allan e com os jogos, mas que a gente acaba esquecendo. No curso a gente viu muito o efeito prático disso. Como só essas duas direções podem transformar lixo em ouro.

A Catharina também falou dos cinco P's do palhaço. Vou registrar aqui:
Poder- Porquê tudo o que você for fazer você tem que fazer com vontade. Com vigor.
Postura- Sobre se portar e lembrar que a imagem corporal transmite muito.
Projeção- Porquê você tem que encaminhas a mensagem pro público, sempre. Projetar a mensagem.
Precisão - Sobre os movimentos serem todos fechados. Nada pela metade. Corte uma nuvem com a precisão que um espadachim cortaria alguém ao meio.
Prazer- Porquê né...?

Mayko - Caju 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Sobre o meu primeiro curso de Clown - Dia 3

Outra retratação:
Preciso dizer que eu ia escrever sobre todos os meus dias em um post só. Claro, a possibilidade desse post ficar imensamente grande ou de eu ser extremamente superficial sobre a minha experiência é real. Mas, na minha cabeça fazia mais sentido não encher o blogguy com cinco posts sobre um curso que eu fiz e tal. Mas enfim. Acabou que um tirano gentil me coagiu, com todo o seu charme déspota, a fazer isso. E eis o terceiro dia.

A gente tinha que levar um objeto. Qualquer um. Levei as maracas. Acordei tarde pra caralho e não tive tempo pra pensar em algo melhor. Fui de maraca.

Tava cansado. Dolorido. Meio down com umas coisas da vida. E, com certeza, os Yoga locão da mulher lá, no chão de madeira dura do teatro, com a perna toda lascada não ajudou muito a melhorar meu humor de cara que acordou a força.

Eu só conseguia pensar que eu realmente deveria ter ficado dormindo. Que meu aproveitamento ia ser nulo.
Mentira. Eu também conseguia pensar que tava com muita fome. E que eu devia ter tomado café antes de ir. Ou tomado café e voltado a dormir. Enfim.

Cheguei lá. Fizemo os Yoga locão. Meus joelhos já estavam prestes a conhecer a Terra Prometida. Quando finalmente acabou fizemos roda. Achei que íamos fazer os jogos de atenção de novo. Já tava meio puto. Mas acho que os facilitadores perceberam o clima meio ruim, em todo mundo. Parece que galera tinha ido pros Pré-Carnaval e tava meio de ressaca. Em vez de fazer os exercícios eles colocaram música. E começaram a dançar.

Nietzsche sabia o que dizia quando falava bem da dança e da música. Eis algo que pode melhorar o humor de um homem. E o pessoal do teatro é muito foda. Meu deus. Eu tava totalmente fora do clima quando cheguei, mas as coisas funcionam tão espontaneamente que pouco depois eu tava lá no meio ensaiando uns passos de dança maroto que eu tinha visto um cara fazer, nos dia aí. Enfim, foi bom :')

O dia foi meio cheio. Falamos bastante sobre improviso e sobre o potencial de ação do clown. Teve bastante conversa e, em um momento, mandaram a gente pra rua com a missão de achar pessoas e coisas que provocassem riso. Eu tava meio wtf. Achei que a gente ia conversar sobre o que causava humor no final. E que isso não era uma boa forma de gastar uma hora de oficina. E eu ainda tava cansado com fome e sono demais pra sair 10am no centro de fortaleza sobre o carinhoso sol do Ceará. Mas fomos. Aliás, o Mercado Central é amor.

Voltamos e eu me surpreendi. "Vocês tem cinco minutos pra fazer uma associação das coisas que vocês viram. Eu quero que, um por vez, subam no palco e façam uma cena curta com o que vocês viram". (Coloque isso num portunhol [ou sei lá que língua se fala no Peru] pra ficar mais verídico)

Acho que a maior lição do dia foi sobre descontração e improviso, mesmo. E sobre como truques de palco simples podem transformar lixo em algo espetacular. Em geral, tínhamos coisas que, na rua, seriam muito engraçadas de encontrar mas que, no palco, sem a despretensiosidade do acaso, não funcionavam bem. Com a direção simples dos facilitadores, em especial a Catharina, essas coisas se tornaram sensacionais. Me peguei gargalhando de rir de algo que, segundos atrás me fazia pensar "ér... quase engraçado...".

Voltei pra casa morto. Meus músculos doiam. Eu tava morrendo de fome. E era um péssimo dia pra andar a pé. Mas foi bom. Fiquei feliz por ter ido. Ri bastante e acho que foi o dia em que mais aprendi, na prática.

Meu joelho vai passar o fim de semana inchado :)

Mayko - Caju

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Sobre meu primeiro curso de Clown - Dia 2

Preciso começar com uma retificação:
Não é exatamente o meu primeiro curso de clown. Quando entrei no Y teve a capacitação com o Allan e tal. Mas é que parece o meu primeiro curso de clown. Com o Allan era confortável e tal... Era pro Y... Eu já conhecia todo mundo... Eu já tinha ideia de onde eu tava me metendo... Sei lá. Parece diferente na minha cabeça. Aqui dentro faz sentido.
(Allan, tua capacitação é perfeita, ta :D )

Segundo dia. Eu tava mais ansioso. Mas mais solto.
Chegamos e a mulher do Peruano botou a gente pra fazer uns Yoga locão e uns aquecimentos bem...punks. Foi massa ver todo mundo fazendo tudo direitinho e eu sem conseguir nem colocar a mão na canela :')
Me senti um velho de 80 anos. Mas deu certo. Por sorte tinha um conhecido mais gordinho que tava com dificuldade também e a gente se apoiou (não literalmente. Porquê não podia.)
´
É difícil falar sobre tudo o que aconteceu. Dessa vez as dinâmicas eram mais individuais. Tive que nascer e morrer em cena, sozinho, lá na frente, no meio de toda aquela galera super foda. Mas deu certo. Até fiz a galera rir (que não era o principal, mas foi bom). Inclusive, ganhei uma ferida sucesso no joelho, na empolgação desse nascimento e morte. Mas foi massa.

Também tivemos que criar cenas com objetos. A gente não sabia que objeto seria até virar de costas e dar de cara com ele. O objeto tinha que ter uma outra função, diferente da dele. Apesar de achar que eu tinha prática com isso, no hospital, foi difícil lá na frente. De novo os facilitadores deram show de direção. No fim, mesmo com muita experiência, improvisar pode deixar qualquer um meio perdido. Mas eu ainda sentia um abismo entre mim e meus colegas. O que não era ruim. Ver eles em cena era um aprendizado enorme. Toda vez.

 A experiência de palco, de ter todo mundo olhando e esperando algo de mim me empolgou muito. Muito. Muito mesmo. Sei que a vibe é parecida, no hospital, mas o teatro tem uma coisa... não sei explicar. Estar no palco é bom. É um frio na barriga diferente do da visita. Eu me senti muito, muito bem. E empolgado.

Teve mais coisa, também. Treinamos atenção e comunicação de novo. O Tcholo (sim, o nome do facilitador é Tcholo. Ou pelo menos é assim que se fala) fala muito sobre o estado de alerta que a gente tem que manter. Ele preza bastante isso. Ele e o outro orientador fizeram umas demonstrações no palco que fizeram eu pensar que queria ser como eles, quando crescesse. Algo no teatro me encanta muito. Mas, voltando, fizemos uns jogos com cabos de vassoura e testamos confiança no outro e agilidade também. Mental a física.

A parte mais sensacional, até então, era perceber na prática como tudo o que eles diziam era extremamente cômico. O curso é muito prático. Além disso, conviver com uma turma super experiente, que já tem prática na rua, deixa tudo mais interessante. Eu aprendo tanto fazendo como vendo eles fazerem. É um ambiente que fervilha de ideias sensacionais todo o tempo. E você se diverte, ao mesmo tempo. É estranho explicar. Mas já vivenciei isso uma vez e tava vivendo de novo. Os laços quando você ta nessas coisas de teatro e oficina são muito bugados. Você conhece a pessoa a um dia e ela te abraça como se vocês fossem melhores amigos. Enfim, perdi o foco.

Tive a oportunidade de ver a ação dos facilitadores como diretores, também. Fiquei "puta que pariu, que foda!". Eles conheciam a gente à dois dias e já conseguiram ver pontos fortes e fracos de cada um e trabalhar com isso. Fizeram alguns jogos individuais pra trabalhar isso. Me senti vulnerável...de um jeito bom! É engraçado perceber como às vezes, fazer o outro rir é uma defesa. Ficar sério é difícil... especialmente quando te fazem sentar em cima de um balão, esperando ele estourar (e o balão é incrivelmente elástico!). Mas também é foda ver que eles estão certos e como a "cara de mierda", como diz a Catherina, produz efeitos cômicos.

Nem tudo é engraçado. Mas tudo é potencialmente engraçado.

Voltei pra casa morto de cansado de novo. Mas mais empolgado. Senti que aprendi mais. Tava doido pra visitar e colocar as coisas em prática. E ganhei umas marcas na perna e uma ferida no joelho sucesso :)

Mayko - Caju

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Sobre o meu primeiro curso de Clown - Dia 1

Tatuagens, piercings, alargadores, calças de pano, dreads e cabelos coloridos.
Não que eu não seja habituado a tudo isso. Mas confesso que a primeira impressão que eu tive, quando cheguei no teatro e vi as pessoas que fariam o curso junto comigo, me senti um estudante de matemática almoçando no RU do Benfica.
Um dos meus colegas tinha, na mochila, GARRAFAS DE MALABARES! Garrafas de malabares e era oito horas da manhã!!! Quem tem garrafas de malabares na mochila às 8 horas da manhã????

Eu ri. Riso de nervosismo. Eu tava ansioso pra caramba um dia antes. Eu tava ansioso pra caramba no caminho. Mas quando cheguei lá e vi a galera eu ri. Riso de pânico. Mas eu tava bastante excitado também. Pernas inquietas.

8am:Teatro fechado.
8:30am. Teatro fechado.
9am: Teatro fechado.
Por deus quem diabos carregou essa chave? Tava doido pra começar logo. Doido pra conhecer melhor todo mundo. Mas, na espera, vi um rosto conhecido. Um amigo da ONG Risonhos que também ia fazer o curso. Fiquei feliz.
9:15 mais ou menos o ladrão de chave chegou. Finalmente. Abriu. Entramos.

"Provavelmente a gente vai ter que subir no palco e apresentar alguma coisa" ele disse.
Riso de pânico de novo.

Todo mundo sobe no palco (alívio). Rodinha. Todo mundo se apresenta.
"Eu sou maria e sou atriz..."
"Eu sou joão, faço parte da compania tal a tantos anos..."
"Eu sou pedro, faço Teatro..."
"Eu sou Lúcia e sou dançarina e cantora e..."

"Ér... eu sou Mayko... e eu gosto de teatro...e..."
Riso de pânico.

Mas ficou bem mais fácil do que eu pensei. Treinamos comunicação, projeção de voz, jogos em dupla e timing. Principalmente timing. O tempo era meio corrido pra tudo, principalmente por termos perdido tanto tempo se apresentando, mas a galera era muito boa. Muito boa. E eu me senti confortável bem rápido. Música tocando tempo todo. Enquanto um jogo rolava, todo mundo dançava na roda, assistindo.
Era confortável. Eu até esqueci que tava cabulando um compromisso mega sério para poder estar alí. Eu até esqueci que tava mal pra caralho no dia anterior. Foi bom.

Voltei pra casa morto de cansado. Mil ideias na cabeça. Mil vontades de fazer as coisas com o Y. Mil vontades de falar pra todo mundo como era engraçado seguir as instruções difíceis de entender do Peruano com nome engraçado. Mil vontades de contar pra todo mundo as coisas que eu já tinha aprendido e...

Dormi a tarde toda.

Mayko - Caju

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Sobre reencontros com o palhaço - sem nariz, missas tediosas e santas protetoras dos olhos

Dia 13. Missa de Santa Luzia, padroeira da igreja da jijoca e Santa protetora dos olhos. Os meus olhos, entediados pela repetição monótona de todos aqueles rituais que eu decorei e executei nos meus dias de coroinha, procuravam alguma coisa pra me distrair naquela cerimônia pra qual eu tinha sido arrastado de modo vil e opressor.
Iai, uns três lugares a frente, nos bancos laterais, eu encontro os olhos de um menino que olhava pra mim. Talvez ele só tivesse entediado (afinal,missas comemorativas tendem a demorar muito e até crianças sabem disso) ou talvez ele só tivesse olhando pro cara estranho de rabo de cavalo e óculos redondos. Mas uma mágica de esconder a moeda acabou abrindo as portas pra uns jogos muito doidos que ocuparam- silenciosamente pq as gente não queria ofender a deus- a tediosa missa de nós dois.
Mas doido mesmo foi quando eu percebi uns outros olhinhos olhando pra mim e pra ele enquanto a gente brincava. E umas caras de "quero brincar tambem". Particularmente acho a missa demasiado chata pra crianças, e, se eu fui o anti Cristo mirim ou não hoje a noite, o certo é que olhar pra mim que procurava, da ponta do nariz a sola do sapato, pelo 'alguma-coisa' que o meu primeiro amigo apontava com alarde e urgência, e que provavelmente ia drenar toda a minha vida em instantes, pareceu entreter elas também.
No fim meio que virou um jogo do siso a distância porque a mãe de duas delas brigaram comigo, alegando que eu não devia fazer caretas na missa (MAS EU TAVA SÓ TENTANDO ACHAR A COISA NO MEU NARIZ!). Perdi feio pq eu não conseguia encarar eles sem morrer de dar risada de verdade, pq um deles tinha um jeito muito familiar de entortar a boca e qnts usava uma camisa xadrez colorida de panos passados muito...peculiar.
Até que o Padre interrompeu o sermão que falava algo sobre a Santa Luzia ser levada pra prostibulos com um sonoro "shiu" e as 6 mães (inclusive a minha) botaram suas crianças de castigo. Daí todo mundo volta a prestar atenção na história da santa protetora dos olhos. Ou nem tanto.
O irado é que mesmo depois de tanto tempo sem visitar a missa de hoje foi, de novo, um contato com o meu eu - palhaço. E, de novo, uma oportunidade pra ver que não é só o nariz vermelho que identifica o palhaço. Talvez seja o rabo de cavalo ou a blusa xadrez de pano passado que o meu colega usava. Seja como for, é certo que as crianças conseguem identificar palhaços, mesmo no silêncio de uma missa. mesmo sem narizes.
Talvez fosse o tédio. Talvez fosse as imposições ritualisticas. Talvez deus me atendendo depois de tanto eu rezar pra todos os santos por algo pra me distrair. Seja como for, foi muito bom.
É irado ver o Y no cotidiano. É irado ver o que eu achava ser o poder do nariz, mesmo sem nariz. É irado ver como isso me transforma, na prática (mesmo que me transforme numa má influência pra crianças católicas de jijoca e um inimigo natural das mães beatas e de santas protetoras de olhos). É irado. Mesmo.
E agora boa noite. E amém.

14.12.2014

Mayko - Caju

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sonhando



Rápido, preciso escrever enquanto lembro. 

Estou mergulhando em falas de membros antigos e novos buscando encontrar o nosso espírito. Entrevisto, gravo, escuto, transcrevo, me misturo, me perco. Sonhei. 

Sonhei que estávamos participando de uma reunião grave junto aos profissionais da Pediatria em que trabalhamos. Os profissionais estavam furiosos conosco. Descobriram que ganhávamos bolsas para exercer nosso ofício de palhaços visitadores de hospital. Que a bolsa não era irrisória pois eram pelo menos quatro integrantes que a recebiam. A Camila, quase fantasiada com sua palhaça, como se a dizer a que círculo ela pertencia, tentava docemente ponderar que as bolsas eram insuficientes para suprir a carência de recursos da Pediatria. Eram o que eles queriam. Reivindicavam que doássemos tudo. Que os cetoprofenos faltavam enquanto os palhaços brincavam. Nossa Camila e mais alguém, não era a Angélica (era a Laís?! mas a Laís ficava mais calada, Camila tomava a frente total da defesa), nossa Camila fazia os cálculos em uma lousa verde com giz branco à mão. A divisão de todo o dinheiro para todos os recursos humanos do projeto não findava por dar um centavo para cada um. Eles não queriam saber, estavam indignados. Se tão pouco sobrava na divisão, que tudo fosse entregue para o setor, seria de melhor valia. Havia um professor lá. Era o Dr. Álvaro. Ele queria defender-nos, mas Camila o impedia, achava aquele momento de discussão muito importante. Que as vozes não podiam ser caladas pela autoridade médica. Mas, as pessoas estavam alvoroçadas, chegavam a ter raiva de nossa insistência imbecil de se desapegar de um centavo. 


***

Camila já não tinha forças contra a insistência. Calou-se cansada. Correu como quem foge. Laís sai em seu socorro. Dr. Álvaro começa a chamar a atenção de todos do setor. Falam sobre o que significa a bolsa para os estudantes, sobre as necessidades do projeto, sobre a importância de investir em palhaços e não só em cetoprofenos. 


***

Alguém nota minha presença, de repente. Estou ali no canto, chorando. Quando começam a notar o meu choro, choro convulsivamente. É que estava me doendo sobremaneira aquela rixa, aquela desconsideração, aquele clamor por dinheiro, quando o que existia entre os palhaços era, independente de qualquer bolsa, a gratuidade de toda essa ação generosa que fazia com que profissionais de saúde em formação se dedicassem, muitas vezes de forma sacrificial, para as crianças doentes. Uma das presentes me reconhece. 

- É o Dr. Allan. É o Acerola. Ele já é doutor mas não pára de estar por aqui, entre os Y.

Choro ainda mais. Penso na mansuetude da Camila tentando explicar sobre a graça de toda nossa ação e não conseguindo vencer a cupidez do um centavo. Dr. Álvaro entendia meu choro. 


***

Não estávamos no prédio do Hospital Universitário. Era parecido com os esconderijo dos meninos perdidos da Terra do Nunca. Nenhum deles estava lá, muito menos Peter Pan...

Acordei. 

domingo, 2 de novembro de 2014

Nove anynhos



Fui dar uma palestra ontem sobre Política de Humanização. Encontrei uma pessoa muito querida que foi meu parceiro de palco. A fala dele o define bem: "Sou marxista. Não sou dos pós-críticos, para quem entende o que é isso. Sou marxista." E ele era extremamente engajado com o movimento estudantil, membro ativo de um partido político de esquerda, barbudo...

O movimento estudantil e Marx sempre me foram muito assustadores. Porque passam uma obrigação moral de que devemos ser engajados na transformação do mundo, se valendo de todos os argumentos ácidos que devem ferir nossa atual civilização até que, implodida, uma outra renasça, mais justa. Era o sentimento que eu tinha, pelo menos. 

Mas, o Y me conquistou de forma sorrateira, "ele não me trouxe nada, também nada perguntou", e, nas suas bobas pretensões, me mostrou o quanto se pode mudar o mundo sem querer destruir o que já está aí. Pelo contrário, o quanto se pode mudar o mundo revelando o muito mais que o mundo que existe nesse mundo. As realidades escondidas: os braços que se abrem, os dentes por trás dos lábios, as lógicas pervertidas, os significados velados, as crianças internadas, as crianças externadas, o doutor enarigado, o palhaço enjalecado, as tintas da pele, as peles de tinta, a família, o amor (a mais boba de todas as coisas), vocês (os mais bobos). 

Meus últimos meses foram percorrendo o que escrevemos nos últimos anos. Os últimos anos foram extremamente preciosos, quero que saibam. 

Os últimos anos foram extremamente preciosos e o mundo é o mesmo, e vocês já existiam nele. Os últimos anos foram extremamente preciosos e o mundo não é mais o mesmo, por causa de cada um de vocês. Parabéns, querydos!

Allan Denyzard 
(Dr. Acerola)